Rompendo o silencio do suicídio

20 novembro, 2020

Até a pouco tempo atrás falar sobre o suicídio era um tabu. Na esfera íntima só se falava em tom de confidência e publicamente era totalmente interditado A estrutura de tabu em torno deste assunto toma forma quando da publicação em 1774, de um livro de Goethe chamado “Os sofrimentos do jovem Werther”. O livro contava a trágica história de amor de um jovem e poderia ser apenas mais uma literatura clássica de Goethe na Europa, se não fosse o fato de ter levado muitas pessoas ao suicídio.

Pessoas que se mataram replicando as mesmas características cênicas de protagonista, após ler o livro.O Efeito Werther, como passou a ser conhecido esse fenômeno,mostrou o que pode ocorrer quando um suicídio é amplamente divulgado. Estudos posteriores comprovaram esse fenômeno e o resultado foi que ficou proibido divulgar suicídios e todos esconderam essas mortes. Pensavam que estavam prevenindo assim o suicídio.

Passaram-se muito anos até que se pode ter claro que ofato de evitar o assunto não só não previne o problema, mas nos impediu de perceber a epidemia silenciosa que está em curso.Ao contrário de não falar sobre o assunto, é tomando consciência do problema, conhecendo a realidade dos transtornos mentais que estão por trás de 96,8% dos casos de suicídio no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, é que podemos enfrentar os desafios para superar essa triste realidade.As estatísticas mostram o grave problema de saúde pública que está a nossa frente, mobilizando estudos e programas de prevenção não só no Brasil, mas pelo mundo afora.

Se alguém lhe perguntasse em qual grupo há maior incidência de depressão se no de idosos ou no de jovens, qual você diria que é? Pensou?

Acertou quem identificou que são nos jovens. Estudo da OMS apontou  já em 2018, portanto antes da pandemia, que a principal causa de morte entre 15 e 29 anos foi o suicídio, superando as causas por acidente. Só no último ano a taxa de suicídio no Brasil subiu 115%.Os adolescentes masculinos predominam nestas estatísticas.

Os cenários hoje na pandemia (como os previstos na pós pandemia) em nada são melhores: as questões da vulnerabilidade social e financeira, o desemprego,o stress social devido ao isolamento ou confinamento,a falta de perspectivas trazidas ou ampliadas pela pandemia são fatores agravantes deste cenários que devem persistir no pós-pandemia. Além disso as medidas de isolamento atuais levam muitos jovens a ficarem mais fragilizados ou pela falta do grupo que neste período é vital para lhes conferir a própria identidade, ou pelo distanciamento de seus afetos  ou, ao contrário, são atormentadas por estarem confinados na convivência em um lar abusivo. O isolamento social aprisionando o jovem em um ambiente nocivo o leva a adoecer.

A prevenção evidentemente vai variar conforme idade da pessoa. Pensando nos jovens temos que ter em conta que, além vulnerabilidade socioeconômica e da presença de sofrimento psíquico, atuam no Brasil, como fatores de risco importantes,o uso abusivo de álcool e outras drogas e todas as questões que se aliam ao mesmo.

São quatro os principais sentimentos de quem pensa em suicídio. São conhecidos como 4Ds:   depressão, desamparo, desesperança e desespero. Quando à percepção da presença destes sentimentos se acresce o que chamamos de “frases de alerta”, as ideias de morte são apresentadas claramente (“Preferiria morrer”, “Não aguento mais”…)Temos que ouvir essa realidade, como gritos por ajuda, pois estão se organizando em pensamentos e intenções suicidas concretas. A maioria das pessoas com ideias de morte dá sinais de seus 4D’s e esses pedidos de ajuda não podem ser ignorados. O risco de suicídio precisa ser cuidadosamente investigado. São sinais de 4D’s a falta de cuidado consigo mesmo tanto no plano da higiene pessoal quanto da alimentação; o desejo de isolamento fora da padrão da pessoa; a falta de interesse para com o ambiente a sua volta, o desinteresse em falar com as pessoas, em responder mensagens, a irritabilidade e a insônia, para citar alguns.

Escutar o grito de pedido de ajuda de seu filho ou filha pode necessitar trilhar vários caminhos de ajuda, mas vamos focar hoje no mais importante: na sua relação com este jovem que aqui imaginamos como sendo seu filho e você tendo com o mesmo(a) uma escuta empática, sem julgamento. É preciso chegar perto deste jovem acuado pelos 4 Ds, com o seu interesse despojado de seu olhar de mundo. Na maioria das vezes, não é preciso dizer nada, basta estar junto, inteiramente disponível e ouvir. A escuta empática, sem julgamento, nada mais é que isso: eu esvazio o meu ser de julgamentos (onde errei?, qual é a causa disso? quem é o culpado? isso é bobagem!  é frescura! é efeito de droga, das companhias… não importa) eu esvazio o meu ser de julgamentos e me coloco inteiramente no lugar de meu filho(a). Sinto o que é viver como ele(a) em um mundo em que desde bebê a pessoa é instigada a ter sucesso, a ser um vencedor, não tendo lugar para pessoas medianas. Lembro o que é ter hormônios explodindo descoordenadamente no meu corpo fazendo com que eu derrube tudo porque eu mesma perdi as referencias do tamanho do meu braço, ou perna. Penso na exposição das mídias sociais que meu filho tem e naquela espinha horrorosa que antes era escondida pela antiga pomada Minâncora, agora virou bullying virtual, um meme nas redes sociais, exposta para todos. Poderíamos dar exemplos por horas… o que importa é: ponha se inteiramente na pele de seu filho(a) com o olhar dele(a). Não julgando, não explicando, mas com a atitude básica que Carl Rogers nos ensinou: com aceitação incondicional. Aceite seu filho como ele é, sem julgamento. Rogers nos ensinou que nestas condições, todos buscam a saúde. Aos poucos vá abrindo janelas na sua comunicação com seu filho(a) e vai tirando os D’s da vida dele.

Ter uma escuta empática, cuidadosa, respeitosa e franca, sem dúvida,mas acima de tudo balizada com muito amor. Tenha calma, não apresse o rio. Dê tempo para que ele ou ela se sinta confiante e consiga pegar na mão que você lhe estende. Vocês dois vão sair transformados desta experiência de abertura e aceitação.

Entre em contato se tiver dúvidas.

Vania Reis

[email protected]

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