Um triste tempo: estamos sendo privados do direito ao luto

Vania Reis |

Lidar com o desconhecido já é difícil para a maioria de nós, mas lidar com algo que não conheço e que está cercado de mistérios de toda natureza, amedronta. Falar de morte incomoda, de mais de 300 mil mortos assusta. Para visualizar melhor são quase quatro Maracanãs cheios. Imaginando uma família nuclear pai, mãe e filho temos, minimamente, onze Maracanãs cheios de pessoas vivendo a perda de pessoas queridas.

Muitos estão experimentando a dor desse momento de partida. Muitos estão vivendo o luto, que ao mesmo tempo é particular, mas passa à dor coletiva pela perda de tantas pessoas amadas. Na pandemia, diferente de outros tempos, estamos impedidos de vivenciar apropriadamente esse luto. Não podemos realizar as despedidas nos rituais consoladores de funeral e enterro. Despedir, dar um beijo na testa, segurar na mão entrelaçada. Colocar um terço em suas mãos, olhar a pessoa sem vida, chorar, olhar de novo até o coração entender a realidade. Abraçar amigos, chorar nos ombros de outros queridos, tudo isso faz parte do processo do luto e é fundamental para encarar as dores mais profundas, acolher a angústia e a tristeza que são necessárias de serem vividas para, com cuidado, se organizar emocionalmente depois. É uma travessia penosa, mas que vivida em sua plenitude é curativa.

Nesta pandemia esse processo é todo recortado. O doente na UTI, uma vez morto é mais um corpo que é ensacado e posto em um caixão e lacrado para ser entregue aos familiares. A família não pode se despedir, olhar, tocar, beijar… Ao choro, falta a presença do morto querido. Um vazio, uma falta. Não há velório, não há consolo dos amigos, o enterro presenciado por poucos familiares, o medo do contágio ronda e o coração está dilacerado. Na missa de sétimo dia, poucos se aproximam. A dor é reprimida, é contida e a recuperação emocional certamente será penosa.

Como psicóloga, sei que reprimir as emoções, não enfrentar o luto, não se permitir vivenciar o processo da dor, traz dificuldades emocionais significativas. Sem ver o corpo fica mais fácil negar a morte. Sem viver os ritos de passagem entre a vida a morte o processo, como um todo, fica bem mais comprometido.

Como Padre Fábio tweetou em relação à sua mãe, que está na UTI: a fé não nos torna imunes ao sofrimento. Temos fé e rezamos com lágrimas. E assim precisamos agir, deixar fluir a dor, o medo nas lágrimas, falar da dor, partilhar os sentimentos de solidão e aos poucos, paulatinamente, a paz vai retornando.

Você vai poder aos poucos transformar em obras sua dor, acelerando a cura. Faça caridade, doe seu amor aos necessitados, até mesmo em função da própria pandemia, pessoas que estão desempregadas, guie, oriente, distraia a sua solidão e transforme sua dor em amor ao que tem ainda menos que você. Não será mágico, terá altos e baixos é certo, mas com a fé em poder reencontrar a pessoa amada após a nossa morte, podemos aspirar a paz de Cristo.

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