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A prova do Enem/2024 trouxe como tema da redação “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”. Logo nos vem à cabeça uma

A prova do Enem/2024 trouxe como tema da redação “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”. Logo nos vem à cabeça uma questão: como cristãos, o que temos feito a respeito desse desafio? A memória nos leva para 1988, quando a Igreja propôs para o tempo da quaresma daquele ano a Campanha “A fraternidade e o negro”. O lema da mesma é muito significativo: “Ouvi o clamor deste Povo Negro”.

Em outras duas oportunidades, as Campanhas da Fraternidade fizeram referência à mesma questão. Em 2018, a Igreja alertava sobre o extermínio da população jovem e negra com o tema “A fraternidade e as superação da violência” e empunhava como lema “Vós sois todos irmãos”. Em 2021, na Campanha Ecumênica da Fraternidade propôs como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, e como lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade”. Entre as várias denúncias feitas nessa campanha, a Igreja do Brasil criticava especialmente a violência contra pessoas e povos negro e indígena.

Em diversas ocasiões, o Papa Francisco tem manifestado profunda preocupação com a presença do racismo pelo mundo afora, considerando-o “um vírus que ao invés de desaparecer, ele se esconde”. Para ele, as expressões de racismo presentes na sociedade deveriam renovar em nós o sentimento de vergonha e motivo de lutar para o seu desaparecimento.

Apesar desses grandes sinais demonstrados pela Igreja, diversas organizações sociais a questionam de modo bem claro. Um grupo de 18 jovens brasileiros liderados por Patrícia de Jesus de Lima pertencentes ao grupo “Diversidade, Equidades e Inclusão” disse que estava levando uma questão para a Jornada Mundial da Juventude em Portugal em 2023: “Por que a Igreja Católica não fala do racismo”? Um grupo de católicas negras chegou diante do Papa dizendo: “mais que palavras”. A luta contra o racismo precisa ser concreta e efetiva.

A Igreja precisa contar com o apoio e a força de outras instituições, especialmente políticas e sociais. Três séculos de escravidão marcaram profundamente a sociedade brasileira e, entre as marcas, estão o racismo estrutural e a intolerância religiosa. A manutenção da discriminação apresenta-se como obstáculo à convivência social e cristã. Ao mesmo tempo, o pensamento racista enraizado nas instituições vai perpetuando as desigualdades.

Quando estudamos história, nossos livros didáticos ainda nos mostram “uma história única”, branca, aprisionando a percepção plural, múltipla. Temos medo da diversidade, da heterogeneidade. Por isso, temos necessidade de revisitar inclusive a história da Igreja Católica para romper com o silêncio imposto às narrativas negras e indígenas. Um exame de consciência nos leva a considerar que ainda somos bem conservadores em termos acadêmicos. Esse silenciar das narrativas plurais deixam nossos jovens e toda a população negra brasileira desinformada de suas origens.

A CNBB tem lutado para a articulação da Pastoral Afro-Brasileira em cada Diocese do Brasil em vista do combate ao racismo, evidenciando a identidade, a cultura e a ancestralidade do povo negro, de modo a interferir na desigualdade racial. Em 2023, no mês de novembro dedicado à Consciência Negra, Dom Zanoni Castro, Bispo Referencial dessa pastoral, dizia na celebração realizada durante a Romaria à Aparecida: “Nos juntamos aos milhares de peregrinos que, aqui vindos de tantos lugares, de carro, de bicicleta, a pé, estamos aqui orgulhosos da nossa afrodescendência. Viemos do fundo da terra, das velhas senzalas, das novas favelas, viemos do samba de roda, estamos chegando do chão dos quilombos”.

Um desafio nos é colocado: a concretização de ações de intervenção nessa realidade. De que forma? Em sua ação evangelizadora presente nos grupos de catequese, nas escolas de formação, nas escolas católicas, nos seminários de formação dos novos sacerdotes, nas diversas pastorais, nas ações litúrgicas, em sua totalidade, a Igreja pode dar um impulso forte na valorização da herança africana no Brasil presente em sua cultura e lutando para não ser silenciada, esquecida, desrespeitada e nem deixada de lado.

A próxima Romaria das Comunidades Negras à Aparecida esse ano vai ocorrer no próximo dia 09 de novembro. Será um momento muito importante para todo o povo católico do Brasil colocar-se sob a proteção de sua Mãe despertar a solidariedade entre seus filhos, presentes na sociedade brasileira, na luta contra o racismo estrutural e intolerante.

