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Chegou o momento tão esperado para a Igreja local da Arquidiocese de Vitória: receber o novo arcebispo! Para isso, nada melhor que celebrar a

Chegou o momento tão esperado para a Igreja local da Arquidiocese de Vitória: receber o novo arcebispo! Para isso, nada melhor que celebrar a posse em torno da Eucaristia que nos irmana na comunhão com toda a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que acontecerá no próximo dia 22 de fevereiro.

Ao colocar-me a escrever algumas palavras de acolhida a Dom Ângelo Ademir Mezzari, veio-me o texto de Isaias 52: “Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa notícia, que anuncia a salvação”. Por isso, “Desperta-te! Desperta-te! Vista a roupa de festa, Jerusalém, cidade santa”. Sim, Igreja de Vitória, vista a roupa de festa para a chegada do novo pastor, sucessor dos apóstolos, junto do Papa Francisco, que é o sucessor de Pedro.

Nossa alegria é bem profunda, pois estamos recebendo o legítimo sucessor dos apóstolos, princípio e fundamento visível da unidade na própria Igreja. E uma certeza que São Cipriano de Cartago já testemunhava: se alguém não estiver com o Bispo, também não estará com a Igreja. Nossa alegria também se fundamenta no sentido da unidade que nos irmana em Cristo. De nossa parte, este deve ser o compromisso dos batizados e ministros ordenados com a Igreja de Jesus Cristo presente aqui em Vitória.

Toda e qualquer ato de posse na Igreja possui um sentido bem específico. Não é o mesmo da posse que ocorre em cargos no mundo civil. O sentido da posse do novo arcebispo não significa uma espécie de “apossar-se” da Igreja. Significa receber e aceitar uma graça, um ministério, um serviço. Dom Ângelo, a partir desse momento, passa a ser o responsável por governar esta Igreja local, ensinar e santificar todo o Povo de Deus, e, de modo especial, os católicos. Sua posse dá início ao ministério episcopal, de serviço à Igreja unido ao Papa.

Nos primeiros contatos de Dom Ângelo foi possível perceber em seu rosto a alegria na missão de evangelizar. E como peregrino de esperança sabemos que o Bispo sempre se coloca à frente para indicar a estrada e sustentar a esperança do povo. Tantas vezes nessa caminhada temos a impressão de que pouco ou nada estamos avançando. Então, a presença do bispo no meio de todos nós, com sua proximidade simples e misericordiosa, vai nos ajudando e nos fortalecendo na fé.

Tantas vezes, será preciso atrasar o passo para ajudar aqueles que estão atrasados, que caminham mais devagar. O rebanho pode encontrar novas estradas e, assim, o Bispo caminhará a seu lado, no seu meio, discernindo as ações, os passos, os alimentos a serem conquistados. O Evangelho de Jesus Cristo é um chamado para caminharmos juntos, sendo luz do mundo e sal da terra.

Dom Ângelo chega nessa Igreja local no ano do Jubileu, momento marcante da Igreja conduzida pelo Papa Francisco. A posse nos enche de alegria e esperança. O texto bíblico de Levítico 25 nos orienta nessa caminhada para proclamar a libertação por toda a terra a todos os seus moradores. Trata-se de um tempo santo. Com o novo arcebispo queremos vivenciar esse acontecimento de grande relevância espiritual, eclesial e social. Esta será a melhor forma de acolher o novo Pastor desta Igreja local. Sem bem-vindo, Dom Ângelo!

Edebrande Cavalieri

As férias escolares estão terminando. Para algumas crianças e jovens, essa data não é nada agradável. Para tantos outros, é um desejo de reencontrar

As férias escolares estão terminando. Para algumas crianças e jovens, essa data não é nada agradável. Para tantos outros, é um desejo de reencontrar os amigos dos anos passados com quem se alegraram nos momentos de recreio e convivência escolar. Para os pais, chega o momento das preocupações com a compra de material escolar com preços exorbitantes. Quem vai socorrer aquelas famílias que não podem disponibilizar tanto dinheiro para esse momento?

Quem já viveu essa situação, sabe e sente na própria alma esse sofrimento dos pais. Algumas crianças tiveram que ser transferidas para outras escolas em decorrência da distância, do preço das mensalidades das escolas particulares, da violência em volta da escola, da ausência de uma política pública consistente para a educação. O sofrimento maior parece ser de ordem financeira e social.

