POR TRÁS DA RIQUEZA DA COPA

16 novembro, 2022

As imagens do Catar que estão chegando em nossas casas nos mostram um país com prédios fantásticos e supermodernos, estádios de futebol com arquitetura sofisticada e até com ar refrigerado; de fato, essas imagens não mentem. Estamos diante de um país que é uma potência financeira, capaz de comprar cotas de ações dos maiores clubes europeus. De onde vem tanto dinheiro se grande parte do país é formado por deserto? Das reservas de petróleo e gás, sendo um dos países com maiores reservas. Com a guerra entre Rússia e Ucrânia o comércio internacional desses itens essenciais da economia colocou Estados Unidos, Austrália, Arábia Saudita e Catar de ventos em popa, ganhando melhor condição nas negociações esse último país. A China é seu maior importador.

Falamos de um país com a maior renda per capita do mundo, de sistema de segurança que torna o país muito seguro. Contudo, algumas áreas obscuras ainda permanecem sobre a escolha do Catar para sediar a Copa do Mundo desse ano. Sua população não chega a três milhões de habitantes, contudo apenas uns 300.000 são cidadãos nascidos no Catar. Calcula-se que 85% de sua população seja composta por imigrantes de países vizinhos. Os maiores contingentes são originados da Índia, do Paquistão, do Nepal, de Bangladesh e de Sri Lanka. É desses países que foram encontrados os trabalhadores para atuarem na construção dos estádios e centros de treinamento.

É nesse contexto que se elevam muitas denúncias feitas pela Anistia Internacional dando conta da existência de exploração de trabalhadores imigrantes inclusive sob a forma de trabalho escravo. Também houve muitas denúncias de violação dos Direitos Humanos, corrupção e falta de transparência perante a opinião pública. Mas a maior chaga dessa Copa parece ser a quantidade de operários mortos durantes as obras. Calcula-se que foram mais de 6.550 pessoas. Isso revela a precariedade da segurança de trabalho destinada aos trabalhadores imigrantes. A realidade concreta mostra um país com seus cidadãos extremamente ricos e uma massa de trabalhadores constituída de imigrantes muito explorados.

A Fifa mantinha interesse em colocar o primeiro país do Oriente Médio para sediar a Copa e encontrou no emir Hamad al-Thani, que governa o país desde 2013 substituindo seu pai em uma transferência pacífica de poder. Dinheiro para investimento em infraestrutura destinada à Copa ele possui. Há inclusive denúncias feitas pelo jornal inglês The Sunday Times de que se praticou a doação de propina na ordem de mais de cinco milhões de dólares. Como o mundo do futebol é verdadeira caixa preta, essas denúncias foram logo silenciadas das mais diversas formas.

A escolha do Catar para a Copa também requer considerar o lugar que esse país ocupa na geopolítica do Oriente médio. Nele estão sediadas bases militares norte-americanas e isso significa muito no contexto mundial. Manter as boas relações com a potência ocidental dando-lhe prestígio para sediar uma Copa do mundo é algo que deve ser considerado. Foi isso que levou esse país a afastar-se dos sauditas e abrir-se para o ocidente, ganhando uma espécie de prêmio sediando a Copa.

É preciso também registrar que o futebol espelha um conjunto de tensões na região, principalmente contra os Emirados Árabes Unidos que boicotaram a premiação na Copa da Ásia ganha pela Catar. Naquela ocasião, em 2019, os expectadores presentes em Abu Dhabi jogaram garrafas e chuteiras nos jogadores do Catar. Também há pouco tempo a Arábia Saudita impôs bloqueio econômico ao país da Copa. Enfim, por trás da grandiosidade de sua arquitetura, da quantidade de dinheiro que possui, o país da Copa esconde diversos desafios que vão muito além da questão da cerveja dos visitantes que por estão por lá enfrentando altas temperaturas mesmo no inverno.

No setor de informação e comunicação, em meados da década de 1990 foi criado o canal de notícias da Televisão al-Jazeera, emissora estatal com sede em Doha, capital do Catar, transformando-se num canal de TV árabe via satélite de notícias e atualidade. Logo expandiu-se para a internet e outras mídias digitais. Também o país da Copa trouxe filiais das mais renomadas universidades dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França, ou seja, de três membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, todas estabelecidas em Doha.

Em termos religiosos, estamos diante de um país com quase 70% de sua população pertencente ao Islamismo, a maioria sunitas. Os cristãos chegam a 13,8% e os budistas com a mesma percentagem. Há um rigor no controle do modo de vestir tanto dos homens como das mulheres. Estas devem cobrir a cabeça e o corpo com roupas. Dizem que há liberdade religiosa, contudo sob o controle do Estado que define até onde é permitida a construção de templos religiosos. Qualquer grupo religioso deve fazer um registro nos órgãos do governo.

Há um aumento da violência religiosa contra cristãos, caracterizando um clima hostil e de intolerância. É proibido fazer proselitismo; portanto, o trabalho missionário de convencimento a mudar de religião é considerado motivo suficiente para perseguição. As pessoas muçulmanas que se convertem para o cristianismo ou budismo passam a ser discriminadas e mal vistas em todos os espaços. Estamos diante de um país onde a intolerância religiosa é grande, especialmente contra os não muçulmanos. Apesar disso, as autoridades nacionais querem mostrar uma aparência bem positiva aos visitantes durante a Copa do Mundo. Em linhas gerais há uma tensão enorme entre a cultura estrita do Catar e a cultura mundial. Os sunitas islâmicos temem que sua cultura seja desafiada durante a competição esportiva.

Por fim, a Copa do Mundo é o grande evento esportivo que integra o país sede num contexto internacional de mercado, de portas para o turismo e superação de estágios tradicionais. No caso do Catar, as construções de estádios, hotéis e setores de infraestrutura aliou-se à tendência já presente com uma arquitetura futurista, como metodologias e formas orgânicas, abandonando o modo tradicional beduíno do deserto. Ao mesmo tempo demonstra a força da influência internacional presente na riqueza dos materiais usados. Contudo, essa beleza e essa riqueza toda trazem embutidos diversos desafios, problemas, muitos deles acobertados pelas autoridades. Não é possível prever o que o país herdará com a Copa do Mundo e o que fará com as consequências dessa verdadeira invasão do modus ocidental de viver.

Edebrande Cavalieri

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