Homilias

Com a bênção dos nossos ramos, quero pedir a Jesus de Nazaré, à Virgem da Penha e a São José de Anchieta que abençoem

Meus irmãos e minhas irmãs paz e bem! 

Quero levar a todos e a todas o meu abraço e minha bênção aos que estão sintonizados conosco neste momento pelo facebook da Catedral e da Arquidiocese. Iniciamos esta Semana Santa, que nós católicos chamamos de Semana Maior, com o Domingo de Ramos. 

Com a bênção dos nossos ramos, quero pedir a Jesus de Nazaré, à Virgem da Penha e a São José de Anchieta que abençoem as nossas vidas e as nossas casas. 

A finalidade desta liturgia é reavivar nos homens e mulheres o significado divino de que vê 

Êem carregados e atualizar, em cada um de nós, para fazer com que nossa vida seja vivida à luz dos acontecimentos da vida de Jesus Cristo, Aquele de quem seguimos os passos hoje, aqui e agora. 

Santo André de Creta, bispo do Séc. VIII, fala-nos em um de seus sermões, de modo especial no dia de hoje, Domingo da Paixão. Diz ele “acompanhemos o Senhor que corre, apressadamente para a sua Paixão e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente no caminho ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos; mas para nos prostrarmos a seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima e, acolhermos aquele Deus que lugar algum pode conter”. 

Com certeza, neste ano de 2020, Deus nos proporciona celebrar a Paixão de seu Filho Jesus de Nazaré, o seu Ungido, o seu Cristo, de forma intensa e sensivelmente presente na vida de milhares de irmãos que, no nosso estado, na nossa cidade e no mundo todo, padecem com o vírus Covid-19. Aos que morreram, aos que estão passando pela contaminação, aos que tratam dos contaminados, as nossas preces, o nosso sentimento e solidariedade e, toda a nossa fé no Deus da vida que nos sustenta a esperança de podermos, em breve, celebrarmos a nossa páscoa em comunidade, no novo tempo, sem isolamentos, sem dores, sem lágrimas e sem mortes, ou seja celebrar na igreja Maior, num prolongamento de nossa igreja doméstica.

 

A celebração deste Domingo convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-se Servo dos homens e mulheres, permitiu-se morrer, para que a injustiça, a maldade humana, o pecado e a morte fossem vencidos. A cruz nos ensina a doar nossa vida por amor, como Ele, Jesus de Nazaré, amorosamente, abraçou e a transformou em porta da nossa salvação. Celebremos, nesta semana, o mistério da vida, da paixão e da morte de Jesus, na certeza de que é pelo mistério da cruz que chegamos à alegria da ressurreição. A cruz nos remete ao túmulo vazio. A cruz nos faz lembrar das palavras de Jesus: “se o grão de trigo que cai na terra, não morre, ele não produz frutos”. 

As leituras desta Liturgia que celebramos nos introduzem no mistério da vida de Jesus, da sua Paixão e Morte. Nos mostra a nossa contradição no nosso dia a dia. A primeira leitura que ouvimos, em que o profeta nos fala de sofrimento e perseguição, mas ele confia em Deus e faz de sua vida a concretização da vontade de Deus. Para os primeiros cristãos e para nós, , este servo sofredor e fiel, assemelha-se à pessoa de Jesus, como nos lembra a segunda leitura, prescindiu do orgulho e da arrogância, para se colocar na obediência ao Pai e ao serviço de toda a humanidade, até o dom da própria existência. 

O Cristo que hoje nos une e dá o sentido do nosso celebrar, é o Servo Sofredor, presente em tantos e tantas irmãos e irmãs que padecem do descaso e da intolerância, da desunião e do desprovimento de bens indispensáveis pela sua sobrevivência e que, muitos deles se encontram nas ruas e favelas de nossas cidades, marginalizados pelo Sistema que prioriza mais o ter que o ser e, muitas vezes, por ações excludentes, nãos os possibilitando o dom maior que é a vida que lhes foram concedidas por Deus. 