Em torno da devoção a Nossa Senhora, lembramos a Confraria de Nossa Senhora dos Homens Negros. Ela representa de modo concreto a luta dos escravos, alforriados e abolicionistas que não podiam frequentar as mesmas igrejas dos senhores. Sob o manto da Mãe de Deus esse povo excluído encontrava amparo. Agora esse mesmo povo coloca-se sob o manto da Mãe Aparecida, também negra.

Edebrande Cavalieri

Dia de finados indica algo que findou, acabou, teve fim. Contudo, essa ideia não é compatível com a fé cristã. O mundo parece caminhar

Dia de finados indica algo que findou, acabou, teve fim. Contudo, essa ideia não é compatível com a fé cristã. O mundo parece caminhar numa visão de morte como algo que se encerra, que põe fim. As guerras demonstram bem essa crença. É preciso matar o inimigo para acabar com sua luta, suas ideias. Assim também pensava o poder romano diante de Jesus. Diziam: vamos acabar com isso, vamos colocá-lo numa das mortes mais degradantes e humilhantes e assim seus seguidores também desaparecerão, suas ideias serão enterradas com o crucificado. O que celebrar, então, nesse dia?

Todos os anos, nossos calendários reservam um dia que remete ao luto, à saudade e também serve para que os vivos prestem uma homenagem aos que já partiram desse mundo. A cerimônia mistura elementos religiosos e culturais que estão presentes em todas as culturas desde tempos remotos.

Em algumas tradições chega-se ao ponto de celebrar um verdadeiro culto aos mortos, com altares especialmente dedicados a eles. Essas culturas acreditam que há uma relação entre vivos e mortos. Em cada lugar e época, as instituições especialmente religiosas cuidaram para ressignificar os laços com a pessoas falecidas, familiares ou de amigos.

Apesar disso, olhando a história da Igreja vemos que somente no século XI, o maior mosteiro beneditino da Europa situado em Cluny, na França, sob a guia do Abade Odilo, estabeleceu o dia 02 de novembro com essa celebração que foi aplicada a toda a Igreja. O cristianismo não comporta um culto aos mortos como ocorre em muitas religiões. O Cristo não é celebrado ou cultuado por sua morte, mas por sua ressurreição dos mortos como “Espírito que dá vida” (1Cor 15, 45).

As celebrações em memória dos fiéis mártires ganham sentido enquanto eles testemunharam Cristo, morreram por Cristo. Aqui está o eixo central de nossa fé que compõe a esperança cristã. A morte não é mais o fim de tudo, do mundo, mas o cumprimento da vida. A morte de Jesus Cristo na cruz é a expressão maior do amor de Deus com os homens e sua ressurreição é a garantia de que viveremos para sempre, pois fomos resgatados. Paulo nos diz em 1 Cor 15, 14-15 que “Se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé”.

O dia dos finados nos coloca frente a frente com a realidade da vida, a morte. Os dias atuais nos mostram como a morte ficou tão trivializada, algo natural e comum; não comporta sequer uma lágrima dos vivos em várias situações. Um mundo sem coração! Como se mata gente nas guerras em várias partes do mundo! Tantas pessoas assassinadas nas guerras urbanas! Cresce a cada dia o número de mulheres mortas no cotidiano de nossas cidades e moradias! A morte parece ter perdido até o impacto do fim, muito menos como momento para o fortalecimento da esperança cristã.

Para os cristãos, o morrer encontra o sentido último em Jesus Cristo, a certeza de que esse momento não é o desaparecimento na vida, mas o encontro definitivo com Deus. A promessa de Deus que se cumpre em seu Filho nos mostra o caminho escatológico para a salvação. A morte não é mais a última palavra do destino humano.

Nesta data caberia refletirmos sobre o que significa a morte para cada um de nós. Como queremos viver? Será que não estamos querendo esconder a morte para fugirmos desse desafio que é ultrapassar a penúltima palavra do destino humano, o morrer? Até que ponto nossas fugas e excesso de atividades não estão escondendo nossa covardia para mergulhar no silêncio da morte para ali encontrar a luz da nossa esperança? Até que ponto podemos adiar o prazo final?

