Artigos

“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”,

“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”, assim cantava São Francisco de Assis ao final de sua vida em 1225. No mesmo cântico, exalta o irmão fogo que ilumina a noite, sendo belo e jucundo, vigoroso e forte.

Hoje essas duas criaturas de Deus explodem nos cenários mais sofridos de um país inteiro que parece queimar em chamas, devastando matas e pastagens, cuja fumaça chega às grandes cidades impedindo a respiração de outros seres vivos. A falta de chuvas colabora não apenas para deixar rios sem água, mas contribui também para o aumento do fogo devastador.

O Papa Francisco denuncia na Encíclica Laudato Si’ o mal que provocamos pelo uso irresponsável da terra e abuso dos bens que Deus colocou sobre ela. Crescemos acreditando que éramos seus proprietários e dominadores, e estávamos autorizados a colocar fogo para limpar a terra nas pastagens e nas matas derrubadas. No interior vivenciamos esses mesmos cenários que agora nos enchem de medo e vergonha. Crescemos vendo animais correndo das chamas ou sendo literalmente fritos no fogo vigoroso e impactante.

O processo de colonização do solo brasileiro ao longo de sua história foi gerando uma cultura de domínio sobre a terra e as queimadas vieram com a função de limpar áreas para cultivo, renovação de pastagens, queima de resíduos, eliminação de pragas e doenças, destruição de resíduos urbanos especialmente o lixo e até mesmo como técnica para caça de animais. Constituímos uma cultura primitiva de fazer frutificar a terra à custa de sua vida. Ela grita de dor a cada instante.

Por outro lado, nossos órgãos de governo estão dominados por uma política em que predomina a agenda negativa através da adoção de legislação cada vez mais restritiva para o uso do fogo, incremento de polos de monitoramento, aumento dos contingentes fiscalizadores e adoção de medidas repressivas como multas e outras penalidades. Essa agenda demonstrou nesse ano de 2024 que o problema cresce, permanece de modo latente ou explode com toda intensidade causando graves problemas nos aglomerados populacionais.Estamos com uma política ineficaz para a mudança de uma cultura do uso desenfreado do fogo.

Uma das alternativas desenvolvidas pelas ciências da terra é o desenvolvimento de processo de modernização da agricultura com a incorporação de novas tecnologias que substituem o uso do fogo nos sistemas de produção aumentando a sustentabilidade agrícola.

Há mais de vinte anos, o Brasil criou uma política para mudança desse cenário apocalíptico agindo na identificação e monitoramento das áreas prioritárias, uso de tecnologias para redução da prática de queimadas, incremento de cartilhas de divulgação e orientação e seminários locais e regionais com agricultores. O resultado desse esforço parece que foi devorado pelas chamas, pois somente nesse ano até 11 de setembro o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) detectou por satélite 172.815 focos de incêndio ou queimadas.

A indiferença de cada um de nós a esse grave pecado nos torna cúmplices da mesma situação. Hoje Deus não nos perguntaria apenas onde está o nosso irmão Abel, mas também onde está a nossa irmã terra, os nossos irmãos animais, a nossa irmã água, etc. O Papa Francisco nos convoca como missionários para unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar.

E nos convida de maneira urgente a renovar o diálogo sobre a nossa maneira de construir o futuro do planeta, desenvolvendo um debate que nos una a todos uma vez que o desafio ambiental tem forte impacto sobre todos nós. Em cada comunidade, cada paróquia, cada celebração, cada sala de catequese podemos iniciar processos de construção de uma nova cultura para o uso da terra.

Tanto a negação do problema como a indiferença diante dele afetam gravemente a nossa fé cristã. Resignação acomodada ou confiança cega nas soluções técnicas não produzem resultados. Diz o Papa: “Precisamos de nova solidariedade universal”. Precisamos desenvolver uma cultura solidária com nossos irmãos e com a casa comum.

Os talentos não são suficientes para conter as chamas do fogo devorador. É preciso o envolvimento de todos nós para reparar o dano causado pelos humanos sobre a criação de Deus e impedir o crescimento do mal feito chama. Todos e todas podemos colaborar como instrumentos de Deus no cuidado da criação. A salvação de cada um de nós passa obrigatoriamente pela salvação da terra, obra divina, nossa casa comum.

Edebrande Cavalieri

Neste 26 de julho devotamos memória ao nosso já saudoso Dom Geraldo Lyrio Rocha que há um Ano partiu de nosso convívio, surpreendido e


Neste 26 de julho devotamos memória ao nosso já saudoso Dom Geraldo Lyrio Rocha que há um Ano partiu de nosso convívio, surpreendido e surpreendendo-nos com o seu adeus que a todos nós consternou. Em 23 de agosto próximo, rememoramos o nosso Dom Luiz Mancilha Vilela pelos dois Anos de seu falecimento, sem que esqueçamos de Dom Silvestre Luís Scandian há cinco Anos que nos deixou. Insignes prelados que fizeram contecer na Igreja de Vitória, cada qual com o seu olhar eclesial e apostólica ação-direcional a dinamizarem em pastoreio a Comunidade de Fé, Comunhão e Unidade nesta nossa Igreja-Povo do Senhor.

