PACEM IN TERRIS OU A GUERRA QUE PÕE TUDO A PERDER

16 março, 2022

Nesses tempos marcados pela guerra, os católicos necessitam retomar os ensinamentos do Magistério da Igreja a respeito do uso da força e da violência através de armas para estabelecer novos arranjos nacionais. Diante de uma perfeita ordem universal criada por Deus os homens avançam no caminho da desordem entre indivíduos e povos, acreditando que somente o uso da força seria capaz de conter a violência.

Hoje queremos apresentar alguns elementos do Magistério vindo do Papa João XXIII publicado sob a forma de Encíclica em abril de 1963, após a crise decorrente da instalação de mísseis nucleares pela União Soviética em Cuba em outubro do ano anterior, que quase levou a humanidade à Terceira Guerra Mundial. Foi o momento mais tenso da chamada Guerra Fria. Cinco meses depois o Papa João XXIII publicava a Encíclica Pacem in Terris: “A paz na terra, anseio de todos os homens de todos os tempos não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus”. Assim se inicia o ensinamento. Em oposição estão as forças e os elementos irracionais conduzidos pelos governantes, promovendo uma desordem mundial e a ordem instituída pelo Criador, pondo em risco a sobrevivência da vida.

A convivência universal entre os homens parte de um princípio universal e fundamental de que cada ser humano é uma pessoa. A dignidade da pessoa humana é elevada ao patamar superior de referência nas relações internacionais. Todos os homens são, então, sujeitos de direitos. Não deveria haver nenhuma diferença entre os homens nesse quesito.

Três fenômenos são marcantes nos tempos atuais. Em primeiro lugar temos a ascensão dos trabalhadores na reivindicação de seus direitos superando o estágio da vida de escravos. Em segundo lugar temos o ingresso das mulheres na vida pública e todos os seus direitos como pessoa humana. E por fim, praticamente não temos mais nenhum país que submete outro povo para colonizá-lo. Segundo a Encíclica, é de se esperar que jamais existirão povos dominadores e povos dominados, levando a sociedade humana para um padrão social e político completamente novo. “Hoje comunidade nenhuma de nenhuma raça quer estar sujeita ao domínio de outrem”. Sessenta anos depois, o que estamos vendo no mundo?

Então as sociedades, guiadas pela diretriz da verdade, estabelecem novas formas de relações de convivência em termos de direito e dever, abrindo-se ao mundo dos valores culturais e espirituais da verdade, da justiça, da caridade, da liberdade. Nesse sentido, ganham força todas as lutas étnicas de cada povo que devem ser consideradas como elementos do bem comum. Este “consiste no conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana” (n. 58). O que se pode ver na humanidade do século XXI? O crescimento da distância entre nações ricas e nações pobres e o desejo de dominação de uns sobre os outros.

Há sessenta anos atrás o Magistério da Igreja convocava a humanidade para um movimento de desarmamento (109), pois constatava naquela época como estados desenvolvidos investiam vultosas fortunas para a fabricação de armamentos gigantescos, impondo sacrifícios aos cidadãos. Vemos um processo crescente de fabricação de armas de todos os tipos, para armar não apenas a população, mas para fortalecer grandes exércitos. Trata-se do comércio que mais investimento possui em cada orçamento nacional.

A corrida ao armamento tanto pessoal como nacional nos estados em geral reflete uma espécie de psicose do medo. O resultado é que os povos vivem em terror permanente. A Encíclica alerta que essa corrida armamentista com as mais diversas experiências de armas bélica pode pôr em grave perigo boa parte da vida sobre a terra (n. 111). Há sim o risco de essa corrida encaminhar-se para um conflito atômico. A corrida armamentista de uma nação implica automaticamente a corrida armamentista de tantas outras nações. Então a guerra pode ser o caminho irremediável da história atual. Ela continua a ser um pesadelo para a humanidade, para a vida na terra. Esse pesadelo pode irromper a qualquer momento em qualquer lugar do planeta como uma força inimaginável e esmagadora.

A justiça, a reta razão e o sentido da dignidade humana de maneira radical exigem que se pare com a corrida ao poderio militar, que se reduza o material de guerra espalhado pelo mundo afora. João XXIII lembra o que dizia o Papa Pio XII: “A todo custo se deverá evitar que pela terceira vez desabe sobre a humanidade a desgraça de uma guerra mundial, com suas imensas catástrofes econômicas e sociais e com as suas muitas depravações e perturbações morais”.

A Encíclica Pacem in Terris defende uma posição super radical em relação à produção de armas. Defende um “desarmamento integral”, que atinja o próprio espírito, para que todos trabalhem em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose do medo de uma possível guerra”. E lembra mais uma vez o ensinamento de Pio XII que dizia: “Nada se perde com a paz, mas tudo pode ser perdido com a guerra”.

Por isso, o caminho mais seguro para a convivência entre os homens deverá ser feito através de encontros e negociações, que permitam conhecer melhor os laços comuns da natureza que une a todos, de modo a fazer prevalecer não o temor, mas o amor, um amor que antes de tudo leve os homens a uma colaboração leal, multiforme, portadoras de inúmeros bens (n. 128).

Para concluir, a Encíclica indica claras orientações pastorais para as Igrejas particulares, exortando a todos os filhos para participarem ativamente da vida pública e contribuírem para a obtenção do bem comum de todo o gênero humano. E convoca os cristãos católicos para se inserirem nas suas instituições e trabalhá-las eficientemente por dentro, com competência técnica e conhecimento científico. Isso somente terá eficácia na medida em que sejam fundadas na verdade, baseadas na justiça, corroboradas no mútuo amor e realizadas na liberdade.

Sessenta anos se passaram e novamente o mundo estremece. O Papa Francisco na audiência da semana passada nos disse que nossa imaginação se encaminha para uma representação da catástrofe final que nos extinguirá, no caso de uma eventual guerra atômica. No dia seguinte, se houver dia depois, teremos que recomeçar do zero. Todos os dias o Papa pede ao mundo que se pare a guerra, que se calem as armas, pois “toda guerra deixa nosso mundo pior de como o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota diante das forças do mal”.

Edebrande Cavalieri

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