RISCOS DO CRESCIMENTO TRADICIONALISTA

21 setembro, 2023

Há um ano atrás o Papa Francisco após viagem ao Canadá, de maneira muito clara e direta, apontou para um problema que tem crescido muito com a formação de grupos, comunidades, seminários, que vão aderindo inconscientemente ou intencionalmente ao tradicionalismo. Há inclusive até ordenação de bispos sem o consentimento papal.

A polarização política que penetrou na Igreja contribuiu muito para essa onda nefasta e perversa, que perverte o Evangelho e o magistério da Igreja. Quando se ataca o Papa ou a Conferência Episcopal, a intenção que permeia esse ato não é a fidelidade à fé cristã, mas o enfraquecimento da autoridade eclesial para corromper as comunidades, as paróquias, o povo de Deus segundo interesses particulares.

Em tempos de redes sociais e crescimento do uso da mídia para atingir o povo conquistando seguidores, muitos influencers cristãos de muito longe estão “atrapalhando” o projeto pastoral conduzido pelas dioceses locais. Em conversas com alguns padres que foram alunos meus eles confessam que tem hora que dá vontade de desistir. O que se propõe como caminhada eclesial na Diocese é corrompido a partir de fora, com verdadeiros “gurus” que levam as pessoas mais simples para outro caminho. Esses influenciadores externos à comunidade estão criando um “magistério eclesiástico” contra o Concílio Vaticano II e contra o Papa Francisco, expressão do verdadeiro Magistério da Igreja. Na hora da Campanha da Fraternidade eles vão aparecer com muita pregação contrária.

Muitas vezes, esses “gurus” pouco ou nenhum compromisso eclesial de caminhada sinodal possuem. Acham que são os únicos capazes de salvar o mundo. Muitos deles são também influenciam na formação de seminaristas que estão se preparando para o sacerdócio. O responsável pela formação dos seminaristas da Igreja particular é o Bispo local a quem cabe o múnus episcopal.

O Papa Francisco, timoneiro da Barca de Pedro, a Igreja, assim esclarece dizendo quem são os tradicionalistas e o que representam: “Acho que isso está muito claro: uma Igreja que não desenvolveu seu pensamento no sentido eclesial é uma Igreja que anda para trás. E este é o problema de hoje, de muitos que se dizem ‘tradicionalistas’. Não são tradicionalistas, são ‘atrasados’, vão para trás, sem raízes. Sempre foi feito assim, no século passado foi feito assim. E o “andar para trás” é um pecado, porque não avança com a Igreja”.

Diante do pecado eclesial, a posição da Igreja ao longo da história é muito clara. Assim quando o Arcebispo tradicionalista Marcel Lefebvre em 1988 ordenou quatro bispos sem o consentimento do Papa, imediatamente foi excomungado. Não se trata de uma medida autoritária como muitos podem pensar. Trata-se da incapacidade de alguém que não consegue caminhar junto enquanto povo de Deus. Logo, caminha fora da Igreja.

O arcebispo acima citado não aceitou o Concílio Vaticano II, assim como tantos outros ministros ordenados também não aceitam ou proferem ensinamentos contrários ao que está aprovado em evento eclesial. Alguns até pregam a necessidade de um novo Concílio. Como? Não se brinca com essas ideias nefastas e diabólicas que querem afundar a Barca de Pedro.

Quando os primeiros cristãos se defrontaram com a questão da circuncisão das pessoas convertidas fora da Palestina, Pedro imediatamente convocou o grupo que estava trabalhando com São Paulo e o grupo que estava em Jerusalém e todos os demais apóstolos. O texto bíblico de Atos mostra até que ponto havia um risco de divisão da Igreja nascente, pois se pregava abertamente que aqueles que “não forem circuncidados conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser salvos”.

Os tradicionalistas sempre se apegam ao passado, ao que interessa do Antigo Testamento, à Igreja pré-Vaticano II. E nisso vão resistindo a mudar, a caminhar para frente, de maneira sinodal. Por isso, o Magistério da Igreja é muito zeloso na preservação e no cuidado com a unidade eclesial. Quem não quiser caminhar juntos tem a liberdade de buscar outro barco ou mesmo uma canoa furada, porém não permanecerá em comunhão com o Papa, com a Igreja.

É profundamente preocupante como muitos nutrem tanto ‘amor’ pelos costumes eclesiais pré-Vaticano. Não se trata de questão estética ou de saudade. É incapacidade de avançar. Demonstra incapacidade de conviver, concelebrar, de viver em comunhão. O Concílio nos fez olhar para frente. Retroceder como querem os tradicionalistas, não apenas é pecado, mas colabora para fazer definhar a Igreja.

Povo de nossas comunidades nas cidades e no interior, cuidado com santo de fora! Sempre ouvi esse ditado. Nem tudo que reluz é ouro. O primeiro compromisso assumido no batismo é caminhar junto na comunidade, na paróquia, na diocese. Nossa Igreja terá pela frente cada vez mais o desafio de fortalecer a comunidade local conforme o projeto pastoral estabelecido coletivamente e conduzido pelo Bispo da Igreja local. Não existe projeto pastoral de alguma pessoa mais iluminada que se diz salvadora do mundo.

Para onde o Espírito nos aponta no momento atual? Para o caminho sinodal e por isso o título do Sínodo que está acontecendo e chegará ao ponto mais alto em outubro é “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão”. A perspectiva tradicionalista não contempla esse caminho. Ao contrário, nega e renega. Esse caminho deve ser feito por cada comunidade, cada capelinha do interior que reza aos domingos ao seu modo ainda, cada paróquia, cada diocese, todos juntos. Uma Igreja em saída não é aquela em que se eleva um desbravador corajoso e vai abrindo caminho. A missão decorre da comunhão e da participação.

Edebrande Cavalieri

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