O Papa Francisco nos traz uma contribuição imensa ao pedir que consideremos que no mundo tudo está interligado. Ser humano, natureza e meio ambiente estão em profunda conexão, numa relação de interdependência, troca e cooperação. Esse é o caminho de vida e de cura para o planeta que está doente e para uma sociedade desesperançada. Então, todas as preocupações e problemas levantados acima estão em íntima conexão, profunda relação.

O mundo em nossa volta sofre as consequências do modelo de exploração da terra e das águas. Desmatamento, queimadas, mudanças climáticas, degradação do solo estão fazendo a terra gritar. As águas que inundam as cidades, as ruas e as casas, são consequência desse processo de exploração.

Os pobres colonos e meeiros tiveram que abandonar as terras num grande êxodo rural vindo habitar as periferias, pobres e sem amparo do poder público. São essas mesmas pessoas que hoje sofrem com os preços das mensalidades, dos materiais escolares, das distâncias para seus filhos chegarem à escola que foram um dia expulsas da terra onde trabalhavam. Por isso dizemos que o grito da terra também é o grito dos pobres.

O Papa Francisco nos diz na Encíclica Laudato Si’ que “a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos e da relação de cada pessoa consigo mesma”. A cada dia nossas cidades são invadidas pelas águas torrenciais de verão. No inverno foram as queimadas. Até cidades estão sofrendo com os incêndios como vemos nos EUA. Não era assim até pouco tempo atrás. E por que agora precisamos ficar atentos aos alertas da “Defesa Civil”?

Daí surge uma questão: se não formarmos uma nova consciência humana nessa sociedade com as gerações novas as previsões serão cada vez mais sombrias. Como então vamos educar essas crianças e jovens?

A Campanha da Fraternidade desse ano traz como tema “Ecologia Integral”. E seu lema é “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). O tempo da Quaresma é o momento em que em todas as paróquias, todas as comunidades, deveria haver espaço para iniciarmos processos de “conversão ecológica”. Contudo, temos visto que algumas instâncias religiosas agem com indiferença e até contra a Campanha da Fraternidade. Como iremos educar nossas crianças de catequese se elas não ouvirem falar da crise climática? Como os adultos poderão aproveitar o tempo da quaresma para a conversão se não conhecerem e refletirem sobre os graves pecados que cometemos contra a criação de Deus? Pecados contra a água, contra a terra, contra as florestas. São nossos irmãos e irmãs como toda a criação.

O mesmo deveria acontecer em nossas escolas que são instâncias determinantes na educação das novas gerações. O Papa Francisco propôs um Pacto Educativo Global objetivando formar as novas gerações conforme um novo modelo, Ecologia Integral, relacionando todas as coisas, estabelecendo conexões e relações.

Reunindo as comunidades eclesiais, as forças vivas da Igreja, as escolas e as famílias poderemos iniciar novos processos para a construção de uma “aldeia da educação” como nossa “Casa Comum” e assim educar cada criança e cada jovem dessa nova geração. Juntos vamos encontrar soluções, iniciar sem medo novos processos de transformação e olhar para o futuro com esperança. Afinal, somos “peregrinos de esperança”.

Com Francisco de Assis poderemos então rezar: “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o irmão sol que clareia o dia […], a irmã lua e as estrelas […] o irmão vento […] a irmã água que é muito útil e humilde, e preciosa, e casta[ …] o irmão fogo que ilumina a noite, é belo e jucundo, vigoroso e forte. Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas”.

Edebrande Cavalieri

O título acima é o tema da celebração do Jubileu de 50 anos dos encontros Intereclesiais que será realizada em Jerônimo Monteiro no próximo

O título acima é o tema da celebração do Jubileu de 50 anos dos encontros Intereclesiais que será realizada em Jerônimo Monteiro no próximo dia 25 de janeiro. Também foi o tema do I Intereclesial realizado em Vitória em 1975, do qual tive a honra de ter participado ainda como jovem estudante de teologia. Éramos um grupo de 70 pessoas representantes de Comunidades Eclesiais de Base de 12 Estados brasileiros, com cinco bispos participantes, padres, leigos e leigas e teólogos.