De nosso Dom Geraldo Lyrio Rocha é de sumo dever discorrer de sua especial e hierárquica personalidade a marcar êxito em missão episcopal em quatro Arqui/Dioceses em expressivo ardor e virtuoso vigor. Guardadas as proporções de sua hierática-litúrgica
expressão, nunca desabnegou de sua simplicidade e familiaridade para com todos em acolhida amiga e fraterna próprias de sua pessoal e íntegra atitude pastoral e eclesial, desde padre e por todo o tempo de bispo, em singeleza e sociabilidade.

Capixaba da cidade de Fundão, como padre deu vida à querida Arquidiocese como tantos outros padres de sua geração. Antes de ser alçado a Bispo Auxiliar de Vitória, foi Professor de Filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo, Pároco em diferentes Paróquias de Vitória, Reitor do Seminário Arquidiocesano, para em tão pouco tempo tornar-se o Primeiro Bispo da Diocese de Colatina, Arcebispo de Vitória da Conquista na Bahia e Arcebispo de Mariana nas Minas Gerais. Como Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB,
Delegável no Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribe, também com atribuições à Dimensão Litúrgica desse Conselho para toda a América Latina, soube se alargar com sua estimável preparação formativa a integrar-se no seio da Igreja com profunda razão de ser, pois dizia e repetia sempre: “se eu posso servir, aceito”, o que assimilou de sua querida mãezinha, conforme afirmara múltiplas vezes.

O legado de Dom Geraldo Lyrio Rocha nas Igrejas Diocesanas pelas quais passou, deixou marcas indeléveis de seu lidar orgânico ímpar em toda a extensão de Igreja afora e entre nós. Após completar seus 75 de vida em 2017, e de se tornar Arcebispo Emérito de Mariana,
retornou à sua amada Igreja de Vitória, sempre em disponibilidade ao serviço pastoral, e sem deixar de percorrer o Brasil inteiro, dedicando-se a pregar Retiros para o Clero e Congregações Religiosas. Contava em sua agenda, somente de janeiro a dezembro de 2023, noventa retiros, preparando-se também para participar do Sínodo da Sinodalidade da Igreja em Roma, indicado que foi em
unanimidade por todos os Bispos do Brasil em Assembléia Geral com os demais representantes-integrantes da CNBB. Pelos seus préstimos e em pleno e rigoroso trabalho fez ainda a revisão das mil e cinquenta e quatro páginas da nova edição do Missal Romano em nossa
língua portuguesa. E exatamente dentre esses Retiros na longínqua Diocese de Xingu-Altamira, centro-norte do Estado do Pará, onde a irmã-morte o colheu em razão de uma fratura inesperada no fêmur a causar-lhe desconforto e certa complicação em busca de um melhor atendimento em região de menores recursos, e à espera de uma remoção para Vitória que não aconteceu em tempo. Fiel em plenitude até o fim, cumpriu seu lema de episcopado “OPUS FAC EVANGELISTAE” – Faz a Obra de um Evangelista – 2 Tim. 4,5 – e impregnado de sua missão, provou já na altura de seus 81 Anos de existência, para além de cargos e funções, como doar-se e entregar-se até mesmo nos recônditos lugares e postos onde está presente o povo que Deus, o Senhor, ama e esperançadamente liberta. Dom Geraldo, nessa sua viva
memória de já completo Ano de sua partida de entre nós, e que postamos com saudades, o nosso preito de justa, admirável e sempre feliz recordação.

Padre Roberto Camillato, FMI
Religioso Pavoniano

O Papa Francisco iniciou no último dia 03 de setembro uma visita apostólica à Indonésia, passando por Papua-Nova Guiné, Timor-Leste e Singapura. Trata-se de

O Papa Francisco iniciou no último dia 03 de setembro uma visita apostólica à Indonésia, passando por Papua-Nova Guiné, Timor-Leste e Singapura. Trata-se de uma das viagens mais distantes do Vaticano onde ele reside e, mesmo com as limitações físicas, não mediu esforços para se deslocar. São 12 dias percorrendo 32 mil quilômetros e vários países.

Trata-se de uma região em forma de arquipélago com 17.500 ilhas cujo mar une a Ásia à Oceania. O mar torna-se um elemento natural que congrega todas as ilhas indonésias. Além disso, há alguns traços culturais e religiosos que nos chamam muito a atenção, bem como mudanças profundas na convivência humana, com o crescimento do extremismo e da intolerância religiosa.

