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As eleições estão se aproximando, propaganda eleitoral nas mídias e nas ruas, e uma constatação: a quantidade grande de candidatos a prefeitos e vereadores

Edebrande Cavalieri

As eleições estão se aproximando, propaganda eleitoral nas mídias e nas ruas, e uma constatação: a quantidade grande de candidatos a prefeitos e vereadores pelo Brasil a fora com título religioso. Esse fenômeno tem chamado a atenção dos estudiosos de Ciências da Religião e Ciência Política. Conforme o TSE há 4.426 candidatos com o perfil de pastor/a, 3.561 como irmão/ã, 203 bispos, 190 missionários, 157 pais, 109 padres, 42 apóstolos, 12 reverendos e 2 reis.

A questão principal é por que motivo os religiosos estão buscando o voto nos rebanhos das Igrejas? Chama ainda mais a atenção a predominância de títulos cristãos. Haveria assim um movimento de cristianização da política? Uma nova cristandade? Será que através dos palanques o Evangelho penetraria mais facilmente que através dos púlpitos?

Esse fenômeno não é novo no Brasil. Até a Proclamação da República com a vigência do Padroado, era comum os padres participarem ativamente da política, inclusive liderando revoluções, como ocorreu na “Revolução dos Padres” ou Revolução Pernambucana de 1817. Mas com a separação entre Igreja e Estado praticamente vai desaparecendo a participação dos clérigos na vida partidária e política. No meio católico o Código de Direito Canônico restringe muito a participação de clérigos na política partidária.

A primeira vez que religiosos de natureza evangélica aderiram à campanha política ocorreu com a convocação da Assembleia Constituinte em 1986, pois temiam que a nova Constituição devolvesse à Igreja Católica antigos privilégios. Temiam também a inclusão da defesa dos homossexuais, dos comunistas, das feministas, da liberação do aborto, do uso de drogas, do viés ecumênico do ensino religioso nas escolas. Em muitos desses temas os evangélicos tiveram o apoio de grupos católicos de linha mais conservadora. Assim, algumas Igrejas mantiveram-se alheias à vida política e outras, de modo especial a Igreja Universal e a Assembleia de Deus, passaram a incentivar seus membros pastores na luta política fortalecendo a Bancada Evangélica.

A pauta moral e ideológica passou a integrar os programas de campanhas eleitorais. Ao mesmo tempo a narrativa evangélica passou a alinhar essa pauta com uma fundamentação bíblica. “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”. O ritmo de crescimento foi maior nos últimos quatro anos. Como se dá esse caminho eleitoral pelo viés religioso?

Trata-se de uma tendência crescente em países como o Brasil. Ficou ainda mais forte com a expansão da chamada Direita Cristã que tem como base o governo norteamericano. Os diversos grupos de evangélicos em união com grupos católicos buscam influenciar as políticas públicas, propondo Leis e influenciando decisões do Governo. Dessa forma, possuem uma visão de mundo muito forte, às vezes radical e até fundamentalista, e nesse perspectiva procuram influenciar os governos em todas as instâncias.

O sucesso tem a ver com a capacidade de mapeamento feito por especialistas (marqueteiros) do sistema de crenças que guia as pessoas. O meio evangélico de cunho pentecostal é o que mais cresce em termos da população brasileira. Tendo claro o sistema de crenças, de preferência usando a relação com a Bíblia, especialmente o Antigo Testamento, os candidatos religiosos encontram um caminho mais fácil de chegar às Câmaras Municipais, às Assembleias Legislativas e ao Congresso Nacional.

Percebe-se também que o número de candidatos aos executivos não é tão grande. Parece que há um certo receio de assumir o governo. Melhor é ter alguém de sua confiança, uma espécie de ungido. A eleição de Marcelo Crivela no Rio de Janeiro é uma experiência a ser analisada para as campanhas ao executivo.

Com o mapa de crenças em mãos, os candidatos que se apresentam com títulos religiosos pensam que terão menos trabalho para atingir seus eleitores. Há uma espécie de atalho rápido e assim se dá a conquista do voto do eleitor. O título religioso tem uma significância muito grande num país tão religioso como o Brasil. Em nossa cultura parece haver uma correlação direta entre um título religioso e a dignidade moral. Como as pessoas se guiam por um sistema de crença não há maiores questionamentos a respeito da vida moral e pessoal do candidato.

Os candidatos religiosos para grande parte dos eleitores guiados pelas crenças representam a vontade de Deus. Assim como Deus não impediu que Davi continuasse no poder mesmo diante do grave pecado cometido levando à morte Urias e ficando com sua esposa, pensa-se que o mesmo Deus aceitaria que determinados governantes mesmo pecando permaneçam no poder. Acreditam que os governos religiosos se mantém no poder apesar de seus pecados, pois foram ungidos. Por isso, até cabe chamar o presidente de “profeta”. Seria a restauração do regime monárquico de Direito Divino?