Toda a hora ouvimos pelos veículos de comunicação e por nós mesmos, que devemos ficar em casa, que devemos lavar nossas mãos e manter um distanciamento uns dos outros para nos protegermos do contágio do Covid-19. E aí eu pergunto: e quem não tem casa? E quem não tem acesso a água encanada em sua residência? E quem mora com mais pessoas debaixo do mesmo teto, oito ou dez pessoas numa mesma casa pequena, em nossas comunidades? Como se precaver? 

Vale aqui citar as palavras do nosso Papa Francisco: “a rua não é lugar para morar, muito menos para morrer”. É importante este questionamento no momento em que repensamos nossas vidas. O momento nos chama à partilha. Passando essa fase de nosso aprisionamento, é importante voltarmos ao tema da Campanha da Fraternidade deste ano: Fraternidade e Vida: dom e Compromisso. 

É importante pensarmos em ações que promovam a vida de todos, inspirados no magnífico lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”. 

Acredito, meus irmãos e minhas irmãs, que não sairemos deste tempo como nós entramos. Haveremos de nos converter à vida de todos e para todos. Necessitamos de políticas públicas que se envolvam mais na vida do povo e correspondam às suas necessidades prioritárias. Não pensar só no lucro. Faz-se necessário a disponibilidades de todas as instituições para “nascer de novo” e reestruturarmos o nosso mundo para que seja a “Casa Comum”, como nos diz o nosso querido Papa Francisco e, assim, darmos conta de: passando pela Paixão de Cristo, sendo solidários à paixão dos irmãos, poderemos alegremente celebrar a alegria do amanhecer daquele primeiro dia da semana, que há de vir, com a Ressurreição do Cristo, a nossa ressurreição. 

Trilhemos pois, estes dias santos (a Semana Santa no interior de nossas casas, a igreja doméstica) na fé, no amor e na confiança em Deus, suplicando-lhe a conversão do coração para podermos experimentar nosso reerguimento como homens e mulheres novos, iluminados pela festa e pela presença de cada irmão. Assim foi o Domingo de Ramos para o Cristo, assim é o dia de hoje para nós, e, os outros dias, onde Deus permitirá que experimentemos, em comunidade, em nossas casas onde marchamos, nas horas boas e nas horas má, para a casa do Pai. Mas, que entre estes momentos de festa e a chegada à casa do Pai, existem os dias da paixão. 

Que esta Semana Santa nos leve a viver a coragem e a fé que levou Jesus de Nazaré ao Domingo da Páscoa do Senhor. 

Nesta Semana, Jesus nos repete o convite que dirigiu a seus discípulos no Horto das Oliveiras: ficai aqui e vigiai comigo (Mt 26,38). Que a vigilância seja a nossa companheira nesta Semana de Oração. 

A todos e a todas, uma Santa Semana Santa. Amém! 

<b>Dom Dario Campos 

Arcebispo da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo</b>

Quero saudar a todos que participam conosco desta Noite Santa, ou seja, a Vigília das Vigílias. De modo carinhoso aos presbíteros, religiosos, religiosas, todos

Meus irmãos, minhas irmãs 

Paz e bem! 

Quero saudar a todos que participam conosco desta Noite Santa, ou seja, a Vigília das Vigílias. De modo carinhoso aos presbíteros, religiosos, religiosas, todos os agentes de pastorais, enfim, todos que colaboram na evangelização de nossas Comunidades Eclesiais de Base. 

Em especial aos meios de comunicação, TVE, Rádio América e outros meios de comunicação que nos aproximam, criam comunidade, criam fraternidade e nos fazem viver a experiência da Igreja Doméstica.

Em outras palavras, podemos afirmar que essa Vigília Pascal é “mãe” de todas as Celebrações Litúrgicas, Por vezes atribuiu-se à noite de Natal tal prerrogativa, exaltando-a como a grande celebração de fé da Igreja, mas mesmo essa ocorrência ganha suas luzes na grande noite de Páscoa do Senhor. 