Nossas orações pelos fiéis defuntos no dia de Finados deveriam servir para superar os momentos das lágrimas e nos transformar em nossa vida cotidiana. E como cristãos, servir para olharmos a morte de frente, olhá-la com esperança. A morte deve nos levar a centralizar nosso foco na vida.

Além disso, esse dia deveria servir para refletirmos sobre tantas matanças no mundo atual que fazem da morte a vitória do poder, da ganância, do egoísmo. Esse dia deveria servir para colocarmos fé e esperança no contexto de um mundo de dor e morte.

Nossa prece então seria: Onde houver morte que saibamos levar a vida. Que as sepulturas fiquem vazias diante da fé no Ressuscitado.

Edebrande Cavalieri

Francisco, um papa incansável e preocupado com as dores do mundo, lança a IVª Encíclica de seu pontificado no contexto de um mundo que

Francisco, um papa incansável e preocupado com as dores do mundo, lança a IVª Encíclica de seu pontificado no contexto de um mundo que parece ter perdido o coração diante de tantas guerras, mortes, crises de vários tipos, novas tecnologias. Às vezes ou quase sempre, ao vermos os noticiários, temos a impressão de estarmos perdendo nossa essência humana. A crueldade cresce diante dos homens com matanças em guerras entre países, culturas, ideologias e guerras urbanas. A crueldade diante dos habitantes da casa comum, incendiada, queimada, destruída, completa o cenário de um mundo que parece ter perdido o coração. O que leva o Papa a escrever essa Encíclica?

Diante desse cenário catastrófico, o Papa Francisco nos convoca para olharmos para o Coração Sagrado de Jesus. O coração revela a unidade de um ser, sua interioridade e sua capacidade de pensar e agir. Quando essa essência se desfigura dizemos popularmente que alguém age sem coração. A Igreja, ao trazer para os fiéis a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, quer mostrar o imenso amor do Filho de Deus que O levou a entregar-se por nós na cruz e a dar-se como Eucaristia, como Sacramento do Altar.

Trata-se de uma devoção que nos insere no Mistério da Salvação, da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Ela já existia na Igreja, porém sua difusão cresceu muito com as três aparições à freira da Visitação, Santa Margarida Maria Alacoque, no convento de Paray-le-Monial na França. A primeira delas ocorreu no dia 27 de dezembro de 1673 num momento de profunda oração e recolhimento da santa diante do Santíssimo exposto no altar. A festa foi instituída em 1856 pelo Papa Pio IX em meio às crises em que a Igreja vivia na Itália com as lutas políticas pela unificação deste país.

Ao olharmos a imagem do Sagrado Coração se manifestando sobre um trono em chamas, rodeado por uma coroa de espinhos simbolizando os pecados dos homens que vão ferindo e sangrando o coração, nos colocamos em oração para podermos mudar nosso modo de olhar os outros e o mundo, mudar nossas perspectivas de vida e nossos objetivos. A devoção deve nos levar a um processo de conversão de nosso olhar, de mudança de nosso coração.

O Papa Francisco sempre se mostrou sintonizado com essa devoção e chega a relacioná-la à missão dos sacerdotes. A eles indica a necessidade de orientar seu coração sempre para a ovelha perdida, para aquele que está distante, para os últimos, para os corações feridos pela guerra e pela violência. Em tantos momentos de seu pontificado ele mostrou estar com o coração partido diante do sofrimento das pessoas. Sentiu do fundo de seu coração como há tantas pessoas agindo sem coração ou parecendo não ter coração, alimentando as guerras feitas em pedaços pelo mundo a fora.

Seu antecessor, Papa Bento XVI, ao celebrar o 50º aniversário da Encíclica Haurietis aquas do Papa Pio XII, destaca que o mistério do amor de Deus por nós “não constitui apenas o conteúdo do culto e da devoção ao Coração de Jesus: ele é, da mesma forma, o conteúdo de toda verdadeira espiritualidade e devoção cristã”. Tal devoção tem o amor como princípio, meio e fim; por isso o título Dilexit nos – Ele nos amou.

Na aparição a Santa Margarida Alacoque Jesus lhe diz que não recebe senão “da maior parte dos homens desprezo, ingratidões, ultrajes, sacrilégios, indiferenças” e pede que seja realizada uma festa na sexta-feira depois de Corpus Christi dedicada para honrar o seu nome com um ato de desagravo para reparar as indignidades que recebe.

