RAÍZES RELIGIOSAS E CULTURAIS DO RACISMO

25 maio, 2023

Nelson Mandela, preso durante 27 anos e eleito primeiro presidente negro da África do Sul, dizia que ninguém nasce odiando outra pessoa em decorrência da cor da pele, de sua origem ou de sua religião. “Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem também ser ensinadas a amar”. Mandela sentiu na carne o sistema de apartheid imposto por Lei na África do Sul. Ali os negros eram excluídos do governo, sem direito a voto exceto nas instituições negras, proibidos de diversos empregos, mesmo constituindo 70% da população nacional.

O caso ocorrido na Espanha com o jogador Vini Jr e que tomou conta dos noticiários e redes sociais não é único, isolado. Nessa mesma semana, o Santos jogando no Chile também teve dois jogadores atacados por posturas racistas. O racismo está entranhado na cultura ocidental. De onde herdamos essa maneira de tratar o diferente, o estrangeiro?

A primeira coisa a fazermos é ignorar ou combater fortemente posturas que nos parecem ingênuas e descabidas como aquela do Senador da República do Brasil. Não podemos ficar indiferentes a esse tipo de posição, pois ela é de cunho político. Não podemos esquecer que o fascismo e o nazismo eram racistas, e não apenas antissemitas. O holocausto tem implicações extremamente racistas. O bolsonarismo que se ergueu em nossa sociedade tem raízes profundas no racismo estrutural, por isso sua luta contra todos os avanços sociais presentes nas camadas menos favorecidas da sociedade. A destruição das universidades como vinha sendo conduzida pelo governo anterior ao atual tinha como pano de fundo a política das cotas sociais e raciais que completa dez anos.

A segunda coisa que é preciso levar em conta na constituição do racismo enquanto processo cultural é que tanto a Europa como seus continentes colonizados foram marcados por séculos de escravidão. No caso brasileiro, não podemos esquecer que foram mais de 300 anos de escravidão.

Merece lembrar a determinação de Rui Barbosa quando era ministro da fazenda do governo de Deodoro da Fonseca mediante um despacho datado de 14 de dezembro de 1890 determinando a destruição dos documentos da escravidão. Eram arquivos que representavam a memória nacional desses tempos sombrios. Nesses documentos os ex-senhores de escravos poderiam encontrar comprovantes de natureza fiscal para usarem nos processos para pleitear indenização junto ao governo brasileiro da República. Estamos diante de um dos maiores movimentos de silenciamento da escravidão no Brasil, uma pedra de escândalo em nossa história cultural.

A pressão exercida pelo grupo de escravocratas indenezistas era muito grande e diante deles Rui Barbosa teria dito em 11 de novembro de 1890: “mais justo seria e melhor se consultaria o sentimento nacional se se pudesse descobrir meio de indenizar os ex-escravos não onerando o tesouro”. Os grupos atuais de direita são herdeiros desses escravocratas indenizistas, que não suportam que o Estado possa criar mecanismos como o das cotas sociais e raciais como forma de justiça com a população mais pobre e especialmente com a população herdeira dos escravos. Qualquer grito racista traz no fundo esse sentimento de aversão à Lei que aboliu a escravatura e pode ser encontrado nos países colonizadores da Europa, como nos países colonizados através de sua elite.

Quando Vini Jr soube que a imagem do Cristo Redentor no Rio de Janeiro estava com as luzes apagadas, agradeceu as inúmeras manifestações de solidariedade e de apoio na luta contra o preconceito dizendo: “Preto e imponente. O Cristo Redentor ficou assim há pouco. Uma ação de solidariedade que me emocionou. Mas quero, sobretudo, inspirar e trazer mais luz à nossa luta. Agradeço demais toda corrente de carinho e apoio que recebi nos últimos meses […] não vou desistir”. Há um risco grande de ficarmos em ações isoladas que funcionam bem no modo simbólico, porém é preciso trazer mais luz à luta dos negros na sociedade atual em todas as partes do mundo.

