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A primeira Carta Encíclica denominada Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV inicia-se colocando-nos diante de uma escolha decisiva enquanto humanidade: construir a cidade de

A primeira Carta Encíclica denominada Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV inicia-se colocando-nos diante de uma escolha decisiva enquanto humanidade: construir a cidade de Babel com uma grande torre bem alta ou reconstruir a cidade de Jerusalém onde Deus e a humanidade habitam juntos. Duas imagens bíblicas muito significativas. Duas escolhas decisivas! Não se trata entre um sim e um não, entre a tecnologia ou sua negação.

Em Babel, os habitantes almejam construir uma torre que atinja os céus, para obter estabilidade e poder e assim tornarem-se famosos. Trata-se de um projeto com única língua, única tecnologia, única direção. Porém, é um projeto sem nenhuma referência a Deus, sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e, em vez de comunhão, escolhe a homogeneização. A unidade transformou-se em dispersão. Sacrificou-se a dignidade das pessoas em nome da eficiência e da ambição de alcançar o céu sem a bênção de Deus.

A outra imagem refere-se à reconstrução de Jerusalém após o exílio da Babilônia, toda devastada conforme descreve o livro de Neemias. Parte do povo exilado retornou, mas a cidade estava em ruínas. O que fazer? Neemias, antes de tomar uma decisão, jejua, reza e intercede pelo povo. Depois convoca as famílias e cada um vai assumindo a reconstrução das muralhas. Neemias ouve as pessoas, coordena os esforços, enfrenta as oposições, e através de uma responsabilidade partilhada com todo o povo a cidade vai sendo reconstruída.

Um verdadeiro mutirão! A linguagem comum aqui não é a uniformidade, mas a da comunhão, da harmonia que brota quando cada um assume sua responsabilidade e todo o povo reconhece a força que vem do Senhor. Santo Agostinho chamou depois de “Cidade de Deus”.

As duas escolhas que o Papa nos coloca como humanidade é Babel ou Jerusalém, domínio ou comunhão, eficiência ou dignidade. Sofremos uma síndrome de Babel idolatrando o lucro, sacrificando os mais fracos, impondo a uniformidade que anula as diferenças, assumindo uma linguagem única que reduz tudo a dados e algoritmos, inclusive o mistério da pessoa. O alerta do Papa é bem claro: “Uma cadeia de exploração que permanece deliberadamente invisível”.

Não se trata de renunciar à tecnologia, mas retirá-la da lógica da competição armada. É preciso desarmar a inteligência artificial, nos diz o Papa. É preciso retirar a tecnologia do poder dos monopólios, e torná-la discutível, contestável e habitável. “A era digital não será pós-colonial. Será colonial de outra forma”. “As novas formas de trabalhar não são necessariamente melhores, pois a inteligência artificial promete impulsionar a produtividade, mas os trabalhadores frequentemente são obrigados a adaptar-se à velocidade e às exigências das máquinas em vez de estas serem concebidas para ajudar quem trabalha”.

Temos diante de nós duas escolhas: Babel ou Jerusalém. “Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos”? O desafio está posto para a nossa escolha: “A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa Comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças”.

Como filho de Santo Agostinho, o Papa Leão XIV conclui a Encíclica reforçando a necessidade da espiritualidade eucarística que é, na verdade, uma espiritualidade da unidade eclesial no amor, dizendo que Agostinho se referia ao pão e vinho no altar como sacramento da unidade dos fieis em Cristo: “O que se vê tem um aspeto material, o que se compreende produz um efeito espiritual. Se quiseres compreender [o mistério] do corpo de Cristo, escuta o que o Apóstolo diz aos fiéis: Vós sois o corpo de Cristo e os seus membros (1 Cor 12, 27). Se vós, portanto, sois o corpo e os membros de Cristo, sobre a mesa do Senhor está depositado o mistério de vós mesmos: recebei o mistério de vós mesmos”. “E dizei Amém”. Comungando o Corpo de Cristo nos comprometemos na construção da Jerusalém celeste na terra. Aqui e agora. Ali está o alimento que nos dá força.

Desta forma se constrói a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos, formando uma civilização do amor. A antiga Jerusalém reencontra uma linguagem comum, a da comunhão. “Sede membros do corpo de Cristo, para que o vosso Amém seja verdadeiro”, pois nossa força provém do Senhor.