A nova Encíclica do Papa Francisco também aponta o caminho para todo o conjunto de devoções que movimenta a espiritualidade cristã atualmente. Não podemos estacionar nossa espiritualidade numa determinada prática devocional, mas caminhar para o Coração de Cristo que é o centro da misericórdia revelada por Deus.

Ao lermos as doze promessas feitas por Jesus Cristo à Santa Margarida Maria Alacoque podemos perceber como essa devoção alarga o horizonte da espiritualidade cristã. As promessas nos remetem para “a paz nas famílias”, o “consolo nas aflições”; promessas onde os “pecadores encontrarão inesgotável misericórdia”, “e as almas tíbias encontrarão forças” e “os sacerdotes encontrarão poder para tocar os corações mais endurecidos”.

Dessa forma, a nova Encíclica representa uma atualização da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, em novos contextos históricos, representando um valor e com respostas profundas para toda a humanidade.

Assim com essa devoção, a Igreja é chamada a ser sinal da misericórdia “que se suja, toca, se envolve, quer se comprometer com o outro…empenha-se com uma pessoa, com sua ferida”, nos diz o Papa Francisco. É preciso que nossa espiritualidade nos leve a recolocar o lugar do coração nas pessoas, nas relações, nos grupos, nos países. O caminho da devoção nos deve levar para uma “renovação eclesial” e “dizer algo significativo para um mundo que parece ter perdido o coração”.

Edebrande Cavalieri

Uma proposta de regramento do uso de celular nas escolas pode servir para refletirmos um pouco sobre essa mesma questão presente em nossas igrejas

Uma proposta de regramento do uso de celular nas escolas pode servir para refletirmos um pouco sobre essa mesma questão presente em nossas igrejas nos momentos de celebração. Muitos celebrantes ficam em situação de desconforto em pedir aos fiéis que se abstenham de usar o celular nas celebrações.

Em alguns lugares, pelo contrário, estão usando as telinhas para acompanhar os cantos, as orações, etc. Todas as igrejas estão enfrentando a mesma questão que se enfrenta nas escolas. Um pastor evangélico decidiu proibir totalmente o uso de celular nas celebrações, falando abertamente que nem mesmo as criancinhas deveriam fazer uso desse equipamento para se distrair com joguinhos.

Na verdade, estamos presenciando uma confusão bastante grande sobre isso. Em outro artigo dizíamos que o tempo da escola não deveria ser mutilado pelo tempo virtual das telinhas. Como fica então o tempo sagrado? Não seria o caso de as igrejas também estabelecerem um regramento sobre o uso dos objetos conectados como celular, tablet e relógios?

Nas religiões, dois componentes são centrais para a vivência espiritual: tempo e espaço sagrado. Em algumas delas nem sequer é permitido entrar no espaço sagrado usando sapatos. Entra-se descalço. Até o vestuário é regrado para adentrar no espaço sagrado. Por aqui, muitas vezes, entra-se numa igreja como se estivesse numa praia ou na rua. Perdemos a capacidade de distinguir os espaços, e tornamos nossas vidas monótonas. Assim, estar num recinto religioso pouca diferença faz em relação aos demais espaços.

O Diretório de Comunicação da Igreja do Brasil da CNBB diz no parágrafo 82: “Com a evolução das tecnologias de amplificação de imagem e som, as igrejas são beneficiadas com os aparatos técnicos que contribuem para maior visibilidade, compreensão e participação da Celebração Eucarística. Cuide-se, no entanto, que eles não ocupem o centro da relevância e da atenção em relação à Palavra e ao rito sacramental, e não criem ambiente de dispersão e de distração. Antes, colaborem para que os fiéis participem de forma ativa e reflexiva das celebrações eucarísticas”.

Participando de diversas celebrações nas igrejas percebemos que muitas pessoas acabam dando uma olhada nas mensagens das redes sociais, respondendo demandas, sorrindo em contraste com o que se celebra; até as criancinhas acabam usando o “aparelhinho querido” para se distraírem com joguinhos, deixando os pais mais concentrados na celebração. Incutimos nos pequenos a dependência tecnológica. Que mundo estamos criando em nossa volta? Até que ponto essa dependência é compatível com a expressão da fé?