Até que ponto esse caminho político se sustenta? Até que ponto o sistema de crença garante força e continuidade? Aqui está a grande questão. O sistema de crenças pode ser implodido, de dentro de si mesmo, ou a partir de fora. Para impedir essa implosão do sistema religioso/político será fundamental estancar os caminhos e atalhos críticos presentes na cultura. Por isso, o sistema democrático tende a representar um perigo para a manutenção política dos grupos religiosos presentes na política. Daí o alinhamento do poder com forças conservadoras, tradicionalistas, fundamentalistas.

Alguém poderia se contrapor perguntando se os líderes religiosos não poderiam participar da vida partidária como candidatos. Todo cidadão que goze de plenos direitos garantidos pela Constituição pode se candidatar. Não há nenhum ilícito nisso. Então por que tem crescido o movimento que pede aos pastores que voltem para suas Igrejas?

Mesmo estando em suas Igrejas, a união entre púlpito e palanque não tem respaldo ético e muitas vezes nem respaldo moral. O que acontece de errado? Muitos líderes religiosos, mesmo não sendo candidatos, aproveitam do espaço do altar e do púlpito em redes de rádio e televisão e divulgam imagens para suas candidaturas políticas. Tornam-se verdadeiros coronéis com base religiosa. Isso não é permitido do ponto de vista jurídico e muito menos moral. O TSE discute isso como “crime de abuso do poder religioso”. Trata-se de uma propaganda irregular, proibida, passível de cassação da candidatura divulgada.

Por fim, a questão mais delicada se refere ao uso do espaço político para beneficiar apenas seu segmento religioso, sua própria Igreja ou grupo de Igrejas. Isso tem acontecido e crescido muito no Brasil. As trocas de favores como negociação de dívidas das Igrejas ou apoio econômico para publicidade em meios de comunicação religiosos são imorais e afetam o Estado Democrático. Nenhum agente público pode beneficiar um grupo em detrimento de outros. Na Democracia todos devem ser contemplados com o mesmo direito, com o mesmo bem. O espaço político institucional não é extensão das Igrejas. Nenhum presidente, governador ou prefeito é ungido como messias num Estado Democrático.

Dessa forma, o maior benefício para o Estado e para as Igrejas sempre foi e sempre será considerando as duas esferas de maneira separada. A história está repleta de exemplos dos perigos quando se une a esfera política com a esfera religiosa. O debate nas candidaturas religiosas então se situa na maneira como a pessoa utiliza do poder político para beneficiar seus interesses religiosos particulares. Ninguém é contra as candidaturas religiosas, mas contra o uso do espaço público e político para beneficiar interesses religiosos particulares, de suas respectivas Igrejas.

Artigo sobre o boletim Caminhada.

O BOLETIM CAMINHADA

Giovanna Valfré

Coordenação do Cedoc

Em novembro de 1975, as comunidades da Arquidiocese de Vitória receberam o boletim Caminhada. Os primeiros números foram elaborados para ajudar o povo a se preparar e a rezar pela ordenação diaconal do então seminarista Antônio Rocha de Araújo, que ficou muito conhecido entre nós, como padre Toninho. O folheto, além do roteiro da celebração, trazia informações sobre o serviço de animador de comunidade que o jovem Toninho desempenhava com muito amor na região de Vila Velha, do seu chamado vocacional e do seu desejo de comprometer toda a sua vida servindo o povo de Deus como padre. Nos domingos que antecederam a ordenação do seminarista, o Folheto Caminhada foi elaborado pelos amigos do seminarista e trazia preces em seu favor. As orações pediam luz e força para que o ele assumisse sua vocação até o fim de sua vida. Com uma linguagem simples, o folheto podia ser compreendido tanto pelas pessoas da cidade como por quem estava no campo. Até hoje o Boletim Caminhada é publicado pela Arquidiocese de Vitória e usado nas Celebrações da Palavra pelo povo de Deus em várias paróquias e comunidades.

Artigo de Vânia Reis sobre a liberdade de ter filhos.

A liberdade conquistada no risco de ter filhos

Vânia Reis

Psicóloga e professora

Em um pouco mais de uma geração (60 anos), a taxa de fecundidade das mulheres brasileiras despencou mais de 27% trazendo fortes impactos na estrutura populacional e na sociedade. Hoje as mulheres, com escolaridade e renda maior, preferem ter filhos com mais idade e, cada vez mais mulheres, decidem não ter filhos. Ter filhos, que era obrigação não passível de discussão, mas questão de honra, hoje é definido, quase sempre, por decisão individual da mulher ou do casal. Só nesta mudança podemos ter inúmeros desdobramentos, mas com a proximidade do Dia das Crianças vamos focar no início de tudo: o querer ter filhos.

Zygmunt Bauman, um grande sociólogo polonês, fez uma análise relevante quando expôs a fluidez das relações afetivas na dinâmica da vida contemporânea e o reflexo no dilema daqueles que pensam ter filhos.  Tomar uma decisão como essa significa desejar uma relação “para sempre” que gera dependência em um mundo que rejeita o duradouro. A dependência é um grande medo nas relações afetivas hoje. A existência de um filho demanda abdicar, por tempo indefinido, das benesses da liberdade das relações fluídas contemporâneas. O compromisso traz medo aos que mergulham neste estilo de viver contemporâneo. Ter filhos hoje exige aceitar um compromisso sem prazo de validade. Não dá para devolver filhos, procurar o Procon ou o SAC por não estar de acordo com as expectativas.  Para explicar o dilema dos pais, Bauman usa a metáfora de uma pessoa entrando numa ponte onde tem, do outro lado, uma nuvem espessa. Ter filhos seria fazer essa jornada. Escolher entrar em uma ponte sem qualquer certeza prévia de felicidade ou satisfação.

