Sexta-feira da Paixão do Senhor

15 abril, 2022

César Delarmelina |

 

A Liturgia da Igreja assume, nesta Sexta-feira da Semana Santa, o máximo de despojamento, à semelhança do acontecimento que comemora. A começar pelo ordenamento da própria cerimônia, que se apresenta privada de canto à entrada, das velas e do incenso – bem como da saudação e da veneração ao Evangelho-, em tudo transparece a gravidade e o silêncio, como convites à oração e à contemplação.

Terminada a prostração e concluída a Oração do Dia, inicia-se a Liturgia da Palavra, na qual se coloca em evidência a semelhança do Servo Sofredor e abandonado com o Cristo, Cordeiro inocente entregue e crucificado. De fato, as palavras cantadas no estribilho do Salmo Responsorial são postas na boca de Jesus, já na cruz, (Lc 23, 43) ao passo em que se realiza n’Ele a dramática sucessão de cenas descrita na Primeira Leitura, da profecia de Isaías (Is 52, 13-53, 12).

O drama da Paixão, neste dia, nos é narrado pelo Evangelista São João (Jo 18, 1-19, 42), que, a modo de Isaías, parece descortinar diante do leitor-ouvinte uma sucessão de atos, à semelhança da representação de um drama teatral. A dolorosa “peregrinação” de Jesus, julgado pela autoridade local e depois pelo representante de Roma, bem como as negações de Pedro, causam profunda impressão pela riqueza de detalhes, pela composição de lugar e de personagens.

Tal riqueza tem também em vista o proveito espiritual daquele que ouve e medita. Na verdade, nenhum dos personagens descritos nesta história da Paixão deveria passar como mero “figurante”, pois que a postura de cada um deles diante da entrega do Senhor pode muito bem assemelhar-se à nossa, em nossa caminhada cristã.

Em Judas, o ladrão-traidor, encontra-se aquele que, apesar de declarado discípulo e amigo próximo, deixa-se corromper e entrega, com um falseado gesto de amor – neste caso, um beijo – ao que só lhe quer bem. Não muito distante, um outro discípulo – do qual se esperava, pelo próprio nome que recebera, que fosse firme naquela hora -, sem pensar duas vezes, nega o Mestre por três vezes. Em todo este variado “corpo de atores” aparece quem, na sucessão dos atos, manifeste indiferença, desprezo, ou prefira somente lavar as mãos e se eximir de qualquer responsabilidade para com o condenado.

Duas figuras, dentre outras, no entanto, se destacam, pois que seguem invictas até o desfecho de toda a dolorosa trama: no alto do Calvário, Maria e um dos discípulos acompanham, em silêncio oblativo, a entrega máxima do Crucificado. Não obstante a presumível fragilidade da mãe-mulher, é ela quem ali permanece, por seu amor sustentada de pé (Jo 19, 25a), e, tendo muito amado, é entregue ao discípulo amado, que a acolhe consigo (Jo 19, 27). Note-se que o texto sublinha que o discípulo a acolheu consigo, e não somente em casa: ele a recebeu num vínculo verdadeiramente filial, e nele, toda a Igreja, que ali mesmo, à sombra do mistério da cruz, haveria de germinar e nascer.

Contemplando neste dia esta história de amor e entrega, reflitamos sobre a postura que desejamos assumir no desdobramento do drama, que ainda hoje se atualiza. Não se pode, de fato, comparar o relato da Paixão do Senhor com um roteiro de folhetim, mas sua atenta escuta, com o auxílio da reflexão e da imaginação, muito pode nos ajudar a enfim despir-nos de nossos personagens e caricaturas, para assim nos achegarmos de coração despojado, puro e sincero, ao trono da misericórdia – o altar da cruz. Que nos ajudem a Virgem das Dores e seu divino Filho Crucificado. Assim seja.

 

César Augusto Flegler Delarmelina 

Seminarista do 3º ano de teologia 

Paróquia de origem: São Sebastião do Alto Guandú, Afonso Cláudio – ES;

Paróquia de pastoral: Nossa Senhora de Guadalupe, Praia de Itaparica, Vila Velha – ES.

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