Exposição

A Arquidiocese de Vitória se prepara para realizar uma exposição inédita que convida fiéis, agentes pastorais e estudiosos a revisitarem um dos momentos marcantes

A Arquidiocese de Vitória se prepara para realizar uma exposição inédita que convida fiéis, agentes pastorais e estudiosos a revisitarem um dos momentos marcantes da Igreja Católica: o Concílio Vaticano II. A mostra pretende apresentar de forma acessível e didática a história, os documentos, as reformas e as repercussões do concílio na vida eclesial e pastoral da arquidiocese capixaba.

Foto: Arquidiocese de Vitória

A exposição acontecerá no CECATES e a data ainda será divulgado em breve, e será composta por painéis explicativos, fotografias históricas, documentos, objetos antigos e vídeos que contextualizam o Concílio Vaticano II (1962–1965), convocado pelo Papa João XXIII e concluído por Paulo VI. O evento marcou uma virada na relação da Igreja com o mundo moderno e promoveu profundas mudanças na liturgia, na participação dos leigos, na promoção do diálogo ecumênico e na missão evangelizadora.

Com o objetivo de aproximar esse legado das comunidades e paróquias, a iniciativa destacará especialmente como os princípios do Concílio influenciaram o caminho pastoral da Arquidiocese de Vitória, desde a organização das pastorais sociais até o fortalecimento da participação dos leigos, da colegialidade episcopal e da opção preferencial pelos pobres.

“A exposição é uma oportunidade de reconhecer que a caminhada sinodal que vivemos hoje tem raízes profundas no Concílio Vaticano II. Ele abriu janelas para o mundo e nos impulsiona a continuar sendo uma Igreja em saída, missionária e comprometida com a vida”, afirma o Giovana Valfré, coordenadora do Centro de Documentação da Arquidiocese de Vitória e uma das curadoras da Exposição.

Mais do que uma viagem ao passado, a exposição é um convite a renovar a fidelidade ao Evangelho por meio das inspirações do Vaticano II, que continuam guiando a missão da Igreja em Vitória e no mundo.

    A logo proposta integra, de forma simbólica e profundamente significativa, elementos que traduzem a identidade e a missão da Igreja de Vitória:

 

 

A logo proposta integra, de forma simbólica e profundamente significativa, elementos que traduzem a identidade e a missão da Igreja de Vitória: a Cruz do Papa, a Pomba, o Povo de Deus e a Chama da Esperança.

 

 

 

 

 

A cruz, inspirada na Cruz do Papa, forma a base de uma barca em movimento, representando a Igreja em saída, como nos pede o Papa Francisco. Essa barca não permanece fechada em si mesma, mas rompe as portas do templo e se lança ao encontro do povo, assumindo com coragem sua missão evangelizadora no mundo. Nessa cruz-barca, uma pomba – símbolo do Espírito Santo – irradia a luz da esperança, iluminando os passos da comunidade e aquecendo a chama de uma nova caminhada.

 

 

 

 

Essa chama representa o ardor de um povo que, impulsionado pela fé, caminha rumo ao futuro com confiança e perseverança.

 

 

 

 

 

 

A presença do povo de Deus na logo simboliza uma Igreja viva, participativa e sinodal. É esse povo, herdeiro do Concílio Vaticano II, que revisita o passado com gratidão e se lança, com esperança renovada, à construção de uma vida eclesial mais fiel ao Evangelho e aos sinais dos tempos.

 

 

 

A logo, portanto, não é apenas uma imagem: é expressão visual de um caminho e de uma escolha pastoral. Representa uma Igreja em conversão permanente, inspirada pelas quatro grandes constituições conciliares e movida por um espírito de reconciliação com sua história, de abertura ao novo e de compromisso com o anúncio da Boa-Nova.

 

Essa identidade visual é um convite à comunhão, à missão e à esperança ativa. É símbolo de um novo tempo.

Logo no início do seu pontificado o Papa João XXIII anunciou a convocação de um Concílio. Havia se passado 90 anos desde a realização

Logo no início do seu pontificado o Papa João XXIII anunciou a convocação de um Concílio. Havia se passado 90 anos desde a realização do Concílio Ecumênico Vaticano I (1870).  Depois de uma intensa fase de preparação, o Concílio Ecumênico Vaticano II foi aberto solenemente em 11 de outubro de 1962.

Relatos dos que participavam naquele momento indicam que  o Concílio assustou os cardeais. Vários jornais, inclusive alguns de renome internacional escreveram artigos e comentários dizendo que “o Concílio era coisa interna da Igreja e que nada causaria ao mundo e nem mesmo à própria Igreja”.