Foi nesse encontro que aflorou a expressão da opção preferencial pelos pobres e da atuação da Evangelização na sociedade. Em sintonia com o Concílio Vaticano II que definia, conforme a Constituição Dogmática Lumen Gentium (nº 13), a Igreja como “Povo de Deus”, elevava-se a expressão “Igreja que nasce do povo”. Seguindo o Concílio Vaticano II, invertia-se a pirâmide: todo o Povo de Deus e não apenas a hierarquia eclesiástica.

Colocava-se a questão que até hoje desafia o “ser Igreja” conforme sempre nos confidencia o Papa Francisco: como fazer nascer da Igreja clerical uma Igreja que nasce do povo? Para isso, buscava-se uma presença mais significativa da Igreja na luta pela libertação dos povos, de modo que nenhuma ovelha se perdesse.

A Igreja realizava uma grande mudança eclesiológica que abandonaria o exclusivismo que reservava a salvação apenas para seus fiéis e caminhava para o inclusivismo. Como dom de Deus, a Igreja católica, conforme a LumenGentium, “tende eficaz e constantemente à recapitulação total da humanidade com todos os seus bens sob a cabeça, Cristo, na unidade do Seu Espírito”.

No ano seguinte, houve o II Intereclesial também aqui em Vitória contando com a participação de 100 pessoas de 24 dioceses e 17 Estados brasileiros. Nesse encontro estiveram presentes 13 bispos, além de padres, leigos e leigas representantes das CEBs e teólogos. O tema desse encontro foi “Igreja, povo que caminha” e, a partir desse momento, passou-se a utilizar sob diversas formas a palavra geradora como nos dizia Paulo Freire, Caminhada.

Nesse ano em que celebramos o Jubileu da Esperança, vemos que em seu tema essa palavra caminhada fica nas entrelinhas; como “Peregrinos de Esperança” caminhamos. Somos, então, um povo que caminha, um povo peregrino. Um povo cheio de esperança, que caminha junto pelas vias e vielasdo mundo.

A experiência de caminhada das CEBs, todos juntos, celebrando e lutando diante das dores e esperanças, fortaleceu a vida eclesial em todo o Brasil e outras partes do mundo. Já no 6º encontro ocorrido em Trindade, Goiás, em 1986, estiveram presentes como representantes das comunidades, bispos, padres, leigos e leigas, teólogos, 1.647 pessoas. Diante do tema do encontro – Povo de Deus em busca da Terra Prometida – a experiência da caminhada em conjunto tornou-se o baluarte da esperança do povo sofrido e maltratado. Consciência de que juntos somos fortes e temos força de alcançar a Terra Prometida. A salvação de cada um situava-se na capacidade de nos juntarmos como comunidade pelo Espírito de Deus. Estamos diante do aspecto comunitário da salvação e não de uma visão individualista ainda muito presente entre nós.

A celebração comemorativa do Jubileu de ouro do Intereclesial das CEBs em Jerônimo monteiro insere-se nesse contexto de caminhada e esperança e de preparação do 16º Intereclesial que ocorrerá em 2027 na Diocese de Cachoeiro de Itapemirim. Como Povo de Deus, peregrino de esperança, é também tempo de festejar a caminhada de meio século e pedir ao Senhor que continue a alimentar esse mesmo povo faminto de justiça e paz. Que a Eucaristia seja esse alimento em toda a caminhada que se tem pela frente!

Edebrande Cavalieri

Dia 21 de janeiro foi instituído como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa através da Lei 11.635 de 2007. Esse dia traz como

Dia 21 de janeiro foi instituído como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa através da Lei 11.635 de 2007. Esse dia traz como lembrança o sofrimento da Mãe Gilda, fundadora do Terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum em Salvador, BA. Ela teve sua casa e terreiro invadidos por um grupo de pessoas de outra religião. Lutou até a morte pela melhoria de sua comunidade, seu bairro.

Esse é um entre tantos episódios de intolerância religiosa no Brasil. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos, somente em 2023 houve 2.124 denúncias contra atos de intolerância. No primeiro semestre de 2024 houve 1.227, representando um aumento de 80%.  As religiões de matriz africana são as maiores vítimas, principalmente a Umbanda e o Candomblé. Contudo, volta e meia vemos notícias de depredação de lugares sagrados, objetos de culto e até profanação, relativos a outras denominações religiosas.

Podemos definir a intolerância em geral como falta de compreensão, aceitação ou habilidade para reconhecer e respeitar as diferenças de opinião, crenças, cultura, valores, sexo, contextos, etc. Trata-se de uma rejeição ao que é diferente, aversão às novidades, que resultam em violência, quase sempre.Tem crescido uma prática intencional de cunho político relativo à intolerância religiosa entre nós.

