RUMO À SINODALIDADE

9 julho, 2021

Edebrande Cavalieri

A I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe nos coloca a necessidade de olharmos para uma das questões mais espinhosas e desafiadoras, presente na Igreja, que é o clericalismo. O Papa Francisco disse por diversas vezes que esse mal é “obstáculo para uma Igreja sinodal”. Está muito presente em toda a Igreja essa espécie de cultura clerical, que toma o ministério não como serviço, mas como poder e a Igreja como sua propriedade, sob seu controle.

O Papa Francisco alerta-nos dizendo que é raiz de muitos males na Igreja. Em diálogo com os confrades jesuítas de Moçambique em 2019 ele disse que “o clericalismo é uma verdadeira perversão na Igreja”, pois coloca o pastor sempre à frente, definindo a rota da Igreja e punindo com exclusão aquelas pessoas que se afastam do rebanho ou aquelas que são uma espécie de ameaça ao poder instituído pela pessoa. E acrescenta imediatamente que o caminho sinodal é o remédio eficaz para esse mal, pois coloca o pastor à frente, mas também atrás do povo para não perder ninguém e ajudar os que vão em marcha lenta e no meio do povo, caminhando junto. Podemos até generalizar dizendo que o clericalismo é a ausência da sinodalidade.

Nesses tempos de pandemia por diversas vezes e em muitos lugares, diante das orientações sanitárias e normativas da gestão pública que indicava a necessidade do fechamento dos templos para que se evitassem aglomeração e crescimento das infecções por Covid-19, ouvimos leigos, padres e até bispos dizendo que ninguém fecharia a sua Igreja. Nas redes sociais circularam diversos folders com os dizeres: “A porta que Deus abre ninguém fecha”; “Ninguém fecha a minha Igreja”; “Minha Igreja, um lugar seguro para as crianças”. Já vimos panfleto com os dizeres: “Essa é a minha paróquia. Ame-a ou deixe-a”. Essas expressões não são sem sentido; são muito tristes e contrárias ao Evangelho, pois a Igreja é de Jesus Cristo. Não existe um dono como se ela fosse uma empresa, um negócio, ou a própria casa onde se mora. O templo onde a comunidade se reúne pertence ao povo de Deus que se junta para a oração, para a instrução e para a Eucaristia (partir o pão).

De maneira bem concreta, outra situação em que se mostra o perfil do clericalismo pode ser encontrado em algumas situações em que, na administração de dioceses, os Bispos sentem muitas dificuldades na hora de transferir determinado padre de uma paróquia para outra. Entendemos o lado afetivo que une as pessoas e os próprios paroquianos gostariam muito que determinado sacerdote ali permanecesse, porém o caminho sinodal implica esse movimento de uma Igreja peregrina, em que seus ministros servem ao conjunto do povo de Deus e não apenas a um determinado grupo geográfico. Aqui temos que registrar como foi bonito ver os quatro diáconos provisórios enviados em missão, cumprindo a necessidade do estágio diaconal na Diocese de Conceição do Araguaia no Pará. Nesse pouco tempo aprenderam tantas coisas e relativizaram outras questões que lhes pareciam absolutas. Na missão, o que importa mais é o chamado de Deus e não os desejos e interesses pessoais.

O clericalismo também se entranha na vida cotidiana da Igreja quando numa paróquia ou comunidade não existem o Conselho para os assuntos econômicos e administrativos e o Conselho Pastoral. Como se conduz essa comunidade eclesial? Quem toma as decisões e de que forma? Em algumas comunidades há leigos que exercem um controle enorme a ponto de afastar e até excluir quem for ameaça a esse poder. São leigos clericalizados.

A voz do papa nos indica o remédio para esse mal. A sinodalidade deve atingir todos os espaços eclesiais: comunidades, paróquias, órgãos eclesiais, espaços formativos, etc. O clericalismo afeta até a questão do dízimo na medida em que não se mostram os balancetes, as necessidades, os projetos, etc. Nesse sentindo, o Papa fez algumas mudanças muito importantes na administração do Vaticano e convoca toda a Igreja para uma “absoluta transparência das atividades institucionais, especialmente no campo econômico e financeiro”.

O Sínodo da Amazônia reconheceu “a sinodalidade como uma dimensão constitutiva da Igreja” e para isso torna-se essencial o caminho da conversão para a superação o mal do clericalismo que aos poucos vai apagando “o fogo profético que toda a Igreja é chamada a testemunhar no coração de seu povo”.

Então nesse caminho de escuta que a Igreja da América Latina e do Caribe está realizando torna-se essencial a experiência da sinodalidade como prática corresponsável. Não serviria para nada se algum líder respondesse a todas as questões indicadas no Documento para o caminho e enviasse em nome da comunidade, da paróquia ou da Arquidiocese para a secretaria geral da Assembleia. Sabemos que dá muito trabalho ouvir o outro, o povo. É mais rápido responder em nome dele. Mas isso não é Igreja sinodal.

Por fim, a sinododalidade acaba se tornando o caminho mais seguro e forte em vista de um enriquecimento comunitário. Assim ganhamos força e coragem na caminhada. Foi na vida comunitária que os cristãos encontraram forças durante as perseguições. Nos dias que correm, diante de tantas inseguranças e desafios, alguns grupos se agarram às normas e às práticas tradicionais da Igreja numa espécie de restauração. Mas a orientação vinda do timoneiro da Barca de Pedro é a via sinodal, em que os pequenos grupos se ajudam comunitariamente.

Foi vivendo a experiência sinodal que os Apóstolos superaram as visões particulares, o legalismo na questão da circuncisão e os contextos culturais diferentes fazendo avançar a dinâmica de uma “Igreja em saída”. Foi caminhando todos juntos, tendo Pedro como exemplo de escuta e condução como está descrito de maneira magnífica em Atos 15, que a Igreja dos tempos apostólicos se abriu à ação do Espírito Santo.

O remédio da sinodalidade irá, com certeza, fortalecer a “Igreja em saída” missionária, superando o mal do clericalismo e outros males. Dará força para a caminhada ecumênica. E, sobretudo, fará aumentar o número de seus discípulos e de vocações sacerdotais. O clericalismo restringe e divide o corpo eclesial, e faz definhar a fé. A caminhada sinodal nos torna alegres, fortes, corajosos, esperançosos e livres.

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