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Desde o Concílio Vaticano II, fala-se de uma “Igreja toda ministerial” em decorrência do sacramento do Batismo. Penso que, muitas vezes, até banalizamos o

Desde o Concílio Vaticano II, fala-se de uma “Igreja toda ministerial” em decorrência do sacramento do Batismo. Penso que, muitas vezes, até banalizamos o uso do termo ministério deixando de reconhecer a diversidade que a Igreja institui e instituiu ao longo da história. Alguns são ministérios “reconhecidos” ligados a um serviço para a comunidade e podem desaparecer. Outros são ministérios confiados que são conferidos por algum gesto litúrgico, simples ou com forma canônica. Temos também os ministérios instituídos que se referem a leitores e acólitos, conferidos pela Igreja através de um rito litúrgico (instituição).

Por fim, os ministérios ordenados que também são chamados de apostólicos ou pastorais, conferidos através de um sacramento específico, o Sacramento da Ordem. Aqui nos referimos aos diáconos transitórios e permanentes, aos presbíteros ou padres e aos bispos. Estes constituem os ministérios da unidade da Igreja na fé e na caridade, de modo a garantir a manutenção da Igreja na tradição dos Apóstolos sendo fieis a Jesus, ao seu Evangelho e à sua missão. O Documento 62 da CNBB esclarece que o ministério ordenado não é a “síntese dos ministérios”, mas “o ministério da síntese”.

Um gesto que marcou as cerimônias da Semana Santa no Vaticano foi a do Lava-Pés, quando o Papa Leão XIV escolheu doze padres, sendo onze deles ordenados no ano passado pelo próprio Pontífice e o diretor espiritual do Pontifício Seminário Romano Maior. Escolheu aqueles a quem pediu obediência no rito de ordenação presbiteral. Qual o sentido deste gesto? Vamos entender esta escolha a partir do seu chamado para a oração no mês de abril na intenção dos padres. O Lava-Pés conduzido pelo Papa reveste-se do gesto de cuidado, tão necessário aos sacerdotes, especialmente aos recém ordenados.

O cuidado com os mais vulneráveis da sociedade, escolhidos no pontificado do Papa Francisco, não está dissociado do cuidado com aqueles que manifestam de modo concreto a missão apostólica, os padres, os bispos e os diáconos. Temos um cuidado para fora e um cuidado para dentro, numa linguagem mais simples; porém não separados.

O Papa Leão XIV nos convoca para um tempo de oração em vista do ministério ordenado sob cuja responsabilidade recai a coordenação (presidência) da Comunidade na animação da vida fraterna entre irmãos e irmãs, o discernimento dos sinais dos tempos e o cumprimento da missão conferida por Jesus Cristo. E nos diz que é preciso “reconhecer e aprofundar que, por trás de cada ministério, há uma vida que também necessita de cuidado, proximidade e escuta”.

Todos eles são seres humanos. Esquecemos disso tantas vezes em nossas críticas e fofocas. Quem cuida do pároco que sempre está disponível para nos atender? Será que ele está precisando de alguma coisa? Será que ele necessita se desabafar diante do peso do trabalho pastoral? Ou diante do disse-me-disse das fofocas das ruas?

Na oração solicitada pelo Papa, ele nos pede que coloquemos nas mãos do Senhor Jesus, Bom Pastor e companheiro de caminhada, “os padres que atravessam momentos de crise, quando a solidão pesa, as dúvidas obscurecem o coração e o cansaço parece mais forte que a esperança”. É preocupante o número de sacerdotes que tiram a própria vida! E o Papa conhece muito bem esta realidade por sua experiência como Prior da Congregação dos Agostinianos, quando viu os desafios mais concretos dos padres da ordem religiosa.

Enquanto comunidade, é tempo de pedirmos a Deus que nos ajude a cuidar de nossos padres, nossos párocos e vigários, a escutá-los sem julgar, a agradecer sem exigir perfeição. Eles não são super-heróis. Acima de tudo, pedir a Deus que nos ajude a partilhar com cada um deles a missão batismal de anunciar o Reino. Enfim, que saibamos acompanhá-los de maneira bem próxima, amparando-os em gestos de reciprocidade e com oração sincera.

Por fim, é preciso parar com a mania de generalizar em juízos discriminatórios e condenatórios em decorrência de um determinado padre que nos causou escândalo. A imensa maioria dos padres é extremamente zelosa pelo ministério que lhe foi confiado através do rito de ordenação sacerdotal. O cuidado dos sacerdotes é uma das responsabilidades partilhada entre todo o Povo de Deus.

