Uma Campanha Ecumênica

10 fevereiro, 2021

Edebrande Cavalieri

A Campanha da Fraternidade deste ano está programada para ser realizada de maneira ecumênica, seguindo uma proposta que vem sendo feita desde o ano 2000 a cada cinco anos, ou seja, todas as Igrejas que participam do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs estão empenhadas nessa caminhada comum. Que Igrejas participam dessa Comissão? Igreja Apostólica Romana, Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Presbiteriana Unida, Aliança de Batistas do Brasil; ainda participaram da preparação os representantes do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e a Igreja Betesda.

Gostaria de tratar nessa artigo um pouco da história do Ecumenismo, e assim esclarecer algumas incompreensões e equívocos a respeito dessa temática. Considerando que o Ecumenismo foi muito bem definido pelo Concílio Vaticano II, aprovado por 2.200 bispos do mundo inteiro, não se trata de opinião particular de uma determinada autoridade religiosa. O Concílio é Magistério da Igreja.

Antes de mais nada a palavra ecumenismo vem da língua grega – oikouméne – que significa literalmente “mundo habitado”. Ou seja, estamos falando de nossa “casa comum”. E no meio cristão esse termo se refere à unidade das Igrejas de fé cristã ou até a unidade entre as religiões.

A principal referência bíblica está em Jo 17, 21. O desejo de Jesus Cristo é que todos sejam um assim como a própria Trindade é una. Os primeiros Padres da Igreja ao realizarem as Assembleias conciliares passaram a denominá-las de ecumênicas. Portanto, a ideia de ecumenismo é ponto central da fé cristã expressa de maneira claríssima pelo Evangelista João.

Antes de mais nada é preciso distinguir ecumenismo de diálogo inter-religioso. Enquanto o ecumenismo se relaciona com o caminho conjunto de Igrejas Cristãs, o Diálogo Inter-religioso se apresenta como a disposição de abertura entre as Igrejas, entre as religiões, dos mais diversos credos e doutrinas. O diálogo projeta a construção de uma ética mundial em vista da sobrevivência humana; tem no horizonte a construção da paz entre as religiões.

Aqui está o grande desafio da humanidade. Uma ação ecumênica envolvendo as Igrejas cristãs é o primeiro passo de coragem em direção ao diferente. Se não conseguirmos nos abrir e dar as mãos entre os cristãos, impossível será um diálogo com as doutrinas mais distantes do credo cristão. Logo no início do século XX com a I Guerra Mundial o ecumenismo tomou um caminho como movimento formado para resolver o problema da paz, conforme descreve o Arcebispo luterano Nathan Söderblom.

O grande ideal seria na verdade um ecumenismo universal, indicando assim a possibilidade concreta de se viver na mesma casa. O Papa Francisco tem insistido muito no projeto de se constituir uma casa comum, onde se respeitam as diferenças principalmente doutrinárias e se pratica uma fé sustentada pela caridade e solidariedade. Na verdade, são esses fundamentos da fé cristã que tornam possível a convivência entre as religiões, pois jamais as ações de caridade e de solidariedade serão condições de separação entre os povos.

O ecumenismo não nasceu nem da teologia, nem dos dirigentes eclesiásticos, mas de grupos independentes de renovação religiosa, e muitas vezes até com atitude deliberada e consciente de oposição ao que estava instituído. Não nasceu nas Igrejas, mas a sua margem. Nasceu na atuação e nos ideais de cristãos leigos e leigas que desenvolveram profundamente o espírito de diálogo e aspiração à unidade.

Esse movimento nasceu no século XIX entre leigos e leigas, que se uniam para orar e realizar ações de caridade. Posteriormente os líderes das Igreja se integraram na caminhada ecumênica de caráter laical. Era um movimento cristão, mas a Igreja Católica não esteve presente nesse início. Era difícil naqueles tempos superar a posição de exclusivismo eclesiástico baseado na tese de que “fora da Igreja não haveria salvação”.

Os primeiros grupos ecumênicos reuniam jovens (1844), mulheres jovens (1854), Estudantes cristãos (1895). A preocupação não era aproximar as Igrejas, mas evangelizar a sociedade e os ambientes universitários. Pode-se dizer que era predominantemente uma aspiração de jovens que buscavam ampliar o Reino de Deus entre a juventude. Foi através desses grupos de jovens que as Igrejas realizaram a aproximação e o intercâmbio ecumênico. O primeiro grupo de jovens católicos acabou se aproximando ao movimento de Oxford (Universidade) no seio do anglicanismo, mesmo não tendo autorização eclesiástica para isso.

Esse movimento de jovens no ecumenismo expandiu a perspectiva internacional, organizando muitos eventos reunindo jovens dos mais diversos países e isso acabou fortalecendo a preocupação missionária em direção às novas Igrejas da Ásia e da África. Aqui temos um ingrediente valiosíssimo: a construção de uma unidade na missão. A missionariedade é um caminho muito propício ao desenvolvimento do ecumenismo até hoje.

Um grande passo na Igreja Católica foi dado em 1952, com o Papa Pio XII que criou a Conferência Internacional para os Problemas Ecumênicos. Em 1960 essa Conferência foi transformada em “Secretariado para a Promoção da Unidade Cristã”. Com a convocação do Concílio Vaticano II esse tema foi objeto de uma Comissão Conciliar, responsável pela elaboração do Decreto sobre o Ecumenismo “Unitatis Redingratio”. Entre 1962 e 1965, em torno de 2.200 bispos do mundo inteiro participaram ativamente desse grande evento eclesial, e foram esses bispos de maneira conjunta (sinodal) que aprovaram o Decreto sobre o Ecumenismo, reconhecendo-o como um movimento causado pelo Espírito e uma tarefe para toda a Igreja, fieis e pastores.

