Uma vacina para o coração

Edebrande Cavalieri

Olhando retrospectivamente o ano que passou, marcado especialmente pela pandemia, e projetando o novo ciclo que se inicia, o Papa Francisco em sua celebração do dia primeiro de Janeiro, Dia da Paz, nos aponta a direção para o novo ano. Ele nos diz: “Além da vacina do corpo é necessária a vacina do coração: o cuidado”.

Diante da pandemia temos visto tanta indiferença com os problemas dos outros, com a dor das pessoas até próximas e da própria família. Temos visto como é essencial nos preocuparmos com os problemas dos outros, com as preocupações e dores sentidas pelo nosso próximo. Mas a insensibilidade tem crescido. A ação de se aglomerar de maneira irresponsável nas mais diversas formas é uma demonstração concreta da falta de cuidado, de respeito.

Nas Igrejas somos orientados corretamente sobre o ato de não nos abraçar nas celebrações, mas saindo daí tudo parece permitido. Tem-se a impressão que só precisamos respeitar e cuidar do outro no momento em que rezamos a Deus. Depois tudo parece ser permitido. E o Papa nos alerta: “Neste ano, enquanto aguardamos um renascimento e novos tratamentos, não negligenciemos o cuidado” tanto em relação à vacina para o corpo como a vacina para o coração.

Em outra celebração nesse início de ano, o Papa nos diz que parece que ninguém mais ouve a voz que clama no deserto, pois vivemos uma crise de fé. Todo mundo diz que crê em Deus, é cristão, é de uma determinada Igreja, “mas a sua vida está muito distante de ser cristã, muito longe de Deus”. Crer implica em converter o coração. E o cuidado é de maneira concreta a expressão dessa conversão.

A conversão através do cuidado é bem complexa e ampla. Tanto se refere ao cuidado que temos de ter conosco, como do cuidado dos outros, do mundo, da criação. “Pouco aproveita conhecer muitas pessoas e muitas coisas”, tendo milhares de seguidores nas redes sociais e conhecendo o mundo, “se não cuidarmos delas”, diz-nos o Papa.

Então é preciso mostrar que se é cristão convertido dentro da própria casa, com pai cuidando da família, com filhos cuidando dos pais. A vacina contra a Covid-19 não será suficiente para melhorarmos a sociedade. Inclusive muitos se negam ao cuidado no tratamento e prevenção da pandemia por razões ideológicas. Muitos revelaram um egoísmo enorme pouco se importando com o uso de máscara onde era preciso e não mantendo o distanciamento recomendado. Assim aglomerados, sem máscara e sem responsabilidade essas pessoas se tornaram responsáveis em grande parte pelo elevado número de pessoas infectadas e mortas.

O maior exemplo de cuidado está representado na figura de Nossa Senhora que cuidou do seu filho até a morte e hoje cuida de cada um de nós. O cuidado de mãe é redentor. Maria de Nazaré, mãe de Deus, é o modelo central do cuidado redentor.

Que o novo ano nos converta também para o “bendizer, em nome de Deus”. Segundo o Papa, “o mundo está gravemente poluído por falar mal e pensar mal dos outros, da sociedade, de nós mesmos. De fato, a maledicência corrompe, faz degenerar tudo, enquanto a bênção regenera, dá força para recomeçar”.

A conversão do coração implica uma atitude semelhante a das mulheres que são capazes de “tecer os fios da vida”. Pois, “não estamos no mundo para morrer” como se essa fosse a vontade de Deus. Nossa luta é por gerar vida. Por isso, a vacina da vida e a do coração devem ser tomadas ao mesmo tempo. Estamos então num desafio nesse novo ano: concretizar e empenhar nossa solidariedade com a vida e em prol da vida.

Para concluir quero retomar um pensamento que o Papa nos brindou há bastante tempo e que se tornou epígrafe em artigos científicos e conferências e se aplica perfeitamente a esse momento que vivemos:

“Os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos. O sol não brilha para si mesmo; e as flores não espalham sua fragrância para si. Jesus não se sacrificou por si mesmo, mas por nós. Viver para os outros é uma regra da natureza. Todos nós nascemos para ajudar uns aos outros. Não importa quão difícil seja a situação em que você se encontra; continue fazendo o bem aos outros. A vida é boa quando você está feliz, mas a vida é muito melhor quando os outros estão felizes por sua causa”. Que a vacina do coração nos faça mais solidários cuidando uns dos outros nesse novo ano!

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