Essa quantidade de ilhas traz em sua origem o respeito mútuo pelas características culturais, étnicas, linguísticas e religiosas específicas dos grupos humanos que habitam as ilhas indonésias, formando um tecido conectivo que torno o povo indonésio unido e orgulhoso de sua cultura. A biodiversidade do arquipélago forma um lindo mosaico onde cada pedra é insubstituível na composição dessa obra original que nos deixou o Criador. O Papa nos convida a contemplar essa harmonia no respeito à diversidade.

Outro fato marcante dessa região é que 87% da população é muçulmana (242 milhões), formando o maior país islâmico. Contudo, não é um Estado confessional islâmico como tantas outras nações. Estamos diante de umanação multirreligiosa e multicultural. O número de católicos gira em torno de 8 milhões de fiéis. O lema da Indonésia é “Unidade na diversidade”. O Papa Francisco reforça essa imagem dizendo: “Esta sábia e delicada harmonia, entre a multiplicidade de culturas e de visões ideológicas diferentes com as razões que cimentam a unidade deve ser continuamente defendida contra qualquer desequilíbrio”.

Contudo, nos últimos tempos também essa região passou a ser caminho das investidas de pregadores estrangeiros, especialmente ligados ao islamismo radical e fundamentalista, criando grupos de verdadeiros terroristas que ameaçam a paz da região. Nesse sentido, a viagem do Papa visa fortalecer os laços inter-religiosos para eliminação dos preconceitos, desenvolvimento de um clima de respeito e confiança e para desenvolver mecanismos de enfrentamento de desafios comuns.

Tanto o catolicismo como o islamismo estão diante de desafios comuns como o extremismo, a intolerância, a distorção da religião, onde grupos tentam impor-se através do engano e da violência. As raízes culturais e religiosas da Indonésia estão ancoradas no respeito à diversidade, que também é o caminho evangélico que carregam os cristãos. As distorções que estão ocorrendo entre esses dois campos religiosos são um risco para a humanidade, pois as duas religiões compõem dois terços da humanidade. A fraternidade universal como defende o Magistério do Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti é o caminho para a paz entre as nações do mundo inteiro.

Diz-nos o Papa que hoje existem algumas tendências que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal. Muitos conflitos decorrem do desrespeito mútuo, do desejo intolerante de fazer prevalecer os próprios interesses, a própria posição ou narrativa histórica parcial, resultando verdadeiras guerras sangrentas.

Ao chegar nas terras da Indonésia o Papa fez questão de encontrar-se primeiro com os marginalizados, com os órfãos, os pobres e os refugiados, produto da cultura do descarte. Diante deles muitas pessoas acampadas, pobres que vivem nas ruas, que recolhem lixo e o reciclam, com famílias inteiras que não têm casa e vivem entre os resíduos do lixo. Algumas dessas pessoas foram abraçadas pelo Papa, especialmente as crianças, e puderam contar suas histórias.

Os refugiados completam o cenário de dor e sofrimento, pois formam uma espécie de limbo em um país que não os rejeita, mas que não possui a legislação adequada e os meios para lhes dar assistência. No mundo cresce o número de refugiados, contudo não estamos preparados para os acolher de modo digno. Está se tornando comum entre nós também a presença dessas pessoas nos aeroportos, nas rodoviárias, nas praças das cidades, abandonadas e sem perspectiva.

O caminho da solidariedade tem resultados efetivos e eficazes enquanto estivermos unidos em nossas diferenças, em nossas diferenças. O aumento das práticas de intolerância religiosa, política e cultural, é o fim da humanidade, a morte dos descartados. A intolerância religiosa e política é cruel, pois se nega ouvir o grito dos excluídos, o grito da terra. Os grupos intolerantes não apenas queimam nossos países, mas exterminam grupos humanos em verdadeiros “campos de concentração” construídos sob novas formas. A unidade na diversidade é o caminho da paz tanto no mundo islâmico como no mundo cristão.

Edebrande Cavalieri

Em meados do mês de agosto, o Brasil foi impactado com a notícia da morte de um jovem de 14 anos de um colégio

Em meados do mês de agosto, o Brasil foi impactado com a notícia da morte de um jovem de 14 anos de um colégio de São Paulo que, após sofrer intenso bullying, decidiu retirar a própria vida. Os colegas ainda estão realizando manifestações naquela escola chamando a atenção de seus gestores para a questão do acolhimento daqueles em situação de vulnerabilidade social e emocional.

Nesse tipo de notícia cria-se uma comoção nacional momentânea e, no mês seguinte, tudo volta ao normal, e as instituições sociais como família, escola, igreja seguem sua rotina diária, como se houvesse desaparecido essa grave chaga social. Dados divulgados pela Sociedade de Pediatria baseados no Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde indicam que certa de 1000 crianças e jovens entre 10 e 19 anos cometem suicídio por ano. São mais de três por dia no Brasil. Segundo dados da ONU, no Brasil são aproximadamente 14.000 pessoas por ano, ou seja, 38 por dia, que cometem o suicídio.