O Papa Francisco nos diz que o importante é o coração do homem e a sua capacidade de fazer bom uso dos meios a seu dispor. Contudo, é preciso estarmos atentos, pois o desejo de conexão digital pode acabar por nos isolar do nosso próximo até mesmo nos bancos da igreja e desorientar-nos. Disse-nos o Papa há pouco que fica triste quando vê fiéis registrando as celebrações com o celular, como se estivessem apreciando um espetáculo, um show. A celebração não é show e nem o altar é um palco.

O bom senso no uso dos equipamentos eletrônicos para fins litúrgicos deveria ser o ponto central. Porém, o grande problema é não ficar se entretendo com os outros aplicativos instalados no celular quando a missa está demorando um pouco mais ou porque alguém ache que a homilia está muito longa. Se a pessoa não consegue resistir a seu uso na liturgia, no tempo e no espaço sagrado, é melhor desligar tudo.

Em qualquer celebração religiosa o Centro de nossa atenção deveria ser Deus. Em nenhuma empresa alguém pega no celular durante a fala do chefe. Por que podemos ser mal-educados com Deus que é o centro de nossa oração? Na igreja espera-se que todos e todas, inclusive as crianças, estejam voltados para dialogar com Deus, todos inteiros nas orações e celebrações. Dividir nossa atenção com essas tecnologias enfraquece a espiritualidade. Ainda o silêncio total é a melhor condição para nos unirmos a Deus e aos irmãos. As distrações podem custar muito caro para a nossa fé.

Edebrande Cavalieri

Ao olhar os resultados das eleições nos municípios de Vila Velha, Vitória, Cariacica e Viana com a reeleição de seus mandatários algumas considerações nos

Ao olhar os resultados das eleições nos municípios de Vila Velha, Vitória, Cariacica e Viana com a reeleição de seus mandatários algumas considerações nos parecem pertinentes a serem ditas e refletidas. Vejamos os dados: Arnaldinho Borgo foi reeleito com 79,04% dos votos, maior percentual desde 1972; Euclério Sampaio reeleito com 88,41%; Wanderson Bueno reeleito com 92,48%; e Lorenzo Pazolini reeleito com 56,22%.

A política municipal possui características próprias. É como se estivéssemos olhando para o quintal de nossa casa. Os eleitores querem ver resultados imediatos e próximos de onde moram. Assim, coleta de lixo das residências, limpeza urbana, asfaltamento de ruas, cuidados com saneamento e alagamento nas ruas são o espelho imediato que irá refletir na urna. Que importa apoios do alto escalão da política nacional? Quase nada. Isso é válido também para a Câmara dos Vereadores.

Ganhar uma eleição para prefeito não é garantia de ser reeleito e por isso algumas ações imediatas são essenciais. A definição de uma agenda de trabalho com atenção às questões específicas que mais impactam a vida das pessoas e alternativas com soluções práticas e eficazes constituem o primeiro passo. As pessoas querem ter melhor qualidade de vida, acesso aos serviços básicos. Para isso, escutá-las é o primeiro investimento do prefeito. Ele e sua equipe precisam dispor de tempo para percorrer o município.

Um elemento agregador é o foco nas políticas públicas considerando as sugestões dos cidadãos. Daí o planejamento, a transparência e a participação. Nesse caminho a sensibilidade social é fator determinante. As pessoas gostam de saber que estão sendo atendidas, que foram ouvidas, que estão sendo cuidadas.

As novas lideranças políticas campeãs de votos nessa eleição – Wanderson Bueno, Arnaldinho Borgo e Lorenzo Pazolini – se consolidam com muita luz própria, sem depender de caciques apoiadores da política nacional. Tanto o Presidente Lula, quanto o ex-Presidente Bolsonaro estiveram presentes em algumas candidaturas aqui no Estado. Mas o impacto eleitoral não foi suficiente para alavancar seus candidatos e acabaram caindo num limbo eleitoral.

Como será o novo mandato que se inicia? Trata-se de um novo momento de governança que requer continuidade em muitos aspectos e novos horizontes em tantos outros. É um novo momento para cada município. A confiança dada nas urnas requer uma contrapartida maior ainda por parte dos eleitos. Os olhares das pessoas continuam sendo para aquelas necessidades imediatas de moradores do município. Os novos prefeitos não podem ser seduzidos pela política nacional que a partir de agora aponta para as eleições nacionais.