As leituras proclamadas na Vigília Pascal resgatam o longo caminho da história de Salvação, traz em nossa memória a ação divina na história dos homens. A recordação da Páscoa dos hebreus é um marco importante na Liturgia e aponta a Páscoa de Cristo em sua Ressurreição. Por sua vez, o Evangelho retrata o encontro das mulheres com o Senhor ressuscitado que lhes comunica a alegrai de sua vitória sobre a morte. Alegrai-vos. Mergulhadas na noite de sua tristeza e dor, de desilusão de terem visto cair por terra tudo em que colocavam sua confiança, as mulheres tem o coração iluminado pelas palavras do Salvador. Ao dirigir-se a elas, o próprio Senhor indica o caminho a ser trilhado, isto é, voltar par a Galileia, fazer memória do caminho caminhado com os olhos iluminados pela vitória da luz que brilha na ressurreição do Senhor. 

Podemos nos perguntar por que o Senhor pede que elas se dirijam à Galileia. Foi porque na Galileias todos abandonaram suas redes, famílias, casa e afazeres para seguir o Senhor, e agora devem retornar ao ponto onde tudo começou, iluminados por uma luz que foi comunicada. 

No dizer de Santa Clara, “nunca perca de vista o seu ponto de partida”. Assim vemos que Elas e Eles se tornam comunicadores da salvação por seus gestos e palavras, apresentando a todos aquele que é vitoriosa sobre a morte, ou seja, a Boa Notícia. Nosso Deus vive em nosso Meio. 

E é nesta noite de hoje que culmina a Páscoa de todos esses passos que cada um deu durante a Quaresma, o nosso Deus, Jesus de Nazaré, não quer ver ninguém triste, ninguém abatido, ninguém humilhado, ninguém preso ao sepulcro ou amarrado pelas tramas da vida que só pensa no lucro e em subir na vida a qualquer custo, mas Jesus de Nazaré quer ver todos e todas alegres, cantando jubilosos a libertação dos filhos e filhas de Deus, quer ver a partilha. Ele sonha com a convivência na Casa Comum. Ele diz para cada um de nós que o velho Adão, que em todos nós carrega a morte foi n’Ele Transpassado, a fim de que, da Cruz e do Túmulo passemos para a vida, ao Homem Novo que é Jesus caminhando conosco pelas estradas da Vida nos dias de hoje. 

Assim, podemos dizer, ou melhor, retomar a Carta de São Paulo aos Efésios (5,14)”Ó tu que dormes, desperte e levanta-te de entre os mortos que Cristo te ilumina”. É um antigo canto batismal, “Ó tu que dormes, desperta… e Cristo te iluminará”, diz hoje a Igreja a todos nós. Despertemo-nos do nosso cristianismo cansado, sem motivação. Levantemo-nos e sigamos Cristo, a verdadeira Luz, a verdadeira Vida. É a Páscoa do Senhor. É a passagem do homem velho par o homem Novo. 

Nesta Vigília Pascal, não celebramos “Trevas sem Luz”, não estamos na Sexta-feira Santa, mas na Páscoa, a festa da Luz, sem Sombras. Não podemos perder esta novidade, principalmente em nossos dias. É páscoa, é alegria em cada irmão (ã) recuperado (a) do Covid-19, é páscoa, é alegria em cada criança que nasce e vem ao mundo, em cada jovem recuperado das drogas. É pascoa em cada sorriso, em cada gesto de ternura, em cada partilha de alimento, em cada partilha de material de higiene, em cada ajuda ao irmão (ã) idoso(a), na ida ao mercado ou farmácia para ele(a).Tudo é vida e alegria. 