É preciso sustentar aos que nos sustentam, conviver com eles como companheiros e amigos, que também atravessam momentos difíceis, com acompanhamento humano de amizade sincera e com a força de nossas orações. Eles precisam saber e sentir que não estão sozinhos, e são muito amados.

Edebrande Cavalieri

Diante de um contexto tão tenebroso de violência contra as mulheres chegando ao ponto de termos quatros assassinatos por dia no Brasil, considerados como

Diante de um contexto tão tenebroso de violência contra as mulheres chegando ao ponto de termos quatros assassinatos por dia no Brasil, considerados como feminicídio, hoje queremos refletir tomando as Sagradas Escrituras em um fato narrado por Mateus (1, 18-25) que se refere à concepção de Maria.

Vamos de imediato ao texto bíblico: “A origem de Jesus, o Messias, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era justo. Não queria denunciar Maria, e pensava em deixá-la, sem ninguém saber”.

José, além de “justo”, também era conhecedor da Lei contida em Deuteronômio (22, 23): “Se houver uma jovem prometida a um homem, e um outro tiver relações com ela na cidade, vocês levarão os dois à porta da cidade e os apedrejarão até que morram: a jovem por não ter gritado por socorro na cidade, e o homem por ter violentado a mulher de seu próximo”.

O cenário é muito claro. A suspeita de infidelidade deve ter causado profunda dor em José e, como homem, desejos de vingança (talvez). Afinal, ele pertencia a uma cultura terrivelmente patriarcal e machista, tanto a romana como a judaica. Contudo, José em nenhum momento pensou em assassinar Maria ou denunciá-la aos tribunais. Buscou uma saída de modo a não a expor à difamação na cidade. Muito menos queria levá-la à morte por apedrejamento. Ele estaria amparado pela Lei. O fato de ser “justo” o impedia que agisse com violência. Na verdade, esse é o amor de verdade, que brota de Deus.

Qual a saída imediata pensada por José? Não foi tomar uma arma e “fazer justiça com as próprias mãos”, em nome da honra como se diz por aí. Nem saiu pelas ruas difamando aquela jovem mulher chamando-a pelos piores apelidos machistas que circulam hoje pela internet nos smarthphones de nossos adolescentes. E nem colocou o nome de Maria na listinha das meninas fáceis. Ao contrário, José pensou em deixá-la, sem ninguém saber.

Alguns intérpretes como São Bernardo de Claraval entendem que José quis se afastar por se sentir indigno de participar do mistério da Encarnação e não por acreditar que Maria o teria traído. Como nossa intenção não é fazer exegese do texto bíblico, deixemos nossa reflexão seguir o caminho mais visível.

O certo é que José não queria denunciar Maria e nem a abandonar publicamente por meio de delação aos juízes ou por acusação formal e escrita entregue a eles. Também podia rescindir o contrato de casamento na frente de duas testemunhas. Mas, José não podia duvidar da inocência de Maria. Ele acreditava no amor que existia entre eles. Sendo justo, não podia fazer juízo temerário de uma situação que não compreendia.

Olhando todo o conjunto dessa história sagrada, encontramos inúmeras lições de como devem ser as relações entre homens e mulheres. Nada de “macho alfa” ou “mulher beta”. Mas, homens justos. José buscou em todos os momentos proteger Maria e jamais puni-la. Buscou sempre estar ao lado dela em todos os momentos posteriores, cuidando da criança que veio a nascer.

Vivemos no Brasil um ambiente que se diz cristão o tempo todo, que se diz respeitador da família, que põe Deus acima de tudo. Somos um país cristão, mas a lei que parece valer é aquela descrita no livro do Deuteronômio e não aquela descrita no Evangelho de Jesus Cristo.

Dom Luiz Fernando Lisboa, Bispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, publicou uma “Carta Dirigida aos Homens” fazendo um forte apelo contra a violência doméstica. Convoca os homens a romperem o silêncio. Está passando da hora de rompermos o silêncio da conivência. É preciso discutir as formas de violência de gênero nas escolas e nas salas de catequese de nossas comunidades eclesiais. Como nos diz Dom Luiz, é preciso que os homens assumam a responsabilidade de agirem como “promotores da vida e não cúmplices da violência”. É preciso educarmos nossas crianças e nossos jovens.

O Papa Francisco condenou veementemente a violência contra a mulher, classificando-a como um insulto a Deus e uma “erva venenosa”. Sim, esse veneno está entrando em nossas redes sociais, em nossas escolas e nossas comunidades, em nossas famílias. A violência doméstica nos diz o Papa é “quase satânica”. O machismo mata a humanidade. Enfim, “ferir uma mulher é ultrajar a Deus”. É preciso que barremos a matança de tantas Marias da Penha, tantas Dayse Barbosa. José não matou Maria!