Efeito mais próximo desta eleição está no campo da política estadual, pois daqui a dois anos teremos eleições para o governo estadual e deputados estaduais. As novas lideranças que surgem das eleições municipais podem mostrar novos caminhos na política estadual. Porém, há que se cuidar muito. Os tempos atuais são líquidos, como nos diz Zygmunt Bauman, e tudo pode mudar muito rapidamente. A vontade do eleitor também pode mudar enquanto suas necessidades não forem atendidas.

Gostaria de concluir essa análise trazendo o pensamento do Papa Francisco, expresso em maio de 2022. Ele dizia que a política é a arte do encontro, vivido acolhendo o outro e aceitando sua diferença, num diálogo respeitoso. Encontro político como encontro fraterno, que se inicia com a mudança de olhar sobre o outro. E isso requer uma mudança, caso contrário arrisca-se a cair num confronto violento para fazer triunfar as próprias ideias na busca de interesses particulares e não o bem comum.

Parabéns a todos os eleitos, prefeitos e vereadores, o nosso povo espera muito de vocês no próximo mandato!

Edebrande Cavalieri

No domingo – 22/09 – aconteceu o Encontro “É preciso amor para poder pulsar” – organizado pelo Conselho Central de Vitoria da SSVP. Tivemos

No domingo – 22/09 – aconteceu o Encontro “É preciso amor para poder pulsar” – organizado pelo Conselho Central de Vitoria da SSVP. Tivemos a participação de 83 vicentinos e algumas pessoas que estão em tratamento na Fazenda da Esperança – Serra, local onde ocorreu o encontro.

Os temas foram conduzidos, brilhantemente, pela consócia Ada Ferreira – vicentina de Belo horizonte – MG, que nos levou a aprofundar o amor a SSVP, passando por São Vicente e Luisa de Marillac, Ozanam e Rosalie Rendu e finalizando com os desafios dos dias atuais para a SSVP.

Para a consocia Norma do CP Jardim América: “Foi um dia muito especial, um encontro para recarregarmos nossa energia e fazer pulsar nosso coração junto com o de Ozanam, nesta missão tão importante. A organização estava perfeita, tive a oportunidade de conversar com um dos internos da Fazenda Esperança, um senhor que não me lembro o nome veio ao nosso encontro cheio de esperança para uma vida nova…”.

O ponto alto do encontro foi a Santa Missa, celebrada pelo padre Jones da paróquia São Francisco de Assis – Laranjeiras – Serra. Ele nos levou a refletir sobre a nossa vocação e que Deus que nos escolheu para sermos vicentinos.

Já a Consócia Dalva do CP Bela Aurora disse: “ Foi um momento de conhecimento e aprendizado de como São Vicente de Paulo praticou a ação de amor com os mais pobres. Que o amor e a amizade é a base para alcançar o espírito de colaboração e cooperação nas conferencias. Despertou em nós a necessidade de vivenciar a mística de São Vicente de Paulo – abrir os olhos, abrir os ouvidos, abrir o coração e deixar o amor pulsar”.

O confrade Woldyr Cardoso comentou sobre a Consócia Ada Ferreira: “Ela é de uma Sabedoria louvável, tendo conhecimento na caminhada enquanto vicentina, e tendo em mente conhecimento histórico dos Nossos Santos Fundadores, São Vicente Paulo, Antônio Frederico Ozanam, entre outros. Ela foi Abençoada juntamente com o Conselho Central em passar este Retiro! Gostei muito! A organização, o Lugar”.

Todos os anos promovemos um encontro com representantes de todas as conferencias vicentinas do Conselho Central, a cada encontro percebemos maior engajamento e vontade de aprender para servir melhor nossos mestres e senhores.

Em meados do mês de setembro, o Papa Francisco assinou uma Carta ao Colégio de Cardeais a respeito da reforma econômica da Cúria Romana,

Em meados do mês de setembro, o Papa Francisco assinou uma Carta ao Colégio de Cardeais a respeito da reforma econômica da Cúria Romana, dentro do programa mais amplo da Reforma da Igreja. Esse é um dos maiores desafios da Igreja que tem implicações em todas as esferas eclesiais, chegando a cada comunidade. O Papa pede aos cardeais “selecionar bem as prioridades, favorecendo a colaboração recíproca e sinergias. Cada Instituição que tiver superávit que ajude a cobrir o déficit geral no modelo de solidariedade das boas famílias.