Gostaria de terminar esta reflexão com algo que aconteceu anos atrás, um filme que foi apresentado em vários cinemas do mundo, um filme americano intitulado trevas sem Luz, que deu muito que falar. “Nele se abordava o seguinte tema: Um sábio arqueólogo empreendeu escavações nos arredores de Jerusalém, onde hoje se encontra a Basílica do Santíssimo Calvário. Certo dia ele a todos os meios de imprensa: Eu encontrei a sepultura de Jesus de Nazaré, crucificado no ano 33. Esta sepultura, porém não está vazia, mas dentro dela se encontra um cadáver mumificado. Cristo, pois, não pode ter ressuscitado. Cristo não ressuscitou. Resta novidade se espalha pelos quatro vento, por rádio, televisão e imprensa. O mundo entra numa densa treva. Tudo que recordava Cristo e que foi feito desapareceu. Igrejas foram destruídas, conventos fechados, padres abandonaram suas paróquias, missionários do mundo inteiro retornaram as suas pátrias, irmãs abandonaram suas escolhas e hospitais, enfim, o mundo entrou em uma enorme confusão. Até que enfim é desmascarado um embusteiro, comentavam alguns. Abaixo com a moral cristã e com a cruz, símbolo do sacrifício e da aceitação da morte, gritavam outros. Outros tantos não deixaram de observar: é muita pena que tudo isso tenha sido uma falsidade, pois o Ressuscitado ainda nos dava o sentido e a esperança de enfrentar a vida e de superar seus absurdos. Agora, porém, com dor, teremos que verificar nossa frustração. 

Assim, e com outros pormenores, o filme Trevas se Luz vai mostrando o que significa o mundo sem o fato e a fé na Ressurreição de Cristo.: verdadeiramente trevas, confusão, frustração e angústia nos corações humanos. Porém, no final, o filme mostra o sábio arqueólogo no leito de morte. Antes de entrar em agonia ele quer ainda uma vez falar. E então revela ao médico professor da universidade que sua descoberta fora uma falsidade, que ele interpretou mal o cadáver mumificado. Rste não era do ano 33, mas do ano 333 dC. 

Esta história, de um filme moderno, mostra-nos o que seria o mundo sema fé na Ressurreição. São Paulo já nos dizia em sua Epístola aos Coríntios: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã a nossa fé. Nós seríamos falsas testemunhas e os mais miseráveis de todos os homens (CF.1 Cor 15,15s).” (A Mesa da Palavra, ano B) 

Por isso, meus irmãos e irmãs, que esta Luz do Nosso Círio Pascal seja levada, ou seja, que a Luz desta noite entre em nossas vidas e iluminados seremos sementes da ressurreição no chão escuro de nossos problemas e alegremo-nos e poderemos cantar: 

Cristo Ressuscitou. Feliz Páscoa, na certeza que ressuscitaremos com ele. Aleluia! Aleluia! 

<b>Dom Dario Campos 

Arcebispo da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo</b>

Assim como Maria é a expressão plena da humanidade que abraça a sua vocação, chamado e missão, também nós hoje queremos nos deixar tocar

Meus irmãos e minhas irmãs, o texto de Lucas (1, 26-38), tem início com a indicação de que o anjo Gabriel foi enviado por Deus até a Virgem de nome Maria. De fato, em primeiro lugar está o sim de Deus oferecido aos seus filhos e filhas, algo presente em toda a história da salvação, desde a Criação do mundo até os nossos dias. Pois Deus deseja abraçar a todos, mesmo aqueles que se colocam longe do Seu caminho e de sua Palavra, num convite contínuo para a comunhão e para a intimidade. Apesar de toda a negação, o Senhor não desiste jamais da humanidade. 

Sabemos, pois, que a primeira Palavra para a humanidade inteira é o Sim de Deus, que nasce em sua incondicional gratuidade e infinito amor, próprios de um Pai desejoso de fazer comunhão com os seus filhos e filhas. 

