Querer Ouvir

9 julho, 2021

Vania Reis

A disposição para a fazer valer a sua opinião parece estar passando dos limites da razoabilidade. O que eu penso é o certo, o que você pensa é errado, e eu não me disponho a lhe ouvir e muito menos em dialogar. É triste ver que hoje ainda o que predomina na confrontação das visões individuais ou narrativas (nome da moda para falar da versão que está sendo apresentada) quem fala mais forte “ganha”. A agressividade na fala, a intimidação são formas arcaicas de opressão. Todos sabem que as palavras tem poder e o que se fala pode ferir de morte. “A chicotada produz um ferimento, porém uma língua má quebra os ossos. Muitos homens morreram a fio de espada, mas não tantos quantos os que pereceram por causa da língua”(Eco28,21-22).

A CPI da Pandemia tem sido um exemplo gritante do retrato de uma disputa de poder que com o escudo do “saber a verdade” usa as palavras como espada mortal. Quantos ali já vimos “morrer”! Quantos não serão inocentados nos processos jurídicos que se seguirão, mas talvez nunca recuperarão suas vidas! O que parece importar ali, não é saber a verdade, mas sim criar uma “narrativa”, para que aquilo que eu penso seja a verdade. Falta humildade e sobra prepotência. Não há dialogo e sim um uso da palavra como espada, porque não se busca “a” verdade, mas sim a “minha” verdade, a que eu quero que seja vista como verdade. Quanta precipitação!  As pessoas ainda estão presas a um mundo que só pode ter dois lados de uma moeda, quando já temos clara noção que nossa realidade é muito, muito mais complexa. Não quero aqui defender os que procederam contra as leis, de forma alguma. O objetivo é dar maior clareza ao que assistimos que tem se mostrado claramente como um uso do poder, para ter mais poder. Acredito que na luta de espadas, a língua, como dito em Eclesiástico está matando.

Apesar das muitas descobertas da neurociência, o funcionamento da nossa mente é muito pouco conhecido e um terreno muito escorregadio ainda. Apreendemos uma realidade, captamos seus significados, fazemos inferências a partir de nossas vivências pessoais e depois agimos conforme esse nosso referencial interno. Quando compartilhamos com outras pessoas nossos valores, ideias, pensamentos vamos tendo experiências próximas e assim, ampliando a escala, formamos grupos de pessoas que compartilham a mesma realidade. Para esse grupo tal informação ou fato será possivelmente compreendido de forma semelhante e vista como verdadeira.

Outros que tiveram outras experiências, possuem outros valores, ideias, pensamentos possivelmente não terão a mesma percepção. Não pode haver assim uma percepção única, inequívoca, neutra ou imparcial da realidade, pois para dar significado a algo que vejo, tenho que buscar no meu repertório interno, nas minhas vivências a compreensão.  Minhas vivencias são diferentes da sua e sempre teremos diferenças entre a as nossas formas de entender as coisas. Não somos robôs. Minha visão de mundo, meus valores, vivências são muito diferentes de Renan Calheiros, assim sempre terei que fazer um esforço enorme para compreender a visão de mundo dele.

Para melhor entender e pegando emprestado a terminologia da saúde, não há uma percepção “estéril”. Minha percepção sempre estará sempre “contaminada”, ou melhor dizendo está impregnada de meus sentimentos, emoções e crenças. Não existe neutralidade.

Então a verdade não é algo fixo, percebida por todos de forma igual a ponto de nos dar certeza. A neurociência nos mostra isto. Temos que estar abertos a ouvir atentamente, sem interromper o outro, sem julgar se quisermos ver o que, para o outro. Mas hoje, o cada vez mais comum são pessoas que têm a mente “cheia” de suas verdades e, com isso não conseguem ouvir o outro. Já estão fechados em suas verdades.

Infelizmente essa dificuldade não aparece apenas na CPI da pandemia. Na pressão do cotidiano, no aperto financeiro, na escassez afetiva, de tempo e paciência não deixamos espaço para o outro. As pessoas assim se estranham, brigam, rompem relacionamentos. Um não ouve o outro. Escutam as palavras que estão sendo ditas, mas não ouvem. Em suas mentes já está sendo entendido o que está sendo dito pelo outro, mesmo antes deste falar. Não há diálogo. Cada um só escuta a si mesmo

Aqui cabe bem a continuação do trecho do Eclesiástico acima citado
“Derrete teu ouro e tua prata; faze uma balança para pesar as tuas palavras, e para a tua boca, um freio bem ajustado”(Eclo 28, 28b-29).

Pelo menos na sua vida, nos seus relacionamentos coloque esta balança e escute, ouça mais o outro, tente entender como ele ou ela vê o mundo. Esvazie de pré-concepções, de pré-conceitos e ouça o outro, calce seus sapatos, ponha-se no lugar dele ou dela e depois peça que ele ou ela faça o mesmo. Se os dois quiserem dialogar, assim será possível.

Quanto à CPI da pandemia, deixe o (triste) “espetáculo” continuar, a história vai julgar. Alí não há diálogo, apenas confronto em busca de poder. E esperamos que não seja o mais forte a ganhar e sim o mais justo.

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