Quem são os voluntários que assistem a população de rua

24 maio, 2020

O trabalho da pastoral do povo de rua enfrenta agora mais um desafio diante da pandemia e das dificuldades que essa população tem de se prevenir contra a Covid-19.

Os trabalhos se intensificaram e novos voluntários surgiram para mobilizar as pessoas e o Poder Pública procurando minimizar a precariedade que existe nessa população.

A Pastoral além de criar aproximação com a população de rua, também organiza as doações, pede ajuda e faz a distribuição de roupas, alimentos prontos para consumo, kits de higiene e cobertores.

Mas, quem está por trás dessas ações, o que as move e o que fazem? Conversamos com 4 pessoas da pastoral que deram seus testemunhos.

Mindu, é voluntário da pastoral em Laranjeiras na Serra.

O que faz: Há 4 semanas fazendo atendimento à população de rua na Igreja Presbiteriana Unida. Distribuição de marmitas, roupa, cobertas e kits de higiene. Antes esse trabalho era feito com uma Kombi nos pontos de concentração dessa população. Prestamos este serviço à população de rua ao sábado, porque o Centro Pop de Serra não abre ao sábado. Estamos com dificuldade de chegar em Serra sede e Nova Almeida que tem número expressivo de moradores de rua e onde não existem abrigos.

Preocupações: Percebemos um aumento de população de rua. As pessoas relatam que não estão conseguindo se manter, por perda de emprego e a dificuldade dos informais de prestarem seus serviços. Há um aumento de jovens e crianças. As crianças às vezes com as famílias e outras nos semáforos fazendo malabares .

Outra preocupação são as crocolândias. Jardim Limoeiro tem uma e aparecem pessoas apresentando sintomas. O Consultório de Rua, criado para atender essa população, não tem sido efetivo na região. Quando ligamos solicitando a presença do consultório eles dizem para procurar unidade de saúde.

Alegria: A solidariedade para com esta população tem aumentado, tanto dos moradores quanto das Igrejas que têm se mobilizado para confeccionar máscaras, doação de lanches, marmitas e roupas. Alguns também estão se oferecendo como voluntários para ajudar a pastoral.

As ações estão sendo feitas pela Pastoral do Povo de Rua vinculada ao Vicariato para a Ação Social e com a PJ e a Igreja Presbiteriana que cedeu o espaço para o atendimento.

Vinicius Lamego, é voluntário da pastoral em Jr. da Penha

Como se envolveu com a pastoral: Mudei recentemente para Jr. Da Penha, mas já carregava preocupação com a população de rua. No Bairro passei a ter uma convivência maior com essa população. O aumento desse contato diário aflorou a preocupação existente, fiquei incomodado e fui pensando o que poderia fazer. As tarefas do dia a dia adiaram a decisão, mas a pandemia alterou minha vida e precisei reconstruir a rotina, então, propus-me efetuar alguma atitude em relação à população de rua. Comecei criando um grupo (Conexão Positiva) para arrecadar materiais e depois procurei a pastoral para oferecer marmitas para distribuição. A primeira entrega foi de 150 marmitas e juntei-me à pastoral para distribuir. Continuei juntando as doações no grupo e conseguimos ajudar também a população de rua de Cariacica com 360 marmitas. O grupo também foi ajudar nessa distribuição. A pastoral me convidou a continuar ajudando na distribuição e eu continuei.

Motivação: Tem sido uma experiência bem bacana não só por poder contribuir para que as pessoas matem a fome, mas porque me ajuda a refletir sobre as ações de solidariedade necessárias no dia a dia. Acho que mais de que ajudar, participar da distribuição, faz com que a gente se transforme individualmente e consiga enxergar mais o outro, os mais necessitados, principalmente a população de rua e se tornar mais solidário. Com tanta coisa absurda acontecendo no país e no mundo, quando o descaso de certos governantes ao tratar a vida das pessoas, a gente fica revoltado, ansioso e se sentindo mal. Mas percebo que não adianta ficar se alimentando só dessas notícias no dia a dia. A gente não vai conseguir transformar e nem mudar nada, então é participar ativamente de ações locais, no nosso território e prestar solidariedade ao outro e ter preocupações mais coletivas e menos individuais. Construir novas rotinas a partir de um ideal de mais solidariedade e coletividade é um caminho interessante para tentar buscar outros tipos de ideais de vida neste contexto de pandemia. É um momento para uma efetiva transformação. Não adianta ficar reclamando e acompanhando a questão macro, mas modificar com pequenas ações no dia a dia e a partir daí tentar contagiar outras pessoas, empoderando as pessoas necessitadas ao nosso redor.