Edebrande Cavalieri

O tempo da Quaresma deveria ter um efeito bem mais radical em nossas vidas que apenas feito com algumas mortificações que se assemelham mais

O tempo da Quaresma deveria ter um efeito bem mais radical em nossas vidas que apenas feito com algumas mortificações que se assemelham mais à propósitos de vida de cunho individual. Deveria ser um tempo de muito silêncio e reflexão a respeito da vida que levamos e tomadas de decisão sob a forma de conversão, mudança de vida.

Há poucos dias o Papa Leão XIV afirmou que as lideranças políticas e cristãs, responsáveis pelas guerras que estão impondo tantas dores e mortes em diversos países, deveriam se confessar e realizar um sério exame de consciência. Será que esses líderes, sedentos de poder e repletos de orgulho, teriam a coragem e a humildade de reconhecer o mal que carregam e realizar uma conversão em prol da paz?

O orgulho eleva a própria vontade acima de Deus. As Sagradas Escrituras consideram-no a raiz de todo pecado, levando ao desprezo pelos outros e à incapacidade de reconhecer os próprios erros. O orgulho cega as pessoas e se torna uma barreira à Graça de Deus.

O Cântico de Maria, registrado por Lucas (1, 52), nos traz um alento que fortalece nossa fé: “Ele derrubou dos seus tronos os poderosos”. Esta é Palavra de Deus que intervém na história para promover a justiça, humilhando os orgulhosos e privilegiados, enquanto eleva os humildes e famintos.

Inúmeros textos bíblicos condenam o orgulho. Em Provérbios (16, 18) lê-se que “a soberba precede a ruína e a altivez do espírito precede a queda”. Portanto, o orgulho cega a pessoa, pois a impede de reconhecer os próprios erros, pecados, aceitando a correção, a conversão. Enquanto Deus resiste aos soberbos, Ele não mede esforço para conceder sua graça aos humildes (Tiago, 4, 6). Não apenas resiste aos soberbos, mas garante que eles não ficarão impunes.

Seguindo essa linha de pensamento, o Papa recorda que o Sacramento da Reconciliação representa o grande momento em que a pessoa restabelece seu vínculo de unidade com Deus e recebe a infusão da graça santificante. Um pecador que não reconhece seus pecados alimenta cada vez mais a tendência ao pecado. Pecador soberbo ficará cada vez mais soberbo e orgulhoso. Não apenas perderá o vínculo de unidade com Deus, mas também deixará de ser expressão da unidade entre os irmãos.

Um governante orgulhoso não reconhece seus pecados e deixa de ser promotor da paz e da unidade na família humana. Portanto, há uma total incoerência entre promover a guerra e seguir os valores cristãos. Diante dos atos que geram tantos sofrimentos, o caminho apontado pelo Papa é o da Paz, da Conversão e da necessidade de arrependimento. Seria utopia?

Aos cristãos o Papa faz um pedido sob a forma de pergunta: “Os cristãos que tem grande responsabilidade nos conflitos armados têm a humildade e a coragem de fazerem um sério exame de consciência e se confessar”? Citando Santo Agostinho, ele acrescenta: “Quem reconhece os seus pecados e os condena já está em acordo com Deus”. Especialmente no Tempo da Quaresma, reconhecer os próprios pecados significa “concordar” com Deus, unir-se a Ele.

As palavras do Papa Leão XIV tem endereço claro: aqueles que estão promovendo as guerras no mundo atual. A Doutrina Social da Igreja nos diz que a razão de ser de qualquer autoridade política é o bem comum. Contudo, o que vemos no momento é que para resolver os conflitos entre as diversas comunidades políticas que comprometem a estabilidade das nações e a segurança internacional, muitos governos recorrem à guerra que pode ser catastrófica para a humanidade.

A Doutrina Social nos alerta que “a guerra pode terminar sem vencedores nem vencidos num suicídio da humanidade, e então é necessário rejeitar a lógica que a ela conduz, ou seja, a ideia de que a luta pela destruição do adversário, a contradição e a própria guerra são fatores de progresso e avanço da história”. E o que podemos fazer?