O sim de Deus precede ao Sim da humanidade, que por laços de amor é convidada a acolher a proposta divina. Desse modo, podemos dizer que no diálogo entre o céu e a terra, entre o anjo do Senhor e a Filha de Sion, mais uma vez, é proposto o desejo de Deus de comunhão com os seus filhos e filhas. 

Hoje a Palavra do Senhor também é dirigida a todos nós, pois, assim como Maria recebeu a visita do anjo do Senhor, nós também somos visitados por Deus, que deseja nos apresentar o seu projeto e espera de nós o nosso sim. 

Deus deseja a vida plena para todos os seus filhos e filhas, algo que Jesus veio nos mostrar de modo claro, quando disse que veio ao mundo para que todos tivessem vida e vida em plenitude. Porém, ainda hoje, percebemos que estamos longe da realização do desejo de Deus, do seu projeto de vida para todos. A nossa história recente está marcada pela violência e pelas dores de famílias inteiras que perdem os seus filhos e filhas, a grande maioria jovens pobres e negros. Muitas mulheres ainda são vítimas da violência, por vezes dentro de sua própria casa, colocando o nosso Estado entre os que têm um grande índice de feminicídios no país. Muitos são os desempregados, famílias inteiras que vivem abaixo da linha da pobreza, marcados pelo descaso dos poderes constituídos. Carecemos de Políticas Públicas inclusivas e amplas, que favoreçam a qualidade de vida de todos, oferecendo oportunidades e possibilidades iguais para os cidadãos. Nossa sociedade ainda está marcada com a exclusão social, acirrada pelo desrespeito e a discriminação, seja por questão de sexo, cor, condição social entre outros. Não podemos esquecer a preocupação das grandes empresas com o lucro desmedido, que ainda hoje tem causado tragédias criminosas e mortes, marcando também o nosso solo do Espírito Santo, os nossos rios e mares com a poluição fruto do descaso. 

A nossa Fé, o Batismo que recebemos pede de nós uma atuação mais ativa e efetiva, pois, apesar de nossos muitos esforços, temos muito o que fazer em relação à nossa participação ativa e à construção coletiva de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. Hoje todos nós somos colocados diante do desejo de Deus, manifestado, no encontro do anjo com Maria, de tocar a humanidade e de transformá-la. Pois é o desejo de Deus fazer de nossa Casa Comum um lugar para todos os seus filhos e filhas. 

PRECE NA HOMILIA

Na celebração da Padroeira do Estado do Espírito Santo, todos os nossos olhares se voltam para o Convento da Penha, lugar que evoca e guarda a imagem da Virgem das Alegrias. Hoje, em primeiro lugar, como membros do Corpo de Cristo que é a Igreja, chamada a ser uma Igreja em Saída, queremos nos colocar também diante da Palavra do Senhor. 

Trazemos em nossos corações e na lembrança as quatro Dioceses do nosso Estado do Espírito Santo, aqui representadas pelos seus bispos, pelo administrador diocesano de Cachoeiro, pelos padres, diáconos, religiosos, religiosas, seminaristas e por todo o Povo de Deus. Desejamos ardentemente que aquele encontro que ocorreu em Nazaré, na Galileia, aconteça também, mais uma vez. 

Assim como Maria é a expressão plena da humanidade que abraça a sua vocação, chamado e missão, também nós hoje queremos nos deixar tocar pela Palavra de Deus e abraçar a nossa vocação. 

Que, cada Igreja Particular, sustentada pela graça de Deus, diante dos inúmeros desafios da Evangelização, seja capaz de assumir a sua vocação e missão. Que a voz de Deus ecoe dentro de nossas Comunidades Eclesiais de Base, desde o Norte ao Sul do Estado do Espírito Santo, de modo que se tornem proféticas e missionárias, verdadeiros sinais do Reino de Deus. 

Que todos nós aqui reunidos, nos sintamos chamados a viver uma vida de comunhão com o projeto de Deus, confirmando, todos os dias, o nosso sim a ele, a exemplo de Maria. 