Edebrande Cavalieri

Foto capa: @Vatican Media

Esse é o grito profético do Papa Leão XIV expresso na mensagem para o 60º Dia das Comunicações Sociais, celebrado nesse domingo dia 17

Esse é o grito profético do Papa Leão XIV expresso na mensagem para o 60º Dia das Comunicações Sociais, celebrado nesse domingo dia 17 de maio. Isso significa que a humanidade está perdendo sua identidade de pessoa, seus traços essenciais, as marcas do Sagrado presentes no homem. O rosto é tão importante que em diversos aplicativos que usamos nos smarthphones o reconhecimento fácil é a prova mais certa de que é você mesmo que está inserindo ou solicitados dados. A fotografia de nossa face é prova de identidade. O Papa nos diz que a “voz e o rosto são o reflexo indelével do amor de Deus”. Cada um de nós é único. Somos irrepetíveis. Mas, podemos perder essa riqueza identitária?

Há riscos muito fortes provocados pela revolução tecnológica agora sob o controle dos algoritmos da inteligência artificial. Podemos, conforme o Papa, sermos definidos antecipadamente e perder nossa vocação insubstituível que emerge, não das máquinas, mas da vida, e se manifesta na comunicação com os outros. Alguns pilares da civilização humana correm o risco de serem modificados radicalmente. Junto aos rostos e nossas vozes, tem os pilares da sabedoria e do conhecimento, da consciência e da responsabilidade, da empatia e da amizade. Esses pilares podem ser invadidos para interferir nos ecossistemas de informação e comunicação, trazendo consequências irreparáveis nas relações entre as pessoas.

Alguém pode dizer que o alerta do Papa parece até um pouco catastrófico. Contudo, a velocidade em que acontecem as mudanças em nosso cotidiano, em nossas vidas, em nossas formas de trabalho e comprar, é muito grande. Quando a gente fica um pouco desconectado da internet, ao retornar, parecem anos transcorridos. Nossas maquininhas, presas entre as mãos, mudam a cada dia. Parece que a economia não mais se sustenta sem essas mudanças. Sobreviver tornou-se sinônimo de mudança rápida.

Na visão do Papa, “o desafio não é tecnológico, mas antropológico. Por isso, preservar rostos e vozes é preservar nós mesmos”. Os homens de hoje, especialmente aqueles que conduzem processos formativos, têm a missão de revelar para nós mesmos os pontos críticos, as opacidades e os riscos que essa revolução esconde por trás da sedução e do status. Ter uma consciência crítica a respeito do mundo que nos rodeia e nos acumula de tecnologia é essencial para os dias atuais. Até para a saúde mental é indispensável essa visão crítica.

Somos induzidos a maximizar o envolvimento nas redes sociais que gera muito lucro para as plataformas e buscamos recompensas imediatas de nossas postagens mediante curtidas e compartilhamentos. Tornamo-nos escravos dessa forma de relacionamentos, sem rostos e sem voz. Sem corpos que se abraçam e se olham, caímos numa espécie de “solidão digital”. No máximo, fechamo-nos nas “bolhas de consenso fácil ou de ódio rápido”. Nesse caminho, agrupamo-nos em polos que se excluem e de matam. As relações tornaram-se polarizações fazendo desaparecer nossa capacidade de empatia.

Desta forma, vamos consumindo nossas capacidades de conhecimento, de nos emocionar e de nos comunicar. Vamos perdendo nossos rostos e nossas vozes, escondendo nossa identidade e silenciando nossa voz.

O alerta do Papa é ainda mais profundo ao dizer que “a tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamentos pode não apenas ter consequências dolorosas no destino dos indivíduos, mas pode também ferir o tecido social, cultural e político das sociedades”. Caberia uma reflexão a cada um de nós, brasileiros: nesse ano eleitoral, como iremos conduzir nossos processos de relacionamentos? Transformando o ódio em capital eleitoral novamente? Permitindo que sejam quebrados nossos laços familiares, nossas amizades, nossos ambientes de trabalho, nossas comunidades eclesiais? Os caciques eleitoreiros que atuam na comunicação com marketing político estão preparando o arsenal de armas informativas em forma de fake News.

