POR QUE TANTO INTERESSE NO VOTO DOS EVANGÉLICOS?

14 outubro, 2022

As eleições que acontecem de quatro em quatro anos no Brasil têm mostrado candidaturas cada vez mais focadas no segmento evangélico tanto em termos de votos como em termos de busca de candidaturas nas próprias Igrejas. Dessa forma, em 2014 tínhamos 344 candidaturas religiosas, passando para 736 em 2018 e atingindo nas eleições desse ano a cifra de 902 candidatos que se apresentaram como pastores (476), sacerdotes e outros títulos (112), irmãos (96), missionário (75). O título de padre apareceu em 12 candidatos. Por trás disso havia um projeto de poder com objetivos bem definidos.

A Bancada Evangélica tinha por meta eleger 30% da Câmara Federal. Com os resultados atuais chega a 115 deputados federais, tendo como grande vencedor Nikolas Ferreira (PL MG) com quase 1,5 milhões de votos conhecido como “Consagrado para Cristo”. Assembleia de Deus elegeu 24 deputados, a IURD 14 e a Batista 10 deputados. Assim temos o seguinte quadro: 53 de direita/extrema direita, 14 de centro e 8 de esquerda. É considerada a maior bancada, com 90% de viés conservador e de direita. Tem função mais ideológica que pragmática e utiliza a religião como pano de fundo para as discussões políticas.

Vale aqui uma explicação rápida de como se ergue e se fortalece em nosso país a extrema direita com perfil religioso. Vamos buscar sua origem no contexto americano em 1935 quando se formou a Direita Cristã para unir os industriais e empresários norte-americanos em vista da saída da crise do crack da bolsa de Nova York. Dos EUA esse grupo foi influenciando a política internacional, reunindo periodicamente as principais lideranças mundiais no chamado “café com oração”. Nesses encontros são traçadas linhas de ação pelo mundo a fora.

Algumas considerações analíticas poderiam ser feitas a partir desse cenário crescente em termos de interesse no voto dos evangélicos e do crescimento de representantes nas diversas esferas do poder político. A primeira coisa que aparece com dados objetivos dos Censos do IBGE é o crescimento da população evangélica em 2010 com 22% e agora projeta-se para 30%, sendo que no Espírito Santo deve ser ainda maior. Portanto, há uma transição religiosa muito forte passando da cultura católica para a cultura de cunho pentecostal evangélica. Vale ressaltar que os limites dessa cultura não são rigorosos, podendo muitos católicos fazerem parte dessa mesma cultura pentecostal sem se identificarem com alguma Igreja evangélica. Por esse motivo, a cultura pentecostal é bem maior que o número de evangélicos.

Seria ingenuidade nossa pensar que o segmento evangélico formaria um bloco compacto e homogêneo em termos de pessoas e candidaturas. Gostaria de destacar a postura do Pastor Henrique Vieira, candidato vitorioso nas eleições recentes: “Não faço parte da bancada evangélica. Não estarei em Brasília para defender os interesses da Igreja, não quero que o Estado seja extensão da Igreja e não quero que a Constituição seja expressão da doutrina religiosa”.

Em sua fala logo sobressai a principal questão para nossa análise. Ele mesmo sendo eleito deputado federal como pastor evangélico faz questão de registrar seu estar fora do bloco dessa bancada. No Brasil, nos últimos anos tem ficado bem fortalecida a aliança entre política e religião em termos de exercício do poder. As pautas apresentadas normalmente refletem uma postura conservadora em torno de temas não essenciais ao exercício do poder num estado democrático de direito, laico. As Igrejas de diversas denominações passaram a ser instrumentalizadas por algumas lideranças religiosas para apoio a candidaturas que dizem representar seus “ideais cristãos” bem como da família. Gostaria muito de ver uma política pública em prol das famílias pobres, desamparadas, abandonadas na miséria! Muitas vezes, o discurso pró família esconde apenas um interesse eleitoral e político, discurso para enganar os incautos e ingênuos.

Os Bispos do Espírito Santo da Igreja Católica (Leste 3 da CNBB) publicaram em 18 de agosto desse ano a Carta Pastoral Leste 3 sobre “a melhor política”, afirmando que em nossa conjuntura “devemos voltar a pôr a dignidade humana no centro e sobre este pilar devem ser construídas as estruturas sociais alternativas de que precisamos”. Por esse motivo, enfatiza a mesma carta que é preciso privilegiar os programas econômicos e as propostas políticas que tenham o meio ambiente e os pobres como meta prioritária do desenvolvimento econômico, pois a opção pelos pobres é um imperativo decorrente de nossa fé e não uma opção ideológica.

O interesse político no voto dos evangélicos na forma como vem sendo colocado nas campanhas eleitorais praticamente não demonstra, em geral, preocupação com a dignidade humana, com o meio ambiente e com os pobres. Pouco ou nada se fala em torno de políticas públicas para essa população mais excluída dos bens da política. Em seu lugar aparecem temas como a defesa da família, a ideologia de gênero, etc. Mas que família está sendo apresentada como objeto da preocupação política? Quais são os programas voltados para as famílias mais pobres da sociedade com alternativas de vida de trabalho e de dignidade? Por exemplo: Que programa contém proposta de criação de creches nas periferias?