Ter filhos era decisão fácil nas certezas que o mundo trazia até os anos 60. A vida era pautada nos parâmetros da física clássica e implicava na linearidade de causa e efeito. Se eu fizer isso, conseguirei aquilo. Essa forma de perceber o mundo levava as pessoas a se sentirem seguras. Se seguíssemos certos parâmetros teríamos estabilidade no emprego, no casamento, na profissão, na família e assim na vida. As transformações do contemporâneo, são muito mais complexas e onde não há mais, por exemplo, linearidade entre causa e efeito. Assim entre um evento e outro há, de fato, um mundo de infinitas possibilidades de respostas, com isso desconstrue-se as certezas em relação ao futuro. As mudanças trouxeram, entre muitas outras a aversão a tudo que tem “raízes” profundas e dificultam a mudança. Entre outras desconstruções, buscou-se “desmanchar os sólidos” (valores, instituições, religião, família…) tudo que tinha força própria e valor. Foi buscada a eterna fluidez do vir a ser, do efêmero, do novo, que prometia reassegurar o senso de liberdade e autonomia, dando força ao consumismo e ao individualismo… Ter filhos se choca com as exigências profissionais e os ideais de autonomia, poder, sucesso que são a essência dos valores da modernidade líquida e muitas vezes por isso tem sido tão adiado.

Buscando a liberdade estamos sendo cada vez mais prisioneiros. Nos imperativos da nova ética social, das novas normas, estamos deixando de viver o essencial: a relação profunda com o outro afetivo. Na metáfora do Bauman, patinamos no gelo fino da superfície e nunca podemos parar senão afundamos. Nesta lógica somos superficiais e focados nas aparências. Muitos estão insatisfeitos, ansiosos e se sentindo vazios. Ao se ater às infinitas possibilidades de relacionamento, corremos o risco de não alcançar verdadeiramente nenhuma delas.

Não sei você, mas essa realidade não me satisfaz. Precisamos apreender a correr riscos em busca de valores menos tangíveis, valores que os bens de consumo não trazem, mas que são libertadores. Precisamos vencer o temor de amar, de se comprometer. Leo Buscaglia, nos instiga a refletir o perigo que é viver sem correr riscos : “Rir é correr o risco de parecer tolo. Chorar é correr o risco de parecer sentimental. Estender a mão é correr o risco de se envolver. Expor seus sentimentos é correr o risco de mostrar seu verdadeiro eu. Defender seus sonhos e ideias diante da multidão é correr o risco de perder as pessoas. Amar é correr o risco de não ser correspondido. Viver é correr o risco de morrer. Confiar é correr o risco de se decepcionar. Tentar é correr o risco de fracassar. Mas devemos correr os riscos, porque o maior perigo é não arriscar nada. (…)”, e continuando fala dos que não querem correr risco para não sofrer e, no final ‘”não conseguem nada, não sentem nada, não mudam, não crescem, não amam, não vivem” e assim vivendo, são acorrentadas por suas atitudes e deixam de ser livres.

Estamos aprisionados nesta cultura do provisório, do prazer sem dor, no raso, no morno. A troca afetiva entre pais e filhos, entre pessoas afetivamente envolvidas pode ter dor, angústia e sofrimento, mas nada se compara ao amor que nos retorna.

O dia da criança está chegando e inspirada no Papa Francisco eu também os convoco a ir contra a corrente e a lutar contra a cultura do provisório que, no fundo, crê que não somos “capazes de amar a verdade.” Ter ou não ter filhos pode ser uma decisão sua ou imposição da vida, mas “tenhamos a coragem (de correr risco e) de sermos felizes!”. Não tenhamos medo de amar!!!

Artigo do prof. Edebrande Cavalieri sobre a Encíclica Fratelli Tutti do Papa Francisco.

Amizade social entre irmãos

Edebrande Cavalieri

Doutor em Ciências da Religião

O Papa Francisco acaba de publicar sua mais nova Carta Encíclica, Fratelli Tuttti – fraternidade e amizade social, destinada a todo o povo de Deus especialmente aos católicos, fazendo ecoar esse grito de amor a partir de um lugar, o túmulo de São Francisco em Assis, celebrado no dia 04 passado. Daí nasceu também a inspiração para a Carta Encíclica Laudato Si’. Contudo, Fratelli Tutti também recebeu um novo estímulo: o encontro com o Grande Imã Ahmad Al-Tayeb, de Abu Dhabi.