O tempo e a história mostraram que estavam enganados. Após o anúncio começou um intenso processo de preparação até a inauguração, em 11 de outubro de 1962, na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

O Concílio, pode-se dizer, buscava o sonhado “aggiornamento”, ou a aproximação da Igreja com o  mundo atual. A partir daí começou um grande movimento da Igreja e foram iniciados os trabalhos, dividido em quatro sessões. Participaram cerca de 2.000 Padres Conciliares do mundo inteiro.

“Pode dizer-se que o céu e a terra se unem na celebração do Concílio. Os santos do céu, para proteger o nosso trabalho; os fiéis da terra, continuando a rezar a Deus; e vós, fiéis às inspirações do Espírito Santo, para procurardes que o trabalho comum corresponda às esperanças e às necessidades dos vários povos. Isto requer da vossa parte serenidade de espírito, concórdia fraterna, moderação nos projetos, dignidade nas discussões e prudência nas deliberações.” (Papa João XXIII)

Na abertura do Concílio, o Papa João XXIII expressou a imagem de Igreja que ele gostaria que saísse do Vaticano II.

Sempre a Igreja se opôs aos erros; às vezes, condenou-os com a máxima severidade. No dia de hoje, todavia, a Esposa de Cristo prefere fazer uso da misericórdia mais que o da severidade. Ela acha que deve ir ao encontro das necessidades atuais, mostrando a validade de sua fé mais que as condenações“.

O Concílio Vaticano II se tornou o evento mais decisivo da história da Igreja no século XX. Idoso, São João XXIII não pôde ver sua conclusão porque faleceu em 3 de junho de 1963. Quem prosseguiu o Concílio foi São Paulo VI, que foi eleito seu sucessor em 21 de junho de 1963.

O Concílio Vaticano II foi encerrado depois de três anos, em 8 de dezembro de 1965, deixando como legado não apenas uma série de importantes documentos que seguem sendo de grande atualidade, mas um novo modo de ser Igreja marcado pelos conceitos de colegialidade e sinodalidade.

O Arcebispo de  Vitória, Dom João Batista da Mota e Albuquerque (1958-1984) participou ativamente do Concílio Vaticano II como padre conciliar. Contou com a colaboração, como seu assessor pessoal,  de um jovem teólogo, o padre jesuíta João Batista Libânio, que afirmava ser Dom João um dos bispos mais atualizados em Teologia. Depois de cada Aula Conciliar Dom João transmitia aos padres e seminaristas brasileiros que estudavam em Roma, as discussões, as propostas e encaminhamentos. Fazia o mesmo com os fiéis de Vitória enviando cartas aos padres que posteriormente eram publicadas no Jornal da Arquidiocese chamado O Mensageiro do Espírito Santo.

Na quarta e última sessão do Concílio em 1965, Dom João recebeu a notícia da nomeação de Dom Luís Gonzaga Fernandes, então Reitor do Seminário Maior de João Pessoa (Paraíba), como Bispo Auxiliar de Vitória. Naquele mesmo ano, as vésperas do encerramento do Concílio  Vaticano II,  Dom João presidiu a celebração litúrgica de ordenação episcopal  de seu bispo auxiliar.

Ao fim do Concílio Dom João e Dom Luís trouxeram para a Arquidiocese todas as novidades do Vaticano II. Iniciaram  um tempo de grande renovação da Igreja de Vitória, especialmente no tocante a Liturgia. Dom Luís instalou-se em Colatina com a tarefa de aplicar a mentalização do Concílio, experiência chamada de Concilinho. Multiplicaram-se, com a ajuda de padres, religiosos e religiosas os treinamentos para divulgar o Concílio Vaticano II. O resultado desse trabalho conhecemos bem: os círculos bíblicos, os conselhos pastorais em todos os níveis, o protagonismo leigo, o nascimento das Comunidades Eclesiais de Base, os movimentos sociais que surgiram a partir da conscientização dos leigos sobre o seu lugar no mundo…

O Concílio contribuiu para tornar a Igreja de Vitória uma Igreja com maior participação dos leigos e ter na sua ação eclesial  maior presença nas questões sociais, mais plural e inculturada, mas logicamente não livre de problemas.

A proposta da Exposição:  Igreja de Vitória, peregrina de esperança à luz do Vaticano II, é mostrar documentos, fotografias e peças sacras que revelam a atuação da Igreja, antes, durante e depois do Concílio Vaticano II. Mostrar um pouco de tudo o que foi vivido, revisitar a esperança que sempre impulsionou os leigos e leigas, os padres, os religiosos e as religiosas que fizeram e fazem essa caminhada junto com a Igreja.  E para que os que chegaram agora saibam que o Concílio não perdeu a sua atualidade e continua a indicar, de maneira segura, os rumos para a Igreja nesse novo tempo.