Cabe a todos nós uma luta para edificação de uma renovada ordem internacional defendendo a liberdade e a integridade territorial de cada nação, a tutela dos direitos das minorias, uma divisão equitativa dos recursos da terra, a rejeição radical da guerra rompendo o apoio a seus promotores que governam, atuação em prol de uma humanidade desarmada e desarmante e observância dos pactos concordados. A omissão também é pecado e, nesse momento crucial, é preciso que no silêncio quaresmal também nós nos convertamos em prol da paz.

Edebrande Cavalieri

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em seu último boletim de Análise de conjuntura, mês de fevereiro de 2026, traz uma epígrafe

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em seu último boletim de Análise de conjuntura, mês de fevereiro de 2026, traz uma epígrafe do filósofo italiano Antônio Gramsci, que viveu nos tempos do fascismo das décadas de 1920 e 1930 chegando a permanecer preso durante 11 anos. Essa epígrafe está assim traduzida: “O velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer; nesse interregno, surge uma grande variedade de sintomas mórbidos”.

Não era uma frase de efeito, mas um diagnóstico daquele momento de altíssima pressão política da extrema direita fascista com a perseguição a todos os opositores ao regime. Grande parte dos escritos de Gramsci foi feita nas celas da prisão. Os mesmos soldados que rezavam ajoelhados na Praça São Pedro também eram capazes das maiores atrocidades contra os opositores.

Naquele cenário pós I Guerra Mundial, o velho e o novo estavam misturados e confusos; inúmeros sinais de doenças da civilização por todos os lados. Sintomas mórbidos! Para muitos, a falência da esperança era o maior de todos.

Olhando para o contexto atual, é preciso termos uma visão profunda e crítica sobre os desafios e as transformações do cenário atual, confuso e doentio. O desafio é compreender as dinâmicas sociais e políticas do nosso país e do mundo a partir de uma perspectiva ética e cristã. Quem se propõe a caminhar nesses mares tão revoltos?

A contribuição do Magistério da Igreja que se desenvolve a partir da Encíclica Rerum Novarum de 1891, do Papa Leão XIII, que é o início da Doutrina Social, nos permite alicerçar nossa análise política. Não tem como ignorar a Doutrina Social da Igreja. São inúmeras Encíclicas produzidas nos mais diversos contextos históricos. Por outro lado, como cidadãos é preciso enfrentar os desafios da ordem política, cada dia mais confusa e tenebrosa. Não há outro caminho! Não há salvador da pátria! É por meio da política que são solucionados os problemas humanos de cada país e da humanidade inteira.

Disso decorre uma questão: é possível uma síntese entre a perspectiva cristã e o caminho político? Para muitos, totalmente impossível. O Papa Francisco, na Encíclica Fratelli Tutti, de 2020, dizia: “Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias”. O caminho ético-cristão pode ser também o percurso de uma espécie de boa política? Só depende de cristãos corajosos, capazes de enfrentar o mundo sendo sal da terra e luz do mundo.

Em tempos tão confusos e repletos de eventos turbulentos, corre-se o risco de se perder a cabeça. Nos momentos mais difíceis da história, a Igreja deu sua contribuição alimentando a esperança do povo. É preciso vestir o manto da esperança, do verbo “esperançar”– na autonomia, na emancipação, na vida e na dignidade de todas as pessoas. A espera vive a esperar “esperançando”, com sal e luz, em meio à terra insípida e na noite escura do tempo.

A esperança tem relação com a transcendência que se baseia na capacidade de superação, de poder ir além dos limites humanos, cuja origem é divina e religiosa. Há um rosto que reflete a luz divina! E este rosto é do Menino que chegou para nossa esperança. Ele é a ligação entre a humanidade e Deus – ligação ativa, sublime e concreta. “Ele veio morar entre nós”. É a espera da esperança transformada em ser humano, pois divino era desde sempre.

Não se trata da espera que algo aconteça entre os eventos humanos. Essa é a esperança comum que temos no dia a dia. Este algo pode não acontecer. A esperança de cunho antropológico e psicológico é bem semelhante a um otimismo pela vida. É importante, porém não é a esperança cristã, uma das três virtudes mais elevadas de nossa fé.

A esperança cristã é uma certeza firme e confiante nas promessas de Deus. É uma âncora que sustenta a nossa fé em meio às piores adversidades. É uma certeza de algo que se aguarda e decorre da fidelidade de Deus. Muitas vezes, podemos até perder a esperança mundana, comum, porém se acreditamos que Deus é fiel, nossa fé nos exige que coloquemos sempre essa esperança como guia de nossa vida. Do contrário, a fé se torna fantasia!