Concluindo com Santo Agostinho, pai espiritual do Papa Leão XIV, nesse contexto sócio-político o cristão deveria pautar nossa conduta como busca central da verdade, tendo como Verdade suprema o próprio Deus. A instrumentalização da fé nos dias atuais é campo de desvios profundos de caminho para a verdade. Homens e mulheres de fé não podem perder de vista a função da razão que nos auxilia na compreensão da vida. Ela revela nosso rosto e nossa voz. Agostinho aqui nos perguntaria: olhando para dentro de cada um, em seu coração, é isso mesmo que se quer? É seu desejo ver sua família dividida, suas amizades destruídas e sua comunidade eclesial parecendo uma trincheira de guerra? O rosto e a voz da comunidade dos cristãos revelam sempre a verdade e o amor pela Verdade e pelo nosso próximo.

Edebrande Cavalieri

Dia 15 de maio é a data prevista e muito esperada da assinatura da nova Carta Encíclica do Papa Leão XIV. Nesse dia, o

Dia 15 de maio é a data prevista e muito esperada da assinatura da nova Carta Encíclica do Papa Leão XIV. Nesse dia, o Papa Leão XIII, em 1891, assinava a Encíclica Rerum Novarum dando início a uma rica contribuição da Igreja conhecida como Doutrina Social. Quarenta anos depois, o Papa Pio XI publicava Quadragesimo Anno; em 1961, o Papa João XXIII publicava Mater et Magistra e no dia 1º de maio de 1991, fazendo referência ao movimento operário, o Papa João Paulo II publicava a Carta Encíclica Centesimus Annus. Esses são os grandes marcos na linha da publicação da Rerum Novarum. A encíclica do Papa Leão XIV segue esses grandes momentos do magistério pontifício.

A expectativa por essa encíclica é muito grande, em parte, decorrente da escolha do nome papal após sua eleição pelo colégio de cardeais. Conforme testemunho de seus colegas cardeais, o Cardeal Robert Francis Prevost quis assumir o nome de Leão XIV em vista do contexto atual do emprego na nova revolução digital. Ele disse aos colegas que queria dar mais atenção às questões de ordem social no mundo e às questões de justiça. Com essa nova revolução tecnológica, há o problema dos empregos. “Se Francisco falava com lobos, agora temos um leão que afungentará os lobos”, brincavam os cardeais.

Segundo o Cardeal Fernando Filoni que estava na mesa de escrutínio eleitoral, o Cardeal Prevost considerou inicialmente chamar-se Agostinho em homenagem ao Santo fundador da ordem à qual pertence. “A princípio, Prevost também considerou se chamar Agostinho, mas no fim decidiu que Leão era melhor”.

Em sua primeira audiência aos membros do Colégio de Cardeais, no dia 10 de maio de 2025, esclareceu a questão do nome: “Justamente por me sentir chamado a seguir nessa linha, pensei em adotar o nome de Leão XIV. Na verdade, são várias as razões, mas a principal é por Leão XIII, com a histórica Encíclica Rerum Novarum abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial, e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua Doutrina Social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da Inteligência Artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”. Esse é o horizonte da Encíclica Magnifica Humanitas.

Mesmo no contexto da crise da chamada Questão Romana em que os Estados Pontifícios foram invadidos pelas tropas italianas em 1870, o magistério do Papa Leão XIII seguiu olhando para o mundo e o que a Igreja poderia contribuir para que a dignidade humana fosse garantida, especialmente dos operários. Era preciso enfrentar o mundo moderno com outro posicionamento pastoral, rompendo com a ilusão de que a Igreja poderia viver em um mundo fechado em si. Assim abriu um caminho para a Igreja no mundo moderno, na luta pela defesa dos direitos dos operários e dos pobres.

Hoje há muitas forças dentro e fora da Igreja que desejam que ela volte para seu mundo particular, fechado em si, sem se envolver com as dores e os sofrimentos da humanidade. Porém, isso não é o que foi pregado por Jesus Cristo nos Evangelhos.

O que podemos aguardar em relação a esse momento tão delicado e difícil da história e o papel da Igreja conduzida pelo Papa Leão XIV? Um dos filósofos mais lidos da atualidade, Yuval Noah Harari, nos diz que “a humanidade enfrenta uma crise existencial de confiança e a forma como lidaremos com ela definirá nosso futuro em um mundo dominado pela Inteligência Artificial”. É nesse contexto histórico de incerteza e bem convulsivo que se coloca a orientação da Igreja como contribuição própria para enfrentar mares e oceanos em altas ondas que ameaçam naufragar a humanidade do barco da história.

