A fadiga do zoom

28 maio, 2021

Vania Reis

Um interessante artigo de Teté Ribeiro na Folha retoma o assunto que abordamos aqui algumas semanas atrás, mas com uma abordagem que amplia nosso olhar sobre as consequências das constantes reuniões nas diversas plataformas digitais.

Já é totalmente conhecido atualmente que a falta de vida social contribui para que as pessoas fiquem mais tempo online. A necessidade de “preencher um vazio” é a base psicológica para que isso aconteça. Para a maioria, nesta pandemia, a videochamada  é a única forma de se reunir / de ver os amigos e parentes e, também, de fazer reuniões de trabalho simultâneas sem aglomeração. Pesquisas iniciais mostram que pela maior produtividade e pela diminuição de custos que as empresas tiveram, entre outros afores, é possível que várias pretendem manter o modelo atual. Precisamos então mergulhar mais nestas novas realidades, para melhor enfrentar as mesmas.

Vimos pouco tempo atrás o efeito do Brain-fog,  no nosso cérebro causado pela excessiva exposição nas telas, enxurrada de informações simultâneas (nem sempre congruentes), a baixíssima estimulação do cotidiano e as suas consequências. Hoje vamos focar as peculiaridades das reuniões nas plataformas digitais. O ponto de análise é  a fadiga excessiva que estamos vivendo, pelo excesso de foco em si mesmo, trazido pela excessiva percepção da auto exposição que estamos tendo, em tempo real de como nos apresentamos visualmente. Esse fenômeno recebeu o nome de “fadiga do Zoom”, sintetizando o que acontece nesta plataforma como em todas as outras com seu uso excessivo atual. Estou eu na tela, me vendo constantemente, focando em como me apresento e, muitas vezes, descontente com o feedback “espelho” que as janelinhas das plataformas digitais me obrigam a receber, assim como com a minha luta em querer  parecer melhor e ser mais apreciado(a)- que é uma das necessidades mais básicas! Essa cobrança traz um cansaço que Teté apresenta como sendo muito maior nas mulheres(13,8%), do que nos homens(5,5%).  Como os grandes fabricantes na área de TI não deixam passar oportunidades, há atualmente inclusive filtros de maquiagem disponíveis, para minorar o problema, mas a verdade é que essa pressão por um desempenho, uma pressão para ter uma “performance” impecável, cansa!

Para minimizar, em muitos lugares já é comum permitir ligar ou não video durante as reuniões. Em instituições de ensino superior se proibiu a exigência dessa exposição do aluno (o que leva a outros problemas como vimos no brain-fog. De forma ainda mais saudável há instituições que recomendam um “aquecimento inicial” da reunião com os vídeos ligados atualizando a conversa, tipo do cafezinho, para compensar a falta do contato social, para depois entrar no tema e deixar livre para quem quiser desligar ou não o video.

Outro aspecto que, segundo as pesquisas, torna cansativa  as reuniões nas plataformas  digitais é  ter tão constante o contato olho a olho. Não estamos acostumados  a ficar tanto tempo com olho no olho. Cansa mais. A conversa assim como  nossa linguagem corporal é mais ampla. Hoje temos muitas vezes apenas os olhos, pois pessoas que repartem salas têm que usar máscaras nas video chamadas. Para sair deste intenso e cansativo olho no olho, uma das sugestões dos pesquisadores é desligar o video em alguns momentos ou até retomar ao antigo e mais cômodo contato, neste aspecto, via celular sem video, sempre que possível.

Segundo especialista em identidade ouvido por Teté Ribeiro, nas plataformas digitais a nossa imagem projetada não é réplica dos espelhos de casa ou das selfies tão bem ensaiadas, onde podemos “projetar fantasias e autoilusões”. A imagem  é uma  experiência nova porque é continua (ninguém passava o dia todo com um espelho a sua frente), não é estanque, como a foto em cima da mesa, e cria certo estranhamento entre a autoimagem idealizada, internalizada e a realidade captada, sem reservas, e friamente pela máquina. Em certo sentido é como quando ouvimos nossa própria voz gravada que soa estranha para nós, conforme lembra Eric Yuan , criador do Zoom. Yuan classifica essa estranheza percebida da nossa imagem na tela como um fenômeno neuropsicológico. “Hoje a gente tem a noção  da imagem que  a gente passa” , ele diz . E essa visão difere da nossa imagem mental. É como se estivéssemos constantemente em frente a um espelho  com luz fria para piorar. Assim sendo, temos que  lidar  mais com  o como o outro me vê e cuidar de rever  ou ajustar a imagem que eu penso ter de mim. Psicólogos, desde o tempo da antiga “Janela de Johari”, sabem que esse exercício de sair de si mesmo e de se ver com os olhos de outros, pode ser muito enriquecedor, se a autocrítica excessiva não  perseguir e bloquear. Posso ver que passo a imagem de rabugento e me preocupar em ser mais suave nas interações para ser mais fidedigno com a minha realidade interna. Neste caso peguei um limão e fiz uma limonada.  Se me aprisiono nesta imagem, passo e perseguir apenas o melhorar externamente a imagem, e, se ainda coloco a minha segurança/autoestima nesta balança, vou acabar nesta  cansativa “ansiedade do espelho” e vou parar no Brain-fog o que é pior ainda. Na “Fadiga de Zoom” o cansaço e a sensação de estar exaurido após a reunião é o problema.

Os especialistas aconselham antes de uma “call” que a pessoa saia da frente do computador e dê espaço para seu corpo e cérebro descansarem por alguns minutos, não importando a atividade, desde que longe da tela. Que fechem as janelas desnecessárias e coloquem o aplicativo no modo “orador”, assim você  apenas vê  quem está falando, e não todos na reunião, diminuindo os estímulos e as distrações(caso seja possível). Há softwares que permitem que você configure para esconder a autoimagem. Neste modo o outro lhe vê , mas você não se vê. Mas, cuidado, a câmera está ainda ligada, mesmo você não se vendo e, as pessoas estão lhe vendo. Não faça nada que lhe traga alguma “saia justa”. Você pode ainda desfocar ou colocar uma tela de fundo em sua imagem, com opções já preparadas pelos softwares para simular um outro ambiente e diminuir a ansiedade de mostrar seu espaço de casa, seu espaço do íntimo. Pode usar fones de ouvido para reduzir a possibilidade de um som do ambiente ser captado, ou simplesmente fechar seu som quando não precisar se comunicar.

Na pandemia houve ganhos significativos para o meio ambiente como ar mais limpo (em São Paulo como na China a redução da poluição chegou a 50%);  a despoluição de rios (no Rio Ganges as águas ficaram 80% mais limpas). O consumo de energia caiu possibilitando a recuperação do nível de armazenamento dos nossos reservatórios de água…Agora, temos que focar mais nos efeitos do nosso ecossistema humano, ressaltando neste os aspectos psicológicos e cognitivos.

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