Hoje (8) foi inaugurado o restauro do Fontispício do Convento São Francisco, local onde atualmente funciona a Cúria Metropolitana de Vitória.

A revitalização preserva a história, a beleza e a identidade deste patrimônio que faz parte da memória religiosa, cultural e arquitetônica do povo capixaba. Construído a partir de 1591, o antigo convento franciscano permanece como testemunha viva da formação histórica e espiritual de Vitória e do Espírito Santo.
Durante a solenidade, a bibliotecária Giovanna Valfré recordou a importância histórica do espaço e destacou que preservar o antigo convento é também preservar a memória da cidade, da religiosidade do povo capixaba e da própria formação cultural do Espírito Santo.
“Por séculos o Convento viu a cidade crescer e se transformar. Mesmo diante de tantas mudanças, continua sendo presença imponente na paisagem da Cidade Alta e símbolo da memória, da fé e da identidade do povo capixaba”, destacou.
Giovanna também relembrou que o antigo Convento São Francisco foi o primeiro convento franciscano da antiga Província da Imaculada Conceição no Brasil e que, ao longo dos séculos, o espaço acolheu frades, crianças órfãs, instituições religiosas e importantes serviços da Arquidiocese de Vitória.
A prefeita de Vitória, Cris Samorini, ressaltou a importância do restauro como forma de reconectar a população com a história e a identidade do centro da cidade. “Para muitos parece uma simples pintura, mas quem trabalha com patrimônio histórico sabe o valor e o desafio que é um restauro. É um trabalho de resgate da nossa história, da cultura, dos valores religiosos e da conexão das pessoas com o centro da cidade”, afirmou.

A relevância histórica do antigo convento, considerado um dos mais antigos conventos franciscanos do Brasil, também foi destacada pelo secretário de Estado de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc, que reforçou o compromisso do poder público com a preservação do patrimônio histórico. “Esse restauro é um investimento na memória e na identidade do Estado e da cidade de Vitória. É um presente para os moradores da capital e para todo o povo capixaba”, declarou.
O restauro vai além da recuperação física da fachada, sendo também um gesto de cuidado com a história, a fé e a memória coletiva. “Não é uma simples pintura. É desvelar um mistério de uma história tão bela que o tempo vai escondendo e que, periodicamente, precisamos mostrar de novo. Restaurar é resgatar a originalidade e manter viva a chama da nossa história de fé”, destacou Dom Ângelo Mezzari, arcebispo de Vitória.
Dom Ângelo também agradeceu às instituições públicas e privadas que colaboram com a preservação dos espaços históricos e religiosos da Arquidiocese, reforçando a importância de manter viva a herança cultural, espiritual e arquitetônica construída ao longo dos séculos.
Ao final desta matéria, você poderá conferir algumas fotos da inauguração e o relato histórico apresentado por Giovana Valfré.
História do Convento São Francisco

A origem do Convento São Francisco remonta a 1587, quando Vasco Fernandes Coutinho Filho, então governador da Capitania do Espírito Santo, convidou os frades franciscanos a se estabelecerem em Vitória. No mesmo ano, foi-lhes doado um terreno coberto por mata virgem, na parte alta da então Vila de Vitória, para a edificação do convento. Em novembro de 1591 foi lançada a pedra fundamental, marco oficial do início da construção daquele que se tornaria o primeiro convento da Província Franciscana da Imaculada Conceição no Brasil.
Por volta de 1596, o convento já estava concluído e em pleno funcionamento. Dali, os frades partiam, inclusive por via marítima, para atender espiritualmente a população local e auxiliar nas atividades da Capela de Nossa Senhora da Penha, em Vila Velha, fundada por Frei Pedro Palácios. O complexo conventual incluía igreja, claustro, capelas, jardim, cemitério, horta e pomar, além de um importante acervo de imagens sacras em madeira, tornando-se um centro religioso e cultural de grande relevância.
A atuação franciscana sempre foi marcada pela simplicidade evangélica e pelo compromisso com os mais pobres. Os frades dedicavam-se à catequese, às missões populares e à evangelização indígena por meio das chamadas missões volantes, deslocando-se até as comunidades em seus próprios territórios, em vez de impor aldeamentos fixos. Essa prática era considerada mais respeitosa às culturas locais e reforçava a proximidade entre missionários e povo.
O convento também manteve forte vínculo com a Irmandade de São Benedito, criada inicialmente para acolher pessoas negras escravizadas e depois aberta a todos. A utilização de espaços do convento pela irmandade revela seu caráter inclusivo e sua função social, tornando-o um ponto de encontro de diferentes grupos sociais.
Em 1774 foi construída a torre do convento, que posteriormente recebeu os sinos que permanecem até hoje. Em 1775, o espaço acolheu visitantes apostólicos, como Frei José do Amor Divino e Frei Salvador, que utilizaram o convento como base para missões em diversas localidades do Espírito Santo.
No século XIX, as restrições impostas pelo Império, especialmente a proibição da entrada de novos noviços, provocaram o esvaziamento de muitos conventos. Em Vitória, o Convento São Francisco chegou a um estado de semiabandono no final do século, correndo inclusive o risco de ser confiscado pelo poder público.

A criação da Diocese do Espírito Santo, em 1895, marcou um ponto de virada. Seu primeiro bispo, Dom João Batista Corrêa Néri, buscou garantir a preservação e a continuidade do uso do edifício. Em 1899, com autorização do Papa Leão XIII, o Convento São Francisco foi oficialmente transferido à Diocese, passando a integrar a estrutura administrativa da Igreja local.
No século XX, o prédio ganhou nova função social com a criação do Orfanato Cristo Rei, em 1924, idealizado pelo Padre Leandro dell’Uomo e aprovado por Dom Benedito Paulo Alves de Souza. O orfanato acolheu crianças pobres, órfãs e abandonadas, muitas delas descendentes de indígenas e ex-escravizados, tornando o antigo convento um centro de promoção humana, educação e assistência social.
Para atender a essa nova missão, reformas profundas foram realizadas, modificando quase totalmente a estrutura original do edifício. Embora vistas como progresso na época, essas intervenções implicaram a perda de importantes elementos arquitetônicos coloniais, hoje reconhecidos como parte do patrimônio histórico irrecuperável do Espírito Santo.
Em 1925, Padre Leandro promoveu a reorganização do antigo cemitério do convento, reunindo os restos mortais em um ossuário comum no pátio central, onde foi erguido um monumento encimado pela imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. O local tornou-se símbolo de respeito à memória e de continuidade entre o passado franciscano e a nova função social do espaço.
Ao longo das décadas seguintes, o edifício continuou servindo à Igreja e à sociedade, abrigando seminários, a Rádio Capixaba, a Cáritas, a Secretaria de Pastoral, a Comissão Justiça e Paz e outros órgãos da Arquidiocese de Vitória. Hoje, como sede da Cúria Metropolitana, o antigo convento mantém-se como centro de articulação pastoral, administrativa e social da Igreja Católica no Espírito Santo.
Nesse contexto, o restauro do frontispício assume um valor simbólico ainda maior. A fachada representa a identidade histórica do edifício e guarda vestígios da arquitetura colonial que resistiram às transformações do século XX. Sua recuperação expressa o compromisso com a preservação da memória, com a valorização do patrimônio cultural e com a continuidade da missão da Igreja.
Anexos
- INAUGURAÇÃO DO RESTAURO (2) (19 kB)
- Inauguração do restauro (230 kB)




































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