A Carta Encíclica do Papa Leão XIV segue a tradição das grandes encíclicas papais e deverá abordar os desafios da revolução provocada pela Inteligência Artificial e as consequências éticas, a paz e as ameaças das guerras, a crise do Direito Internacional e outras ameaças à humanidade. Nossa expectativa é de que teremos uma nova “Rerum Novarum” que marcará novos rumos da Igreja na história.

O caminho sinodal configurado no pontificado do Papa Francisco e retomado por Leão XIV deverá ser a forma com a qual a Igreja caminhará nesse novo mundo e seus desafios, fazendo com que o fardo, que é bem pesado, seja compartilhado e carregado em fraternidade e solidariedade.

Aguardemos a publicação da nova Encíclica! Tarefa imediata: o seu estudo e disposição para o caminho sinodal, com humildade e espírito de serviço.

Edebrande Cavalieri

Foto de capa: Papa Leão XIV   (@Vatican Media)

No dia 8 de maio completa-se um ano do pontificado de Leão XIV, um ano da primeira saudação tão esperada pelo mundo inteiro. “A

No dia 8 de maio completa-se um ano do pontificado de Leão XIV, um ano da primeira saudação tão esperada pelo mundo inteiro. “A paz esteja convoco”! Chegou a mensagem referindo-se à paz de Cristo ressuscitado, “uma paz desarmada e que desarma, que é humilde e perseverante. Que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente”.

Um ano depois chegamos a uma situação mundial ainda mais carente desse bem que vem de Deus, a Paz. Se até o mês de março desse ano o Papa parecia escolher as palavras, evitando comentar assuntos da geopolítica mundial, a partir da declaração da guerra contra o Irã, o Papa Leão XIV tornou-se um crítico declarado de todo tipo de guerra ou conflito. De maneira muito firme e serena sempre afirma que o papel da Igreja é pregar o Evangelho e ele o faz em nome de Jesus Cristo.

Mas os Evangelhos sempre incomodaram desde os tempos apostólicos e incomodam também hoje. Muitos instrumentalizam a Bíblia usando apenas versículos isolados do Antigo Testamento, com tons morais, e quase desconhecendo o Evangelho de Jesus Cristo. Essa é a Bíblia desejada por tantos governantes nos dias atuais. Também é desejada por muitos batizados que não querem ser incomodados. Mas, a pregação do Evangelho de Jesus Cristo sempre irá incomodar. Por isso Ele foi crucificado. Tem governantes muito incomodados com o Pontífice, a ponto de chamá-lo de “fraco” e “desastroso”.

Como Santo Agostinho que viveu os tempos da queda do Império Romano com Roma sendo saqueada pelos Visigodos, emerge a pessoa de Leão XIV com posição radical contra a guerra. “Continuarei a me manifestar contra a guerra. Muitas pessoas foram mortas. Alguém precisa se manifestar”. Sua postura não é colocar a Igreja em conflito com algum Estado em particular, mas garantir que a Igreja “lute pela a paz, que procure sempre a caridade, que procure sempre estar próxima, sobretudo dos que sofrem”.

A realidade histórica desse momento exige do Papa um posicionamento mais explícito sobre a desordem internacional que aumenta a cada dia. Ao ser chamado de “fraco”, o tornou muito forte no cenário internacional com uma mensagem clara contra a guerra, a desigualdade, a tirania do poder e o uso indevido da religião para justificar a violência.

Na viagem à África, ele alertou sobre os impulsos das nações ricas que ameaçam a paz e denunciou as violações do direito internacional pelas potências classificando-as como “ambições neocoloniais”. E foi ainda mais claro ao dizer que o mundo “está sendo devastado por um punhado de tiranos”.

Em um ano de pontificado, percebe-se que o Papa Leão XIV tornou-se uma figura muito poderosa e um grande líder no cenário político mundial. Sua experiência missionária no Peru e como Prior da Ordem dos Agostinianos fazem dele uma liderança da humanidade, carente dos bens da paz e da justiça. Contudo, não podemos resumir esse ano de pontificado apenas a esses desafios provocados pela Terceira Guerra em pedaços como dizia o saudoso Papa Francisco.