<b>Dom Dario Campos, ofm Arcebispo Metropolitano de Vitória</b>

Gostaria de saudar, com grande alegria, a Dom Luiz, que é tão amado por essa arquidiocese, a quem somos imensamente gratos pelos 15 anos

Homilia da Posse   

Caros irmãos e irmãs! Paz e Bem! 

 

Gostaria de saudar, com grande alegria, a Dom Luiz, que é tão amado por essa arquidiocese, a quem somos imensamente gratos pelos 15 anos de sua vida, dedicados a essa parcela do povo de Deus. Muito obrigado, Dom Luiz! Deus o abençoe! Sua missão foi cumprida e concluída com êxito! 

 

Saúdo também os demais bispos que vieram celebrar conosco. Dirijo a minha palavra de saudação aos padres que vieram de Leopoldina, aos meus irmãos da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, a quem agradeço de todo o coração por tudo o que vivemos, enquanto trilhamos juntos os caminhos do Senhor em nossa sempre amada diocese. Aos demais padres que estão aqui de outras dioceses, meu muito obrigado pela presença.  

 

Particularmente, gostaria de saudar aos padres da Arquidiocese de Vitória, os diocesanos, bem como os religiosos, confirmando, diante do Senhor, o que já disse em carta enviada a todos, sobre o meu sincero compromisso de caminharmos juntos como irmãos, na condução do rebanho a mim confiado, o povo da Arquidiocese de Vitória.  

 

Saúdo também a todos os diáconos, seminaristas e vocacionados, bem como todos os religiosos e religiosas presentes nesta celebração.  

 

Acolho com grande alegria a todos vocês, leigos e leigas aqui presentes, aqueles que vieram de fora e os da nossa Arquidiocese, chamados a ser Sal da Terra e Luz do Mundo. Na vivência da experiência tão bonita que esta Igreja particular possui com o protagonismo de vocês, queridos leigos e leigas, à frente das Comunidades Eclesiais de Base, Pastorais Sociais, Equipes de Serviços e Movimentos Eclesiais.  

 

Dirijo uma palavra de saudação a todas as autoridades políticas, civis e militares que hoje celebram conosco esse momento importante de nossa caminhada eclesial. Pois, o diálogo permanente entre a Igreja, o poder público e a sociedade civil organizada é fundamental para o bem do povo, como nos recorda a Campanha da Fraternidade deste ano sobre Fraternidade e Políticas Públicas. Por fim, aos que nos acompanham pelos meios de comunicação, dirijo a minha palavra de saudação e as minhas orações, especialmente aos que nos ouvem pela Rede Católica de Rádios. 

 

É com simplicidade e serena alegria que hoje, seguindo o pedido do Papa Francisco, assumo uma nova missão como Arcebispo da Arquidiocese de Vitória. Como filho menor que sou, consciente de minhas fraquezas e limites, coloco-me diante da Imagem de Nossa Senhora da Vitória, consagrando a Ela o início desta nova caminhada, pedindo que ela me ajude a caminhar, como ensinou ao seu filho Jesus, segurando-O pelas mãos, desde quando Ele deu os primeiros passos, até à sua entrega derradeira da cruz. 

 

No Lema de meu Ministério Episcopal: “Nas Tuas Mãos”, eu encontrei o sentido mais profundo para dizer o meu sim ao pedido do Papa Francisco e assumir a missão de junto à nossa Arquidiocese governar, ou melhor dizendo, na nossa linguagem eclesial, pastorear a Arquidiocese. Hoje, mais uma vez, eu dirijo ao Senhor da Messe e ao Grande Pastor do Rebanho o meu olhar, o meu coração e todas as minhas forças, a fim de que Ele confirme, em nosso meio, a obra de Suas Mãos. Com humildade, eu reconheço o tamanho da missão e os seus grandes desafios que precisam ser enfrentados, e sei que não posso enfrentá-los sozinho, por isso, conto com vocês e peço as orações de todos vocês por mim.  