Desde 2013, a Sociedade Brasil de Psiquiatria colocou no calendário nacional a Campanha Internacional Setembro Amarelo para enfrentamento da questão.Porém, esse tema ainda é tabu. As instituições sociais deveriam aproveitar esse mês dedicado à campanha para refletir, estudar, projetar ações para desenvolver processos que ajudem as pessoas a enfrentar esse grave desafio à vida. É preciso discutir o suicídio principalmente entre crianças e adolescentes. A dignidade da vida humana deve ser objeto de defesa em todas as circunstâncias e esse problema é um dos mais graves em nossos tempos.

Como se trata de um problema complexo e extenso, gostaria de deixar algumas reflexões voltadas para os cuidados com crianças e jovens no enfrentamento da questão do suicídio. A situação tem se agravado com o advento das redes e mídias sociais e a inexistência de leis que os protejam. Redes e mídias estão impondo padrões de comportamento, normas para a pertença em grupos e, por outro lado, ausência quase completa de redes de proteção às crianças e jovens.

Como dói ouvir o assessor do Núcleo de Estratégia e Inovação do colégio paulistano onde ocorreu o suicídio dizendo que “a escola não é clínica de psicologia”! Não é clínica, sim, mas em cada escola deveriam existir psicólogos e assistentes sociais, além de orientadores educacionais e, óbvio, professores. Cabe à escola ensinar. Não apenas isso. Cabe também formar em processos de empatia e convivência social. É função de todas as instituições sociais acolher crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. O suicídio não tem uma causa apenas e, em geral, é de difícil identificação. Cabe a todas as instituições sociais como escola, família e Igrejas identificarem as vulnerabilidades e promover processos de atuação para enfrentamento.

Tem-se como hábito colocar a culpa sobre a família e os amigos quando ocorre um fato desse. A própria família enfrenta um enfraquecimento dos vínculos reais entre pais e filhos. Há um crescente de violência no interior das próprias famílias, bem como uma carga excessiva de exigências e cobranças de padrões de comportamento.

O mundo que nós adultos deixamos para nossas crianças é rico em informações, tecnologias, rapidez de comunicação, contudo tudo isso não faz de nossas crianças e adolescentes fortes como éramos no passado. Se a prática do bullying não nos afetava tanto, hoje é o contrário. Nossos jovens são frágeis, muito mais vulneráveis que nós. Não basta ensino de conteúdos intelectuais e científicos. É preciso ensinar a cada criança a desenvolver processos de empatia, de diálogo, de respeito, de acolhimento dos próprios colegas.

As instituições sociais necessitam capacitar seus membros para essa ação formativa. Ao mesmo tempo, capacitar as pessoas para identificar os sinais de sofrimento de nossas crianças e adolescentes. As redes sociais estão repletas de estímulos para a autoagressão e o suicídio. Como estamos acompanhando nossos filhos nos caminhos das redes sociais e internet?

Torna-se essencial captar os sinais e procurar imediatamente ajuda. É difícil uma criança ou adolescente chegar à morte na primeira tentativa. Cada dia ela vai deixando rastros que podem ser captados pelas pessoas que estão em seu entorno.

É preciso prestar atenção às suas manifestações como não se sentir importante, não estar no grupo das brincadeiras na hora do recreio, fisionomia quase sempre tristonha e sem sorriso. Isso pode indicar a necessidade de se buscar ajuda com profissionais da pediatria, das equipes multidisciplinares, e profissionais de saúde mental. Qualquer suspeita de sofrimento psíquico exige recurso imediato a alguma rede de proteção.

Há que se constituir um mutirão de pessoas formado por pais, professores, catequistas, profissionais de saúde mental, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais para se desenvolver ações de prevenção ao suicídio, que é uma das maiores causas de morte no mundo.

O setembro amarelo pode se tornar o momento das flores vibrantes, época da renovação e de nova vida revestida de cores e fragrâncias em nossas crianças e adolescentes. Essas lindas flores não podem murchar, muito menos secar e apodrecer. Que qualquer criança ou adolescente que esteja em situação de vulnerabilidade possa encontrar sempre pertinho de si uma mão que o ajude, que o acolha!

Edebrande Cavalieri

Estamos há um mês do início da primavera no hemisfério sul, estação conhecida pela beleza das flores. O frio das folhas secas dá lugar

Estamos há um mês do início da primavera no hemisfério sul, estação conhecida pela beleza das flores. O frio das folhas secas dá lugar à beleza colorida. A natureza se reveste com perfumes que atraem uma imensidão de insetos e animais. Particularmente, aprendi desde cedo a olhar a natureza em seus movimentos e suas lições. Tantas vezes contemplei as matas com ipês apressados que se mostravam esplendorosos.

