A vida moderna urbana vai criando uma sociedade cada vez mais enclausurada em casas de portas fechadas, cheias de grades, até com cercas elétricas sobre os muros. Como é triste ver uma casa de família parecendo uma prisão! Vivi os tempos em que as portas serviam apenas para impedir a entrada de animais nas casas. Normalmente nem fechadura se usava. Uma simples tranca feita de madeira ou um ganchinho feito com arame bastava para sinalizar aos animais que ali estava um limite intransponível. Mesmo assim muitos se aventuravam pelas janelas que ficavam abertas.
Casas arejadas, ventiladas, cheias de luz, cheias de vida. Como era bom dormir olhando para o céu estrelado ou numa noite enluarada! Eu, particularmente, vivenciei casas muito simples; algumas feitas de estuque e até de chão batido, sem assoalho. Mas eram casas alegres e abertas. Vizinhos, amigos, parentes, todos encontravam casas abertas.
Essa imagem que parece quase poética foi usada pelo Papa Francisco ao entregar os pálios aos novos arcebispos em Roma pedindo-lhes uma Igreja de “portas abertas”, pois nela “há lugar para todos”. E continuou: “Ide aos cruzamentos e tragam todos os cegos, surdos, coxos, doentes, justos, pecadores, todos. TODOS! Tantas vezes tornamo-nos uma Igreja de portas abertas para dispensar pessoas, para condenar pessoas”. E na conversa mais reservada a dois arcebispos disse: “Para a Igreja, este não é o tempo das despedidas, é o tempo do acolhimento”. “Todos, todos. Mas são pecadores…TODOS”, insistiu o Pontífice.
Precisamos de uma Igreja que seja capaz de olhar o mundo, que não se feche sobre si mesma, olhando para o próprio umbigo, uma espécie de self eclesial. Somos verdadeiras prisões de nós mesmos, autorreferentes. Precisamos sair das prisões para ir ao encontro do mundo.
Foi assim que os Apóstolos entenderam a sua missão. Era preciso deixar Jerusalém e ir ao encontro de todos os povos. Nascia com a missão apostólica a mística de uma Igreja em saída. Igreja de portas fechadas jamais conseguirá estar em saída. Só da boca para fora, para causar boa impressão muitos se dizem Igreja em saída.
O ensinamento do Papa aos novos arcebispos vai se ampliando. E diz: “Uma Igreja livre e humilde, que se ergue depressa, que não adia, não acumula atrasos face aos desafios de hoje, não se demora nos recintos sagrados, mas deixa-se animar pela paixão do anúncio do Evangelho e pelo desejo de chegar a todos, e a todos acolher. Não esqueçamos esta palavra: TODOS”.
Estamos na reta final do Sínodo que se realizará em Roma como um processo que nasceu nas comunidades de cada paróquia do mundo inteiro respondendo uma questão fundamental: como é o caminho em conjunto hoje em nossa Igreja, em nossa comunidade? Que passos são indicados pelo Espírito para crescermos no nosso caminhar juntos? Com portas fechadas, impossível caminhar juntos. Portas abertas, “uma Igreja sem correntes nem muros, onde cada qual se possa sentir acolhido e acompanhado, onde se cultive a arte da escuta, do diálogo, da participação, sob a única autoridade do Espírito Santo”.
Vivemos na Igreja algumas resistências ao próprio Papa, resistências às mudanças onde muitos religiosos preferem uma Igreja da conservação dos tempos antigos, uma Igreja que sobrevive na vida pastoral marcada pela tibieza e pela inércia. Pastoral da conservação! Jamais uma Igreja missionária, em saída. O Espírito nos aponta o caminho sinodal como fundamental nos dias atuais para o fortalecimento da vida eclesial.
O Papa ainda nos desafia perguntando: o que cada um de nós pode fazer pela Igreja em vez de ficar criticando o tempo todo? E pede aos católicos para que superem os mecanismos frágeis do poder, do mal, da violência, da corrupção, da injustiça, da marginalização. “Que podemos fazer juntos, como Igreja, para tornar o mundo em que vivemos mais humano, mais justo, mais solidário, mais aberto a Deus e à fraternidade entre os homens”?
Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa, presidente atual do Regional Leste 3 da CNBB, no encerramento do encontro realizado no dia 01 de julho deste ano, com a presença dos bispos das quatro dioceses do Espírito Santos, dos coordenadores de pastoral e das lideranças das doze Comissões Pastorais Regionais fez referência a esse modo processual de caminhar juntos, de maneira sinodal, onde todos participam. Bispos, Padres e Leigos! Todos juntos.
Abrir as portas nos tempos mais difíceis da história tornou a Igreja mais forte para enfrentar as dificuldades. Trancar-se com medo do mundo para não se sujar representou na Igreja um dos pecados contra a mística de uma Igreja em saída. A parábola dos talentos reflete exatamente essa perspectiva. Não se pode enterrar com medo de perder. A Igreja verdadeira sempre será aquele descrita pela Lumen Gentium – Luz dos Povos. Abrir as portas para que todos possam entrar e encontrar a luz, e não trancar as portas recolhendo apenas os “puros”, os “fieis”. Diz o Papa, repetindo: “Não esqueçamos esta palavra: TODOS”.
Edebrande Cavalieri

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