 

Uma nova comissão, coordenada por dom Andherson Franklin Lustoza de Souza, bispo auxiliar de Vitória, foi criada para pensar, programar e realizar uma Exposição

Uma nova comissão, coordenada por dom Andherson Franklin Lustoza de Souza, bispo auxiliar de Vitória, foi criada para pensar, programar e realizar uma Exposição sobre o Concílio Vaticano II.

A Exposição vai acontecer no primeiro semestre de 2025, no Cecates, Centro Católico de Estudos na Praia do Suá.

Segundo Giovanna Valfré, coordenadora do Centro de Documentação e membro da nova comissão, os objetivos são: fazer memória da história de maneira integrada em suas etapas, enriquecer o sentido de pertença à Igreja, entender o Concílio Vaticano II com seu percurso, personagens e desdobramentos e, recuperar a força do Vaticano II a partir daquilo que a Igreja aponta hoje com o Papa Francisco. Ainda, segundo Giovanna, a Exposição será composta com fotos, documentos, materiais gráficos, áudios e vídeos.

A comissão é composta por dom Andherson Franklin, bispo auxiliar; Raquel Tonini, arquiteta e membro da Comissão de Arte Sacra; Vitor Schneider, juiz e membro da Comunidade Epifania; Maria Amélia Reuter Mota Carrera, coordenadora da Comunidade Epifania; Doris Pereira de Almeida, pedagoga e membro da Comunidade Epifania; Noemita Alexandre, bibliotecária do Cecates.

Francisco é o primeiro papa ordenado sacerdote depois do Concílio, 1969. Estudou teologia bebendo das fontes de renovação da Igreja

Edebrande Cavalieri

Não é comum um Papa proferir um discurso extenso e duro, como o que foi dirigido no dia 24 de janeiro passado ao Escritório Catequético da Conferência Episcopal Italiana quando fez essa afirmação tão contundente e também tão óbvia de que o Concílio é magistério da Igreja, é ensinamento, e quem não segue não está na barca de Pedro. Por que motivo o Papa está falando assim e o que ele quer apontar como caminho para os cristãos católicos?

Francisco é o primeiro papa ordenado sacerdote depois do Concílio, 1969. Estudou teologia bebendo das fontes de renovação da Igreja. E agora enfrenta o desafio de conduzir a Barca de Pedro de acordo com esse grande ensinamento. Paulo VI dizia que o Concílio “será o grande catecismo dos novos tempos” e a tarefa da catequese está exatamente na busca de compreensão dos problemas que surgem do coração do homem para levar de volta ao dom do amor que cria e salva. Essa é missão da Igreja.

Esse discurso tão forte do Papa me lembra a história descrita em Atos 15 conhecida como Concílio de Jerusalém. A Igreja nascente estava dividida, cada um tentando levar para o seu modo de ver e agir, achando que esse seria o caminho da salvação. Parecia até uma briga política entre “esquerda e direita”, o grupo de Paulo e Barnabé e o grupo de Tiago. O foco da questão estava no quesito da circuncisão, considerada por um grupo como essencial à salvação, como se fosse uma doutrina, uma Lei canônica, um desígnio do Senhor, afinal estava escrito na Bíblia em Gênesis 17, 11: “Todos os do sexo masculino entre vocês serão circuncidados na carne”.

Os primeiros cristãos eram judeus e circuncidados conforme estabelecia a Sagrada Escritura, mas no momento em que o cristianismo se expande com o trabalho missionário de Paulo e Barnabé em territórios de população helênica, portanto não judaica, como proceder? Um grupo acha que o que estava estabelecido no Antigo Testamento deveria permanecer intocável como Lei para todos os povos. Mas por que considerar a circuncisão um dogma imutável indispensável para a salvação? Paulo é taxativo. Com Cristo nos libertamos de maneira total, e é preciso vigiar para não se submeter “novamente a um jugo de escravidão”. E completa de maneira incisiva: “Caso se deixem circuncidar, Cristo de nada lhes servirá” (Gl 5, 2). Como essa palavra de Paulo faz tanta falta nos dias atuais com tantos querendo impor jugos da escravidão superados com a vinda de Cristo!

