STRESS DA VIDA SACERDOTAL

26 janeiro, 2022

Antes que termine o mês de janeiro marcado por uma campanha que vai crescendo ao longo dos anos e conhecida como “janeiro branco” que objetiva o enfrentamento de um dos maiores problemas em termos de saúde mental, vamos dedicar esse artigo a um conjunto de pessoas com as quais lidamos diretamente nas Igrejas e tantas vezes são esquecidas em suas dificuldades e na própria saúde. Faço isso em função da importância do tema e pela estima e consideração por tantos padres e alguns bispos com os quais tive oportunidade de trabalhar em sua formação.

Estamos muito mal acostumados a ver apenas o padre e demais ministros ordenados com as vestimentas litúrgicas, em celebrações maravilhosas, que tocam nossa alma e nos deixam em estado de graça. Tantas vezes nem olhamos a pessoa que vive sob estas vestimentas. Como vive? Que dificuldades possui? Será que sofre? Ou é um super herói da religião? Será que é um ser humano?

É muito bonito ver padres e demais ministros ordenados, nesse mês de janeiro também tirando férias, viajando, postando fotos dos lugares visitados. Não eram visitas apenas às Igrejas rsrsrs. Como é bonito ver fisionomias felizes e de bem com a vida! Não há incompatibilidade nenhuma entre o Evangelho e a beleza da vida! Os apóstolos não foram convidados para participarem de eventos tristes na vida com Jesus. Ele queria apenas que o seguissem. Tantas vezes cobramos muito de nossos ministros ordenados! Quando ocorrem exageros, as redes sociais são implacáveis. Então muitos nem ousam se aventurar numa viagem de cunho turístico.

Tem crescido muito as pesquisas e publicações a respeito do sofrimento psíquico dos sacerdotes, algumas abordando em sentido mais amplo como adoecimento emocional de líderes religiosos cristãos. Segundo a Internacional Stress Management Association a vida sacerdotal é uma das atividades ou profissões mais estressantes da atualidade. Segundo pesquisa de 2008, 28% dos padres entrevistados mostravam estarem “emocionalmente exaustos”. Trata-se de um percentual muito elevado e que tem trazido casos agudos de depressão que levam ao suicídio.

Esse é outro problema que temos até receio de tocar; é quase um tabu, mas está presente entre nós. A depressão e a Síndrome de Bournout, que são as mais conhecidas entre nós, matam de diversas formas, entre elas a interrupção da vida.

Acreditamos piamente que a fé seria suficiente para superar todos os desafios que o sacerdote encontra pela frente no dia a dia. Poucas pessoas sabem o grau de exigência da Igreja em relação a eles. Idealizamos um padre como modelo de virtude e santidade, um novo Cristo entre nós que consegue carregar todas as cruzes das cada pessoas que o procuram e assim o submetemos na vida pastoral. Como se trata de uma pessoa pública, qualquer deslize é fatal para a sua vida. Pode ser um simples gesto no altar, num momento de desatenção. Em tempos atuais tudo é gravado e distribuído. E aquele segundo, no dia seguinte, torna-se um inferno. Haja força e fé para aguentar o estrago em sua vida.

Um dado marcante também na pesquisa da Associação citada acima é que no meio do clero diocesano o stress é mais intenso que no meio do clero religioso, que convive numa comunidade. Tem momentos que são muito desafiadores para o presbítero como do final de semana, no domingo a noite, quando todas as atividades pastorais foram realizadas com tanto esmero e empenho, e o padre retorna para a sua casa. Deu tudo de si. Mas tantos sentem-se esgotados, exauridos, sugados. Encontrar formas para superar esse momento é um grande desafio na vida religiosa. O convívio numa comunidade religiosa é o caminho que os padres de congregação encontram para superar a solidão dessa hora. O cansaço é grande, que nem o sono parece vir em seu socorro.

No contexto da campanha do “janeiro branco”, um mal ao qual todos estamos envolvidos é a publicização da doença. Parece que ao se falar que alguém está com depressão é motivo para deboche, indiferença ou simplesmente negação de qualquer ajuda. Vejamos como em nossas organizações sociais é tratada a depressão em seus funcionários. Na Igreja é um pouco pior em relação aos padres. Logo algum desavisado vai dizer que o problema daquele padre é falta de fé. Essa é a forma mais cruel para se tratar da depressão no meio sacerdotal. Além do mal em si ainda ele recebe o juízo de que está em “crise de fé”. Isso é muita crueldade.

Nessa via “crucis”, o nosso sacerdote passa a dormir cada vez menos, geralmente tendo que tomar remédios para o sono, passa a se alimentar da pior maneira, aumentando seu grau de irritação com tantas pequenas coisas que se tornam enormes em decorrência de sua doença. Até o caminho do álcool pode ser percorrido. Acho que não podemos mais fingir que isso não acontece entre nós. Como a Igreja cuida de seus pastores?

Com a idade avançando, e o padre transformando-se cada dia numa verdadeira “máquina de distribuição de sacramentos”, logo vai se cansando, e chegando à casa dos 60 a 70 anos passando a viver cada vez mais isolado numa solidão desastrosa, ao ponto de um sacerdote dizer: “nós já não somos importantes, apenas uma presença reconhecida em certas cerimônias, praticamente às margens da vida”.

Muitos adotam como caminho de seguir doente caindo no isolamento ou no silêncio. Contudo, ao longo dessa via vai deixando sinais do próprio adoecimento. Quando acompanhava os seminaristas em salas de aula o que eu mais temia era o silêncio da turma. É perigoso e traiçoeiro. Sempre admirei alunos e lhes dei essa possibilidade de falarem o que estavam sentindo do percurso pedagógico que conduzia. É preciso temer o silêncio nessas circunstâncias de stress. Pode não ser o melhor sinal para a superação dos obstáculos pastorais.

O Vice-Presidente da CNBB dom Jaime Spengler sugere que os padres devam buscar ajuda imediata junto ao seu bispo local, que é o grande responsável pelo cuidado de seus filhos. Mas também o bispo está nesse mesmo contexto precisando de ajuda. Não é fácil. Muitas pesquisas estão sendo desenvolvidas pelo mundo afora tomando essa problemática como foco e atenção. Há diversas iniciativas pelo mundo afora. Em algumas dioceses está se desenvolvendo a Pastoral Presbiteral que além da formação permanente dos sacerdotes busca discutir os caminhos da saúde física, psíquica e afetiva dos mesmos.

Como se trata de uma campanha, esse problema não poderia ficar dissimulado ou indiferente à vida eclesial. Deus chama os seus ministros ordenados em sua totalidade e não apenas uma parte deles. É um chamado para cuidarmos das necessidades espirituais, com certeza, e nunca se deve abrir mão dessa necessidade na formação dos padres. Mas Deus os chama também nas necessidades da mente, sem sofrimentos, sem stress e sem depressão. E Deus os chama por fim nas necessidades do corpo. Sem cuidar do equilíbrio dessas três dimensões, o super herói em pouco tempo estará esgotado. Descartado!

Edebrande Cavalieri

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