Leão XIV não acredita em lideranças personalistas e populistas. Ele exerce um poder no Vaticano pautado na força das instituições. Nesse sentido, conseguiu reunir em torno de si mais bispos e cardeais e com eles realiza consistórios para discutir a caminhada da Igreja. Para o mês de julho está prevista nova reunião reforçando o caminho sinodal da Igreja. Aos cardeais ele disse: “Estamos com vocês e somos próximos de vocês”.

Nesse ano, evitou tomar posições em assuntos mais delicados como o papel das mulheres na Igreja ou dos homossexuais. Busca uma estratégia de coesão na Igreja e um governo de maior união interna.

Ao se identificar como “filho de Santo Agostinho”, Leão XIV não nega sua continuidade com o Concílio Vaticano II e com o pontificado do Papa Francisco, porém os reinterpreta sob a moldura claramente agostiniana. Cristo está no centro dessa visão, servindo como critério para discernir as sombras da história e a missão da Igreja nesse mundo sendo sinal de luz.

O Papa Bento XVI dizia que sua primeira encíclica Deus caritas est, bem como a Spe salvi, devem muito ao pensamento de Santo Agostinho. Tanto naquela época como agora, “a humanidade precisa conhecer e, sobretudo, viver esta realidade fundamental: Deus é amor e o encontro com Ele é a única resposta para as inquietações do coração humano”.

Ao longo desse primeiro ano de pontificado, as reflexões de Leão XV tomam a Cidade dos Homens sob a ótica de sua condição espiritual, de luz e trevas. A incompreensão da mensagem de Cristo é o traço central do mundo contemporâneo. Essa incompreensão decorre de duas atitudes. De uma rejeição aberta e declarada dos contextos secularizados e agnósticos e a aceitação superficial da mensagem cristã, que reduz Jesus a uma figura inspiradora, um Coach, um super-homem. Estamos diante de um ateísmo funcional, mesmo entre pessoas batizadas.

A missão da Igreja é testemunhar com alegria a fé em Cristo num mundo, que mesmo distante e afastado, lhe é confiado. Em seu brasão episcopal, mantido como Papa, está escrito: In illo uno unum – Nele que é um [Cristo], somos um. Trata-se de um lema, a missão da Igreja para o mundo atual é essa.

Edebrande Cavalieri

No ano passado, por ocasião do Jubileu do Mundo do Trabalho em novembro, o Papa Leão XIV definiu dessa maneira o trabalho – “fonte

No ano passado, por ocasião do Jubileu do Mundo do Trabalho em novembro, o Papa Leão XIV definiu dessa maneira o trabalho – “fonte de esperança”. Enquanto nós, brasileiros, estamos na luta para impedir a escala 6 x 1, nessa data considerada feriado de 1º de maio, olhamos para esse horizonte de esperança apontado pelo pontífice como momento para maior estabilidade e dignidade, mas com muita luta. O que significa colocar o trabalho como fonte de esperança?

A Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) tem se manifestado continuamente contra o projeto que tramita no STF que trata da prestação de serviços por meio de pessoa jurídica, fenômeno conhecido como “pejotização”. Ou seja, procede-se a transformação da pessoa física em pessoa jurídica. Cada pessoa vende sua força de trabalho como se fosse empreendedor, como se fosse dono de uma empresa.

Se esse projeto for aprovado, os impactos serão muito significativos em relação ao trabalho, afetando negativamente os direitos trabalhistas como férias remuneradas, 13º salário, FGTS, etc. Afetará também os direitos previdenciários como proteção em caso de acidente de trabalho, aposentadoria e outros benefícios conquistados com muitas lutas.

A pejotização vem para neutralizar todas as conquistas realizadas pela classe trabalhadora. É uma forma de precarização que esvazia os direitos trabalhistas e acaba transformando a escala 6 X 1 ainda mais severa, com jornadas exaustivas e sem descanso semanal remunerado garantido. De 6 X 1 passará para 7 X 0 facilmente. Afinal, só depende da própria pessoa querer ou não trabalhar sete dias por semana e zero dias de descanso.

O trabalho como fonte de esperança defendido pelo Papa Leão XIV situa-se como direito sagrado que garante estabilidade e dignidade, e compõe a tríade Terra, Teto e Trabalho. A dignidade humana vem em primeiro lugar e não o lucro a qualquer preço e sem limites. A Doutrina Social da Igreja afirma que o trabalho goza de prioridade absoluta sobre o capital (Cf.277). Essa relação se expressa através da “participação dos trabalhadores na propriedade, na gestão e na participação dos seus lucros” (Cf. 281). Por outro lado, a estabilidade é a garantia de empregos confiáveis, seguros e dignos. Dignidade e estabilidade são caminhos de esperança no mundo do trabalho!