Esse é um dos pecados que a Igreja incorreu em alguns momentos de sua história: considerar o que é transitório, o que faz parte da cultura, da história daquele momento, como algo dogmático, definitivo e derradeiro. Nos dias atuais tem diversos grupos se alinhando a essa forma de pensar o caminho da salvação. E recorrem às Leis e orientações de um passado bem remoto, anterior ao Concílio Vaticano II, aplicando aos dias atuais. Como é comum ouvir tantas pessoas dizendo: “Tá na Bíblia”! Eu sempre respondo que tem tantas coisas na Bíblia, especialmente no Antigo Testamento, que se tomarmos literalmente o texto sagrado ficaremos presos e perdidos com certas normas de conduta especialmente de cunho moral. Mas até líderes religiosos estão com preguiça de se debruçar sobre os textos e estudá-los seriamente. Tomam o caminho do fundamentalismo fácil, que serve apenas para exercício de dominação.

Na Igreja atual tem aumentado o número de pessoas e grupos querendo impor o próprio modo de ver, o próprio modo de pensar e viver o Evangelho para toda a comunidade, para todo mundo. E quando encontram pessoas que pensam e agem de maneira diferente logo chamam de “comunistas”, de “hereges”, etc. Nem o próprio Papa escapa dessas condenações. Alguns chegam ao ponto de negar o próprio Concílio dizendo estar ultrapassado. E ressuscitam Encíclicas de Papas do passado para impor um caminho restaurador. Fazem dessas coisas aplicáveis em tempos antigos código de normas e dogmas absolutos. Atacam o próprio Papa Francisco, timoneiro da barca de Pedro.

Volto novamente ao testemunho de Atos 15 que assim registra aquele encontro em Jerusalém: “Depois de muita discussão, Pedro levantou-se e dirigiu-se a eles: ‘Irmãos, vocês sabem que há muito tempo Deus me escolheu dentre vocês para que os gentios ouvissem de meus lábios a mensagem do Evangelho e cressem’”. Vejam que Lucas não esconde a tensão na assembleia. O clima esquentou mesmo. E observem o lugar de Pedro escolhido pelo próprio Jesus, que é o mesmo lugar do Papa em todos os tempos da história da Igreja.

A Igreja nascente aprendeu desde o início que o caminho da evangelização não é conduzido isoladamente por um apóstolo, por uma pessoa. O caminho é sinodal, é coletivo. E a decisão, tomada em conjunto e assumida pelo sucessor de Pedro, deve ser respeitada sempre, deve ser seguida. Todos os apóstolos se submeteram à decisão tomada em Jerusalém. Esse é o primeiro exemplo de sinodalidade da Igreja enfatizada intensamente no Concílio Vaticano II.

E ainda Lucas acrescenta que Deus não faz nenhuma distinção entre os judeus circuncidados e os pagãos não circuncidados. Pedro em seu discurso de encerramento é mais duro ainda com um dos grupos: “Então, por que agora vocês estão querendo tentar a Deus, pondo sobre os discípulos um jugo que nem nós nem nossos antepassados conseguimos suportar?” E logo toda a assembleia se calou, cada um colocando o rabinho entre as pernas. E o próprio Tiago que liderava o grupo que queria obrigar os pagãos à circuncisão conclui dizendo que “não devemos por dificuldades aos gentios que estão se convertendo a Deus”.

É assim que se caminha na Igreja. E não como aqueles que ao terminar o Concílio Vaticano II romperam com a Igreja pregando contra as decisões tomadas pelos padres conciliares. Até hoje há alguns herdeiros daquelas posturas radicais pós-conciliares e andam fazendo miséria no seio da Igreja. Não apenas pessoas, mas também grupos religiosos que se não negam abertamente o Concílio, o renegam em termos de caminho eclesial, prático, pois buscam desvios restauradores. Ou seja, ouvem o Papa, mas seguem caminho próprio e contrário ao Pontífice.

O Papa Francisco ainda precisa lembrar a todos nós que “o Concílio é magistério da Igreja. Ou você está com a Igreja e, portanto, segue o Concílio, e se não segue o Concílio ou o interpreta a sua maneira, a sua própria vontade, você não está na Igreja”. Não se negocia o ensinamento, o Concílio. E Francisco esclarece ainda mais: “Isso me faz pensar tanto num grupo de bispos que depois do Vaticano I foram embora, com um grupo de leigos, para continuar a ‘verdadeira doutrina’ que não era a do Vaticano I”. Nada diferente com o que aconteceu com um pequeno grupo no Concílio Vaticano II.

Por fim, Francisco fala mais diretamente ao Escritório Catequético: “A atitude mais severa para custodiar a fé sem o magistério da Igreja nos leva à ruina. Por favor, nenhuma concessão para aqueles que tentam apresentar uma catequese que não esteja de acordo com o Magistério da Igreja”.