Os diversos perfis da escolha humana

17 novembro, 2021

A escolha é, entre as ações que constituem o nosso lado humano, a que mais desafios nos apresenta. Logo nos vemos na impossibilidade de escolher tudo o que vem pela frente. Queremos acumular tantas coisas, tantos caminhos, tantas amizades. Mas temos um limite em nossas escolhas. Aprendemos que é preciso escolher e renunciar. Até repetimos o dito de cada escolha, uma renúncia.

Queremos escolher sem nada abdicar e nos locupletamos até a explosão de nosso ser. O mundo nos apresenta essa via de acumulação ad infinitum até nosso aniquilamento. A escolha absoluta, sem limites, nos aniquila para sempre. É pecaminosa. Quando Adão e Eva estavam no Éden, Deus lhes deixou tantas coisas, tantos frutos, tantos bens, mas lhes pediu uma renúncia. Era um interdito. Não poderiam comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.

A descrição presente no Livro do Gênesis é emblemática. Aquele casal poderia comer livremente de todas as árvores, mas ali mesmo havia a necessidade de uma renúncia. Era uma encruzilhada. Ou uma armadilha? Tanto faz. A escolha sempre se situa numa encruzilhada, pode ser entre diversas opções de vida, ou de coisas. Nunca esqueço quando meu filho mais velho, ao se preparar para o vestibular me dizia que poderia fazer diversos cursos, mas havia alguns que ele definitivamente não poderia escolher por não se sentir bem.

No final do mês de novembro, nossos jovens estarão realizando a prova do Enem. Trata-se de uma grande escolha para a vida deles. Penso que nesse momento da vida ainda é muito cedo para se exigir deles uma definição da carreira, com escolhas que nem sempre podem ser desfeitas ou refeitas. Eles são obrigados a escolher. Isso é cruel.

Assim todos nós vamos fazendo escolhas de vida profissional, escolha de vocação, etc. Não dá para escolher duas carreiras ou dois amores. Não há como escolher um caminho e seguir junto com outro, em direções até antagônicas.

Para muitas pessoas há um horizonte enorme de possibilidades de escolha, mas para a grande maioria da população brasileira são poucas as possibilidades e, tantas vezes, nem escolha essas pessoas têm diante de si. Os pobres de nossa sociedade não têm escolha, a não ser lutar para sobreviver.

Então aparece o que menos queremos, a renúncia, que para alguns é apenas a necessidade de limitar a questão escolhida, mas para outros trata-se de uma renúncia compulsória, excludente. Para uns a necessidade de tomar consciência de que o nosso desejo jamais será absoluto, mesmo querendo chegar ao ponto mais elevado.

Mesmo querendo chegar ao ponto mais elevado, não haverá nenhuma escada que nos leve a esse lugar acima de todos com tudo o que desejamos. A escada poderá se rebentar e nos lançar ao chão. A escolha absolutizada que incorpora tudo é o lugar da confusão, da queda, da ausência de comunicação entre nós mesmos. Trilha-se assim uma verdadeira “torre de Babel”.

Para aquelas pessoas que são a maioria entre nós, em que a escolha é apenas o processo de exclusão imposto por outros homens, resta apenas a luta permanente, diária. Trata-se de uma luta pelo direito de escolher em vida, e não entre a vida e a morte.

Chega-se assim ao desfecho final. Entre os diversos caminhos, diversas línguas que implodem a comunicação e aniquilam qualquer escolha, diversos desejos recalcados ou não; a única coisa que nos mantém vivos é a necessidade de escolher, ou a possibilidade de escolher, o direito de seguir um determinado caminho, uma carreira, uma profissão.

Para muitos se requer humildade para renunciar, para outros é preciso a luta para não morrer. Que todos os nossos jovens que farão a prova do Enem possam realizar suas escolhas e que elas sejam sempre na direção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e solidária.

Por fim, cabe ainda fazer referência à catequese do Papa Francisco que trata da escolha na Igreja, ou da Igreja. Ele nos diz: “Que a Igreja aprenda a escolher unicamente o que mais agrada a Deus, que é perdoar os seus filhos, ter misericórdia deles a fim de que, por sua vez, também eles possam perdoar os irmãos, resplandecendo como tochas da misericórdia de Deus no mundo”. Parece mesmo que outra possibilidade de escolha não há, conforme se vê na pregação de Jesus Cristo. Por isso, a grande luta de Francisco por uma Igreja não autorreferente e em saída missionária.

Edebrande Cavalieri

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