Na contramão está o projeto de “pejotização” que transforma o trabalhador em “empresário” de si mesmo. É relegado à exclusão nesse processo histórico da evolução dos mecanismos produtivos da própria sociedade. Doravante, com esse projeto aprovado, qualquer tipo de proteção lhe será negada. É o fim dos direitos. Perde-se a dignidade agora passando a ser da responsabilidade de cada pessoa. A sociedade desincumbe-se da responsabilidade pela dignidade do trabalho. Escravos de si próprios!

A estabilidade decorre apenas da sua capacidade de trabalhar. Ao adoecer deixará de trabalhar e também de receber.

Dessa forma, aumentaremos ainda mais a concentração de renda aliada a uma maior desigualdade e empobrecimento dos trabalhadores/as, jogados à insegurança da informalidade.

Enquanto isso, nossas redes sociais estão cheias de questões relativas a uma pauta moral como forma de desvio da atenção da sociedade em relação a esse projeto cruel e imoral. O Papa Leão XIV afirmou recentemente que a questão moral na Igreja não se refere apenas ao tema da sexualidade. “Na verdade, acredito que existam questões muito maiores e mais importantes, como a justiça, a igualdade, a liberdade dos homens e das mulheres, a liberdade religiosa, que deveriam ter prioridade em relação a essa questão específica”, afirma o Papa.

Portanto, para a Igreja o trabalho é um direito fundamental e um bem para o homem, apto a expressar e fazer crescer a dignidade humana. É uma necessidade para formar e manter uma família, para contribuir para o bem comum. A Doutrina Social da Igreja qualifica o desemprego como uma “verdadeira calamidade social”. A pejotização é uma camuflagem do desemprego.

O trabalho é um bem de todos e para todos aqueles que são capazes de trabalhar. O “pleno emprego” está orientado pela justiça e o bem comum. Uma sociedade que nega sistematicamente o trabalho para os seus membros “não pode conseguir nem a sua legitimação ética nem a paz social”, afirma a Doutrina Social.

Para que o trabalho seja fonte de esperança é preciso que nessas discussões em torno da dinâmica laboral se coloque no centro, não o capital, nem as leis de mercado e nem o lucro; no centro devem estar a pessoa, a família e o seu bem. “Essa centralidade deve estar presente em cada programação e cada projeto empresarial, cada reforma trabalhista, a fim de que os trabalhadores/as sejam reconhecidos na sua dignidade e recebam respostas concretas às suas carências reais”, conclui o Papa.

Esse deve ser o princípio norteador das lutas sociais e eclesiais em relação à questão do trabalho nos dias atuais, apontado pelo Magistério da Igreja expresso em sua Doutrina Social. Mais que um feriado, o dia 1º de maio é de luta e somente na luta teremos a garantia da esperança conforme preconiza a Igreja.

Edebrande Cavalieri

Em um dos momentos mais dramáticos da história diante dos conflitos no Oriente Médio em que o posicionamento do Papa foi objeto de confronto

Em um dos momentos mais dramáticos da história diante dos conflitos no Oriente Médio em que o posicionamento do Papa foi objeto de confronto com o governo norteamericano e o fracasso das negociações de paz, Leão XIV toma o tema da paz, fundamento da justiça social, para seu primeiro discurso na Argélia.

Foi junto ao monumento de um dos mártires da independência que o Papa reforçou a intenção primeira: “Neste lugar, recordamos que Deus deseja a paz para todas as nações: uma paz que não é apenas ausência de conflito, mas expressão de justiça e dignidade”. O perdão exige o fim de todo ressentimento, pois “a verdadeira luta pela libertação só será definitivamente vencida quando se tiver finalmente conquistado a paz dos corações”.

Esta peregrinação está acontecendo em quatro países africanos – Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial – percorridos em 10 dias. O que o Papa Leão XIV encontra nesse chão africano?

Na Argélia, encontra uma comunidade católica bem pequena, entre 6.500 a 20.000 pessoas, compondo 0,1% da população. O restante é muçulmana sunita. Aqui o cenário é de diálogo inter-religioso, fraternidade e apelos por paz e justiça. A visita à cidade de Annaba, antiga Hipona, recorda a presença de Santo Agostinho. Como filho espiritual de deste santo, o Papa nos mostrou a necessidade de se “herdar” a tradição e a caridade fraterna.