A título de informação Imã é o sacerdote islâmico considerado ungido de Alah e guia de uma comunidade que se reúne na Mesquita. Em diversas oportunidades o Papa Francisco em viagens pelo oriente encontrou-se com este Imã. Trata-se de uma grande referência no mundo islâmico e juntos assinaram em 2019 a Declaração de Abu Dhabi sobre a Fraternidade Humana em prol da paz mundial e a convivência comum. Al-Tayed dizia quando se encontrou com o papa: “A humanidade deveria enfatizar o valor da paz, da justiça, igualdade e direitos humanos, independentemente da religião, cor, raça ou linguagem”.

O título “Fratelli Tutti” retoma a forma com que São Francisco de Assis se referia aos seres humanos e a toda a terra. Todos irmãos! Fraternidade e amizade social não são apelos românticos ou sentimentalistas, mas um fato que implica uma saída, um descer do cavalo, e uma ação, como fez o Samaritano ao encontrar um homem caído. O ódio fundamentalista usa o nome de Deus para eliminar o outro, o diferente. “De quem me faço irmão?” Essa é a grande questão que está presente na Encíclica. A pergunta de Deus em Gênesis 4, 9 feita a Caím é a mesma pergunta que Ele faz a cada um de nós nos dias atuais. “Onde está Abel, teu irmão?” E a resposta de Caim é a mesma dita hoje por tantas pessoas: “E eu com isso? Ou: E daí?”. Caim dizia: “Não sei; sou eu o guarda do meu irmão?”

No retorno da viagem em 2019 após a assinatura da Declaração o Papa disse que aquele documento foi muito bem pensado tanto no mundo muçulmano como no mundo católico, “porque para mim existe um grande perigo agora: a destruição, a guerra, o ódio entre nós. E se nós, crentes, não conseguirmos estender nossas mãos, nos abraçar, nos beijar e até rezar, nossa fé será derrotada. Esse Documento nasce da fé em Deus que é o Pai de Todos e Pai da Paz e condena toda destruição, todo terrorismo”.

A Encíclica Fratelli Tutti nasce assim de uma experiência concreta de diálogo inter-religioso entre o mundo católico e o mundo muçulmano. Todos nós sabemos ou deveríamos saber a história dos conflitos e tantas mortes entre essas duas grandes religiões que hoje compõem dois terços da população mundial. E todos também deveríamos saber um pouco das dificuldades para esse diálogo.

É nesse contexto que surge a mais nova Carta Encíclica que nos propõe um projeto que é de fato uma necessidade: constituirmos a humanidade como um “nós” que habita a casa comum. Nasce da fé que acredita na dimensão universal do amor, que nasce da Trindade. Segundo o Papa, a Covid-19 deixou expostas nossas falsas seguranças, mostrando nossa incapacidade de agirmos em conjunto. E nos ensinou que ninguém pode enfrentar a vida isoladamente. Precisamos de uma comunidade que nos apoie e que nos auxilie.

Não estou propondo um resumo da Encíclica, mas apenas trazendo algumas informações motivadoras para a sua leitura. Todo católico deveria ler e meditar, pois se trata de um linha de ação proposta pelo sucessor de Pedro. Leitura, meditação e oração!

Chamou-me muito a atenção o capítulo 2 com o título “Um estranho no caminho”. O amor cristão que Jesus apresenta nos Evangelhos tem um modelo bem paradigmático na parábola do Samaritano. Diz-nos o Papa: “Ao amor não lhe interessa se o irmão ferido vem daqui ou dacolá. Com efeito, é o ‘amor que rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; amor que nos permite construir uma grande família onde todos podemos nos sentir em casa. […] Amor que sabe de compaixão e dignidade”.

O modelo mostrado na parábola do Bom Samaritano não é algo intrínseco a uma determinada Igreja ou religião. Trata-se de um caminho de todos os cidadãos do próprio pais e do mundo inteiro. O mundo precisa de um novo vínculo social. Novos laços sociais. Os laços partidários, ideológicos, que alguns grupos religiosos professam não servem ao amor, mas ao ódio, à guerra. Levam espadas nas mãos e não a cruz da misericórdia.

É a partir do objetivo da busca do bem comum que se pode reconstruir a ordem social e política, o tecido das suas relações. O ícone iluminador do Bom Samaritano nos mostra que a existência de cada um de nós está ligada à dos outros, pois a vida é o tempo do encontro. No cenário da parábola, ficam claros os caminhos que se tem à frente: agir como aquele homem que desce do cavalo e vai cuidar do ferido, ou estar do lado dos salteadores que quase mataram aquele homem, ou passar indiferente diante do sofrimento do estranho. Temos assim cotidianamente tantos estranhos em nosso caminho. Tantas pessoas à espera de um cuidado. A mudança vai ocorrer quando a luta for contra todo tipo de exclusão, quando se age para reabilitar as pessoas caídas, para que o bem de fato seja comum. Isso não é comunismo, mas Evangelho de Jesus Cristo.