É um fenômeno que nasce do isolamento e da cultura do medo. Crises políticas e econômicas fortalecem grupos que defendem comportamentos intolerantes. Atualmente vivemos diversos tipos de crise, gerando medo e buscando culpados, que acabam se tornando bodes expiatórios.

As redes sociais deixaram as ações intolerantes mais evidentes. O perfil das pessoas que sofrem a intolerância religiosa são mulheres e negros em sua grande maioria. É nesse contexto que cresce o discurso de ódio que desqualifica, desumaniza, destrói grupos e pessoas.

A polarização que se desenvolveu a partir de 2017, chegando a níveis alarmantes, favoreceu muito o ambiente de intolerância religiosa. As redes sociais favorecem a polarização. Contudo, a aproximação entre a política e algumas Igrejas ou grupos religiosos, fundamentalistas, tem contribuído para o aumento deste tipo de violência. Em determinados momentos, parece-nos que estamos regredindo aos séculos passados das Guerras de Religião quando a terra foi coberta de sangue. A intolerância quase sempre leva à exclusão do diferente, do outro.

A questão da intolerância religiosa foi objeto de reflexão por parte de alguns filósofos. John Locke escreveu a “Carta sobre a tolerância” que vale a pena se lida e estudada, demarcando a separação entre os poderes civil e religioso. Para ele, a tolerância é um princípio limitador do papel dos indivíduos, do Estado e das instituições religiosas para o estabelecimento e manutenção da paz social, o respeito à liberdade de culto e o respeito às diferenças crenças.

Outro filósofo importante foi Voltaire que publicou o “Tratado sobre a tolerância”. Para ele a intolerância é uma intransigência das pessoas. Ao ser perguntado sobre o que é a tolerância, responde dizendo que era o “apanágio da humanidade. Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices”. Segundo esse filósofo, os gregos eram mais sábios e mais humanos que nós, pois chegaram a construir um altar ao Deus desconhecido. Já possuíam muitos deuses em seu panteão, mas também olharam para a existência de outros deuses dos povos estrangeiros. “A tolerância jamais suscitou guerra civil, enquanto a intolerância cobriu a terra de chacinas”.

O Papa Francisco nos diz que a liberdade religiosa é a valorização dos outros em suas diferenças. “Como é possível que hoje muitas minorias religiosas sofram discriminação ou perseguição? Numa sociedade altamente civilizada não cabe a perseguição de pessoas por professar publicamente sua fé. Isso não só é inaceitável, é desumano, é insano”.

Não se trata apenas da liberdade de culto. “A liberdade religiosa está ligada ao conceito de fraternidade, e para isso é essencial o respeito ao outro, a valorização em suas diferenças e o reconhecimento como verdadeiros irmãos. Está na hora de pararmos com a prática de demonização de outras religiões! Por outro lado, é necessário distinguirmos a esferas religiosa e política. Um Estado que perde sua estrutura laica, derrete a democracia e subverte o interesse público.

O Dia de Combate à Intolerância Religiosa deveria nos levar a uma reflexão profunda de nosso ser social e cidadão, e fortalecer nossa prática de fraternidade entre os diferentes e não apenas entre “os irmãos” da Igreja. Todos somos irmãos.

Edebrande Cavalieri

O mês de janeiro, representado pela cor branca da campanha de conscientização criada em 2014, nos chama a atenção para a importância de se

O mês de janeiro, representado pela cor branca da campanha de conscientização criada em 2014, nos chama a atenção para a importância de se cuidar da saúde mental. Tem por objetivo desenvolver ações para a prevenção de doenças mentais como a depressão, a ansiedade e o pânico. Ao mesmo tempo, a Igreja Católica celebra durante o ano de 2025 o Jubileu da Esperança e o Papa Francisco nos alerta que o mundo carece de esperança. Da forma em que se encontra, o mundo atual nos parece absolutamente inaceitável.

A ONU prevê que até 2050 a depressão será a principal causa de doença em todo o mundo, superando as enfermidades cardiovasculares. Estamos vendo crescer a característica mórbida de nossa civilização, pois a depressão é um estado mórbido de viver. Uma espécie de viver morrendo. Por isso, torna-se essencial que reativemos nossa capacidade de pensar as nossas vidas. É preciso pensarmos sobre nós mesmos.