Da Igreja Católica nesse país espera-se que seja um sinal de humildade, de amor e diálogo cotidiano, convivendo no dia a dia com uma população quase toda muçulmana. Para celebrar  a missa pública foi necessária autorização das autoridades civis da Argélia. O proselitismo é proibido e qualquer tentativa de converter alguma pessoa muçulmana é passível de punição e até prisão.

Em Camarões o Papa enfatizou para aquele povo, terra devastada pela violência e o sofrimento, que acredita verdadeiramente em uma paz duradoura. Sem medo, as pessoas afirmam que “o papa para nós é essa resposta da intervenção de Deus”. Fome de paz.

“Quem submete as religiões e o próprio nome de Deus aos seus objetivos não é digno de Deus”. São “dominadores”, “senhores da guerra” que “fingem não saber que basta um instante para destruir, mas muitas vezes não basta uma vida inteira para reconstruir”. Enquanto eles investem em armas para “matar e devastar”, “uma miríade de construtores da paz ama o próximo numa “revolução silenciosa, mas expostos a perigos.

E convoca a todos: “sirvamos juntos à paz”!

Em Angola, país com características religiosas semelhantes ao Brasil com 59% de católicos e 35% de evangélicos, e com crescimento significativo da comunidade islâmica, o Papa propôs um projeto de esperança e desenvolvimento integral. O terreno é bom, pois a Igreja Católica tem sido notável em questões sociais.

Uma autoridade do governo afirmou que a Igreja tem ajudado a definir as políticas sociais de que Angola tanto precisa no enfrentamento dos desafios e cita a Exortação Apostólica de Leão XIV, Dilexi Te, dizendo: “a ideia central desta exortação tem uma ressonância muito especial entre nós governantes, porque serve de guia na nossa ação quotidiana de luta contra a desigualdade, a indiferença e a exclusão social”.

A última etapa da viagem ocorreu em Guiné Equatorial, definido como um país que “pede consolo”. O povo espera um encorajamento para enfrentar a pobreza generalizada, a marginalização e espera ser confirmada na fé. Neste país, a riqueza é para poucos, apesar de ser um dos países mais produtores de petróleo e gás do Golfo da Guiné. Há um slogan muito significativo: “respiramos porque Deus quer”.

Os discursos do Papa Leão XIV neste momento da viagem retomam a Doutrina Social da Igreja desenvolvida por seus antecessores desde o Papa Leão XIII. Isso leva-o a afirmar que “é dever da boa política remover os obstáculos ao desenvolvimento integral do homem”. E sentencia que “a exclusão é a nova face da injustiça social”.

Novamente recorda o Papa a figura de Santo Agostinho quando apresenta o modelo das duas cidades – de Deus e dos homens. A cidade de Deus é eterna e marcada pelo amor, a Deus e ao próximo. A cidade dos homens é a cidade terrena, lugar da morada provisória. As duas cidades devem conviver até o fim dos tempos. Mas, como fica o lugar do cristão?

Interpretando Santo Agostinho, o Papa nos diz que “o cristão, vivendo na cidade terrena, não está alheio ao mundo político e procura aplicar ao governo civil a ética cristã. A cidade de Deus não propõe um programa político, mas favorece reflexões valiosas sobre questões fundamentais da vida social e política”.

E conclui afirmando que “sem uma mudança na responsabilidade política e sem respeito pelas instituições e pelos acordos internacionais, o destino da humanidade corre risco de ser tragicamente comprometido”.

Tantas riquezas naturais devem expressar a bênção de Deus para todos. Por isso, é necessário um empenho pessoal para que a fé envolva totalmente a vida, tanto aquela presente nas celebrações religiosas como a que alimenta as atividades sociais e responsabilidades com o próximo, para que haja uma promoção de todos.

O Papa Leão XIV conclui dizendo que o futuro passa pelas nossas mãos. Todos os batizados devemos ser envolvidos na evangelização como verdadeiros apóstolos da caridade e testemunhas de uma nova humanidade.