Experiência mais marcante: O que mais o marcou foi Cariacica. A pastoral lá é recente e os moradores estão muito desamparados em termos de assistência do Poder Público. Em Vitória tem algum tipo de amparo, mesmo que seja mínimo, para sobreviveram. Já Cariacica foi bem impactante a experiência. A gente parava e as pessoas saiam debaixo dos viadutos, galpões e casas abandonadas em grande quantidade. Percebia-se neles o desamparo e o desespero. Isso me mostrou também como faz falta a presença do poder público em determinados locais para que essas pessoas tenham o mínimo de dignidade. Isso me mostrou o quanto a vida humana é desvalorizada e ignorada. Estou buscando a forma de agir no cotidiano a partir dessas pequenas ações de solidariedade o que é mais eficaz que buscar mudanças de cima para baixo.

Carlos Fabian de Carvalho, atua no Bairro Santo Antônio em Vitória

O que faz: Eu estou em duas entidades, Fórum Estadual de Jovens e Adultos e a Escola de Samba Novo Império. Com minha esposa Carla de Souza Campos, entregamos diariamente de café, almoço, cobertores. Atua também na construção de pautas de cobrança de políticas públicas para atendimento à população de rua, antes e, principalmente, agora na pandemia. Ir para a rua não é só uma questão de solidariedade, mas a gente tem tentado minimamente e, principalmente, garantir imunidade e certa proteção com alimentação e cobertores. Também junto ao governo buscamos garantir o tratamento de sintomáticos e assintomáticos e como se dará o encaminhamento das pessoas que estão na rua com relação à Covid-19.

Percepção: É fundamental estar na rua todos os dias porque existe a ausência do poder público. Estar na rua nos dá a oportunidade de verificar as dificuldades e percalços da população de rua e isso tem sido fundamental. 

Lição: Para nossa vida tem sido uma experiência fantástica porque a gente tem aprendido muito sobre as formas de resistência que a população de rua tem produzido, na ausência plena do poder público.

Jéssika Souza, assiste a população de rua na Glória em Vila Velha

Como começou: O grupo anjos da noite surgiu no grupo de jovens da paróquia. A primeira vez que fomos ao encontro da população de rua eramos mais de 50 jovens. Fazimaos isso toda a quinta-feira. Depois começaram a ir às terça, e agora já tem dois anos que todo o domingo após a celebração na Comunidade São Pedro saimos para entregar o jantar (macarrão, arroz colorido com carne), dependendo das doações.

Realidade atual: Hoje o grupo tem mais ou menos 25 pessoas que se dividem em pedir doação, fazer o alimento e entregar. Agora com a pandemia estamos indo também todo o domingo na hora do almoço e distribuímos 100 marmitas.

Motivação: O que motiva é ajudar o próximo sem saber quem é ele, sem saber a história dele, sem julgar… acho que é isso que a gente aprende. Eu sempre falo com o grupo uma frase que ouvi uma vez numa pregação sobre pessoas em situação de rua, (porque no começo nós recebíamos muitas críticas até das pessoas que passavam na rua): “e se Jesus estivesse aqui, Ele faria o seu trabalho? Sim, Jesus faria, então é isso que motiva a gente.

Experiência marcante: O que mais me surpreendeu até hoje (choro) foi que a gente já conseguiu tirar 4 pessoas da rua e elas hoje estão trabalhando e nas suas casas com a sua família. Aos olhos de algumas pessoas pode parecer pouco, mas são 4 vidas que estão aí no caminho do Senhor.

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