 

Na Liturgia de hoje, ouvimos que o Senhor nos convoca para produzirmos frutos de um amor profundo, verdadeiro e concreto, dirigido a Ele, que nos chamou à vida, e aos irmãos e irmãs, principalmente, aos mais pobres entre nós. Sendo assim, gostaria de partilhar três pontos que podem nos iluminar nessa celebração. O Primeiro diz respeito ao Amor de Cristo que se doa na cruz, espaço de formação de verdadeiros discípulos missionários. O segundo se encontra na força vitoriosa do amor fraterno. E o terceiro, por sua vez, está no chamado do Senhor a produzirmos frutos capazes de transformarem o mundo. 

 

O primeiro ponto se encontra na Leitura de São João, pois o autor da Carta afirma que por meio da morte de Cristo na cruz, todos fomos salvos. Na cruz está refletido o infinito amor de Cristo, manifestado por Sua entrega gratuita e total, capaz de iluminar toda a humanidade. Tonando-se a fonte que sustenta a vida e a missão de todos os cristãos, fortalecendo também a vida e a missão da Comunidade Eclesial de Base, na vivência dos valores do Evangelho. Tal vigor que nasce da cruz de Cristo é capaz de convidar e dirigir os passos dos homens e mulheres, levando-os a uma vida de plena comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs, principalmente com os que mais sofrem. Por isso, a experiência do Amor de Cristo, que se identifica com os crucificados do mundo, é condição necessária para todos os que se comprometem na construção do Reino de Deus, um Reino de Justiça de Paz e de Fraternidade.  

 

O Segundo ponto está unido ao primeiro, pois diz respeito ao amor fraterno, que nasce e se sustenta na experiência da intimidade e comunhão com o Senhor. O autor da Carta de João afirma que o amor ao próximo vence a morte e direciona o discípulo missionário no caminho da vida plena. Nas Palavras de Jesus, nos Evangelhos, o amor ao próximo possui a mesma força e intensidade do amor a Deus, o que significa que um não pode se realizar sem o outro. Não é possível Amar a Deus e negligenciar o Amor aos irmãos e irmãs, pois, a verdade do primeiro está na vivência do segundo.  

 

Para nós cristãos, o Amor não se confunde com um sentimento abstrato ou egoísta, mas, revela-se como uma escolha, uma atitude de vida. O caminho a ser trilhado por aqueles que desejam seguir Cristo como seus discípulos missionários, enviados a anunciar a Boa Nova do Evangelho aos pequenos e pobres, aos sofredores e excluídos. 

 

Nisto está o critério para saber se vivemos na verdade da Fé, pois vive a verdade, somente aquele que ama aos preferidos do Senhor, de forma concreta, ou seja, os pequenos e pobres dessa terra. 

 

O terceiro ponto se encontra no Evangelho, na Palavra de Jesus direcionada a Natanael, que une os dois pontos apresentados anteriormente. Jesus ao pousar o seu olhar sobre Natanael afirma que ele era um israelita no qual não havia falsidade. Tal afirmação provoca a surpresa de Natanael que, por sua vez, questiona a Jesus para saber de onde Ele o conhecia. O Senhor, responde dizendo que já o tinha visto, sentado debaixo da figueira, uma Palavra que faz com que Natanael reconheça Jesus como sendo o Filho de Deus. Devemos procurar o sentido mais profundo da Palavra de Jesus dirigida a Natanael, algo que pode nos iluminar na direção do que o Senhor deseja de todos nós e, sobretudo, para a Sua Igreja, em especial para a Arquidiocese de Vitória.  

