Trabalho e dignidade humana

27 abril, 2022

Estamos saindo aos poucos da reclusão provocada pela pandemia e, em muitos casos, em situação muito pior em termos de satisfação das necessidades essenciais como o alimento para saciar a fome. Pelas ruas os pedintes aumentaram pedindo comida. Os empregos diminuíram ou tornaram-se subempregos como aqueles que trabalham mediante aplicativos na entrega de bens e alimentos às casas mais abastadas.

Assim chegamos a mais um dia 1º de Maio quando se celebra o Dia do Trabalho. O que vamos celebrar? Qual a realidade do mundo do trabalho hoje no Brasil? Temos, conforme dados do IBGE, 12 milhões de pessoas que procuram vaga no mercado de trabalho. Desse total, 4 milhões de pessoas estão há mais de dois anos buscando emprego/trabalho. As pessoas com baixa qualificação ou nível escolar são as que mais sofrem nesse mundo de sobrantes. Ainda segundo o IBGE em 2022 a renda familiar teve uma queda de 8,8%, ou seja, as pessoas empregadas tiveram perda no poder aquisitivo. Isso afeta de maneira mais aguda as famílias com trabalhadores com menor qualificação educacional e profissional. O quadro real que explode em nossa vida de maneira mais dura é verificar que 40 milhões de pessoas estão sem vínculo formal, ou seja, sem carteira assinada. Vivem de bicos ou trabalhos com aplicativos.

O Papa Francisco tem se debruçado incessantemente sobre essa questão, atuando com encontros com os Movimentos Populares, e alertando para que não parem de lutar. E nos convoca como cristãos e católicos que lutemos para que “não falte trabalho a nenhuma pessoa e todos sejam justamente retribuídos e possam gozar da dignidade do trabalho e da beleza do repouso”. Portanto, a luta que implica a fé cristã é para que haja trabalho para todos com remuneração justa e que permita a cada trabalhador poder descansar com seus familiares.

E alerta de maneira radical que no mundo “há muitos escravos, escravos do trabalho para sobreviver: trabalhadores forçados, mal pagos, com a dignidade espezinhada”. E cita como exemplos concretos os empregados diaristas, as trabalhadoras domésticas a quem não se paga o que seria justo e não tem proteção social. Nas casas de muitas pessoas religiosas estão trabalhadoras sem os justos mecanismos de proteção social como carteira assinada. E conclui o Papa Francisco: “Toda injustiça que se faz ao trabalhador é espezinhar a dignidade humana”.

O Magistério da Igreja, especial sua Doutrina Social, sempre foi muito zelosa em relação à dignidade da pessoa defendendo profeticamente que o “desenvolvimento integral da pessoa humana no trabalho não contradiz, antes favorece, a maior produtividade e eficácia do próprio trabalho” (DSI, nº 278). O Papa Paulo VI dizia logo após o Concílio Vaticano II que se o tão falado critério da eficácia econômica não serve para a promoção de todos os homens e do homem todo, então, na verdade, ele não serve para nada (Populorum Progressio, nº 14). Nos dias atuais, no Encontro com os Movimentos Populares de 2015, o Papa Francisco clamando diz: “Não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata”.

A Igreja do Brasil no período de 2020 a 2023 convoca todos os cristãos e organizações sociais para a 6ª Semana Social Brasileira com o tema “Mutirão pela vida: Por Terra, Teto e Trabalho”. Está em plena sintonia com o Magistério do Papa Francisco que em 2014 clamava: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”.

Finalizando, ao celebrar o 1º de Maio não há outra via senão seguir o apelo do Papa Francisco: “Continuem a luta”.

Edebrande Cavalieri

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