Hoje o campo da saúde mental se caracteriza como multidisciplinar e não apenas restrito ao campo médico. Inclui a educação, a comunicação, a moradia, a ecologia, a espiritualidade, a subjetividade, a psicologia, a psiquiatria, o direito e a filosofia. As ciências da saúde há tempo estão preocupadas com essa situação mórbida da sociedade. Os impactos na sociedade e na economia são muito grandes.

Estamos diante de um quadro preocupante. Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil há uma prevalência de quadros depressivos ao longo da vida, atingindo 15,5% da população. É uma das doenças mais associadas ao suicídio e de enorme dificuldade de tratamento. Por esse motivo, a luta pela prevenção também se alia à luta por uma política pública em vista da saúde mental. Ainda estamos marcados por preconceitos, estigmas sociais e falta de protocolo de tratamento.

São muitos os preconceitos em relação à pessoa depressiva. Acredita-se que só fica deprimido quem é fraco, quem não tem preocupações e responsabilidades e que, para sair desse estado, somente a pessoa adoentada seria suficiente e capaz para sua reabilitação. Esquece-se de que a depressão é uma doença paralisante, que afunda a pessoa na própria incapacidade de reagir. Impede-a de ter prazer em atividades que antes eram prazerosas. Traz dúvidas, medos, insegurança, pensamentos negativos e asfixiantes. Pode levar ao desespero, ao alcoolismo e outras drogas e até ao suicídio.

O que as Igrejas e religiões podem contribuir para ajudar as pessoas a viverem melhor? Em geral, parece-nos que as religiões de modo geral podem ajudar na cura desse estado doentio ou tornar a vida das pessoas menos infeliz. Pode, inclusive, ajudar-nos a morrer em paz, pacificados. Como tornar esse caminho possível?

A Igreja Católica celebra nesse ano o Jubileu da Esperança. É a oportunidade que os cristãos e católicos possuem para enfrentar o desafio da saúde mental. A esperança, que é uma das três virtudes teologais, nos ajuda no momento em que o outono parece apagar a primavera que existia dentro de nós. É um dom de Deus, fundamental para a vida cristã. Ela nos ajuda a esperar tempos melhores, a ter paciência, a vencer os obstáculos. É de difícil compreensão, que não se vê. É como o ar que o cristão respira.

O Papa Francisco nos encoraja para irmos em frente pedindo a Deus a graça de ter esperança. A morte jamais poderá ser vitoriosa. Por esse motivo, a esperança é uma luz na noite. O quadro depressivo é bem representado pela noite escura, do frio e do silêncio, da solidão e desamparo. Não é fácil viver na esperança num mundo tão caótico, mas sem ela dificulta caminhar, ir avante. A esperança nos dá segurança e não nos ilude. Por isso, diz o Papa Francisco, “é preciso abrir-se a esta promessa do Senhor, voltados para aquela promessa, mas sabendo que existe o Espírito que trabalha em nós”. Confiança no Senhor!

Para esse momento da campanha do “Janeiro Branco”, as Igrejas poderiam abrir bem mais as portas para o acolhimento daqueles e daquelas que vivem desesperados, morrendo a cada dia. O acolhimento em termos práticos seria um ombro amigo que se coloca do lado, uma mão que ajuda a levantar a pessoa deprimida e sem esperança. É difícil enxergar? Acredito que sim, mas com maior atenção iremos perceber em nossas comunidades muitas pessoas que carecem de um caminhar na esperança. Vivem outonos, pois já perderam as primaveras.

Semeemos a esperança como se fosse um pequeno grão de mostarda, sendo regado adequadamente. Semeemos a esperança em todos os campos espirituais. Não há mágica para cura da saúde mental. Comunidades espiritualizadas e acolhedoras são os melhores remédios para a superação desse mal do século.

Edebrande Cavalieri

A grande festa cristã, esperada e celebrada todos os anos, é muito mais que um evento natalício que se comemora na vida de cada

A grande festa cristã, esperada e celebrada todos os anos, é muito mais que um evento natalício que se comemora na vida de cada pessoa. Não é a comemoração do aniversário de alguma pessoa famosa. Muitas vezes, transformamos esta celebração em algo mundano, do cotidiano histórico, como se naquele tempo longínquo do passado alguém tivesse nascido como fruto da união entre um homem e uma mulher. Estamos, na verdade, diante do grande mistério da Encarnação do Verbo. O Evangelista João inicia seu escrito nos seguintes termos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1, 1). “E a Palavra se fez homem e habitou entre nós” (Jo1, 14).

