VENERÁVEL PADRE VITOR COELHO DE ALMEIDA

10 agosto, 2022

No último dia 05 de agosto deste ano o Papa Francisco assinou o Decreto que reconhece as virtudes heroicas de um missionário redentorista nascido em Sacramento, Minas Gerais, em 1899. Trata-se do Padre Vítor Coelho de Almeida, conhecido como Catequista da Pátria e Apóstolo do Rádio. Após ser internado com tuberculose no Sanatório de Campos de Jordão por sete anos, de 1941 a 1948, onde exerceu também o ministério ordenado, iniciou seus trabalhos de transmissões na Rádio Aparecida, colocando-a como um instrumento de evangelização e difusão dos ensinamentos do Concílio Vaticano II. E ali tornou-se muito conhecido pelo povo brasileiro de maneira especial.

O primeiro passo para a santificação foi dado com esse decreto assinado pelo Papa Francisco. Aguarda-se agora o reconhecimento de um milagre ocorrido em Ribeirão Preto para então ser declarado Beato. E depois deverá ser estudado e reconhecido outro milagre para ser considerado santo, quando seu nome é inserido numa lista (cânon) que é a canonização, quando a veneração além de ser pública é também universal. Mas quem é esse missionário do Rádio, apóstolo de Aparecida, que o povo mais novo pouco conhece? Vale a pena conhecer sua história e seu carisma.

Para se ter uma ideia dessa pessoa e sua vocação profética, em 1969 durante as transmissões pela Rádio o Padre Vítor fez a leitura de maneira clara e objetiva da Declaração Universal dos Direitos Humanos, tendo sido considerado subversivo pelo regime militar que mandou fechar e lacrar a rádio por 24 horas. Era o momento do programa “Os ponteiros apontam para o infinito”, de meio dia. Os militares alegaram que um padre havia lido um discurso subversivo no programa, impondo a censura mais rigorosa que vinha desde 1967 com a Lei de Imprensa e o controle dos Meios de Comunicação com censura prévia a partir de 1970. Mas isso não o fez abandonar o projeto de promoção humana e evangelização do povo. Continuou seu trabalho na rádio Aparecida lendo e explicando em linguagem popular os documentos do Magistério da Igreja, especialmente a Doutrina Social. Quem poderia impedir que se fizesse isso?

Ele costumava dizer que era filho da Misericórdia de Deus, pois “Ele me tirou do lodo, de lá de baixo, para me colocar na vocação sacerdotal”. Até o final da vida nunca deixou de mostrar que era missionário redentorista, afastando assim a tentação da autorreferencialidade, como se fosse o tal no modo de dizer popular. Era forte, enérgico, mas nunca perdia a humildade de saber pedir perdão.

Contudo, quem mais conhece o trabalho desse venerável são as pessoas pobres do interior do Brasil, quando nem energia elétrica ainda existia no meio rural, mas cada um procurava adquirir dinheiro para comprar um radinho de pilha que era carregado para todos os lugares. O trabalhador rural no meio da roça levava aquele radinho para ligar ao meio-dia e ouvir o programa “Os ponteiros apontam para o infinito”, às 15 horas para rezar a “Consagração a Nossa Senhora”, com oração própria. De noite, no horário da Ave-Maria era outro momento de se encontrar com o padre Vitor. Naquele radinho de pilha com esse missionário o povo tinha alimento para sua fé, tinha orientações para cuidar de sua saúde, e notícias do mundo eclesial. Era através de seus programas que o povo adquiria formação cristã e humana.

A Consagração a Nossa Senhora Aparecida é até hoje, depois de mais de 70 anos, o programa mais ouvido e acompanhado pelos devotos, com a oração escrita pelo próprio padre Vitor. Essa oração passou por duas mudanças e a última ocorreu por ocasião da visita do Papa Francisco a Aparecida em 2013. O texto da oração foi enviado a Roma para ser incluído no missal utilizado pelo Papa, sendo a primeira pessoa a rezar publicamente a oração reformulada. É sempre rezada em Aparecida até hoje no encerramento das missas e às 15 horas como de costume.

As minhas lembranças do trabalho do padre Vítor ainda são muito fortes. Com meus pais no interior acompanhava todos os momentos dos programas conduzidos por ele. Também tínhamos um radinho a pilha. Lembro das orientações para os cuidados sanitários que ele dava para as pessoas, pois sabia em que situação estava a saúde do povo! Evangelização e promoção humana eram conduzidas de maneira harmônica, e defendia fortemente todas as ações em prol da justiça social. Nas pregações ele tocava diretamente nos direitos trabalhistas denunciando o “salário de fome” e através das ondas de rádio orientava os trabalhadores a se unirem em cooperativas e executarem o trabalho com responsabilidade.

Ali na Rádio Aparecida o Movimento de Educação de Base (MEB), criado pela CNBB em 1961, penetrou pelo país todo juntamente com outras rádios administradas pelas Dioceses. A missão do MEB até hoje é “contribuir para promoção humana integral e superação da desigualdade social por meio de programas de educação popular libertadora ao longo da vida, servindo sempre e em primeiro lugar os mais pobres”. Até hoje esse Programa vai capacitando agentes de educação de base através da rede de dioceses e paróquias organizadas pelos regionais da CNBB. Dessa forma, o trabalho desenvolvido pelo Padre Vítor estava em sintonia com as diretrizes da Igreja do Brasil. Não era um projeto pessoal. Era firme na fidelidade ao carisma redentorista e ao Magistério da Igreja conduzido pelo Papa.

Naquele dia fatídico em que a rádio Aparecida fora fechada pelo regime militar ele dizia de maneira cristalina: “Caríssimos, hoje o Papa quer que pensemos na paz. Ele nos lembra de que os direitos do homem, solenemente proclamados pela humanidade, são a base da paz. Assim, se não observarmos os direitos do homem, não haverá paz no mundo. Cheguei até o artigo dezoito e hoje eu quero continuar essa leitura. Se os direitos dos homens forem observados, respeitados, haverá paz”.

Imaginem como ouviam essas palavras as pessoas que trabalhavam de meeiros pelo interior cultivando café e cuidando das pastagens, ou mesmo derrubando matas para plantar café! Pouca comida, quase sempre na base da farinha de mandioca, fubá, feijão, alguma verdura e carnes de galinha e porco criados no lugar. Sem energia elétrica, mas também sem onde recorrer a não ser na fé quando ficasse doente. Nas secas era o momento de subir o morro onde ficava um grande cruzeiro e lá depositar a água e rezar. E assim Padre Vítor se aproximava dessas pessoas empobrecidas, e através do rádio ia orientando na labuta diária, nas orações, nas ações de libertação conforme propunha o Movimento de Educação de Base, que é um organismo da Igreja do Brasil até hoje. Quando podia ia pessoalmente pelos rincões do país em peregrinações missionárias com seus colegas de congregação.

Dessa forma o processo desencadeado com o Decreto que torna o Padre Vítor Coelho de Almeida venerável, primeiro passo para a canonização, representa um momento de graça para a Igreja do Brasil e se apresenta como um referencial de compromisso dessa mesma Igreja com as camadas mais pobres da população brasileira. Ao mesmo tempo mostra como o carisma missionário é posto a serviço da Igreja por uma congregação particular e se torna caminho de santidade. Por fim, fortalece a espiritualidade mariana tão forte em nosso meio.

Edebrande Cavalieri

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