Edebrande Cavalieri

Esta é uma das saudações mais importantes da fé cristã. Está ao lado de outra afirmação muito forte de Jesus: “Deixo-vos a paz, a

Esta é uma das saudações mais importantes da fé cristã. Está ao lado de outra afirmação muito forte de Jesus: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. Em todas as Sagradas Escrituras a palavra paz aparece umas 400 vezes. Nos Evangelhos de Jesus Cristo aparece em diversas ocasiões como “a paz esteja nesta casa” e “vai-te em paz”. Na língua bíblica se diz “Shalom” e significa muito mais que a ausência de conflito. A paz é plenitude e bem-estar espiritual.

Cada cristão é herdeiro desta paz anunciada por Jesus Cristo e ela deve ser compartilhada com todos. O Papa Leão XIV pede insistemente que cada um reze pela paz, trabalhe pela paz, com menos ódio. Ele reconhece que o “ódio está sempre aumentando no mundo”.

Nestes dias, os barris de pólvora explodem em cada segundo. Armas cada vez mais sofisticadas, que nem pólvora mais utilizam. O uso do conhecimento científico para a guerra é enorme. Cada míssil hoje é avaliado pelas vezes que supera a velocidade do som. Alguns já atingem até vinte vezes essa velocidade (os mais utilizados atingem Mach 5 = 6.100 quilômetros por hora). Para quê?

Armas que semeiam mortes para todos os lados. Espalham fome e dor. Atravessam corpos, esfarelam vidas. Homens sem alma e sem coração pregam: “Ninguém vai chorar” por algum país devastado pelo ódio. Como assim? Ninguém vai chorar? Até que ponto nossa desumanidade é capaz de chegar diante do ódio crescente, das mortes se multiplicando! Cada morte deve ser chorada e muito.

O Papa Leão XIV alertava o mundo desde sua primeira aparição após a eleição pelo Conclave que era preciso uma “paz desarmada e desarmante”. “A paz não se constrói com ameaças recíprocas nem com armas que semeiam morte”. Estamos vendo crescer por todos os cantos do mundo o falimento da paz com a multiplicação de conflitos armados. O direito internacional está sendo jogado no lixo enquanto a dignidade humana vai se tornando uma vaga e utópica ideia. A ONU que foi criada como organismo mediador da paz foi posta de lado e não tem mais força para controlar as loucuras de alguns governantes.

A crueldade da guerra atinge pessoas em todas as idades e aniquila os sonhos das crianças e dos jovens tornando-se uma carnificina. Tudo está sendo perdido nos lugares onde as explosões de bombas lançam tudo ao chão. Ainda alguns homens alegam que isso é o que Deus obriga para defender o “povo escolhido”. Nenhum povo é escolhido por Deus pela força das armas. Qualquer guerra é a falência do autêntico humanismo, é uma derrota da humanidade.

Do texto bíblico do Profeta Isaías (2, 2) extraímos o que Deus espera de seu povo. A paz é a meta da convivência social: “Quando todos os povos forem para a casa do Senhor e Ele indicará a eles os seus caminhos, estes poderão caminhar ao longo das veredas da paz”. Então, resplandecerá no horizonte o “Príncipe da Paz”.

Diante de Deus os governantes que hoje conduzem o mundo para uma guerra total não estão governando em nome de Deus, conforme a justiça do Senhor. O desejo de Deus é dar a paz a todos os seus filhos, fiéis e também aos não fiéis. Deus não exclui ninguém desse bem, desse dom, dessa graça. Mas, os homens podem rejeitar essa herança.

Conforme a Doutrina Social da Igreja, “a paz é um valor e um dever universal e encontra o seu fundamento na ordem racional e moral da sociedade que tem as suas raízes no próprio Deus”. “A paz é fruto da justiça e do amor”. Este é uma força motriz que leva as pessoas a optarem por um engajamento corajoso e generoso no campo da justiça e da paz, base essencial do desenvolvimento autêntico de cada pessoa e de toda a humanidade.

Diante de nós uma meta: quando será que a “justiça e a paz de novo se darão as mãos?” Nossas orações serão em vão se não houver empenho na construção da paz garantida por Deus, construída dia após dia na busca da ordem desejada por Ele. Quando a paz florescerá? Quando todos nós reconhecermos nossa responsabilidade em sua promoção através do amor, da caridade, construindo assim uma “cultura de paz”.

Edebrande Cavalieri

Na Missa de abertura da Campanha da Fraternidade deste ano na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, Dom Jaime Spengler, presidente da CNBB, disse que

Na Missa de abertura da Campanha da Fraternidade deste ano na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, Dom Jaime Spengler, presidente da CNBB, disse que “seria muito bonito se cada paróquia da Igreja do Brasil pudesse propor, neste tempo ou durante este ano, a construção ou ajudar em reformas, a preparar uma casa para quem não a tem”. O que era uma sugestão de gesto concreto nesse período de Quaresma tornou-se um verdadeiro desafio cristão.