Foto capa: @Vatican Media

Edebrande Cavalieri

Acompanhando as manifestações políticas em torno das palavras do Papa Leão XIV condenando a guerra e o faz desde sua primeira manifestação na Praça

Acompanhando as manifestações políticas em torno das palavras do Papa Leão XIV condenando a guerra e o faz desde sua primeira manifestação na Praça São Pedro quando falava de uma paz desarmada e desarmante, o mundo católico e cristão precisa estar atento ao fenômeno da polarização política que alguns governantes querem incluir nele também a Igreja, nesse jogo de conflito. É por meio da polarização que governantes estão chegando ao poder e ali se mantendo a qualquer preço, inclusive com o risco de uma catástrofe mundial. A polarização tornou-se mecanismo eleitoral.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu uma nota de apoio ao Santo Padre, o Papa, afirmando que a Igreja “não se orienta pela lógica do confronto político”, ou seja, pela lógica da polarização. Esta está destruindo comunidades, famílias, grupos de pessoas, amizades. A polarização é a grande epidemia dos dias atuais.

Por outro lado, a Igreja não pode abdicar de sua tarefa evangélica de promoção da paz, de proteção dos inocentes e de posições corajosas e proféticas contra quem ameaça a paz. O Papa Leão disse: “Não podemos permanecer em silêncio diante do sofrimento de tantas pessoas, vítimas indefesas desses conflitos. O que as fere, fere toda a humanidade”. No momento presente, o silêncio diante dessas catástrofes nos torna cúmplices do mal e da destruição da vida. “Quem é discípulo de Cristo nunca se coloca ao lado de quem lança bombas”.

A bênção de qualquer armamento não é garantia da graça de Deus. Ele não abençoa nenhum conflito e nem atende as orações de quem promove as guerras, pois suas mãos “estão cheias de sangue”. São palavras duras, mas estão presentes no Evangelho de Jesus Cristo e na Doutrina Social da Igreja. “Deus não ouve as orações de líderes que promovem as guerras, pois a fé não pode ser usada para justificar os conflitos”, afirma o Papa.

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja em seu parágrafo 438 nos dá a dimensão do compromisso cristão diante da guerra. “Para resolver os conflitos que insurgem entre as diversas comunidades políticas e que comprometem a estabilidade das nações e a segurança internacional, é indispensável referir-se a regras comuns confiadas à negociação, renunciando definitivamente à ideia de buscar a justiça mediante o recurso à guerra”. Sem vencedores ou vencidos, a guerra torna-se caminho para o “suicídio da humanidade”. Portanto, “é necessário rejeitar a lógica que a ela conduz”.

O que o Papa Leão XIV está fazendo é não ficar em silêncio, pois este é comprometedor. Sua voz se une à de outro norteamericano, Martin Luther King, Pastor Batista, que dizia: “O que me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos sem caráter, dos sem ética […] O que me preocupa é o silêncio dos bons”. Alguém precisa manifestar oposição radical a quem ameaça “destruir uma civilização”.

A posição da Igreja, manifestada pelo Papa Leão XIV de maneira serena, firme e de prudência pastoral, situa-se na defesa incondicional da dignidade humana, a busca incansável da verdade, o cultivo do diálogo responsável e a promoção da paz entre os povos. Por isso, sua voz é como um farol de discernimento e um convite às nações e lideranças políticas em prol de uma convivência marcada pelo respeito mútuo e responsabilidade moral.

O Magistério da Igreja condena “a crueldade da guerra” e, nos tempos atuais, “não é mais possível pensar que nesta era atômica a guerra seja um meio apto para ressarcir direitos violados”. Ela é um “flagelo”. Nunca será um meio para a solução de problemas, pois gerará novos conflitos e mais complexos. Depois de deflagrada ela se torna “uma carnificina inútil”, “uma aventura sem retorno”.

Gostaria de concluir com uma frase do Papa João XXIII presente na Encíclica Pacem in Terris: “Nada se perde com a paz, mas tudo pode ser perdido com a guerra”. A guerra é a falência de todo e qualquer humanismo, ou seja, sempre será uma “derrota da humanidade”.

Edebrande Cavalieri

Dom Andherson Franklin, bispo auxiliar de Vitória, ES, escreve sobre o período mistagógico, que acontecia nos séculos IV e V, durante os oito dias

Dom Andherson Franklin, bispo auxiliar de Vitória, ES, escreve sobre o período mistagógico, que acontecia nos séculos IV e V, durante os oito dias após a Páscoa. Clique para acessar artigo dom Andherson

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