A fala do senador capixaba precisa ser combatida porque produz na sociedade o que há de pior em termos de formação ética de um povo ao naturalizar e relativizar a dor e o sofrimento não de um jogador específico como o Vini Jr, mas de um povo inteiro que compõe mais da metade da população brasileira. O deboche foi cruel ao sugerir que os demais jogadores negros do time entrassem com uma leitoa branca no colo, ou no uso do exemplo do veneno da cobra combatido pelo soro antiofídico. Não estamos diante de um discurso ingênuo de um senador incapaz. Seria muita ingenuidade nossa pensar dessa forma. Estamos diante de uma postura política que precisa ser extirpada de nosso meio para que não se reproduza nos ambientes religiosos e sociais. Não basta a sua cassação. Isso é muito pouco e fácil de ser feito. A luta, como diz Vini Jr, é muito maior.

E chegamos então à terceira consideração a ser feita sobre as raízes do racismo e aqui não podemos nos isentar enquanto religiosos cristãos. É preciso bater no peito e pedir perdão. As Igrejas cristãs nem sempre levaram a Boa Nova de Jesus Cristo. Tantas vezes usaram de uma interpretação equivocada, fundamentalista, das Sagradas Escrituras, fazendo uma releitura, reinterpretação e adaptação aos moldes dos interesses das metrópoles. No caso brasileiro, o nosso catolicismo foi implantado através do Padroado conduzido pelos reis de Portugal e não pela Santa Sé.

Entramos aqui num labirinto perigoso envolvendo a leitura e interpretação de maneira equivocada da Bíblia. Nos dias atuais o uso político da Bíblia é o que mais nos causa medo. E a Direita Cristã faz isso com maestria, e frequenta as missas e cultos em nossas Igrejas. Gostaria de trazer aqui a descrição da história da Arca de Noé e sua interpretação fundamentalista ao colocar um continente inteiro como amaldiçoado por Deus; justificativa assim as ações da escravidão usando a própria Bíblia. O nosso querido Padre Antônio Vieira fez isso nos tempos coloniais em seus famosos Sermões.

Vejamos então o livro de Gênesis 9, 18-27 que relata a história dos três filhos de Noé – Cham, Sem e Jafé, que foram os responsáveis para repovoar a terra após o dilúvio. Nesse texto vemos que Sem foi repovoar a Ásia, Jafé a Europa e Cham a África. Eram os três continentes conhecidos na época. Nesse texto bíblico conta-se que Noé havia bebido vinho e acabou ficando nu e dormiu. Enquanto Sem e Jafé tomaram o manto e se cobriram para não ver o pai nu, Cham viu sua nudez e quando Noé soube proferiu a maldição sobre esse filho: “Maldito seja Cham. Que ele seja o último dos escravos para seus irmãos. Bendito seja Javé, o Deus de Sem, e que Cham seja seu escravo. Que Deus faça Jafé prosperar, que ele more nas tendas de Sem e Cham seja seu escravo”.

Nasce da visão fundamentalista equivocada do texto bíblico a concepção ou ideologia que justificou e justifica até hoje sob a forma de racismo a inferioridade dos africanos e sua discriminação, pois estariam na situação da maldição. O padre Antônio Vieira dizia que os povos que vieram escravos para o Brasil deveriam ser muito gratos a Deus, pois aqui eles encontraram a salvação de suas almas. E assim o continente africano, que fora berço das civilizações mais antigas como a egípcia, historicamente passou a ser ignorado, escravizado, explorado. Então, a situação vivida por Mandela na África do Sul onde 30% da população se achava no direito de governar o país tem sua justificativa em tantas histórias, inclusive a religiosa.

As Igrejas cristãs estão comprometidas profundamente com os processos de escravidão na história. O trabalho de evangelização não pode ficar indiferente a essa situação, pois nas próprias Igrejas de maneira velada se praticam processos de exclusão dos negros de cargos ou funções eclesiásticas. É preciso penetrar nas raízes profundas da cultura do povo, bem além de demonstrar um gesto de solidariedade como o que ocorreu com a imagem do Cristo Redentor no Rio de Janeiro.

O Papa Francisco nos diz que o racismo é um vírus que não desaparece. Vive escondido à espreita para agir sob a forma de palavras ditas como aquela dirigida a Vini Jr, através de brincadeiras, através de expressões da linguagem, através de práticas. O racismo nos mostra que os progressos da sociedade não estão assegurados para todos. Assim, diante do que aconteceu na Espanha, segundo o Papa Francisco, “não podemos tolerar nem fechar os olhos para qualquer tipo de racismo ou de exclusão e pretender defender a sacralidade de cada vida humana”.

Edebrande Cavalieri

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