Celebramos no Natal a Encarnação do Verbo, momento mais concreto da história da salvação, expressão da Aliança de Deus com a humanidade, com o mundo criado. O Natal pode ser assim definido como o grande laço sagrado entre Deus e o mundo. Nenhuma outra religião ousou apresentar um Deus que se encarna na história, no mundo. O cristianismo nos apresenta um Deus que se torna menino, que nasce numa estrebaria sem nenhuma pompa. Numa manjedoura onde os animais se alimentavam. O que isso significa em termos de fé nos dias atuais? Onde o sinal desse laço sagrado deveria estar concretizado em nosso cotidiano?

Enquanto muitas pessoas procuram fazer uma faxina em nossas ruas, retirando irmãos ali dormindo sobre as caçadas e enroladas em caixas de papelão, outro grupo de pessoas se dedica ao acolhimento dessas mesmas pessoas em situação de rua. Era a Pastoral do Povo de Rua da Paróquia de Jardim da Penha que no dia 17 passado realizou um encontro com esses excluídos para um jantar sob o céu estrelado. Para algumas das sessenta pessoas que ali se encontraram, aquela janta era sua primeira refeição. O mesmo Jesus que nasceu numa manjedoura em Belém também quer nascer num prato de comida de quem passa fome.

O Papa Francisco denunciou recentemente que o Cardeal Patriarca de Jerusalém foi impedido pelo comando da guerra de entrar em Gaza e crianças foram bombardeadas. O mesmo Jesus que não teve hospedagem em Belém em seu nascimento deseja estabelecer o vínculo da esperança com o povo que sofre os horrores da guerra. Milhares de famílias no mundo atual estão desalojadas, sofrendo fome e sede pelo mundo afora em decorrência de tantas guerras. O Natal de Jesus é o laço sagrado de Deus com o mundo para que todos tenhamos paz, e não apenas alguns. As guerras são a ruptura dos laços humanos e divinos.

Em nossa Igreja o Natal desse ano está sendo marcado pela força de dois laços sagrados: a Campanha da Fraternidade do próximo ano que tem como tema a “Ecologia Integral” e o Jubileu da Esperança de 2025 que se inicia no próximo dia 24 em Roma com a abertura da Porta Santa. Sem a construção da fraternidade que integra o grito do pobre e o grito da terra o Natal do Senhor fica muito distante em nossa fé. Será um natal de fachada.

Por fim, nossa esperança se fundamenta no compromisso de um Deus que se fez homem para nos salvar. Daí a nossa esperança. Caminhamos como peregrinos nesse mundo, mas sempre guiados pela esperança. A mesma esperança precisa ser concretizada nas pessoas excluídas de nossa sociedade, em situação de rua, nos refugiados de guerra, nos migrantes forçados. Não podemos em nossa fé esquecer de tantos que hoje vivem nas manjedouras”.

Os Bispos do Brasil em sua mensagem natalina nos dizem que “A estrela do Natal e o Papa Francisco nos convidam a ‘esperançar’ nosso povo, de forma dinâmica e não passiva, promovendo a vida em todas as suas formas e dimensões”, cuidando uns dos outros e colaborando na construção de um mundo de paz, diálogo amoroso, no olhar com amor para os idosos, doentes, encarcerados, crianças sem lar, migrantes e pobres.

Que a estrela da esperança guie cada um de nós na efetivação do Laço Sagrado na concretude de nossa história, em nosso entorno e em nossas casas. Feliz Natal!

Edebrande Cavalieri

Pela primeira vez o Brasil celebra como feriado nacional o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Muitas pessoas ficaram surpresas com essa

Pela primeira vez o Brasil celebra como feriado nacional o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Muitas pessoas ficaram surpresas com essa parada nas atividades de trabalho. Além disso, também demonstram desconhecer o motivo de ser celebrado nesse dia e não quando foi decretado o fim da escravatura no Brasil.

