QUE IGREJA, QUE JOVENS, QUE MUNDO?

2 agosto, 2023

Estamos acompanhando a realização da 37ª Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, Portugal, iniciativa profética criada há quarenta e oito anos atrás pelo Papa João Paulo II e realizada pela primeira vez em 20 de dezembro de 1985 nas Filipinas reunindo em torno de 4 milhões de jovens de todos os continentes. Os brasileiros se lembram muito da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro em 2013 quando se encontraram 3,7 milhões de pessoas. Trata-se de um dos maiores eventos da Igreja católica que através dos jovens busca construir pontes de amizade e esperança entre os continentes, os povos e as culturas. Na base do encontro, está uma vivência profunda da espiritualidade cristã e católica.

Para a Jornada Mundial que acontece em Portugal foi pensado um selo do Vaticano representando um navio de descobrimento tendo na proa o Papa Francisco e os jovens embarcados com ele. A reação contrária veio imediatamente e o selo foi retirado dos correios. Não era essa a Igreja que o magistério pontifício tinha desde o início das Jornadas. Não é uma Igreja colonizadora como a que aconteceu no século XVI. Mas uma Igreja acolhedora, misericordiosa, que se abre para o mundo como luz e como vida. Os jovens que se reúnem em Lisboa estão diante de uma Igreja em processo sinodal, que caminha junto com as dores e as angústias dos povos, uma Igreja em saída permanentemente. Jamais uma Igreja conquistadora!

É através desse caminho sinodal que a Igreja encontra os jovens em suas ansiedades e demandas, seus desejos e seus sonhos, porém sempre na perspectiva de encontrar Jesus Cristo como Caminho, Verdade e Vida. Muitas vezes confunde-se o engajamento das pessoas a partir de uma liderança religiosa que se apresenta como uma espécie de ídolo ou digital influencer. Há líderes religiosos que possuem mais de dez milhões de seguidores. São verdadeiros astros das redes sociais, formadores de opinião e influência. A Igreja em saída não se reduz a esse papel exercido pelos influenciadores. Não é para isso que a Igreja programa as Jornadas Mundiais da Juventude. Quando a fé se prende a um determinado indivíduo é como construir uma casinha num terreno movediço. Afunda muito rapidamente. Trata-se de abrir a possibilidade para que os jovens encontrem o rosto de Jesus Cristo, sua Palavra de salvação e se tornem seus discípulos. Não seguidores de um determinado influencer.

A realidade dos jovens no mundo atual mostra como tem crescido o número daqueles que perderam a fé e se comportam como se Deus não existisse. O Papa Francisco nos diz que estamos diante de um tempo de ruptura na transmissão da fé entre as gerações do povo de Deus. Há desilusões com a Igreja? Sim. Não podemos negar, mas isso não é um destino fatalista. Em muitas famílias tem desaparecido o movimento para batismo dos próprios filhos. O que está acontecendo? Durante a escuta sinodal foi possível perceber muitas dores e sofrimentos nessa caminhada, e também muito sentimento de comodismo e falta de compromisso das famílias ditas cristãs. Sem batismo, sem orações, sem compromisso com a comunidade. O que esperar da juventude nesse mundo?

Durante a realização do I Sínodo Arquidiocesano de Vitória, nas sessões sinodais nos perguntávamos: onde estão os jovens? Nas reuniões das comissões de serviços eclesiais, nos conselhos das comunidades, paróquias e arquidiocese, também nos perguntamos: onde estão os jovens? Deixamos abertas as portas para que eles não apenas participem, mas se tornem protagonistas no caminhar eclesial?

Na mensagem enviada aos jovens do mundo inteiro há um ano atrás o Papa Francisco lembrava que estamos passando por tempos difíceis, não apenas decorrentes da pandemia, mas de uma humanidade dilacerada pela guerra. E apresentava naquele momento o tema da Jornada: “Maria levantou-se e partiu rapidamente”. Diante desse mundo é preciso termos pressa e os jovens podem se a expressão concreta do caminho da proximidade e do encontro, para que esse mundo possa erguer-se como caminho da paz e da vida.

A Jornada Mundial da Juventude não pode significar um “fogo de artifício” que acende num momento e apaga-se em seguida. Não pode ser expressão de um entusiasmo fechado em si mesmo. Os jovens numa Igreja em saída missionária devem estar integrados à pastoral juvenil de cada Igreja particular. Podemos até perguntar: onde estão os jovens que participaram da Jornada Mundial realizada em 2013 no Rio de Janeiro? Onde eles estão agora? O que estão fazendo nesse mundo? Foram integrados nas comunidades eclesiais? Que ações protagonistas estão realizando? A Igreja que sai se coloca a serviço, sempre.

Nessa perspectiva temos que interpretar o crescimento das Igrejas evangélicas, especialmente o aumento da juventude. Essas Igrejas tiveram nas últimas décadas uma expansão enorme nas periferias geográficas e existenciais, e nos mais distantes rincões do Brasil. Ali oferecem às populações mais chamado

uma espécie de serviço social informal, ocupando os espaços abandonados pelo poder público. E o chamado dos jovens evangélicos é feito em vista da mediação dos conflitos familiares, atuação na captação e doação de cestas básicas, no cuidado com os dependentes químicos, no atendimento aos doentes das comunidades, na incorporação dos mais miseráveis. Enfim, abraçando os sobrantes.

Os sonhos de nossos jovens vão muito além dos serviços ao altar, nas ações litúrgicas em geral. Também não podemos nos iludir com o número dos que servem ao altar. É pequeno em vista da quantidade de jovens de nossas comunidades. Os jovens nos diziam no I Sínodo Arquidiocesano que pouco entendiam das liturgias e seus movimentos. Acreditamos que o sonho dos jovens está na direção da construção de pontes de amizade e esperança, num envolvimento que abraça o mundo muito além dos limites das doutrinas e do poder.

As Jornadas Mundiais da Juventude precisam expandir aqueles momentos de grandeza com milhões de participantes e motivar os jovens para um caminho conjunto na construção da esperança, da paz e da solidariedade, como protagonistas e não como seguidores de A ou B, mas seguidores de Jesus Cristo.

Edebrande Cavalieri

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