VACINAÇÃO: ÉTICA E NEGACIONISMO SUICIDA

Edebrande Cavalieri

O número de mortes causados pela Covid-19 ultrapassou a casa das 200.000 mortes e vemos no mundo todo um movimento em torno da vacinação da população. E o próprio Papa anunciou no final de semana passada que irá se vacinar nessa semana juntamente com toda a população do Vaticano. A data já está marcada para ele. E nos diz: “Acredito que do ponto de vista ético todos devem ser vacinados”. E ao mesmo tempo se entristece afirmando que “há um negacionismo suicida que não consigo explicar”.

Aqui no Brasil a CNBB emitiu sua primeira mensagem de 2021 com o título “Unidos e responsáveis rumo ao novo que desejamos”, trazendo 11 pontos de reflexão em torno da vacinação. O próprio Presidente da CNBB fez uma vídeo enviado a todos com essa mensagem de compromisso da Igreja no combate à pandemia.

Estamos nas trilhas do Magistério em relação à pandemia. Trata-se de uma orientação ética que inclui toda a humanidade e a condenação das posturas negacionistas. Vamos então apresentar alguns pontos que nos parecem fundamentais nessa condução, esclarecendo o que vem a ser a atitude negacionista e o que significa postura ética.

O negacionismo nasce de situações de instabilidades culturais e de modo bem preciso entre nós se apresenta contestando a ciência em relação à imunização através de vacinas; em relação às pandemias nega seu alcance e assim transforma o número de mortes como irrelevante e repudia os resultados das pesquisas a respeito do aquecimento global.

Dessa forma essa postura se nega a acreditar nos fatos como forma de escapar deles, e sustenta-se em teorias e discursos conspiratórios, muitas vezes se servindo dos próprios autores ligados ao fato. Portanto, é comum encontrarmos algum médico que nega o alcance da pandemia e o valor da vacinação como forma de controle da pandemia. As redes sociais infelizmente serviram para o compartilhamento de muitas inverdades científicas, muitos discursos apoiados em fake News, prejudicando muito o enfrentamento da Covid-19.

Há uma espécie de negacionismo inclusive entranhado em algumas religiões ou Igrejas, com padres ou pastores proferindo homilias baseadas em teorias e discursos conspiratórios. Tentam desconstruir a condução sanitária que a humanidade está se propondo para vencer a pandemia e estagnar o número de mortes. Uma religião que não serve à vida não serve para mais nada e no caso cristão nega o próprio Evangelho de Jesus Cristo que diz que “veio para que todos tivessem vida”.

Sempre que se fala de ética estamos fugindo da perspectiva individualista de comportamento. É comum a postura negacionista dizendo que “ninguém me obriga a tomar vacina”. Sendo uma questão ética, não temos como escapar do compromisso social, pois “nenhum homem é uma ilha”, dizia Thomas Morus. Na convivência social e comunitária os homens se realizam e podem ser felizes.

A vacina traz esperança, mas não o fim da pandemia. Não podemos nos descuidar da saúde pública. Então a vacinação é um fato social, e também um laço social, pois implica cada um de nós e não uma pessoa isoladamente. Por isso a vacinação é uma questão ética. Os Bispos do Brasil nos alertam que “Não podemos nos render à indiferença de alguns, negacionismos de outros ou à tentação de nos aglomerarmos” alimentando ainda mais o processo de contágio e aumentando o número de mortos. É preciso preservar a vida de todas as formas possíveis. É preciso que cada um de nós seja vigilante nisso.

O tamanho de vidas perdidas, com tantas famílias enlutadas, exige de todos um caminhar junto e solidário. A luta para se vencer a pandemia depende da união e cuidado e a vacina que chega deve ser para todos. Por enquanto três grupos estarão de fora da vacinação: crianças, adolescentes e gestantes. Mesmo após a pessoa ser vacinada os cuidados permanecem, pois a pessoa pode transmitir a infecção. Desta forma, a questão ética do cuidado se estende ao longo do tempo. As vacinas salvarão vidas, mas irão demorar meses e até anos para diminuir a transmissão e o contágio, e dependem da colaboração da própria população.

Os Bispos do Brasil nos orientam no sentido de seguirmos como princípios de ação a justiça, a solidariedade e a inclusão. Esses são os critérios que devem nortear o processo de vacinação. A ainda mais atenção deve ser dada aos vulneráveis de nossa sociedade.

O movimento dos laboratórios privados em importar a vacina somente se sustenta do ponto de vista ético se isso não representar uma vacinação antecipada para quem tem dinheiro e nem de levar os Governos (Federal, Estadual e Municipal) a abdicarem de sua responsabilidade social com toda a população. Contudo, o direito que a classe mais favorecida entende ter deveria ser investido na exigência de vacinas para todos, independentemente da situação socioeconômica.

Sendo uma ação ética, a dimensão política não pode estar fora desse movimento social. Os governantes das três esferas de poder (Federal, Estadual e Municipal) devem pautar a ação política de maneira integrada seguindo os critérios éticos acima apontados e as orientações técnicas das autoridades sanitárias do mundo da ciência.

E essa visão ética da vacinação também está fundamentada na perspectiva científica. Uma das maiores autoridades mundiais em saúde coletiva e referência em estudos epidemiológicos, Doutora Ethel Maciel, nos diz que a “vacina não é remédio, é uma estratégia coletiva. Pois se você comprar e se vacinar e todo o seu entorno não vacinar, o vírus pode fazer uma mutação e sua vacina não servir para nada. Dinheiro jogado fora”.

A humanidade toda deve caminhar nessa perspectiva ética de responsabilidade e compromisso coletivo. E Ethel completa: “Porque se alguém em algum lugar ficar sem vacinação e o vírus fizer uma mudança em sua estrutura, todo o esforço será perdido. Precisamos do maior número em todos os lugares vacinados. Imunidade coletiva”.

Desta forma, as palavras duras do Papa Francisco ganham a maior seriedade e deve ser levada em consideração por todo mundo. O “negacionismo suicida” acaba se tornando uma nova pandemia, um novo coronavírus, “porque você não só põe em risco a sua saúde, a sua vida, mas também a dos outros”, explicou bem claramente o Papa. Não tem nenhum sentido as pessoas que nasceram e cresceram experimentando os mais diversos processos de vacinação, sempre apresentando a “carteirinha comprobatória” nas escolas, agora formando um grupo ideológico negacionista da vacinação. Não há como explicar tamanha ignorância e falta de compromisso ético.

Os Bispos do Brasil, diante de uma humanidade adoecida pela pandemia, nos alertam que a cura somente acontecerá se caminharmos unidos, tendo a solidariedade como princípio, na defesa do direito de todos à oportunidade de se vacinar. Dessa forma, a fé cristã não escapa do agir ético e qualquer outra forma de conduzir a ação pastoral fica em desfalque com o Evangelho de Jesus Cristo. Vamos nos cuidar solidariamente!

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