A reforma está ancorada em três pilares: mais visibilidade, mais transparência e mais controle. De maneira concreta, qualquer Dicastério que precisa fazer uma grande despesa deverá solicitar autorização e, imediatamente, montar um projeto definindo a necessidade e abrir um concurso público com diversos proponentes que quiserem participar da licitação. As propostas deverão ser avaliadas técnica e economicamente por uma comissão independente e a melhor proposta será a escolhida. Portanto, não poderá haver favorecimento ao grupo A ou B, ao amigo de alguém. Tudo deverá ser registrado por escrito e eletronicamente, evitando ao máximo a prática do clientelismo. Há uma certa burocracia, porém não é mais tempo de fazer negócio individualmente e sem prestar contas. Para obter a autorização é preciso haver explicação detalhada da operação.

Com essa prática, a Igreja Católica coloca-se em sintonia com as exigências do mundo atual, das organizações públicas e privadas, prezando pela transparência em todas as suas dimensões. Ao mesmo tempo, a Cúria Romana tem enfrentado nos últimos anos a questão do déficit com o aumento de novas despesas. A proposta feita aos cardeais é “déficit zero” como meta alcançável, com gestão transparente e responsável a serviço da Igreja, evitando o supérfluo, selecionando prioridades. Os recursos econômicos a serviço da missão são limitados, e por isso não podem ser desperdiçados.

O Papa Francisco diz aos cardeais que “a reforma [realizada até aqui] lançou as bases para a implementação de políticas éticas que permitam melhorar o rendimento econômico do patrimônio existente”. Na verdade, tem consciência que, ao se trabalhar de maneira ética e transparente, a Igreja ganha em credibilidade e, consequentemente, em solidariedade. Por isso, tem caminho aberto para que se obtenha recursos externos para sua missão.

Por fim, o Papa destaca a necessidade de redução dos custos da Igreja, atendo-se ao espírito de essencialidade, evitando o supérfluo, escolhendo produtos mais compatíveis com a opção preferencial, selecionando bem as prioridades. Muitas vezes, uma pequena comunidade com pouquíssimos recursos acaba investindo muito dinheiro na compra de um carro mais carro ou adquirido objetos litúrgicos incompatíveis com a realidade da comunidade.

A reforma econômica da Cúria Romana deveria servir de modelo para cada grupo, cada comunidade, cada paróquia, cada diocese do mundo inteiro. Desta forma, enquadra-se a vida econômica da Igreja aos princípios evangélicos. A forma e o exemplo que cada comunidade eclesial dá para si e para o mundo externo a ela é o caminho melhor para que a Igreja cresça e se fortaleça, exercendo forte atração e compromisso solidário. O proselitismo exagerado de certos pregadores sem amparo no exemplo concreto faz mal para a comunidade, gerando desconfiança e abandono das pessoas.

Edebrande Cavalieri

Entende-se por “geração Z” as pessoas nascidas entre 1995 e 2010, era digital. Por isso as pessoas nascidas nesse período são conhecidas como “nativos

Entende-se por “geração Z” as pessoas nascidas entre 1995 e 2010, era digital. Por isso as pessoas nascidas nesse período são conhecidas como “nativos digitais”. A questão que nos move decorre da influência do advento da era digital na vida dos jovens no que se refere à vivência da fé e processos devocionais. É muito comum nos encontros de Igreja os adultos perguntarem “onde estão os jovens”? Onde podem ser encontrados? As crianças ainda frequentam o catecismo, mas os jovens estão desaparecendo dos cultos e celebrações.

A sociedade brasileira passa por mudanças intensas, especialmente com a passagem do mundo rural para o mundo urbano. Se no mundo anterior a família e a Igreja eram determinantes nos processos de socialização, hoje há uma forte tendência de vivência plural dentro das próprias famílias tanto em termos religiosos como em opção sexual ou vivência da sexualidade. Nesse contexto, os jovens tendem a buscar uma experiência religiosa a seu modo.

Essa geração não é sem fé, mas sem vínculo institucional com alguma Igreja ou religião. A ela foi imposta uma fase de experimentação em tudo e não apenas no que se refere à sexualidade. A experiência religiosa também é objeto de experimentação. Por isso é comum ouvir jovem dizendo que não tem religião, mas acredita em tudo, em Jesus Cristo, em entidades, em energias, no universo.

