VIAGEM DE ENCONTRO

13 novembro, 2022

Entre os dias 03 e 06 desse mês de novembro o Papa Francisco esteve visitando Bahrein que fica no Golfo Pérsico, país com uma população em torno de 1,5 milhões de pessoas divididas em xiitas que compõe a maior parcela e sunitas que governam o país e representa a camada mais elevada da sociedade. O número de católicos gira em torno de 80.000 fiéis. O número pequeno de católicos não representa algo negativo, pois o Papa Francisco muito insistiu nessa viagem em função do que representa a realização ali do Fórum de Diálogo entre Oriente e Ocidente para a convivência humana pacífica.

O objetivo desse Fórum é o de construir pontes de diálogo com foco na promoção da coexistência global e da fraternidade humana, no papel dos religiosos e estudiosos para enfrentar os desafios dos tempos atuais e, por fim, no diálogo inter-religioso e a paz no mundo. Isso nos chama muito a atenção, pois estamos num país essencialmente muçulmano com uma divisão interna de cunho ideológico religioso muito forte e com inúmeros problemas de convivência humana no dia a dia. E ali nesse pequeno território, duas grandes autoridades do encontro e da fraternidade estarão encontrando-se novamente, o Papa Francisco e o Grão Imame de Al-Azhar Muhammad Ahmad Al-Tayyed.

O Grão Imame é uma das figuras de maior relevo na jurisprudência islâmica sunita com reconhecimento internacional. Em 2016, ele visitou o Papa na Casa Santa Marta, estiveram juntos na Viagem Apostólica ao Egito em 2017, na Conferência Internacional pela Paz organizada por Al-Azhar e se encontrou com o Papa em Abu Dhabi em 2019 assinando o Documento sobre a Fraternidade Humana pela Paz Mundial e a Convivência Comum, que tem por objetivo o diálogo entre cristãos e muçulmanos. Dessa relação tão fraterna entre os dois, de cooperação e convívio, nasceu a inspiração inicial da Carta Fratelli Tutti. Nesse sentido, podemos dizer com todo vigor que o fruto do encontro fraterno será sempre o dom da paz.

Em seu discurso no Forum de Diálogo Oriente e Ocidente o Papa Francisco retoma a imagem da árvore da vida, símbolo especial daquele país, para nos dizer da necessidade de cultivá-la nos desertos áridos da convivência humana e com a água da fraternidade para que o mundo possa criar ambiente para o encontro entre civilizações, religiões e culturas. Até agora o Papa realizou 12 viagens para a Ásia, visitando 18 países, onde o catolicismo é uma religião com poucos fiéis. Contudo, Francisco tem se mostrado sempre muito animado a realizar essas visitas pastorais, pois entende que assim será possível a construção de pontes, criando laços entre culturas e civilizações, e assim construir o caminho da paz.

Nesse espírito de profunda amizade, ele convida a Majestade, as Altezas Reais, Autoridades, Amigos, para reforçar a Declaração do Reino do Bahrein que reconhece a fé religiosa como uma “benção para todo o gênero humano”, e lê um pequeno trecho: “Empenhamo-nos a trabalhar por um mundo, onde as pessoas de credo sincero se unam entre si para rejeitar aquilo que nos divide e, ao contrário, escolher aquilo que nos une”.

Internamente, a situação do Bahrein é tensa. Conviveu intensamente com os protestos da Primavera Árabe em 2011 e as repressões militares sauditas fazendo crescer o número de prisioneiros. Ao mesmo tempo, esse país goza de prestígio internacional pois pelo Estreito de Ormuz passa 20% da produção de petróleo mundial. Portanto, tem uma importante localização estratégica no equilíbrio político da região. Também encontramos no deserto ali próximo uma das maiores bases militares dos Estados Unidos. Ainda se acredita que a força das armas seja o pré-requisito fundamental da paz e não o encontro entre as nações e pessoas.

Nesse contexto complexo em todos os sentidos, o Papa tocou de maneira corajosa em temas difíceis como a questão dos Direitos Humanos e a Liberdade Religiosa, elementos fundamentais para a paz. Ao mesmo tempo mostrou que o caminho para a construção de pontes requer aproximação contínua e compreensão recíproca. O diálogo inter-religioso ainda vai além, exigindo investimento no conhecimento recíproco e no ensino, com ação concretas de diálogo de modo a se tornar parte da vivência cotidiana.

Penso que a grande mensagem que o Papa Francisco nos deixa nessa visita ao Bahrein seja realmente a importância do encontro como produtor da paz. Por aqui vivemos tantos desencontros nos últimos anos e alguns brasileiros ainda continuam no caminho do ódio e do conflito. Como é difícil construir a paz! Ao contrário, como é fácil desencadear uma guerra entre nações, entre cidadãos de um mesmo país, entre membros de uma mesma Igreja. Talvez tenhamos que aprender ou reaprender que a fé religiosa que cada pessoa professa seja uma bênção de paz e não uma arma para a guerra.

Para o mundo católico a mensagem é ainda mais profunda, pois a comunhão pode ser sinal de salvação ou de perdição. Comungar o Corpo de Cristo e carregar armas no peito, ódio no coração, é trazer para si mesmo sua própria perdição. Não se constrói a paz fincando bases militares em nossos corações. Não é possível o encontro com Jesus Cristo na comunhão aos domingos se durante o resto da semana praticamos os desencontros, as guerrinhas, ameaçamos os nossos irmãos. É preciso construir a paz bem pertinho de nós!

Edebrande Cavalieri

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