A recuperação do conceito de fraternidade amplia o horizonte da própria solidariedade, pois inclui os diferentes como irmãos. Inclui o estranho. Inclui o estrangeiro. A solidariedade é muito importante, mas muitas vezes ela se estrutura num planejamento de ação social baseada na proximidade geográfica ou racial, ou religiosa. O dizer que todos somos irmãos sendo diferentes, estranhos, estrangeiros, tem um alto valor político, pois afirmamos a cidadania de todos, com direitos e deveres iguais. E todos podem usufruir dos bens da justiça. Somente a fraternidade nos dará base para a “amizade social”. Não podemos confundir as coisas: a amizade no contexto da fraternidade e a amizade no contexto da solidariedade. A Encíclica nos remete para a amizade com os diferentes! Com os estranhos! Essa foi a diferença na atitude do bom Samaritano. O exemplo que vem de Assis nos mostra uma fraternidade radical.

A Encíclica se compõe de sete capítulos com 287 parágrafos, que tratam de um mundo aberto, um coração aberto ao mundo inteiro, uma política melhor, um novo encontro. O que me chamou muito a atenção foi o capítulo VII que convoca as religiões para o serviço da fraternidade no mundo. Temos visto crescer um sentimento particularista dentro de uma mesma religião ou Igreja. Grupos fechados em si mesmos. Grupos em luta uns com os outros. Grupos até de combate ao Papa Francisco por trilhar os caminhos evangélicos. Como é possível um diálogo com os muçulmanos se nem dentro da própria Igreja conseguimos constituir um laço de fraternidade?

O Papa conclui a Encíclica transcrevendo o apelo à paz, justiça e fraternidade que assinou junto com o Imã Abu Tayed e traz, além da memória de São Francisco de Assis, outros irmãos que não são católicos mas que lutaram e deram a vida pela paz: Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Mohandas Gandhi e muitos outros. E inclui outra pessoa de profunda fé, de intensa experiência com Deus, que realizou um caminho de transformação até se sentir irmão de todos: Beato Carlos de Foucauld.

Enfim, o modelo de santidade vivido por Santa Clara e São Francisco requer posturas radicais em relação ao que Deus nos chama. A fraternidade é uma dessas decisões radicais. “Se a música do Evangelho parar de vibrar nas nossas entranhas, perderemos a alegria que brota da compaixão, a ternura que nasce da confiança, a capacidade da reconciliação que encontra a sua fonte no fato de nos sabermos sempre perdoados-enviados”. É preciso repercutir a mensagem do Evangelho nas casas, nas praças, nos postos de trabalho, na política e na economia.

Boa leitura, com meditação e oração!

A visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima ao Espírito Santo

A visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima ao Espírito Santo

Giovanna Valfré

 Coordenação do Cedoc

Em 1945, pouco depois do final da 2ª Guerra Mundial, um padre de Berlim propôs que a imagem de Nossa Senhora de Fátima percorresse todas as capitais e as cidades episcopais da Europa até à fronteira da Rússia. A partir do ano de 1947 a imagem percorreu, por diversas vezes, não somente a Europa mas o mundo inteiro, levando consigo uma mensagem de paz e amor. São mais de meio século de peregrinações em que a Imagem de Fátima visitou 64 países dos vários continentes.

Entre maio e dezembro de 1953 ela esteve pela primeira vez no Brasil, quando devotos católicos, organizados em várias Dioceses, se prepararam com tríduos e orações, para receber a imagem daquela que em 1917 apareceu às crianças, Lúcia, Jacinta e Francisco em Portugal. No Espírito Santo, a nossa capital Vitória, e também os municípios de Vila velha e Cachoeiro de Itapemirim, receberam a Imagem peregrina de 12 a 17 de abril de 1953. Dom José Joaquim, na época Bispo do Espírito Santo, convocou uma equipe de leigos e pessoas de boa vontade para preparar a recepção à Imagem de Nossa Senhora de Fátima. Foram publicados boletins informativos e a Comissão trabalhou intensamente junto às paróquias, Associações Religiosas e fiéis fazendo uma propaganda organizada em todo o território capixaba.

Naquele tempo a Diocese contava com 44 paróquias e 80 padres. A chegada da Imagem peregrina de Nossa Senhora do Rosário de Fátima aconteceu no mesmo dia da Festa da Penha daquele ano.

A imagem chegou num avião da FAB (Força Aérea Brasileira) no município de Cachoeiro de Itapemirim no dia 12 de abril de 1953. No dia 13 foi recebida em Vila Velha, seguindo para o Convento da Penha. Ainda no dia 13 as 19 horas chegou no Parque Moscoso e foi levada num andor até a Praça da Catedral. Nesse momento saudaram Nossa Senhora, Dr. Messias Chaves, Secretário de Governo e Dom José Joaquim Gonçalves. Após os discursos, a imagem foi coroada e as 22 horas foi celebrada missa vespertina. Logo após, as homenagens continuaram na Paróquia de Santo Antônio. A Imagem peregrina também esteve na Paróquia Santa Rita, Praia do Canto, em hospitais, no Leprosário de Itanhenga e na Santa Casa de Misericórdia.

As crianças também participaram desse momento recebendo bençãos especiais. Na despedida, após a missa solene, um grande cortejo de carros acompanhou a Imagem até o Campo de Aviação quando seguiu para o Rio de Janeiro, na Cidade de Campos. O Brasil se despediu dessa primeira visita da Imagem peregrina de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, no Ceará, em 17 de dezembro de 1953.

