O tempo da Quaresma deveria ter um efeito bem mais radical em nossas vidas que apenas feito com algumas mortificações que se assemelham mais à propósitos de vida de cunho individual. Deveria ser um tempo de muito silêncio e reflexão a respeito da vida que levamos e tomadas de decisão sob a forma de conversão, mudança de vida.
Há poucos dias o Papa Leão XIV afirmou que as lideranças políticas e cristãs, responsáveis pelas guerras que estão impondo tantas dores e mortes em diversos países, deveriam se confessar e realizar um sério exame de consciência. Será que esses líderes, sedentos de poder e repletos de orgulho, teriam a coragem e a humildade de reconhecer o mal que carregam e realizar uma conversão em prol da paz?
O orgulho eleva a própria vontade acima de Deus. As Sagradas Escrituras consideram-no a raiz de todo pecado, levando ao desprezo pelos outros e à incapacidade de reconhecer os próprios erros. O orgulho cega as pessoas e se torna uma barreira à Graça de Deus.
O Cântico de Maria, registrado por Lucas (1, 52), nos traz um alento que fortalece nossa fé: “Ele derrubou dos seus tronos os poderosos”. Esta é Palavra de Deus que intervém na história para promover a justiça, humilhando os orgulhosos e privilegiados, enquanto eleva os humildes e famintos.
Inúmeros textos bíblicos condenam o orgulho. Em Provérbios (16, 18) lê-se que “a soberba precede a ruína e a altivez do espírito precede a queda”. Portanto, o orgulho cega a pessoa, pois a impede de reconhecer os próprios erros, pecados, aceitando a correção, a conversão. Enquanto Deus resiste aos soberbos, Ele não mede esforço para conceder sua graça aos humildes (Tiago, 4, 6). Não apenas resiste aos soberbos, mas garante que eles não ficarão impunes.
Seguindo essa linha de pensamento, o Papa recorda que o Sacramento da Reconciliação representa o grande momento em que a pessoa restabelece seu vínculo de unidade com Deus e recebe a infusão da graça santificante. Um pecador que não reconhece seus pecados alimenta cada vez mais a tendência ao pecado. Pecador soberbo ficará cada vez mais soberbo e orgulhoso. Não apenas perderá o vínculo de unidade com Deus, mas também deixará de ser expressão da unidade entre os irmãos.
Um governante orgulhoso não reconhece seus pecados e deixa de ser promotor da paz e da unidade na família humana. Portanto, há uma total incoerência entre promover a guerra e seguir os valores cristãos. Diante dos atos que geram tantos sofrimentos, o caminho apontado pelo Papa é o da Paz, da Conversão e da necessidade de arrependimento. Seria utopia?
Aos cristãos o Papa faz um pedido sob a forma de pergunta: “Os cristãos que tem grande responsabilidade nos conflitos armados têm a humildade e a coragem de fazerem um sério exame de consciência e se confessar”? Citando Santo Agostinho, ele acrescenta: “Quem reconhece os seus pecados e os condena já está em acordo com Deus”. Especialmente no Tempo da Quaresma, reconhecer os próprios pecados significa “concordar” com Deus, unir-se a Ele.
As palavras do Papa Leão XIV tem endereço claro: aqueles que estão promovendo as guerras no mundo atual. A Doutrina Social da Igreja nos diz que a razão de ser de qualquer autoridade política é o bem comum. Contudo, o que vemos no momento é que para resolver os conflitos entre as diversas comunidades políticas que comprometem a estabilidade das nações e a segurança internacional, muitos governos recorrem à guerra que pode ser catastrófica para a humanidade.
A Doutrina Social nos alerta que “a guerra pode terminar sem vencedores nem vencidos num suicídio da humanidade, e então é necessário rejeitar a lógica que a ela conduz, ou seja, a ideia de que a luta pela destruição do adversário, a contradição e a própria guerra são fatores de progresso e avanço da história”. E o que podemos fazer?
Cabe a todos nós uma luta para edificação de uma renovada ordem internacional defendendo a liberdade e a integridade territorial de cada nação, a tutela dos direitos das minorias, uma divisão equitativa dos recursos da terra, a rejeição radical da guerra rompendo o apoio a seus promotores que governam, atuação em prol de uma humanidade desarmada e desarmante e observância dos pactos concordados. A omissão também é pecado e, nesse momento crucial, é preciso que no silêncio quaresmal também nós nos convertamos em prol da paz.
Edebrande Cavalieri

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