Andando pelas ruas da cidade nos últimos dias passei a observar a quantidade de plantinhas, fincadas em lugares inóspitos ou em canteiros bem cuidados, explodindo em flores. Ao olhar uma delas não resisti e falei ao tempo em seu redor: que plantinha apressada, florindo antes da hora! Deve estar querendo aparecer!

Aquela cena não me saía da imaginação e comecei a ver pessoas nas redes sociais postando fotos de plantinhas apressadas, que estão florindo antes da hora. São tantas que não resisti em refletir um pouco mais sobre isso. Parece que essas plantinhas querem descarregar logo as folhas secas, apodrecidas, sem vida.

Hoje aprendo dessas plantinhas apressadas em florir o caminho que nós, homens, deveríamos trilhar. Somos muito preguiçosos em fazer o bem, em florir em torno de nós, em perfumar nossos caminhos cotidianos. Como seria fazer o bem antes da hora? Às vezes, tem-se a impressão que a humanidade parece uma grande árvore com folhas caindo, apodrecendo, enfeiada pelo frio da indiferença.

A primavera antecipada pelas plantinhas deveria servir de ensinamento a cada um de nós. Como pessoas de fé, ao olhar o entorno florido e em pujante paz, colorida e perfumada, deveríamos nos conscientizar de que “a paz é o sonho de Deus para a humanidade”, como nos diz o Papa Francisco.

Como sociedade brasileira deveremos entrar na primavera de fato em setembro, em pleno tempo de campanha política em vista das eleições. As estradas eleitorais estarão floridas? Perfumadas? Coloridas? Cheias de paz? A quantidade de religiosos que aparecem como candidatos é enorme. O que cada um está trazendo em suas mãos? O que falam suas bocas? Mãos cheirando a pólvora e bocas sujas, que vomitam ódio, ou pessoas que desejam ardentemente construir a “melhor política”?

A pressa das plantinhas em abrir nossos caminhos com flores, perfumes e cores, deveria servir para que cada eleitor, cada candidato político, fosse apressado em florir de paz esses tempos de tantas polarizações. Olhai os lírios dos campos, olhai o florido apressado das plantinhas que estão em nossa volta!

Na missa com os políticos católicos do mês de agosto deste ano, foi dada a cada participante uma cópia da Carta Pastoral dos Bispos do Regional Leste 3 sobre a ‘Melhor Política’ que orienta o povo católico a respeito da eleição. Desta carta gostaríamos de destacar três pontos, flores essências para embelezar os tempos atuais:

  1. Casa comum: “Quem não integra a concepção ecológica profunda a seus projetos políticos ou já demonstrou descaso com o ecossistema em sua gestão ou mandato não merece nosso voto e não pode dizer-se em sintonia com o pensamento de nossa Igreja”.

  2. Democracia: “Partidos, candidatos ou candidatas e cabos eleitorais que simpatizam com regimes ditatoriais ou que atentam, com palavras e atos, contra a democracia e suas instituições também estão fora de sintonia com os ensinamentos de nossa Igreja e, como tais, não merecem nosso apoio”.

  3. Verdade: “Busquemos o debate eleitoral aberto, no qual não se escondam as propostas e projetos, e evitemos as candidaturas e campanhas pautadas na difamação do outro, nas falsas notícias, no discurso raivoso e nas mensagens de ódio transmitidas por aplicativos”.

Todos os cristãos somos convocados e, nesse sentido, seguindo a pressa das plantinhas em florir, a preocuparmo-nos com a construção de um mundo mais florido onde despontam a beleza do “diálogo e da cultura do encontro, a luta pela justiça e pela paz”.

Edebrande Cavalieri

No encontro do Papa Francisco com os humoristas há poucos dias, ele confessou que reza todos os dias uma oração atribuída a São Tomás

No encontro do Papa Francisco com os humoristas há poucos dias, ele confessou que reza todos os dias uma oração atribuída a São Tomás More intitulada Oração para o bom humor. Em geral, conhecemos Tomás More pela obra “A Utopia”, e muitos nem sequer sabem que ele foi canonizado pela Igreja Católica como mártir em 19 de maio de 1935, sendo declarado padroeiro dos políticos e governantes pelo Papa João Paulo II. Tem como dia festivo 22 de junho.

Nasceu em 1478 e faleceu decapitado em 1535. É considerado uma das figuras mais importantes do Renascimento. Era leitor das obras de Santo agostinho, doutor em Direito e brilhante professor, e homem de grande humor. Erasmo de Roterdã escreveu assim: “É um homem que vive com esmero a verdadeira piedade, sem a menor ponta de superstição. Tem horas fixas em que dirige a Deus suas orações, não com frases feitas, mas nascidas do mais profundo do coração. Quando conversa com os amigos sobre a vida futura, vê-se que fala com sinceridade e com as melhores esperanças. E assim é Tomás More também na Corte. Isto, para os que pensam que só há cristãos nos mosteiros”.