Artigo de pe. Renato Criste sobre alcoolismo na adolescência.
Pe. Renato Criste Covre
Mestre em teologia do matrimônio e da família

O fenômeno do alcoolismo, podemos considerar, pela sua altíssima preponderância e incidência, como uma verdadeira doença social. Também a avaliação dos estudiosos é unanime sobre esta “emergência” e sobre a triste primazia sobre os danos à vida, à saúde, à família e à sociedade.

Não é difícil perceber considerando, não somente o dano direto sobre aquele que é “dependente” porque consumidor, mas também pela quantidade, a facilidade de acesso ao consumo, os efeitos sobre a saúde do consumidor-dependente, e os danos que acontecem nas famílias, no trabalho, no trânsito. Em síntese os danos são enormes em diversos níveis da sociedade.  

Também não se pode dizer que o alcoolismo seja dependência típica da juventude, porque se trata de uma minoria, mas esta minoria encontra hoje incentivos e ocasiões novos (inclusive dentro do ambiente familiar). O fato é que o adolescente não deve consumir álcool uma vez que o sistema nervoso esta ainda em desenvolvimento.

Em vista de uma saúde integral do adolescente uma condição preliminar não deve faltar, isto é, colocar-se em uma profunda e sincera atitude de buscar o bem verdadeiro dos adolescentes e de querer este bem diante de Deus, na oração quotidiana e oferecer uma proposta cristã autêntica.  A acolhida, o desejo de compreensão devem sempre ser testemunhados com caridade e doçura, buscando favorecer sempre as razões que acompanham as propostas, mas tudo isto não deve significar espírito de acomodação, ou de laxismo.

Se supõe um sujeito consciente e livre, que seja chamado ao sentido da responsabilidade, e se supõe alguém no qual se deva prestar contas: pode ser antes de tudo o próprio sujeito-agente (responder a si mesmo ou a própria consciência) ou o superior (pais, responsáveis, educador…) ou a Deus, enfim, se supõe uma ação realizada em estado de consciência e que seja de relevante conteúdo e consequência.

A tarefa do adolescente está em saber descobrir com verdade e segurança, como melhor acolher o bem através das ações e das escolhas boas, para viver a plenitude da vida. Isto é, ser responsável.

A responsabilidade é cheia de esperança, move-se da convicção, que a vida é dom contínuo, fonte de amor, porque procede do amor; o dom de Deus é capaz de unir vida e amor, e nos consente, seguindo o destino da vida, isto é, aspirar a plenitude, assumindo a própria vida como tarefa. Responder ao dom da vida com o dom de si, nisto consiste a responsabilidade. Não é a responsabilidade do medo, mas a resposta do amor ao amor, é graça recebida que aspira se tornar dom.

Por isto no expor a proposta cristã ocorre nutrir os nossos programas de palavra de Deus e oferecer bem o ensinamento sobre a figura de Cristo. Os adolescentes buscam pontos de referimento, ele mesmo tem um referimento que é vital, que pode ser sentido e tocado com as próprias mãos que é aquele da Pessoa de Cristo.

A ânsia pela recuperação da identidade aprisionada fez o gosto da liberdade clamar alto após o primeiro susto, e os menos severos fomos, aos
Vânia Reis
Psicóloga e professora *

No início desta pandemia, nossa principal necessidade era aprender a nos proteger de um inimigo invisível e muito ameaçador. Vimos reportagens na televisão e nas redes sociais até à exaustão.

Sem abordar as dores das perdas vividas desde então, vamos delinear aqui alguns aspectos deste processo que estamos ainda vivendo. Foram e são muitas as variáveis pessoais, sociais, financeiras, profissionais e políticas para que possamos fazer uma só reflexão, mas uma coisa é certa: nossas crenças, nossos valores, nossa fé foram decisivos para nós. Com fé fomos amparados, protegidos e, aos poucos fomos nos acostumando com este estranho mundo.

Cada um entrou neste cenário com os seus recursos pessoais e isso fez, como sempre, muita diferença.

Otimistas ou pessimistas, os mais autoconscientes, os mais severos em suas crenças pessoais, mantiveram o isolamento social com tanto rigor que muitos viveram, ou ainda vivem, momentos de grande angústia. A ânsia pela recuperação da identidade aprisionada fez o gosto da liberdade clamar alto após o primeiro susto, e os menos severos fomos, aos poucos, experimentando a renovação da nossa autonomia perdida.

Os mais velhos e os jovens foram os que reagiram primeiro. Exaustos de tanto ouvir notícias desastrosas desligaram as televisões. Passaram a selecionar o que assistiam. Mais aliviados, deram um grande passo para retomar as rédeas de suas vidas. Mas…. aos poucos, fomos novamente capturados.