Diante de uma realidade com 26 milhões de famílias vivendo em moradias inadequadas e sabendo que temos mais de 12.000 paróquias, esse gesto concreto seria um dos braços da dupla caridade, com Deus e para com o próximo. Um amigo meu, ateu convicto e professor universitário, reagiu à essa proposta nas redes sociais dizendo: “Aí, até eu que sou ateu, colaboro”. Doze mil moradias é pouca coisa, mas seria muito significativo e agradável a Deus.

Da Campanha da Fraternidade do ano passado, também foi sugerido que cada paróquia realizasse um gesto concreto simbolizando o caminho de conversão ecológica. Hoje, soubemos que uma paróquia inteira da Arquidiocese de Vitória decidiu abolir o uso de produtos descartáveis como copos, garrafas PET, pratos etc.

O lema da Campanha desse ano é tirado das Sagradas Escrituras e é muito significativo: “Ele veio morar entre nós”. Somente o Cristianismo possui um Deus que se encarnou, que nasceu como todas as crianças, que precisou de berço para dormir, de casa para morar. Mas, o seu Natal não foi nada agradável. Restou-lhe apenas um estábulo de animais, um coxo chamado de manjedoura para dormir, e o céu estrelado, num clima de muito frio.

Nos momentos de repasse das reflexões em preparação para a Campanha nas paróquias sempre perguntávamos pelos maiores problemas daquela paróquia relativos à moradia. Na grande Vitória, os moradores em situação de rua afrontam nossa zona de conforto. É difícil encarar essa realidade. O segundo maior problema se refere às moradias em área de risco, à beira de rios, nos morros, nas encostas, nos manguezais. Em seguida, temos os problemas das pessoas que foram despejadas de suas moradias.

Outros problemas, não menores, são relativos às regularizações das moradias, o alto preço dos aluguéis e moradias minúsculas para grandes famílias. Em uma das reflexões dizíamos que não sabemos o que é morar em casa de chão batido, feita de estuque, em casa cheia de goteiras, pois o telhado é de palha ou tabuinhas apodrecidas.

A proposta de cada paróquia construir ou reformar alguma moradia em sua área pastoral pode se completar com outras ações também importantes como mapeamento da situação habitacional do bairro, do município, e os processos de informação relativos aos direitos das pessoas. Muitas vezes, há programas habitacionais, contudo, as pessoas que poderiam ser contempladas em decorrência dos dados do CAD Único sequer tomam conhecimento dessas oportunidades.

Muitas pessoas justificam seu descompromisso na Campanha da Fraternidade alegando que a Quaresma é tempo de jejum. Porém, o texto bíblico de Isaías 58 é muito claro. Deus disse: “O jejum que me agrada é que vocês repartam a sua comida com os famintos, que recebam em casa os pobres que estão desabrigados, que deem roupas aos que não tem e que nunca deixem de socorrer os seus parentes”.

O Evangelho de Mateus (25) não deixa por menos a necessidade da caridade para com o próximo. O Rei, no juízo final, dirá: “Vinde, benditos de meu Pai…pois tive fome e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; estava nu, e destes-me vestimenta”. O mesmo Rei também poderá dizer: “Estive sem moradia, e destes-me uma casa”.

A proposta de construção de uma casa ou sua reforma, para cada Paróquia, pode parecer pouco. Contudo, este gesto concreto servirá de testemunho de nossa fé. Até mesmo os ateus estarão dispostos a entrar nesse mutirão. Por que não nós mesmos?

O Papa Leão XIV, em sua mensagem à Igreja do Brasil, nos propõe que não nos prendamos a ações pontuais que são necessárias, mas que gere em todos a consciência de que “a partilha dos dons deve ser uma atitude constante e que nos comprometa a ir ao encontro de Cristo presente naqueles que não tem onde morar”.

Edebrande Cavalieri

Nestes dias, vivemos dois movimentos intensos da vida social e religiosa. Para um grupo de pessoas é tempo de alegria com o carnaval. Dom

Nestes dias, vivemos dois movimentos intensos da vida social e religiosa. Para um grupo de pessoas é tempo de alegria com o carnaval. Dom Helder Câmara dizia que era a grande alegria popular, “uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida”. E estimulava as pessoas a celebrarem esse momento de festa, pois na “quarta-feira [das cinzas] a luta continua”. Para outro grupo de pessoas, é um momento para retiros espirituais sob a forma de preparação para a quaresma.