Na verdade, há uma luta enorme por parte dos movimentos sociais criando mecanismos legais como a Lei n.º 7.716 de 1989 que trata do preconceito racial, da discriminação racial, de cor, de religião, de nacionalidade como crime passível de punição penal. Ao mesmo tempo, esses movimentos buscam resgatar a história de luta do povo negro no Brasil. Então emerge a figura de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares em Alagoas, morto em 20 de novembro de 1695, na luta contra as forças colonizadoras dos senhores de engenho.

O Dia da Consciência Negra, aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo Presidente Lula, exige de cada cidadão consciente algo a mais que apenas curtir um feriado. Há poucos dias, num campeonato de jogos jurídicos em São Paulo, presenciamos atitudes de alguns alunos da PUC-SP contra colegas da USP, chamando-os de “pobres” e “cotistas”. Essa tendência discriminatória tem sido frequente e nota-se seu aumento na vivência cotidiana das instituições de ensino presentes no ensino fundamental, médio e superior. Trata-se de uma produção social crescente em nossas salas de aula.

Como o racismo se alimenta e se forma? Como combatê-lo? Ele se forma de maneiras bem sutis, quase silenciosas, e chega com o tempo, curto, a manifestar-se com formas agressivas que vimos nos jogos jurídicos, nos campos de futebol, nas salas de aulas, nas ruas, nos condomínios. Ele está enraizado profundamente no público presente nos mais diversos eventos. Quando olhamos ao nosso redor e não vemos pessoas negras, é preciso suspeitar dessa realidade.

Se nas igrejas não encontramos padres, diáconos, pastores, bispos, negros, algo deve ser questionado. Até mesmo se não encontramos crianças e jovens que servem nas celebrações como coroinhas negros/as é preciso discutir isso. Constata-se que ainda falta muito diálogo aberto. Não se fala, não se conversa, não se pensa, sobre a temática. E fica por isto mesmo.

A religião faz parte da construção da sociedade, e por esse motivo, a questão do racismo precisa ser abordada. O silêncio é comprometedor. Os jovens em 2023 levaram uma questão que deveria ser apresentada ao Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude: “Por que a Igreja Católica não fala do racismo”?

Entre os movimentos sociais há uma sensação de “passividade da Igreja em relação a temais raciais”. Talvez seria medo? Hoje as escolas são obrigadas por Lei a discutir em sala de aula essa temática. Surgem disciplinas e estudos transversais sobre história e cultura africanas e afro-brasileiras, relação étnico-racial no Brasil, etc. Esse foi o tema da redação do ENEM 2024. Cresce também o movimento em prol de políticas públicas de combate ao racismo.

Ao mesmo tempo, precisam os educadores e gestores ficar vigilantes diante das ações racistas cometidas nos corredores escolares. E em nossas aulas de catequese, como está essa discussão? Como isso está sendo discutido nas equipes pastorais, na organização da liturgia, por exemplo?

O Magistério do Papa Francisco tem enfrentado de maneira mais firme a questão racial. Ele diz que “não podemos tolerar nem fechar os olhos para qualquer tipo de racismo ou de exclusão e pretender defender a sacralidade de cada vida humana”. Ao mesmo tempo, está preocupado com o crescimento da violência racial, pois nada se ganha com ela e muito se perde.

Na Igreja do Brasil, o momento em que esta questão foi tocada de maneira corajosa e forte está na Campanha da Fraternidade de 1988 com o tema “A Fraternidade e o Negro”, tendo como lema “Ouvi o clamor deste povo”. Segundo Dom Roberto F. F. Paz, “a violência racial no Brasil é uma situação que faz supor uma forte correlação entre as três formas de violência: direta, estrutural e cultural”. É preciso realçar que estamos diante de um “racismo sistêmico” no Brasil e toda a sociedade precisa empenhar-se na luta contra essa violência.

Por esse motivo, tem crescido no Brasil movimentos que caminham na direção da inclusão. De modo especial, o movimento Educafro enviou ao Papa Francisco uma solicitação para que as Escolas Católicas assumam esse protagonismo na educação das novas gerações. Uma das ações concretas é garantir que pelo menos 30% dos alunos em todas as escolas e universidades católicas sejam negros.

Para concluir, gostaria de trazer as palavras de Dom Geraldo Lyrio Rocha quando era presidente da CNBB em nota relativa ao Dia da Consciência Negra dizendo: “Este é um momento de celebração e de compromisso, para chamar a atenção para a realidade de violência que atinge os adolescentes e jovens, especialmente os negros e negras, em nosso país. Fazemos este alerta a partir do princípio de que o cuidado com a vida humana deve atingir todas as suas fases, e é justamente na adolescência e juventude que a vida se encontra, em nossos dias, mais ameaçada”.

