Porque é tão difícil conviver com um egoísta?

Vania Reis

O egoísta é reconhecido em qualquer lugar como sendo aquele que privilegia exageradamente ou até exclusivamente seus próprios interesses acima dos interesses de outros. É perfil tão conhecido no nosso cotidiano que não precisaos maiores introduções. Ninguém gosta de conviver com um egoísta. Vamos tentar entender essa dinâmica nas relações familiares.

Analisando grupos sociais Bert Hellinger, psicoterapeuta alemão que desenvolveu a teoria da Constelação Familiar, percebeu que uma relação harmoniosa só acontece quando cada parte compartilha o dar e o receber de forma equilibrada. Esse dar e receber pode ter a mais diversa configuração: atenção, cuidado, carinho, compreensão, tempo, dinheiro, proteção, paciência, reconhecimento, acolhimento, enfim a necessidade do outro. Uma relação assim, onde cada um dá e recebe aquilo que é capaz, é uma relação que promove o amadurecimento e dá espaço para a liberdade e a satisfação mútua. Só assim o sistema familiar (como qualquer outro) se mantém em ordem, em equilíbrio, e é por ser  tão importante que Hellinger o colocou como uma “lei sistêmica: a Lei do Equilíbrio de Troca” que é fundamental para as relações que se quer harmoniosas. 

Quando em qualquer relacionamento existe esse equilíbrio, existe satisfação, não importa se na relação de casais, de irmãos, de amigos, de sócios ou de parceiros de trabalho. Se há desequilíbrio o que deu em excesso, sente-se no direito de cobrar ou considera o outro ingrato se este deixa a relação. O que recebeu em excesso se sente diminuído em sua dignidade, em dívida, aprisionado por essa dívida. Quando recebe mas não dá ao outro – e aqui se enquadra o egoísta – surge o ressentimento. Quando uma das partes acaba dando muito mais do que a outra possa retribuir surgem os conflitos.

Aqui tem um ponto importante: preciso distinguir o egoísta daquele que não pode retribuir. Não posso exigir do outro o que ele não tem para dar. Se meu parceiro teve uma criação muito seca afetivamente ele criou mecanismos para sobreviver à essa carência. Se ele não sabe expressar seu carinho com palavras, não adianta eu reclamar que ele não me elogia.  Ele só pode dar o que recebeu, só pode retribuir o que tem. Compreendendo essa dinâmica a relação se torna mais harmônica, amadurecida uma vez que entendo que precisarei abrir mão desta necessidade. Mas se ele não consegue dar o afeto de outra forma, cabe a reflexão se esta é uma relação que quero estimular. Disto resulta a liberdade de escolha e a satisfação final

O equilíbrio perfeito entre o dar e o receber leva ao “saldo zero” nesta troca e assim não tem movimento. O que permite a vida e os relacionamentos é a busca do equilíbrio, não o equilíbrio em si. Assim sempre se balançará na busca deste equilíbrio imperfeito. Só há uma relação que esse equilíbrio não consegue acontecer: na relação pai e filhos. Pais deram a vida aos filhos e isso é algo que não se pode compensar/retribuir a altura. O reconhecimento e a gratidão são as retribuições possíveis e necessárias para cada um poder ter uma vida plena. Mas sobre isso conversaremos semana que vem.

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