Quando fomos atrás de nossos interesses nas mídias sociais, o bombardeio mudou de configuração. Fomos inundados por inúmeras sugestões e ofertas, em cada movimento digital que fazíamos.  Após um tempo, nem foi mais preciso digitar, basta estar conversando e falar com clareza de um interesse qualquer, para em seguida sermos inundados pelas ofertas no Facebook ou no Google, pois estas empresas ouvem literalmente o que falamos e repassam para seus parceiros nossos interesses. Fomos sendo seduzidos pela nossa curiosidade e pelo desejo da “oportunidade única” e assim novamente capturados pelas incontáveis lives, shows, cursos gratuitos, informações diversas enfim… e, estamos novamente atordoados por tantas opções (sempre “talhados” ao nosso gosto). Excessivamente estimulado, nosso cérebro tem dificuldade de “desligar” e os distúrbios do sono aparecem e com isso, mais e mais problemas.

Está em suas mãos, novamente, dizer: Chega! Basta! Perceba que você está sendo induzido a fazer escolhas sem se questionar, sem estabelecer prioridades. Você faz escolhas sem avaliar, sem sentir se o momento é este. Você está sendo levado a fazer a suas escolhas, no tempo do outro. Então pare.

Primeiro veja se isso está lhe acontecendo. Se permita o silêncio. Sente-se numa cadeira confortável e mire o horizonte, sinta a vida ao seu redor. Permita-se não fazer nada, apenas sentir. A brisa no rosto, os cheiros, os sons…ficar à toa mesmo. Descansa a sua mente.

Há quatro grandes parâmetros para enfrentar (e modificar) uma realidade de forma efetiva: VER, SENTIR, PENSAR E AGIR. Temos sido impulsionados a pensar e agir o tempo todo e negligenciado o ver e o sentir. Sem ver a realidade de maneira mais ampla e profunda, posso ser levado por e para caminhos diferentes dos meus reais objetivos pessoais. Sem verdadeiramente SENTIR, certamente perderei contato com o que me conecta, como pessoa, com o mundo.

Sem pressa, tome contato com você mesmo. Se permita desligar do lá fora. Perceba o que está ao seu lado. O “consumismo intelectual”, via controle pela racionalidade, via fome de conhecimento e até de prazer, se esgarça com a compreensão clara de que tenho limites físicos também para essa “gula”.

Mais do que isso, é necessário compreender se ao querermos apreender o mundo, estamos deixando de lado o olhar para o aqui e agora. Para dentro de nós e a nossa volta. Deixamos de ver, deixamos de sentir e deixamos de olhar nos olhos, para olhar uma tela.

É isso mesmo que queremos? Interagimos sem verdadeiramente nos conectar conosco mesmo e com as pessoas que amamos e que também está desligado de nós e com os olhos dela na tela.

Me lembrei dos tempos de racionamento de energia. Várias horas com tudo desligado. Restava às pessoas se aquietar, sentar e conversar. Aos poucos com o olho no olho. Era muito bom!!! Experimente isso qualquer dia…

*[email protected]

De repente, nossas vidas tiveram que mudar radicalmente. As cidades pareciam testemunhar um toque de recolher. Ruas desertas. Comércio fechado. Igrejas! Nossa, até as
Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião

De repente, nossas vidas tiveram que mudar radicalmente. As cidades pareciam testemunhar um toque de recolher. Ruas desertas. Comércio fechado. Igrejas! Nossa, até as Igrejas foram fechadas e as celebrações foram planejadas para serem feitas e participadas de maneira virtual. Cenário de guerra com as pessoas em casa. Mas onde estava o inimigo?

Logo foi identificado: Corona vírus ou simplesmente Covid-19. Mas não é visível. Só se sabe que é fatal para muita gente. Devastador. Os cemitérios foram ampliados e os enterros foram feitos sem velório e sem acompanhamento de pessoas, exceto uns poucos parentes. A dor da perda era sufocada entre quatro paredes da própria casa. A despedida através das lágrimas tinha que ser à distância.

Desde 26 de fevereiro esse cenário foi crescente e ameaçador. A pandemia chegou antes de tantas coisas na área da saúde. A Covid-19 chegou antes da políticas públicas nas favelas e periferias, atingindo pobres e negros. Logo se percebeu que não temos tantos leitos de UTIs à disposição da população. O protocolo sanitário recomendava lavar as mãos com sabão, usar máscaras e utilizar álcool gel 70º. Mas não era possível encontrar nada no comércio. As máscaras acabaram na primeira semana; o mesmo aconteceu com álcool 70º. Somente sabão e água. Menos mal. Mas…O que fazer?

Acompanhando o desenvolvimento da pandemia até esse momento, quando já ultrapassamos a casa das 140.000 mortes podemos identificar algumas lições muito importantes. Esse número por si só nos mostra a força devastadora desse pequeno ente chamado vírus. Não é algum animalzinho de estimação! Com ele não se brinca! É traiçoeiro.

Logo descobrimos que um gesto individual conduz ao bem estar coletivo: lavar as mãos, que é um gesto dos mais simples, tem um impacto tão grande para impedir o alastramento da infecção. Essa atitude de higiene deveria ser a primeira lição, pois tantas outras doenças seriam evitadas com a higiene das mãos. Nossas mãos salvam vidas. É para isso que devemos usá-las. Nesse mesmo caminho deve ser colocado o uso das máscaras. Doravante qualquer pessoa que estiver com algum sintoma de tosse ou febre deveria usar máscara para impedir que seja causa da infecção de uma pessoa que esteja ao seu redor. É preciso cuidar de si sem descuidar do outro.

