Brain-Fog: Nossa mente está cansada!

30 abril, 2021

Vania Reis

No artigo da semana passada conversamos sobre como a pandemia está afetando nosso cérebro. O “Brain-fog” (névoa cerebral), assunto recente, é um novo termo que sintetiza a menor capacidade cognitiva e de processamento de informações que estamos vivendo com a pandemia. Apesar de existir quem associe o Brain-fog a efeitos colaterais da doença Covid, as evidências sustentam claramente que os sinais se correlacionam aos efeitos  do isolamento social, independentemente de a pessoa ter tido ou não Covid.

Vimos que na mesmice de vida isolada, temos que lidar com um bombardeio infinito de informações que super exigem da nossa mente, e isso se soma a uma rotina enfadonha que pouca distinção faz entre os dias, horas e acontecimentos. E tudo isso é nocivo para nosso cérebro, prejudicando nossa memória, atenção, concentração e capacidade de resolução de problemas.

A abordagem do prejuízo econômico, social e de alguns aspectos psicológicos como a depressão, são consequências da pandemia que tem sido bem explorado pela mídia. Entretanto muito pouca atenção está sendo dada a esses sinais de estresse mental, que podem parecer menos importantes, mas que, de fato, podem ser os fatores críticos de base para um processo que, ao gerar menor vigor mental e até uma letargia, leva a desvios na autopercepção, na autoestima, na crença em si mesmo e na motivação para a ação, que podem sim, corroborar com processos depressivos. Aqui a menor capacidade cognitiva e de processamento de informações, pela falta de estímulos de um lado e super exigências cognitivas de outro, leva a essa “nevoa mental’, sensação de inadequação, menos valia, cansaço e, no final do processo podendo levar à depressão.

Vamos ver um exemplo do atual cotidiano para entender melhor:  as reuniões de trabalho em plataformas de videoconferência. Nessa forma tecnológica de trabalhar que a pandemia amplificou estamos dispostos a uma menor estimulação tanto auditiva quanto visual para a compreensão da realidade, em relação ao que estávamos acostumados. Geralmente as reuniões são feitas na mesma plataforma, na mesma tela, dia após dia, mesmo formato, pouco diferenciando os estímulos. Nestas novas formas de trabalho, estamos diante de um “quadro” com muitas pessoas em suas “janelinhas”, se movimentando à sua frente e sua atenção correndo de um lado a outro, buscando se situar no grupo. Iniciada a reunião, alguém fala e por alguns segundos você não sabe quem falou e procura visualmente encontrar a pessoa. Enquanto isso você perdeu a atenção no conteúdo e perdeu o fio da conversa. Aflito busca então se desdobrar, via superconcentração, para compensar e recuperar o fio da meada e entrar na conversa. Você fica ansioso, afinal, perder o emprego, em uma hora desta, nem pensar! Das primeiras vezes que isso acontece você pede para que repitam, pois não conseguiu entender, mas acontecendo outras vezes e não querendo incomodar, passa a usar um grande esforço para “completar” a informação e preencher as lacunas.  O esforço de concentração é muito maior, a exigência cognitiva também.  O que acaba acontecendo é que a pessoa sai da reunião cansada. De início, pode acreditar que é apenas porque não dormiu direito ou que é “preguiça”, mas com o tempo percebe que sua agilidade mental não é a mesma, vai se sentindo menos capaz e percebendo que está perdendo competências, seu pensamento está mais confuso, como se tivesse uma névoa lhe tirando a clareza de suas percepções (este é o Brain-fog), e evidentemente  se sente frustrado, cansado. A pessoa não conversa na equipe pois acha que o problema é só dele/dela. Quando precisamos saber em qual reunião aquela decisão foi tomada, por exemplo, nossa mente tem dificuldade de distinguir uma reunião de outra. Quem levantou primeiro a questão… enfim, é preciso mais esforço para resgatar a informação.

O fato é que todo o esforço para acompanhar a reunião/o trabalho deixa menos espaço para a escuta do outro (lembra que estamos também tentando decifrar a comunicação não verbal do grupo e que quase só temos o rosto para isso).

O processamento das informações é mais complexo, a concentração menor, e veja que nem colocamos aqui variáveis como marido/esposa de cara feia, o filho chamando ou entrando na “live”, o caminhão do lixo passando… enfim as distrações do cotidiano.

E os encontros na hora do cafezinho? Perdemos nuances das relações, histórias que só se contam pessoalmente. As conversas espontâneas também estão “limitadas”. Com o cancelamento de feriados, casamentos, festas, shows e eventos adiados, os assuntos desidrataram.

Para ilustrar, compartilhei nas minhas redes o artigo anterior e questionei se as pessoas têm algum sinal de “brain-fog” (névoa cerebral).  Pelo depoimento delas, não estamos diferentes dos países pesquisados:

“me enquadro em várias dessas situações….para ler um livro, preciso voltar atrás algumas vezes porque li, mas não entendi nada; não  tenho dormido bem, o que também deve ser efeito desse estresse cerebral;  …  Meu cérebro não deve estar enxergando nada, tamanha a névoa!”

“…definição correta do momento que estamos vivendo”

“Me vi todinha ali….”

.”… tenho dormido muito mal, sinto vontade de jogar a toalha… dá uma sensação de letargia… difícil passar tudo isso e nem sei se a hora que passar, se é que vai passar, vou ter energia para tocar a vida. É um cansaço total, as vezes mesmo com zero esforço, mas o cansaço está presente.

“Essa parte da memória eu realmente senti. Perda momentânea de um raciocínio que seguia.

 “Não só tenho alguns desses sintomas como também ouço nos diversos atendimentos. Vivo há 1 ano e 2 meses exilada do contato com amigos e familiares. Esse confinamento bloqueia estímulos e assim aparecem atrofias diversas.”

 É, nosso cérebro está cansado.

Semana que vem vamos abordar algumas estratégias para enfrentarmos essa realidade. Por enquanto, tente sair desta super estimulação mental. Saia da frente de qualquer tela e passe um dia inteiro esvaziando a mente, olhando paisagem, “trocando” apenas com você, e me diz como se sentiu!

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