Nesse Dia da Consciência Negra pelo menos deveríamos escutar o clamor deste povo!

Edebrande Cavalieri

Realiza-se em Vitória nos dias 15 a 17 de novembro o XXII ENAPE (Encontro Nacional da Pastoral da Educação), promovido pela CNBB através da

Realiza-se em Vitória nos dias 15 a 17 de novembro o XXII ENAPE (Encontro Nacional da Pastoral da Educação), promovido pela CNBB através da Comissão Episcopal Cultura e Educação, reunindo educadores do Brasil inteiro presencialmente e através da plataforma do YouTube.

Assumindo o chamado do Papa Francisco para celebrar e vivenciar um Jubileu da Esperança em 2025, os educadores têm consciência do lugar em que trabalham todos os dias letivos e sabem como o campo educativo carece de esperança de novos horizontes. Sabem que seus “braços são feitos para abraçar horizontes” como diz Mia Couto em um de seus poemas, mas a realidade se mostra hostil, num contexto de sociedade polarizada.

A polarização vem destruindo nossas ações comuns e minando a força de nossos dons e carismas. Tem hora que parece não estarmos na mesma escola e até na mesma Igreja. Pesquisas mostram que a grande maioria das pessoas não está disposta a morar ou trabalhar perto de quem pensa diferente.

A teologia da prosperidade e do domínio, desenvolvida pelo campo pentecostal, vai fortalecendo ainda mais a perspectiva individualista,enfraquecendo a dinâmica central da fé cristã que é a formação de comunidade. A cultura católica vai se transformando rumo a um caminho que muitas vezes é estranho ao Evangelho.

Um novo Ethos vai impregnando a cultura brasileira, fortalecendo o individualismo religioso e promovendo seu afastamento do aspecto fundamental da fé cristã que é a formação de comunidade. Então, coloca-se para cada educador católico a questão: como ser protagonista da ação evangelizadora? Como ser agente de transformação mediante os valores éticos e morais cristãos?

O pensador Boaventura de Souza Santos nos chama a atenção para um caminho de esperança ao enunciar que o “princípio de comunidade é capaz de instaurar uma dialética positiva com participação, solidariedade, capacidade emancipatória e um potencial afetivo para o futuro”. Sabemos que há uma crise da vivência como comunhão e isso somente será superado enquanto nos colocamos como comunidade. Por esse motivo, a sabedoria africana nos adverte que “para educar uma criança é necessária uma aldeia inteira”.

Ao propor o caminho como “peregrinos de esperança”, a Igreja nos convoca,através do Magistério do Papa Francisco, para fazermos um Pacto Educativo Global (lançado em 2020) que ultrapassa nações, igrejas, religiões e governos. Acredita que a educação seja capaz de criar fraternidade ao investir na perspectiva do encontro, do diálogo entre culturas, religiões e gerações.

Além desse movimento, a Igreja nos indica o caminho sinodal para a Pastoral da Educação. Na verdade, ninguém tem receita pronta para superar essa realidade tão difícil. Por isso, juntos podemos buscar novos rumos. O caminho da Pastoral da Educação no novo milênio é a caminhada sinodal. Somente assim seremos capazes de alargar horizontes, a tenda, e ampliar o olhar. Juntos fortalecemos a esperança e somente assim podemos ter certeza que ela não nos engana.

Dom Júlio Akamine, Arcebispo de Sorocaba – SP, dizia em 2018 para as pessoas que atuam na pastoral da educação que “sem uma grande esperança – grande esperança de busca e de encontrar a Verdade que é Cristo – a educação se limitará a treinar meros cumpridores de tarefas para os mercados já decididos pelos que detêm o poder econômico para tal”.

Como peregrinos de esperança e missionários da educação, os educadores são chamados a estabelecer relações dialógicas de ensino e aprendizagem, capaz de ensinar e aprender junto, sendo mediadores e facilitadores do processo educativo. Através de seu trabalho, o ato de educar dirige-se para um humanismo solidário para construir uma civilização do amor. Através de seu testemunho o mundo conhecerá o motivo da maior e única esperança, Jesus Cristo.

Edebrande Cavalieri