Para todos, na quarta-feira de cinzas recomeça a luta diária pelo ganha-pão. Ao mesmo tempo, a Igreja do Brasil, através de seus pastores, nos convoca para outro grande movimento sob a forma de campanha. O livro do Profeta Isaías (capítulo 58) nos mostra qual o jejum que é desejado por Deus: “acabar com as prisões injustas; desfazer as correntes do jugo; por em liberdade os oprimidos e despedaçar aquele jugo; repartir a comida com quem passa fome; hospedar em sua casa os pobres sem abrigo; vestir aquele que se encontra nu; e não se fechar à sua própria gente”.

Foi no ano de 1962, que um jovem bispo recém ordenado, Dom Eugênio Sales, percebendo a enorme precariedade em que vivia o povo da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, junto com alguns padres, iniciou a primeira Campanha da Fraternidade, durante a Quaresma, demonstrando ter compreendido as Palavras das Escrituras que mostram a dupla caridade, para com Deus e para com o próximo. Em dois anos, toda a Igreja do Brasil aderiu à Campanha da Fraternidade como a conhecemos hoje com momentos fortes de espiritualidade quaresmal e campanha de solidariedade com a coleta que ocorre no Domingo de Ramos.

O tema para nossa atenção e reflexão neste ano une “fraternidade e moradia”. Fazendo o repasse em uma paróquia da área pastoral Serra/Fundão, perguntávamos qual era o maior desafio da moradia naquela comunidade eclesial. A resposta veio imediatamente por parte das pessoas que estavam presentes: nosso maior desafio é com a pessoas que nem moradia possuem, são pessoas em situação de rua. No Brasil, temos mais de 365.000 pessoas vivendo em situação de rua.

O desafio pastoral e social se completa com outros números assustadores: 6 milhões de famílias necessitam de uma casa; 26 milhões de famílias moram em situação inadequada; 16 milhões de pessoas equivalendo a 8,1% da população do país vivendo em favelas e comunidades urbanas.

Do ponto de vista social, como se caracteriza essa realidade? O problema da moradia no Brasil tem classe social, tem raça e gênero e também é um problema ambiental. São famílias que ganham até dois salários mínimos, formadas por pessoas pardas e pretas e chefiadas por mulher. São essas famílias que sofrem como vítimas das catástrofes e dos crimes ambientais.

A moradia é a porta de entrada de todos os direitos. Através de uma moradia digna se garante o acesso ao emprego, à justiça, à educação e à saúde, com qualidade de vida e convívio social. Moradia é o lugar onde repomos as energias, cultivamos relações e celebramos a vida integrando-nos com a sociedade e com nossa casa comum, o mundo. Sem moradia, somos desterrados.

Há muito tempo nossas comunidades cantavam uma música chamada de “Balada da caridade”, regravada pelo padre Reginaldo Manzotti. Ela foi cantada em alguns encontros de “repasse da Campanha da Fraternidade” em nossa arquidiocese. Vamos dar uma refletida em sua letra composta em 1972?

A chuva fria que cai no telhado vai entrando pelas frestas do barraco fazendo lama pelo chão. Casa coberta de palha ou de pequenas tabuinhas e de chão batido, sem cimento, com paredes de estuque. Em uma comunidade, perguntávamos quem tinha experiência desse tipo de casa em que a chuva vai molhando camas e pessoas e o chão vira lama. Se para uns a chuva fria parece uma cantiga de ninar, para outros é sofrimento. Como posso ter sono sossegado vendo assim um meu irmão?

Até o vento que assovia parecendo uma melodia de ninar representa angústia para muitos irmãos. Esse mesmo vento desmancha o barracão. Como posso ser feliz se ao pobre fechei o meu coração? Nos questiona a letra da música.

Com a quarta-feira de cinzas iniciamos a quaresma e também a Campanha da Fraternidade convocada pelos nossos pastores, os bispos. Na verdade, é o próprio Jesus Cristo em seu Evangelho que nos propõe como caminho de salvação a dupla face da caridade: com Deus e com o próximo. O Papa Leão XIV nos diz que “há um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres”.

É tempo de quaresma e também é tempo de uma grande balada da caridade!