Tomás More era um chanceler muito influente na Inglaterra de Henrique VIII, exercendo grande influência no Parlamento inglês. Quando o rei Henrique VIII buscou a dissolução de seu matrimônio com Catarina de Aragão para se casar com Ana Bolena, o Rei forçou o Parlamento a proclamar o Ato de Supremacia que conferia ao monarca e seus sucessores a chefia da Igreja na Inglaterra.Criava-se nesse momento a Igreja Anglicana hoje presente no mundo todo.

Tomás More se opôs firmemente contra essa decisão do Rei que era apoiado pelo Parlamento, sendo preso junto do Bispo Católico João Fischer e decapitado. Antes de morrer fez uma declaração pública nos seguintes termos: “Sedes minhas testemunhas de que eu morro na fé e pela fé da Igreja de Roma e morro fiel servidor de Deus e do rei, mas primeiro de Deus. Rogai a Deus a fim de que ilumine o rei e o aconselhe”.

Como estamos em ano eleitoral e a Igreja Católica, em seu agir pastoral, tem insistido na constituição de uma “boa política” ou “melhor política”, as ideias de São Tomás More são importantes para clarear os caminhos nessas eleições. Em sua visão, era preciso uma grande reforma política e social para que a sociedade fosse pautada nos critérios da razão e da fé cristã. Era uma reforma ampla, tanto na sociedade como na administração, na educação e na economia. Sua principal crítica aos governantes era o fato de lhes faltar interesse no estudo e no conhecimento, principalmente desinteresse no conhecimento da função de governar. Ele dizia: “O ambiente da corte corrompe o cortesão. O problema é institucional”.

Outra grande crítica à política dos governantes era de que eles estavam dominados por interesses individuais em detrimento dos interesses comuns. O verdadeiro propósito de governar está na população. Por esse motivo, é preciso governar sob a ótica humanista. Entre as obras mais nefastas dos governos está a ação bélica que é algo verdadeiramente bestial. É preciso banir da civilização a guerra, pois é uma glória desqualificada, sem sentido.

Seu humanismo acabou sendo precursor dos direitos humanos, pois dizia que “o homem é criatura de Deus e por esse motivo os direitos humanos têm a origem n’Ele, baseiam-se no desígnio da criação e entram no plano da Redenção”. A luta pelos direitos humanos é obra redentora e está no plano de salvação. A consciência moral de cada pessoa deve ser o seu guia, pois ela “é testemunho do próprio Deus, cuja voz e juízo penetram no íntimo do homem até às raízes da sua alma”.

Para ele, os valores cristãos em sintonia com critérios racionais podem reformar as instituições e elevar a ação política, desde que haja uma interpretação mais fiel possível dos preceitos cristãos, pois muitos estão distorcendo a mensagem cristã de modo a permitir os homens a se sentirem mais seguros em suas maldades. Denuncia naquele momento que se vivia uma verdadeira hipocrisia social na Inglaterra. Os religiosos não medem sua devoção religiosa pela regra de Cristo, mas pela sua própria predileção emocional.

Até mesmo os ritos, sinais e símbolos usados nas Igrejas estão assumindo a pretensão de serem essenciais à fé estabelecida no sacrifício e na memória daquele que foi ao extremo da dor e doação à sociedade. Tem-se a impressão de se estar no caminho rumo à esclerose institucional onde a imagem, o aparecer, estão se tornando mais importantes que o ser mesmo. Os religiosos estão transformando as aparências rituais e litúrgicas como se fossem a própria essência da vida cristã.

Com esses pensamentos apresentados, percebemos o quão atual é seu exemplo e sua crítica, especialmente à política e à religião. São pontos aplicáveis à realidade brasileira e que deveriam nortear as escolhas nas próximas eleições. Seu pensamento é marcado por uma harmonia entre o natural e o sobrenatural, vivendo intensa vida pública, com humildade simples, “bom humor”, mesmo diante da morte iminente. Sua crítica é racional, contudo tendo sempre presente os princípios cristãos do Evangelho de Jesus Cristo.

Edebrande Cavalieri

O Papa Francisco no dia 10 de junho desse ano, durante a visita à Prefeitura de Roma conhecida como Capitólio, comunicou em seu discurso

O Papa Francisco no dia 10 de junho desse ano, durante a visita à Prefeitura de Roma conhecida como Capitólio, comunicou em seu discurso que tomara a decisão de abrir uma Porta Santa em uma prisão romana, destacando que a autoridade deve estar a serviço de todos, especialmente dos mais vulneráveis.