E outro aliado na higiene vem da própria natureza: o álcool. E vemos como não é caro evitar que a pandemia se alastra. Difícil é garantir leitos e hospitais. Até hospitais de campanha para tempos de guerra tivemos que construir. Mas o caminho da saúde se inicia com outras práticas. Descobrimos que uma boa política de saúde não é tão cara. Só que não garante votos nas eleições. Hospitais e ambulâncias são grandes cabos eleitorais.

Nessa guerra ressurgiu fortemente a experiência de solidariedade como arma contra a pandemia. Costureiras passaram a empregar seu tempo na confecção de máscaras que desapareceram do mercado. Grupos se organizaram para a distribuição de cestas básicas e kits de higiene pessoal. A onda solidária não precisa ser um tsunami, mas um pequeno gesto como fazer compras para vizinhos idosos. A solidariedade salva. Como dizia o Arcebispo de Vitória, Dom João Batista da Mota e Albuquerque, “só o povo salva o povo”.

Nossa solidariedade se amplifica num meio ambiente saudável. Aprendemos que cuidar de nós mesmos implica automaticamente no cuidado do planeta. A ONU tem demonstrado que cerca de 70% das doenças tiveram origem animal inclusive o coronavírus. Aqui fica uma das lições mais difíceis de serem aprendidas. Essas doenças estão diretamente relacionadas com a degradação do meio ambiente como a derrubada das matas, as queimadas e a morte de nossos rios com a exploração de garimpos e tragédias como a de Mariana. Mas não é apenas isso. Deve-se incluir o uso cada vez maior de agrotóxicos e a destruição de animais silvestres. A saúde humana está diretamente vinculada à saúde animal e ambiental. Essa é nossa casa comum, que deve ser cuidada.

Outra lição se refere à linha de frente no combate ao coronavírus. Quem eram as pessoas que cuidavam dos doentes nos leitos de UTIs? Nossos maiores guerreiros na verdade são guerreiras, pois 85% desses trabalhadores eram mulheres e tantas morreram em combate. Tanto nos hospitais como no comércio em geral atuando nos caixas foram as mulheres que mais se expuseram ao risco da infecção por estarem na linha de frente.

A grande lição que brota do magistério do Papa Francisco é a concretização do princípio de que a fé cristã é essencialmente comunitária. Na arquidiocese de Vitória, como em toda a Igreja Católica, a ausência da vida em comunidade foi dura. Como se sentiu tanto a falta de vida da comunidade. Não era apenas saudade dos outros irmãos. Sentia-se sua ausência corporal. A fé cristã não se completa sem a dimensão concreta da pessoa. As Igrejas fechadas era algo concreto. Mas a ausência das pessoas da comunidade era sentida como dor. Dor da ausência sensível do outro para o abraço, para o olhar, para a comunhão.

A celebração que não expressar a comunhão de maneira concreta verá o enfraquecimento da fé. O dízimo caiu 40% em termos de arrecadação para a sustentação. Mas a Igreja não sente essa contabilidade como uma empresa, mas como expressão sensível da solidariedade. Também com a ausência de celebrações presenciais se perdeu a oportunidade das ofertas que representam quase 30%. Ofertas e dizimo são expressões da solidariedade e não de um tipo de imposto eclesial. Apesar disso, em nenhum momento houve desânimo de padres e leigos, que logo trataram de criar formas de serviços em tempos de pandemia, garantindo conforto espiritual e momentos de oração através das redes sociais, da TV e da Rádio. Esse movimento de solidariedade culmina com a campanha de ação solidária denominada CONDIVIDIR que distribuiu mais de um milhão de cestas básicas.

E como última lição, meu ODE À PRIMAVERA que acaba de se iniciar. Não sou poeta, mas o espírito também pode contemplar o belo das flores e das cores, símbolos da esperança!

Ela acaba de chegar! Também por aqui é muito esperada!

O frio da situação de pandemia foi duro e difícil.

Para muita gente, insuportável.

Mas para outros era puro exagero,

uma gripezinha que os fortes nem sentem os sintomas.

Mas o frio da morte chegou em tantos lares.

Principalmente em lares negros e pobres.

Então! E então?

Comemoremos a esperança!

Comemoremos as flores!

Comemoremos a beleza de cores!

Comemoremos os frutos que virão!

A primavera chegou.

Uma nova primavera.

Com seu mais saboroso fruto: a solidariedade!

Outra primavera.

Que seja diferente!

Que seja revestida de prudência e cuidado.

Mas que venha com alegria.

Precisamos sim de nova festa!

Não repetição e muito menos ações compensatórias

de tirar o tempo perdido.

De ir às foras!

Pois não há “tempo perdido”.

Há tempo vivido.

Há tempo interrompido.

Foi interrompido para mais de 140.000 pessoas.

Que a PRIMAVERA seja o novo tempo vivido com beleza e esperança.

Vestida de prudência e cuidado.

Apenas isso.

Que seja mais uma lição nesses tempos de pandemia

e possamos atravessar em definitivo esse túnel!

Que Deus nos abençoe!