Desta forma se entende que a questão do ecumenismo definida pelo Concílio Vaticano II faz parte do “grande catecismo dos novos tempos”, como nos dizia o Papa Paulo VI. E o Papa Francisco de maneira ainda mais contundente nos diz que trata-se de um imperativo seguir o Concílio para não se colocar fora da Igreja. Ninguém é dono da fé ou da doutrina cristã. E não se tem o direito de ensinar algo que brote de suas visões particulares de mundo. A Igreja definiu coletivamente o que deveria ser ensinado. O Papa Francisco nos alerta: “quem apresentar uma catequese que não esteja de acordo com o Magistério da Igreja levará as pessoas à ruína”.

Portanto, a questão ecumênica está definida exemplarmente pelo Concílio Vaticano II e deverá sempre ser objeto da catequese e da vivência cristã no seio da Igreja. Nas palavras do Papa Francisco: “As diferenças tradições teológicas, litúrgicas, espirituais e canônicas que se desenvolveram no mundo cristão, quando permanecem enraizadas de modo autêntico na tradição apostólica, são uma riqueza e não uma ameaça para a unidade da Igreja”. E em outra oportunidade ele nos garante que “a unidade dos cristãos não é um ecumenismo de ‘marcha ré’, não obriga ninguém a renegar a própria história de fé; nem é possível tolerar o proselitismo que envenena o caminho ecumênico”. A CNBB alerta para o risco de se ter uma fé sem razão, que é o caminho mais curto para a intolerância e o fundamentalismo.

O tema da Campanha da Fraternidade se reveste este ano de um ecumenismo prático tendo por tema “Fraternidade e diálogo”. Ainda nos alerta a CNBB para um investimento grande numa comunicação dialógica. Quem combate a Campanha da Fraternidade é contra o diálogo. Está fechado em si mesmo. O Papa Francisco fala sempre na construção de pontes. Aproveita-se o tempo da Quaresma de 40 dias para o estabelecimento de novas pontes ecumênicas, na fraternidade e no diálogo. Nesse sentido, o objetivo atual dessa Campanha é de despertar a solidariedade dos fiéis das Igrejas do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs e da sociedade em geral para o problema concreto do diálogo.

Há muita diferença entre dialogar e conversar. Trata-se do desafio de se abrir ao outro, ao diferente de mim. Não se trata de uma conversa entre amigos. Isso é muito fácil. E também o diálogo na ótica da Campanha da Fraternidade entre as Igrejas não se caracteriza como técnica de convencer o outro para a nossa Igreja; não é proselitismo; não é “converter” o outro considerado como perdido.

Dialogar se coloca no rumo dos sonhos, da esperança, que toca cada pessoa com quem nos defrontamos. É também uma atitude de compreensão do diferente. Diante do outro nos colocamos em estado de abertura para sentir as suas expectativas, ouvir e compreender suas frustações. Estar a seu lado em suas tristezas e alegrias. Essas situações são muito diferentes das nossas conversas sobre futebol, sobre política, sobre fofocas, etc. Como tem faltado entre nós a atitude dialógica! No diálogo não apenas percebemos o outro em sua diferença e identidade, mas nos colocamos na postura de estar abertos para a sua descoberta.

Nossa mentalidade cotidiana naturaliza o outro e se nega a descobrir o que ele tem a nos mostrar. O ecumenismo que se estabelece no meio cristão fica mais rico na medida em que as próprias Igrejas que participam da Campanha da Fraternidade Ecumênica se colocam na postura da descoberta de cada Igreja. E isso somente se torna possível na medida em que levamos a sério nossa identidade cristã de sermos todos “irmãos”.

 

Sob esse aspecto a Campanha da Fraternidade desde o início em 1962, quando três padres da Caritas brasileira fizeram a primeira Campanha na Quaresma em Natal, Rio Grande do Norte, apontava para a dimensão social da fé. Como é tempo de jejum, a inspiração bíblica vem de Isaías 58, 6 que diz que o jejum que desejo “é soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, por em liberdade os oprimidos e romper todo jugo”. E continua de forma muito forte o texto bíblico. O jejum que o Senhor deseja “é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo”. Somente assim a luz irromperá como a alvorada e surgirá a sua cura. Nascia assim no nordeste brasileiro um ação profética que fortalecia ainda mais a fé no tempo da quaresma.

No ano seguinte, essa mesma Campanha se ampliava para 16 dioceses do Nordeste do Brasil. Em 1964 a Campanha da Fraternidade foi encampada por todo o Brasil, tendo como lema “Igreja em Renovação”, já sinalizando as mudanças que estavam acontecendo com o Concílio Vaticano II.

A Campanha da Fraternidade realizada de maneira ecumênica a cada cinco anos deve nos levar a compreender de modo irreversível o caminho da busca ecumênica, fruto de uma compreensão profunda no mistério da Igreja entendida como comunhão. Esse esforço deve estar presente na vida cotidiana das comunidades e dos indivíduos.

A campanha da fraternidade desse ano deve servir para abrirmos os horizontes na construção de tantas pontes que foram destruídas pelo ódio e pela intolerância, buscando construir uma civilização do amor, da justiça, da igualdade e da paz. Nada mais do que isso. 

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