Cresce o número desses jovens que sequer foram batizados em alguma Igreja, e assim sentem-se livres para frequentar os diversos ambientes religiosos. Acreditam que possuem mente muito mais aberta que seus pais; assim amadurecem com postura de respeito por todos os credos, inclusive em relação aos ateus que sempre foram objeto de inúmeros preconceitos. Diante disso, desenvolvem uma espiritualidade bem fluida, sincrética, sem fidelidade a alguma doutrina específica.

As pesquisas mais recentes mostram que o número desses jovens considerados “sem religião” supera o percentual de católicos e evangélicos. Em São Paulo representam 30%, com 24% se autodenominando católicos e 27% evangélicos. No Rio de Janeiro 34% são “sem religião”, 32% são evangélicos e católicos 17%. Em termos nacionais são 25% considerados espiritualmente de “nenhuns”. Previa-se o crescimento da secularização, mas o que estamos vendo na geração Z é a presença de outros modos de ter fé. É também conhecida em países europeus como a primeira geração póscristã. Entre nós ainda predomina a cultura cristã, contudo esse cenário está sofrendo profundas mudanças com a importação de novos cultos especialmente oriundos da cultura oriental e africana.

A família não é mais garantia da pertença à religião dos pais. Muitos desses jovens pertencem ao grupo dos “católicos nominais”, pois foram batizados, mas não frequentam cultos e sacramentos. Portanto, não estão expostos às autoridades eclesiásticas, morais e comportamentais. Muitas pregações dos líderes religiosos atingem apenas à faixa etária dos adultos e idosos. A família perde sua posição de instituição referencial para os processos de socialização como era no mundo rural.

É preciso destacar também a influência das lutas antirracistas no seio da juventude afrodescendente. Muitos desses jovens estão fazendo um retorno à sua cultura de origem, encaminhando-se para cultos em terreiros. Isso tem gerado também um conjunto de problemas com muitos pastores especialmente pentecostais e neopentecostais que condenam as religiões de matriz africana. Portanto, a perda institucional dessa geração não se restringe às Igrejas históricas nascidas do movimento reformador dos séculos XVI e XVII.

Com isso, constata-se também que é um equívoco pensar que os evangélicos sejam “massa de manobra” e os jovens desse segmento sejam fiéis seguidores das diretrizes dos líderes religiosos. Não é verdade que os jovens evangélicos sejam estáticos. Eles possuem visão crítica em relação à demonização de tudo que está fora da Igreja, à indiferença aos problemas do mundo real, à preocupação excessiva com filmes, músicas e jogos de vídeogameconsiderados prejudiciais pelos pastores. Em suma, cresce a imagem de uma “igreja chata” para esses jovens e sentem que Deus parece estar ausente da experiência de Igreja.

Por fim, o confronto entre as ideias e práticas dessa geração com o movimento político de grupos ultraconservadores com pautas morais com mesmo teor nos parece indicar rompimento ao longo do tempo com essa nova geração. O discurso ultraconservador pode até ser objeto de penetração, contudo em termos práticos o caminho dos jovens dessa geração segue outro percurso, de liberdade, de autonomia, de experimentação, plural e de respeito a todos. É predominante entre eles a ideia de que o voto não deveria ser obrigatório.

A vivência religiosa da geração Z nos faz concluir que a fé não mais se reproduz verticalmente entre as diversas gerações, mas horizontalmente vai produzindo várias maneiras de se ter fé ou não. Não há uma obrigatoriedade e nem a família possui mais aquela autoridade de impor sua fé religiosa. Para as gerações anteriores cabe, antes de qualquer juízo, conhecer melhor essa geração, acolher e convidar para o convívio fraterno aproveitando suas competências e experiências no mundo digital e mudar as formas de evangelização e instrução.

A juventude nos mostra novos movimentos com diversas situações, arranjos, trajetórias e histórias. Estamos diante de uma geração que não aceita mais nenhum “pacote pronto”, seja moral ou religioso, sem ser rebeldes. Por si mesma, essa geração vai abrindo novos caminhos. Onde vai dar? Não sabemos. Resta aceitar, aguardar e conhecer, acompanhando com muito carinho.

Edebrande Cavalieri