Já é de nosso conhecimento o gesto da abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro programada para o dia 24 de dezembro de 2024 e também a abertura das Portas de todas as catedrais do mundo inteiro pelos seus respetivos bispos (arqui)diocesanos no dia 29 de dezembro; teremos também a abertura da Porta da Catedral  de São João de Latrão nesse mesmo dia, a Porta Santa da Basílica de Santa Maria Maior no dia 1º de janeiro de 2025 e a Porta Santa da Basílica de São Paulo Fora dos Muros no dia 05 de janeiro, desse mesmo ano.

Agora o Papa sinaliza de maneira concreta outro gesto altamente significativo para o jubileu da esperança ao anunciar a abertura de uma Porta Santa em uma prisão romana. O que isso quer significar nesse percurso de espiritualidade do Ano Santo?

A porta é um dos elementos arquitetônicos mais importantes e significativos das construções, das casas e aqui se transforma numa metáfora repleta de conteúdos que nos remetem ao acolhimento como gesto de abrir a porta àqueles que estão desabrigados e assim nos torna hospitaleiros do outro. Abrir a porta é um ato nobre e generoso, corajoso e solidário.

O Papa Francisco nos ensina que “as Igrejas jubilares, ao longo dos percursos e em Roma, poderão ser oásis de espiritualidade onde é possível restaurar o caminho da fé e matar a sede nas fontes da esperança, a começar pelo sacramento da Reconciliação, ponto de partida insubstituível dum verdadeiro caminho de conversão”.

Ao mesmo tempo em que todas as catedrais do mundo inteiro abrirão suas Portas Santas, com o gesto de abrir uma Porta de uma prisão romana o Papa nos lembra que a verdadeira porta é Jesus Cristo como nos atesta o Evangelista João (10,9): “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens”.

Contudo, a porta que é Jesus Cristo se torna ainda mais concreta quando “eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram” (Mt 25, 35-36).

Dessa forma, o caminho para o ano jubilar requer que deixemos nossa casa com portas abertas, para que quem precisar basta se aproximar. Atravessar a Porta Santa das Catedrais significará no ano jubilar um caminho de bênçãos e graças concretizadas em uma atitude de acolhimento, de agradecimento e de pedido de perdão. Cruzar uma porta santa indica atitude de renovação, de conversão e de arrependimento.

A comunidade cristã deverá nesse tempo empenhar-se numa aliança social pela esperança, que seja inclusiva. Portanto, cabe descobrir sinais de esperança nos sinais dos tempos. Assim seremos sinais tangíveis de esperança, especialmente para aqueles que vivem em condições tão precárias nas prisões.

A abertura de uma Porta Santa de uma prisão indica uma proposta do Papa Francisco aos governantes do mundo todo para que sejam tomadas iniciativas que restaurem a esperança na população carcerária, que crie formas de anistia ou remissão de penas que ajudem as pessoas a recuperarem a confiança em si mesmas e na sociedade. Compromisso para que se criem itinerários de reintegração dessa população junto à comunidade correspondendo de maneira concreta com a observância das leis.

Como podemos mudar nossa realidade prisional que, conforme dados do IBGE 2022 cresceu 44% nos últimos dez anos e chega em fins de 2023 com 839.700 pessoas presas? Vemos um fortalecimento de um “populismo penal” que incentiva uma maneira simples de lidar com as prisões, abandonando por completo o ideal de ressocialização ou reintegração. Temos como única opção/solução o encarceramento.

Isso significa que as pessoas se sentem mais seguras? Não. O consumo de drogas diminuiu? Não. É difícil encontrar drogas? Não. Todo o dinheiro que se emprega no processo de encarceramento serve quase só para manter os presos em condições sub-humanas, escancarando graves violações da dignidade humana tantas vezes denunciadas ou silenciadas.

O Papa Francisco encerra seu chamado para a abertura da Porta Santa da prisão apontando o peregrinar da esperança: “Para oferecer aos presos um sinal concreto de proximidade, eu mesmo desejo abrir uma Porta Santa numa prisão, para que seja para eles um símbolo que os convide a olhar para o futuro com esperança e um compromisso renovado com a vida”.

Edebrande Cavalieri

A cada 25 anos, a Igreja celebra um ano jubilar desde os fins da Idade Média. Desta forma, no próximo ano estaremos celebrando esse

A cada 25 anos, a Igreja celebra um ano jubilar desde os fins da Idade Média. Desta forma, no próximo ano estaremos celebrando esse grande momento de fé. Como nasceu a prática do ano jubilar? Como estamos nos preparando para esse ano?

A celebração nasceu no meio judaico, conforme ordem dada em Levítico 25, que deveria ocorrer a cada cinquenta ano. O primeiro ano jubilar israelita provavelmente deve ter ocorrido em 1.445 a.C. Na Igreja cristã essa prática foi institucionalizada a partir do ano 1300, com o Papa Bonifácio VIII, que convocou a cristandade para uma peregrinação à Roma e aos lugares santos com a promulgação da indulgência plenária; daí passou a ser a cada cem anos. Posteriormente, ficou definido que o jubileu seria celebrado a cada 33 anos em memória da idade de Cristo como uma peregrinação penitencial. Porém, no ano 1475, ficou definido que essa celebração seria realizada a cada 25 anos.