 

A figueira é um símbolo muito importante para Israel. Por várias vezes, o Senhor compara o povo eleito a uma figueira, por Ele cuidada e protegida. Há ainda um outro elemento, relacionado à figueira, que está intimamente unido ao primeiro e ao segundo ponto, que é o vínculo entre o amor de Cristo e o amor fraterno. De fato, a figueira, antes de se encher de folhas e se tornar uma árvore frondosa, produz os frutos, manifestando o tempo de sua maior fecundidade. Por isso, ao dirigir-se a Natanael, Jesus encontra um judeu sem falsidades, alguém que produzia verdadeiros frutos de uma vida de intimidade com o Senhor, marcada também pela vivência do amor para com os irmãos e irmãs. Sendo assim, a figueira torna-se para todos nós um sinal vocacional, um símbolo do chamado divino feito a cada um, produzirmos frutos verdadeiros, sendo cristãos autênticos e missionários, como nos exorta o Papa Francisco, indo às periferias geográficas e existenciais.  

 

Todos nós, que pelo amor de Cristo fomos salvos por sua Cruz redentora, somos chamados a viver o amor fraterno, o que nada mais é do que uma vida cheia dos frutos da graça divina. Como a figueira, somos chamados a produzir frutos de uma vida plena, marcada pelo verdadeiro amor, sem a falsidade das aparências, mas, na verdade e radicalidade do Amor de Cristo, que se revela nos mais vulneráveis da sociedade.  

 

Meus irmãos e irmãs, tendo escutado a Palavras de Deus, deixemo-nos iluminar por Ela e firmemos com o Senhor, nós o clero, os religiosos, os leigos e as leigas, o compromisso de vivência da Fé na Vida, marcada pelo Amor Compassivo de Cristo. De modo que o caminho que hoje iniciamos nessa liturgia, seja trilhado na Comunhão e na Participação, na Unidade e no Compromisso de todas as forças vivas de nossa Arquidiocese com a construção do Reino de Deus.  

 

Que o amor criativo de Cristo seja a força que mova e oriente todas as nossas Comunidades Eclesiais de Base, nossas Pastorais, Ministérios e Movimentos, no seu testemunho e missão. Que continuemos a trilhar o caminho proposto pelo Papa Francisco, como uma Igreja em Saída, pobre e para os pobres, que se dirige às periferias, a todos os que ainda são expropriados de seus direitos e excluídos de condições dignas de vida.  

 

Que o amor concreto e comprometido, fortalecido e amadurecido na experiência de sentirmo-nos amados pelo Senhor, esteja presente em tudo o que dissermos e realizarmos. De modo que nos empenhemos na construção da Casa Comum, uma sociedade mais justa, fraterna e solidária, sem as marcas da violência e do descaso com a vida.  

 

Que a violência seja combatida com Políticas Públicas inclusivas e de qualidade, capazes de recompor os laços do tecido social, tão dilacerado por escolhas equivocadas e propostas contrárias aos direitos e conquistas adquiridos nas últimas décadas.  

 

Todavia, sabemos que para que tudo isso aconteça, é necessário perseverança, reflexão e diálogo. O bem comum deve ser fruto de uma construção coletiva, nas quais todas as forças, conhecimentos e experiências, sejam somados e compartilhados. Todos somos responsáveis por transformar o mundo em um lugar melhor para todos. 

Enfim, hoje, às vésperas da Solenidade da Epifania, deixemo-nos conduzir pela Estrela do Amor de Cristo, que aqueceu, iluminou e guiou os passos dos magos até ao encontro com o Senhor. Façamos juntos o mesmo caminho, sem medos e receios, crescendo e multiplicando as experiências concretas de Amor, único meio capaz de transformar o mundo inteiro. O Senhor conta conosco irmãos e irmãs, pois foi Ele mesmo que nos escolheu, nos chamou e enviou a levar a todos, por meio de nossa voz, presença e atitudes, a verdade inegociável de Seu Amor. Que seja o Amor de Cristo o grande sinal desse tempo novo de graça que juntos iniciamos. Sigamos a Estrela, até encontrá-Lo nas periferias, em meio aos pobres, onde Ele quis se manifestar ao mundo. 

 

Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado! 

 

Dom Dario Campos, ofm Arcebispo Metropolitano de Vitória do Espírito Santo 5 de janeiro de 2019