Solenidade de Nossa Senhora da Penha

25 abril, 2022

Pe. Jorge Campos | Homilia proferida na Festa da Penha, 2022, Missa da CRB, SAV e Seminário Nossa Senhora da Penha, celebrada no Campinho do Convento.

 

Povo eleito do Senhor! Povo regenerado e santificado no Mistério Pascal de Jesus Cristo.

Prezados Vocacionados, Religiosos, Religiosas e Seminaristas.

Sentimo-nos acolhidos por Nossa Senhora da Penha nessa manhã festiva. Com Maria, nos alegramos pela Ressurreição de seu Filho. Ele é o vencedor da morte, do pecado, das doenças e da dor.

Com Maria, podemos cantar: “salve, Cristo Jesus, vencedor da doença, da morte e da dor!

Quantas preces rogamos à Mãe de Jesus nesses anos de pandemia; rezando pela ciência, pela vacina, pelos cientistas, pelos médicos, pelos enfermeiros, pelos cuidadores… E continuamos a rezar nessa Festa da Penha suplicando: “Saúde dos enfermos, rogai por nós”!

As leituras de hoje nos apresentam três mulheres: Judite, Izabel e Maria. Aliás, desde o Domingo de Páscoa, estamos acompanhando o protagonismo das mulheres no anúncio e reconstrução do projeto de mundo novo; inaugurado por Cristo na Cruz.

Judite: mulher judia, como o próprio nome indica, mulher do povo, do povo de Deus, mulher viúva de bela aparência, temente a Deus e em sintonia com os sofrimentos do povo de Deus. No texto proclamado ela é exaltada porque se opõe à ruina, ao extermínio de seu povo. Povo fragilizado e que corre grande risco. Povo dominado e explorado pelos poderosos, que impunham suas ideologias e seus costumes contrários aos costumes, à religião e à cultura do povo de Deus. Esses poderosos, com sua força de guerra e exércitos, são uma ameaça para o povo Deus.

Diante desse contexto de morte, perigo e aniquilação do povo de Deus, a viúva Judite sai do luto. Do luto à Luta! Do luto pela perda do esposo à luta pela defesa da vida e sobrevivência do povo. Ela deixa as vestes de viúva e supera, não somente sua condição social e cultural, mas também o preconceito da cultura patriarcal onde as mulheres não podiam assumir liderança de destaque como protagonistas na condução e libertação do povo.

A Palavra de Deus nos diz que ela se levanta. Estar de pé: gesto de prontidão para agir, para lutar e para colocar-se à disposição do Senhor. Judite se prepara para enfrentar o inimigo do povo de Deus. Judite, antes de sair para a luta, eleva uma prece a Deus dizendo: “Senhor, escuta esta viúva! Aí estão os inimigos cheios de orgulho; eles quiseram profanar teu Santuário. Dá força à mão desta viúva, para eu fazer aquilo que planejei! Esmaga a altivez de Holofernes pelas mãos de uma mulher, pois Tu és o Deus dos humildes, o socorro dos mais pequenos, o defensor dos fracos, o protetor dos rejeitados, o salvador dos desesperados”.

Terminada sua prece, Judite vestiu-se com traje esplendoroso, ungiu-se com um perfume especial, colocou na cabeça um diadema refulgente de pedrarias, enfeitou-se com um colar de pérolas, braceletes, anéis, brincos e calçou sandálias bordadas de ouro; essas sandálias eram tão bonitas que iriam arrebatar os olhos do general.

Irmãos e irmãs, nós também, pelo Batismo, somos revestidos com as vestes da salvação, ungidos com o óleo perfumado. Exalando por toda parte o odor de Cristo, o perfume da Graça e da Santidade, podemos enfrentar os inimigos que se opõe ao nosso propósito de vida. Podemos, nesse mundo de superficialidades e banalidades, seduzir novos irmãos para Cristo, para a Igreja, para o Reino e para tantos projetos que visam salvar o povo da fome, da indiferença e da violência.