O Papa Francisco em 11 de fevereiro de 2022 publicou uma Carta convocando-nos a “realizar uma preparação que permita ao povo cristão viver o Ano Santo em todo o seu significado pastoral”. Então nos aponta o texto bíblico como guia.

O Evangelista Lucas (4, 18-20) nos diz que Jesus foi à cidade de Nazaré onde nascera, num sábado, e entrou na Sinagoga. Então deram-se o livro de Isaías para que fosse lido: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ANO DE GRAÇA DO SENHOR”.

Que motivações servem para fortalecer essa peregrinação? O Papa Francisco nos lembra que a pandemia da Covid-19 nos escancarou o drama da morte na solidão, a incerteza e o caráter provisório da existência, com toda a realidade estagnada, igrejas e comércios fechados, espaços vazios.

Ao mesmo tempo, vivemos nos dias atuais um clima de política antissocial do desmonte de ações solidárias e políticas públicas, violação dos direitos humanos, uma guerra mundial em pedaços, cumplicidade de amplos setores das Igrejas cristãs e seus pastores com práticas nada evangélicas, destruição da herança judaico-cristã da ideia de um ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, e “graves violações da dignidade humana”, conforme nos diz o Papa na Encíclica Dignitas infinita.

Então, nesse contexto até desesperador da vida humana e planetária, há que se “manter acesa a chama da esperança que os foi dada e lutar para que cada um recupere a força e a certeza de olhar para o futuro com espírito aberto, coração confiante e mente clarividente”. O Jubileu deverá favorecer a recomposição de um clima de esperança e confiança. Daí o tema  Peregrinos de Esperança. Mas isso somente será possível se recuperarmos o sentido da fraternidade universal, se  não fechamos os olhos diante do drama da pobreza crescente, o crescimento de refugiados forçados a abandonar as suas terras. “Que as vozes dos pobres sejam escutadas”.

A chama da esperança nos remete para uma dimensão fundamental da vida humana, que nos faz olhar para frente, levantar a cabeça, sentir vontade de viver. Não decorre de uma palestra de motivação aos moldes de autoajuda, uma espécie de anestésico para a vida sofrida. A esperança faz da vida uma obra inacabada e uma tarefa permanente. É aquela força que nos desinstala e nos mobiliza, nos põe a caminho.

O que a Igreja nos pede nesse ano de 2024 em termos de preparação para o Jubileu da Esperança? Ela nos pede “uma grande ‘sinfonia’ de oração para recuperar o desejo de estar na presença do Senhor, escutá-Lo e adorá-Lo. Orar também em agradecimento por tantos dons recebidos e ação concreta e responsável para sua salvaguarda. Oração nos moldes de “um só coração e uma só alma” que se traduz em solidariedade e partilha do pão cotidiano. Para que todos os corações se abram para receber a abundância da graça, fazendo do Pai Nosso a oração que Jesus nos ensinou como programa de vida de todos os seus discípulos.

A fonte última da esperança é a presença salvífica e recriadora do Espírito de Deus no mundo. Ao mesmo tempo, o Senhor nos pede para sair, ir em missão. Nesse caminho peregrinante da esperança é necessário ousar, arriscar romper muros e fronteiras, inventar novas práticas, abrir-se. A esperança nos implica no cotidiano de fé, que transforma o mundo, que se faz de maneira ativa e criativa e chega até a se tornar resistência nas lutas cotidianas.

A superação da mentalidade fatalista e determinista de que nada vai mudar, o conformismo diante da realidade dada, a resignação diante das injustiças e o silêncio, o pragmatismo político fruto de conchavos e negociatas com as elites dominantes em um mundo globalizado, são posturas que não apenas inibem a esperança, mas transformam a fé numa prática ritual e devocional, que nos faz perder a dimensão profética da vida cristã.

A esperança nos implica concretamente nas “graves violações da dignidade humana”. Para sermos verdadeiramente peregrinos da esperança é preciso clamar em voz como de trombeta, denunciando ao “meu povo a sua maldade, aos descendentes de Jacó os seus pecados, porque eles pretendem dar uma aparência de piedade, de religiosidade, vindo todos os dias ao templo, mas correm atrás dos próprios desejos e negócios e continuam a oprimir os vossos trabalhadores” (Is 58).

Cada um de nós precisa de esperança, pois estamos com nossas vidas tantas vezes cansadas e feridas, corações sedentos de verdade, bondade e beleza. Não queremos escuridão em nossos sonhos. Assim o Papa Francisco nos deseja que esse jubileu faça “a esperança preencher os nossos dias”.

Edebrande Cavalieri