UM NATAL PARA RECONSTRUIR LAÇOS

21 dezembro, 2022

O Natal desse ano nos traz um grande desafio para ser celebrado nos parâmetros da fé cristã. Chegamos ao final dele com muitas dificuldades na convivência social e familiar, na manutenção do diálogo com as pessoas divergentes que compunham nosso próprio contexto. De repente nos vimos tão diferentes e distantes uns dos outros. Em algumas situações e momentos o convívio era sufocante. Sonhamos com maior aproximação através das redes sociais, mas elas acabaram servindo para a disseminação de fake News e rachas virtuais que nos fizeram sofrer muito. Que família não teve um estremecimento, mesmo pequeno?

As eleições desse ano tornaram-se caminho da discórdia e da guerra. Foram feitos caminhos pavimentados de ódio e raiva ao longo dos últimos anos. Adoecemos com armas na mão, com ofensas de todo calibre, com xingamentos de toda espécie. A saúde mental ficou em pandarecos. Sem que percebêssemos, fomos nos fechando em grupos que defendiam ideias semelhantes, afastando todos aqueles que discordavam. Até mesmo as comunidades eclesiais sofreram rupturas. Em vez do exercício do amor fraterno, caímos no discurso e na prática do ódio e da intolerância. Até mesmo dos púlpitos para a pregação da Palavra nas Igrejas cristãs explodiam palavras que estavam bem longe das Bem-Aventuranças evangélicas. Líderes religiosos tornaram-se coronéis “sagrados”.

Então, chegamos ao final do ano, e nos vem a questão: como celebrar essa festa de maneira cristã, não hipócrita? Como resgatar a esperança de uma convivência solidária e fraterna? Como comungar na mesma ceia de Natal? Confesso que nunca tive tanta dificuldade para refletir sobre esse momento como sempre faço e compartilho com as pessoas através desse site da Arquidiocese. Nem o título eu conseguia criar. Por fim, veio esse que me parece muito significativo – reconstruindo laços. Afinal, são muitos laços que foram rebentados, outros foram desfeitos e alguns queimados pelo ódio violento.

O Natal desse ano de 2022 é muito mais que uma festa. É uma tarefa. Somos chamados pelo Menino Deus para reconstruir nossa vivência familiar e social. O nascimento de Jesus que os evangelistas denominam como “encarnação do Verbo” é a constituição mais profunda do laço que Deus realizou com a criação. Fomos através desse evento salvífico enlaçados, bem enlaçados. Um laço que suportou as dores da Paixão e a morte na cruz. Não há maior laço que esse. E é esse laço que torna a nossa fé verdadeira. Por isso, ela não é vã como nos diz São Paulo. A vida inteira de Jesus, desde o nascimento até sua morte, foi a expressão do laço de Deus com a humanidade.

Como seus discípulos somos chamados a ampliar os enlaces pelo mundo a fora. A verdadeira fé está exatamente nessa dinâmica de continuidade do enlaçamento de Deus com a humanidade, e somente assim seremos reconhecidos como dignos de Deus. O tempo da Igreja é esse processo de salvação, construindo pontes, construindo laços. Uma Igreja que não serve como construtora de pontes e de laços não está a serviço de Deus.

Continuamos assim com desafios históricos, que compete a nós. É nossa tarefa, é nossa missão. Temos necessidade de superar os sinais de anti-natal que espalhamos ao longo do ano em nosso redor. Precisamos também superar o anti-natal das desigualdades sociais, da devastação ambiental, da concentração da riqueza e da exclusão de milhares de pessoas. Temos que superar o anti-natal do racismo, da intolerância, do machismo e de tantos feminicídios. Acima de tudo, a ceia natalina não é compatível com o cenário da fome, presente nas pessoas ao nosso redor. O deboche de pessoas comendo carne folheada a ouro no Qatar não pode ser tolerado nem como simples notícia.

O Papa Francisco nos disse há poucos dias que o “Natal é a festa do Amor encarnado, do Amor nascido por nós em Jesus Cristo”. Sempre que falamos em casamento dizemos “enlace matrimonial”. Estamos diante desse grande evento amoroso de Deus, desse grande enlace. Ao mesmo tempo ele nos chama a atenção para o anti-natal que é a guerra. O mundo está diante de uma mística da destruição. É uma loucura. Sempre destrói. A guerra começou com Caim e continua com todos aqueles que destroem o irmão, o outro. Quem mata não é “gente de bem”! Dá para entender?

O Natal é incompatível com armas nas mãos, com exércitos destruindo tudo. É incompatível com nossa realidade cotidiana em que achamos que teríamos direito a portar armas. Jamais uma arma produzirá enlace de amor, mas de destruição do outro como aquele jovem de Aracruz que até uniforme militar nazista usava para destruir tantas vidas naquelas duas escolas. Com tiros certeiros não há a mínima chance de um laço cristão. Hoje seus colegas não querem mais retornar àquele lugar que era expressão de paz e tranquilidade. As marcas da dor são fortes demais.

Então, não podemos manter nossa consciência tranquila nessa noite de Natal enquanto tantas pessoas passam fome, enquanto tantas pessoas tombam na guerra, enquanto a natureza tomba devastada pela destruição dos tratores e motosserras. Que noite feliz queremos? Como será digno do Menino Deus o nosso canto?

Edebrande Cavalieri

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