Enquanto o Papa Leão XIV não apresenta sua primeira Encíclica onde serão apresentados os principais pontos de seu pontificado, uma espécie de programa pastoral e de governo, nós vamos colhendo de suas apresentações e encontros alguns elementos que nos parecem importantes e que deverão nortear essa caminhada da Igreja com novo Pontífice.
Dentro desse horizonte inicial, salta-nos aos olhos o encontro que ele manteve com os diplomatas do mundo inteiro no dia 16 de maio desse ano. Ali ele faz uma radiografia de como a Igreja deverá conduzir a diplomacia do Vaticano perante o mundo, como irá desenvolver sua função política. Para isso, ele nos diz que a diplomacia da Santa Sé possui três pilares: paz, justiça e verdade. Trata-se de um enorme desafio enfrentar o mundo globalizado com esses três pilares, contudo a Igreja deve sempre se mostrar ao mundo e servi-lo como luz. Para isso é chamada a ser “Luz dos Povos” (Lumen Gentium).
O pilar da paz é o mais referenciado desde seu aparecimento na sacada central da Basílica de São Pedro. É a palavra mais presente em todas as suas homilias e discursos. Paz não apenas como ausência de guerra, mas como algo que se inicia em nossos corações, eliminando o orgulho, a vingança, o ódio, a intolerância e escolhendo bem as palavras no uso cotidiano. Ele nos diz que as religiões e as Igrejas cristãs podem dar sua contribuição para a promoção de um clima de paz. Mas isso exige liberdade religiosa em todos os países.
A paz, em termos de uma política mundial, exige um verdadeiro desarmamento. Em nome da defesa, uma nação não pode partir para uma corrida armamentista. Paz armada é apenas adiamento de guerras para futuro próximo de nós. A famosa ideia de “guerra justiça” que vem dos tempos de Santo Agostinho, não nos parece mais compatível em termos de mundo globalizado.
Outro pilar, essencial à paz, é a justiça. Nesse ponto, o Papa Leão XIV é bem claro: “A Santa Sé não pode deixar de fazer ouvir a sua voz face às numerosas desigualdades e injustiças que conduzem a condições indignas de trabalho”. Por isso, a política externa da Igreja deverá “trabalhar para construir sociedades mais harmoniosas e pacíficas”. Inspirado em Leão XIII que publicou a Encíclica Rerum Novarum, as questões sociais presentes nas periferias geográficas e existenciais deverão pautar sua agenda pastoral repercutindo no campo da política internacional.
O terceiro pilar da diplomacia conduzida de maneira profissional pela Secretaria de Estado do Vaticano refere-se à verdade. O Papa nos diz que “onde as palavras assumem conotações ambíguas e o mundo virtual, com sua percepção alterada da realidade, assume o controle” e põe no caldeirão da dúvida, da incerteza e da mentira, a verdade dos fatos escorre para os esgotos do caminho das fake news. Neste contexto, torna-se quase impossível a construção de relacionamentos autênticos, quanto mais de relações internacionais sólidas em vista de uma paz verdadeira.
A Igreja, segundo o Papa, não hesitará de falar a verdade sobre a humanidade e o mundo, para que todos sejam tratados com amor e respeito. “A verdade não cria divisões, mas permite-nos enfrentar os desafios de nosso tempo, como a migração, o uso ético da inteligência artificia e a proteção de nossa amada terra”.
Esses três pilares deverão se conduzidos na perspectiva de uma política multilateral envolvendo o máximo as nações no compromisso efetivo de construção de pontes e, seguindo os passos do Papa Francisco, mantendo boas relações com todos para criar um clima e um contexto favoráveis de entendimento e paz. É uma diplomacia comedida, mas necessária para não frustrar a esperança entre os povos.
Ao final recorda aos embaixadores que o seu ministério começa no coração de um ano jubilar dedicado à esperança. Tempo de “conversão e de renovação, oportunidade para deixar para trás os conflitos e iniciar um novo caminho”. Leão XIV conclui seu discurso aos diplomatas dizendo que acredita que seja possível construir “um mundo em que todos possam levar uma vida autenticamente humana, na verdade, na justiça e na paz”. E termina agradecendo o trabalho desses diplomatas do mundo inteiro na construção de pontes entre os países e a Santa Sé e os abençoa com as suas famílias e seus povos.
Edebrande Cavalieri

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