UM DESAFIO ÀS PARÓQUIAS DO BRASIL

25 fevereiro, 2026

Na Missa de abertura da Campanha da Fraternidade deste ano na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, Dom Jaime Spengler, presidente da CNBB, disse que “seria muito bonito se cada paróquia da Igreja do Brasil pudesse propor, neste tempo ou durante este ano, a construção ou ajudar em reformas, a preparar uma casa para quem não a tem”. O que era uma sugestão de gesto concreto nesse período de Quaresma tornou-se um verdadeiro desafio cristão.

Diante de uma realidade com 26 milhões de famílias vivendo em moradias inadequadas e sabendo que temos mais de 12.000 paróquias, esse gesto concreto seria um dos braços da dupla caridade, com Deus e para com o próximo. Um amigo meu, ateu convicto e professor universitário, reagiu à essa proposta nas redes sociais dizendo: “Aí, até eu que sou ateu, colaboro”. Doze mil moradias é pouca coisa, mas seria muito significativo e agradável a Deus.

Da Campanha da Fraternidade do ano passado, também foi sugerido que cada paróquia realizasse um gesto concreto simbolizando o caminho de conversão ecológica. Hoje, soubemos que uma paróquia inteira da Arquidiocese de Vitória decidiu abolir o uso de produtos descartáveis como copos, garrafas PET, pratos etc.

O lema da Campanha desse ano é tirado das Sagradas Escrituras e é muito significativo: “Ele veio morar entre nós”. Somente o Cristianismo possui um Deus que se encarnou, que nasceu como todas as crianças, que precisou de berço para dormir, de casa para morar. Mas, o seu Natal não foi nada agradável. Restou-lhe apenas um estábulo de animais, um coxo chamado de manjedoura para dormir, e o céu estrelado, num clima de muito frio.

Nos momentos de repasse das reflexões em preparação para a Campanha nas paróquias sempre perguntávamos pelos maiores problemas daquela paróquia relativos à moradia. Na grande Vitória, os moradores em situação de rua afrontam nossa zona de conforto. É difícil encarar essa realidade. O segundo maior problema se refere às moradias em área de risco, à beira de rios, nos morros, nas encostas, nos manguezais. Em seguida, temos os problemas das pessoas que foram despejadas de suas moradias.

Outros problemas, não menores, são relativos às regularizações das moradias, o alto preço dos aluguéis e moradias minúsculas para grandes famílias. Em uma das reflexões dizíamos que não sabemos o que é morar em casa de chão batido, feita de estuque, em casa cheia de goteiras, pois o telhado é de palha ou tabuinhas apodrecidas.

A proposta de cada paróquia construir ou reformar alguma moradia em sua área pastoral pode se completar com outras ações também importantes como mapeamento da situação habitacional do bairro, do município, e os processos de informação relativos aos direitos das pessoas. Muitas vezes, há programas habitacionais, contudo, as pessoas que poderiam ser contempladas em decorrência dos dados do CAD Único sequer tomam conhecimento dessas oportunidades.

Muitas pessoas justificam seu descompromisso na Campanha da Fraternidade alegando que a Quaresma é tempo de jejum. Porém, o texto bíblico de Isaías 58 é muito claro. Deus disse: “O jejum que me agrada é que vocês repartam a sua comida com os famintos, que recebam em casa os pobres que estão desabrigados, que deem roupas aos que não tem e que nunca deixem de socorrer os seus parentes”.

O Evangelho de Mateus (25) não deixa por menos a necessidade da caridade para com o próximo. O Rei, no juízo final, dirá: “Vinde, benditos de meu Pai…pois tive fome e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; estava nu, e destes-me vestimenta”. O mesmo Rei também poderá dizer: “Estive sem moradia, e destes-me uma casa”.

A proposta de construção de uma casa ou sua reforma, para cada Paróquia, pode parecer pouco. Contudo, este gesto concreto servirá de testemunho de nossa fé. Até mesmo os ateus estarão dispostos a entrar nesse mutirão. Por que não nós mesmos?

O Papa Leão XIV, em sua mensagem à Igreja do Brasil, nos propõe que não nos prendamos a ações pontuais que são necessárias, mas que gere em todos a consciência de que “a partilha dos dons deve ser uma atitude constante e que nos comprometa a ir ao encontro de Cristo presente naqueles que não tem onde morar”.

Edebrande Cavalieri

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