Na Audiência Geral, ocorrida no dia 04 de fevereiro deste ano, o Papa Leão XIV abordou um dos temas mais desafiadores dos tempos atuais: o fundamentalismo bíblico. Na verdade, a humanidade, em sua experiência religiosa, está diante de três fundamentalismos na atualidade: o islâmico, o judaico e o cristão. O que constitui em sua essência o fundamentalismo?
O Papa nos diz que “Deus fala através da Bíblia, mas devemos interpretá-la sem fundamentalismos”. Deus continua a falar aos homens e mulheres de todos os tempos por meio da Bíblia, porém essa Palavra divina se exprime em linguagem humana e deve ser acolhida e interpretada sem reducionismos, explica o Papa.
Na religião islâmica, a pregação fundamentalista convoca seus adeptos para uma volta às origens religiosas e uma reforma dos costumes e da sociedade conforme às leis do seu livro sagrado, o Corão. O fundamentalismo islâmico prega um recurso à violência para atingir esses fins formando um fundamentalismo muito radical e violento. Ao mesmo tempo, esse movimento rompe as fronteiras nacionais e passa a atuar num contexto internacional.
O fundamentalismo judaico não tem tanto apego à forma de fidelidade literal ao texto sagrado. A interpretação rabínica da Torá sempre foi bem livre. A questão se situa na ultraortodoxia que considera a lei de Deus com valor absoluto, aplicada à vida privada e pública. Essa tendência fundamentalista aplica a lei de Deus na procriação, na educação dos filhos reduzida apenas à educação religiosa e isolamento social. São proibidos os contatos com pessoas alheias à própria comunidade, numa espécie de autossegregação.
O fundamentalismo cristão, em sua vertente católica, conhecida como “integrismo”, remonta ao século XIX em suas posturas antiliberais e antimodernistas tendo como base de apoio o magistério do Papa Pio IX presente na Bula “Syllabus”. Porém, foi através do protestantismo norte-americano que o fundamentalismo cristão cresceu e se espalhou pelo mundo.
No início do século XX, 64 autores, representando a maioria das denominações protestantes, publicaram uma obra conhecida como “The Fundamentals”, sob a forma de 90 ensaios reunidos em 12 volumes. No prefácio, os editores apresentam como “uma nova declaração dos fundamentos do cristianismo”. Esses livros foram enviados para mais de três milhões de pessoas como ministros, missionários, pastores, professores de teologia e lideranças religiosas.
Nessa obra, seus autores defendem as doutrinas protestantes clássicas, atacam a Igreja Católica Romana, a teologia liberal, o socialismo, o modernismo, o ateísmo, a Ciência cristã, os Mórmons, e outras denominações religiosas, o espiritualismo e a teoria da evolução. Com o surgimento do comunismo, também esse foi e é objeto de condenação, formando uma espécie de cruzada evangélica contra o mal.
Do ponto de vista político, esse fundamentalismo cristão de cunho evangélico defende um patriotismo messiânico pondo a América como a nação eleita. Nessa perspectiva, foi criada em 1935 a chamada Direita Cristã que se transformou numa força irresistível de cunho eleitoral. Esse fundamentalismo está se espalhando pelo mundo à fora, numa espécie de messianismo político-religioso.
A preocupação do Papa Leão XIV se insere nesse contexto de proliferação das tendências fundamentalistas que ultrapassam o espaço religioso e descamba para a luta política numa espécie de cruzada religiosa. Contudo, suas catequeses visam educar o povo católico para uma escuta atenta da Palavra de Deus, buscando interpretá-la nos diversos contextos humanos em que foram produzidas ou ditas, pois Deus se serve da linguagem humana para se comunicar como foi feito na encarnação do Verbo em Jesus Cristo.
E faz um alerta: “abandonar o estudo das palavras humanas usadas por Deus corre o risco de resultar em leituras fundamentalistas ou espiritualistas da Escritura que traem o seu significado. Este princípio também se aplica ao anúncio da Palavra de Deus: se perde o contato com a realidade, com as esperanças e os sofrimentos da humanidade, se utiliza uma linguagem incompreensível, incomunicativa ou anacrônica, é ineficaz. Em cada época, a Igreja é chamada a reapresentar a Palavra de Deus com uma linguagem capaz de se encarnar na história e de chegar aos corações”.
Ele conclui esta catequese recorrendo a Santo Agostinho dizendo que quem compreende as Escrituras é capaz de edificar a dupla caridade, com Deus e para com o próximo. Em tempos de Campanha da Fraternidade, essa mensagem deve tocar o coração de todos nós na Quaresma que está chegando.
Edebrande Cavalieri

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