POR UMA FÉ QUE SE TORNA CULTURA

24 agosto, 2023

Estamos a todo instante ouvindo dizer de uma tal “cultura do ódio” que impregnou as redes sociais e a sociedade brasileira nos últimos anos. É tão forte que até mesmo o interior da Igreja foi contaminado pela polarização política, repercutindo como polarização religiosa. Nunca se fez tanta oposição ao Papa Francisco e à própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil como aconteceu e acontece ainda hoje. Quando será o dia que iremos superar essa cultura que não pertence ao Evangelho cristão?

Isso não afetou apenas a Igreja católica, mas as próprias Igrejas evangélicas. Pastores tornaram-se defensores das armas, da violência, da intolerância, da guerra. Que pastores? Aquele que está descrito nos Evangelhos como “bom Pastor” que conhece suas ovelhas e busca a ovelha desgarrada? Ou melhor, busca o voto perdido? A Igreja não é lugar para buscar votos, buscar juntar pessoas para a luta em prol de interesses de grupos privilegiados. Nem adianta dizer “Deus acima de todos”, pois a fé cristã tem outros fundamentos. A Igreja de Jesus Cristo está junto com seu povo, sofrendo e até sendo perseguida, para a luta pela justiça social e pelos direitos.

O antigo Conselho Pontifício da Cultura em 1999 publicou um conjunto de diretrizes para uma Pastoral da Cultura renovada pela força do Espírito. De maneira bem clara este Conselho nos diz que “uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno acolhida, não inteiramente pensada e nem com fidelidade vivida”. Mas que fé é essa? Com certeza não é aquela religiosidade superficial das pessoas enroladas na bandeira nacional postando-se de joelhos em frente aos quarteis. A que pastor essas ovelhas estavam seguindo?

Em suma, não é por esse caminho que iremos construir uma cultura de paz, daquela paz descrita no Evangelho como está escrito em Jo 14, 27: “Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbem os seus corações, nem tenham medo”. É percorrendo os caminhos da Palavra de Deus contida nos Evangelhos que podemos enquanto Igreja reconstruir essa cultura do ódio, da guerra e da morte.

Para isso, a tarefa da Igreja é ser luz do mundo impregnando a cultura com valores cristãos. No próximo ano teremos uma Campanha da Fraternidade que irá tratar da “amizade social”. Está aqui um compromisso evangélico que a Igreja deve espalhar pelo mundo a fora. Com essa campanha o episcopado brasileiro mostra sua preocupação em aprofundar a fraternidade como contraponto ao processo de divisão, ódio, guerras e indiferença que tem marcado a sociedade brasileira de maneira muito forte nos últimos anos. Chega de empunhar armas!

Como reconstruir a cultura brasileira na perspectiva de uma fé que se faz amizade? Em país como o Brasil marcado por vários séculos com uma cristandade é preciso fazer chegar essa mensagem nas diversas celebrações festivas, nas peregrinações, no turismo religioso, na piedade popular, com um envolvimento pastoral intenso das comunidades cristãs e com teólogos e pastores capazes para elevar uma religião baseada em crenças para uma fé expressa culturalmente.

Seria muito importante que as instituições educacionais, as universidades, os colégios, os centros de estudos e todos os grupos de expressão cultural pudessem acolher essa proposta em prol de uma nova cultura cristã, marcada pelo abraço social e não pelo ódio político.

Essa mesma cultura baseada na amizade social precisa chegar aos centros e cursos de formação teológica e cristã, aos seminários onde são formados os futuros padres, aos grupos de catequese, aos meios de comunicação e informação e, especialmente, aos jovens. É preciso superarmos a cultura do ódio mantido e alimentado nas redes sociais que dividiu famílias e amigos.

O Brasil dos últimos anos sofreu um desenraizamento cultural muito profundo, que se apoiava numa religiosidade dominada por crenças, favorecendo não apenas sua desestruturação e enfraquecimento ou até perda da identidade cultural. Não choramos a perda de fiéis católicos nessa transição cultural, mas lamentamos que esse terreno social tão frágil em sua fé cristã se tornou terreno privilegiado para práticas desumanizantes em termos de convívio social. O estrago foi grande com o crescimento das negações e violações da dignidade humana. A perda dos valores evangélicos da cultura brasileira é bem marcante e visível. Daí o fortalecimento de uma “cultura da morte”, e não da vida, pois se rejeita um Deus que é fonte de toda vida.

O desafio que se apresenta hoje de maneira urgente é evangelizar a cultura urbana, especialmente das periferias existenciais e geográficas. Foi nesse setor que o desenraizamento foi mais forte e foi também onde as novas práticas incutiram outro tipo de cultura que fala em Deus, mas não explicita esse mesmo Deus em sua fé. Torna-se crucial reestruturar formas de ação pastoral em vista da constituição de uma cultura da paz.

Edebrande Cavalieri

Compartilhe:

VÍDEOS

domingo 14 abril
quinta-feira 18 abril
terça-feira 23 abril
Nenhum evento encontrado!

Facebook