Judite é prenúncio, figura da mulher cheia de graça, bendita, corajosa, mãe dos pobres, que enfrentará o Calvário com seu Filho Jesus. Judite – ao decepar a cabeça do inimigo – quer mostrar que, pelas mãos dos que lutam com o Senhor e pelo seu reinado, se pode com coragem e fé desarticular os planos malvados, os cérebros pensantes do mal e das articulações malignas e maldosas.

Essas cabeças do mal serão vencidas, esses comandos pensantes contrários ao projeto de Deus serão esmagados com todas as suas articulações: poderes de ontem e de hoje que se opõem ao projeto de Deus e que estão a serviço da morte, da guerra e de todo tipo de mal.

Maria, mulher judia, – prefigurada em Judite, em Esther e em tantas mulheres da Bíblia – menina de Nazaré, cheia de graça e beleza, escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador, em seu belíssimo cântico proclamado nessa liturgia, com espírito alegre e coração agradecido reconhece: o Senhor “olhou para a humildade de sua serva”.

E pronuncia palavras revolucionárias: “dispersou os soberbos de coração. Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias”.

Ao sofrerem a ação “de destronar os poderosos e ricos e despedi-los de mãos vazias”, também estes – os ricos e poderosos – recebem do próprio Senhor a oportunidade de serem elevados ao Reino dos Céus; de terem verdadeiramente tesouros não perecíveis; de, em Cristo, terem a oportunidade de encher mãos e coração de graças e de bens eternos: aqueles tesouros no céu, onde nem a traça e nem ferrugem corroem.

Em Isabel, também judia, Deus fez o impossível: já em idade avançada ficou grávida de João Batista, o grande profeta precursor, que preparou o povo para a chegada do Messias. Isabel, cheia do Espírito Santo, agraciada por tornar-se uma das personagens protagonistas no Mistério da Encarnação, tem a alegria de ser a primeira a pronunciar, a gritar, as palavras com as quais nós rezamos em cada Ave Maria: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto do teu Ventre”!

Três mulheres: o que elas têm em comum? Esvaziam-se de si mesmas e se deixam transbordar da presença de Deus. Mulheres repletas de fé, de corações transbordantes de amor, de esperança e de coragem.

Elas representam todos os pequenos e fracos aos olhos do mundo, mas portadores de uma força transformadora da realidade; porque guiados por Deus. São mulheres mobilizadoras, não de projetos pessoais, mas de projeto de povo; projeto de sociedade; projeto de mundo novo sem exploração, violência e doenças, sem guerras e injustiças; de projetos de Reino de Deus.

Nesse ambiente pascal, vivido de forma tão vibrante nessa Oitava de Páscoa e Festa da Penha, essas três mulheres transfiguradas pelo Mistério da Redenção têm muito a nos ensinar, a nos inspirar e encorajar. Falam, sobretudo, a nós vocacionados, religiosos, religiosas e seminaristas.

Falam-nos e ensinam-nos: 1) a sintonia e o conhecimento da realidade do povo, dos seus desafios, dos seus sonhos,   de suas alegrias e de suas esperanças; 2) a capacidade de transcender nossas fragilidades; e, com fé e ousadia,  nos impulsionam a lançarmo-nos na missão ao encontro dos irmãos; para anunciar-lhes o Evangelho da Alegria e apresentar-lhes a Igreja e a proposta do Reino; 3) a capacidade de admiração, de contemplação e de reconhecimento da  Santidade, da Misericórdia e do  poder de Deus; 4) a buscar cotidianamente fazer a experiência da kenosis, do esvaziamento, da humildade.

Convidam-nos, por fim, a abandonarmos nossos projetos de poder e pretensões triunfalistas.  Propõem-nos a recusa às tentações de grandeza e de autossuficiência; para sermos verdadeiros discípulo-missionários.

Nesse ousado projeto de vida temos como Mãe e Mestra a Virgem Maria, que nos ensina a rezar e a cantar: “a minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu salvador, porque olhou para a humildade de sua serva”.

Assim seja. Amém!

 

Padre Jorge Campos Ramos

Vigário Geral da Arquidiocese de Vitória e Reitor do Seminário Nossa Senhora da Penha

 

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