Por que não se fala das necessidades dos pobres? Nesse aspecto, a aliança entre religião e política torna-se perigosa pois leva a alienação das pessoas. Dar consciência ao pobre de seus direitos não é comunismo, mas atitude evangélica, atitude cristã. Na medida em que se omite essa preocupação política, o exercício do poder torna-se mais fácil, e isso facilita a “formação de grupos restritos de dirigentes que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou dos objetivos ideológicos”, afirmam os Bispos do Espírito Santo. Por isso, o sistema democrático não apenas é visto com simpatia Igreja como também digno de sua defesa pois “assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas” e se torna uma garantia de luta para a instituição de políticas públicas.

Ao mesmo tempo é preciso que façamos um exame de consciência sobre o que as Igrejas cristãs fizeram dessa preocupação com os pobres. É preciso reconhecer que algumas Igrejas pentecostais e neopentecostais foram capazes de chegar na ponta da sociedade, onde mais ausente se faz o Estado que aparece esporadicamente para causar impacto como acontece em muitas operações policiais. Nesses lugares de tanta dor e sofrimento quem está aí presente no dia a dia? Aquela rua com esgoto a céu aberto, aquele lixão empesteado de urubus, a rotina da falta de água, ausência ou irregularidade de transporte público, o clima de insegurança o tempo todo…é nesse ambiente que se fortaleceu o voto dos evangélicos e foi se espalhando pelas outras camadas sociais.

Outro elemento que considero essencial para responder a essa questão do interesse no voto evangélico situa-se no terreno da crença. Grande parte da sociedade brasileira, especialmente os mais pobres, dispõem de poucos elementos na formação de sua consciência, prevalecendo a religiosa. Então, guiadas pela crença, com poucos recursos de reflexão racional, a palavra dita e o lugar de onde é proferida tem valor de verdade e deve ser seguida. Nesse aspecto, muitas lideranças religiosas fazem do púlpito, do altar, um lugar estranho à verdade conforme Jesus pregava. A falta de compromisso com a verdade tem induzido o caminhar das pessoas. Costumo dizer que as alienações religiosa, social e política sempre estão interligadas. Uma não sobrevive sem a outra.

É perversa a instrumentalização da crença em proveito político. Nas campanhas eleitorais vemos muitas candidaturas faltado com a verdade, sem nenhum compromisso com ela, e seus apoiadores vão compartilhando tantas fake News pelas redes sociais. A mentira, como dizem os Bispos do Leste 3 da CNBB, tornou-se “uma arma política e método de arregimentar apoiadores e seguidores de ideias políticas”. Os Bispos são bem claros em relação ao compromisso com a verdade: “busquemos o debate eleitoral aberto, no qual não se escondam as propostas e projetos e evitemos as candidaturas e campanhas pautadas na difamação do outro, nas falsas notícias, no discurso raivoso e nas mensagens de ódio transmitidas por aplicativos”.

Por fim cabe ainda destacar que mesmo com tanto uso da Bíblia, sendo citada a torto e a direito, estamos presenciando o crescimento de uma população marcada pelo analfabetismo bíblico. O Secretário do Sínodo dos Bispos, Cardeal Mário Grech, foi bem claro ao fazer esse comentário mostrando que a Igreja Católica necessita cuidar desse desvio, como ele chama esse fenômeno. Ao mesmo tempo gostaria de mencionar a posição da Aliança Evangélica Mundial com seu presidente Thomas Schirrmacher dizendo que esse analfabetismo é o maior problema das Igrejas evangélicas atuais.

Não se trata apenas de uma falta de conhecimento das Sagradas Escrituras, não meramente um conhecimento intelectual, mas, experimental, um crescimento na graça e no conhecimento. E continua a constatação de que estamos diante de uma geração que busca resultados imediatos, sem estrutura, sem cerne, sem fundamento sólido. É crescente a influência de uma “cultura gospel” que transforma artistas em ícones e gurus que através de redes sociais tem “discipulado” cada vez mais as pessoas, reproduzindo o analfabetismo bíblico.

Dessa forma, a aliança entre religião e política não apenas instrumentaliza as Igrejas como também utiliza o texto sagrado conforme seus interesses, sua própria interpretação literal fundamentalista. Temos assim em nossa sociedade um segmento bem delineado atingindo em torno de 30% da população brasileira, tendo muitas vezes sido conduzida por líderes que não sentem nenhum escrúpulo em comprometer e penhorar seu rebanho no apoio a determinadas candidaturas. Nesse sentido, o segmento evangélico pentecostal e neopentecostal apresenta uma estrutura de fidelidade ideológica maior que qualquer outro segmento da sociedade brasileira. Daí a sua procura pelos candidatos em tempos de eleição.

Edebrande Cavalieri

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