Edebrande Cavalieri

Na Audiência Geral, ocorrida no dia 04 de fevereiro deste ano, o Papa Leão XIV abordou um dos temas mais desafiadores dos tempos atuais:

Na Audiência Geral, ocorrida no dia 04 de fevereiro deste ano, o Papa Leão XIV abordou um dos temas mais desafiadores dos tempos atuais: o fundamentalismo bíblico. Na verdade, a humanidade, em sua experiência religiosa, está diante de três fundamentalismos na atualidade: o islâmico, o judaico e o cristão. O que constitui em sua essência o fundamentalismo?

O Papa nos diz que “Deus fala através da Bíblia, mas devemos interpretá-la sem fundamentalismos”. Deus continua a falar aos homens e mulheres de todos os tempos por meio da Bíblia, porém essa Palavra divina se exprime em linguagem humana e deve ser acolhida e interpretada sem reducionismos, explica o Papa.

Na religião islâmica, a pregação fundamentalista convoca seus adeptos para uma volta às origens religiosas e uma reforma dos costumes e da sociedade conforme às leis do seu livro sagrado, o Corão. O fundamentalismo islâmico prega um recurso à violência para atingir esses fins formando um fundamentalismo muito radical e violento. Ao mesmo tempo, esse movimento rompe as fronteiras nacionais e passa a atuar num contexto internacional.

O fundamentalismo judaico não tem tanto apego à forma de fidelidade literal ao texto sagrado. A interpretação rabínica da Torá sempre foi bem livre. A questão se situa na ultraortodoxia que considera a lei de Deus com valor absoluto, aplicada à vida privada e pública. Essa tendência fundamentalista aplica a lei de Deus na procriação, na educação dos filhos reduzida apenas à educação religiosa e isolamento social. São proibidos os contatos com pessoas alheias à própria comunidade, numa espécie de autossegregação.

O fundamentalismo cristão, em sua vertente católica, conhecida como “integrismo”, remonta ao século XIX em suas posturas antiliberais e antimodernistas tendo como base de apoio o magistério do Papa Pio IX presente na Bula “Syllabus”. Porém, foi através do protestantismo norte-americano que o fundamentalismo cristão cresceu e se espalhou pelo mundo.

No início do século XX, 64 autores, representando a maioria das denominações protestantes, publicaram uma obra conhecida como “The Fundamentals”, sob a forma de 90 ensaios reunidos em 12 volumes. No prefácio, os editores apresentam como “uma nova declaração dos fundamentos do cristianismo”. Esses livros foram enviados para mais de três milhões de pessoas como ministros, missionários, pastores, professores de teologia e lideranças religiosas.

Nessa obra, seus autores defendem as doutrinas protestantes clássicas, atacam a Igreja Católica Romana, a teologia liberal, o socialismo, o modernismo, o ateísmo, a Ciência cristã, os Mórmons, e outras denominações religiosas, o espiritualismo e a teoria da evolução. Com o surgimento do comunismo, também esse foi e é objeto de condenação, formando uma espécie de cruzada evangélica contra o mal.

Do ponto de vista político, esse fundamentalismo cristão de cunho evangélico defende um patriotismo messiânico pondo a América como a nação eleita. Nessa perspectiva, foi criada em 1935 a chamada Direita Cristã que se transformou numa força irresistível de cunho eleitoral. Esse fundamentalismo está se espalhando pelo mundo à fora, numa espécie de messianismo político-religioso.

A preocupação do Papa Leão XIV se insere nesse contexto de proliferação das tendências fundamentalistas que ultrapassam o espaço religioso e descamba para a luta política numa espécie de cruzada religiosa. Contudo, suas catequeses visam educar o povo católico para uma escuta atenta da Palavra de Deus, buscando interpretá-la nos diversos contextos humanos em que foram produzidas ou ditas, pois Deus se serve da linguagem humana para se comunicar como foi feito na encarnação do Verbo em Jesus Cristo.

E faz um alerta: “abandonar o estudo das palavras humanas usadas por Deus corre o risco de resultar em leituras fundamentalistas ou espiritualistas da Escritura que traem o seu significado. Este princípio também se aplica ao anúncio da Palavra de Deus: se perde o contato com a realidade, com as esperanças e os sofrimentos da humanidade, se utiliza uma linguagem incompreensível, incomunicativa ou anacrônica, é ineficaz. Em cada época, a Igreja é chamada a reapresentar a Palavra de Deus com uma linguagem capaz de se encarnar na história e de chegar aos corações”.

Ele conclui esta catequese recorrendo a Santo Agostinho dizendo que quem compreende as Escrituras é capaz de edificar a dupla caridade, com Deus e para com o próximo. Em tempos de Campanha da Fraternidade, essa mensagem deve tocar o coração de todos nós na Quaresma que está chegando.

Edebrande Cavalieri