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Tem crescido muito nas comunidades e escolas católicas a prática de convidar os alunos e professores para o início do ano letivo para uma

Tem crescido muito nas comunidades e escolas católicas a prática de convidar os alunos e professores para o início do ano letivo para uma pequena celebração em que um ministro, geralmente padre, possa conferir uma bênção às mochilas e seus portadores. Que sentidos carrega essa prática religiosa? Como inserir esse momento na vivência da fé ao longo do ano?

Faço parte de uma geração que cresceu “pedindo a bênção” todas as noites ao pai e à mãe, que “pedia bênção” ao avô, avó, tio ou tia toda vez que os encontrava. Hoje ainda guardamos uma vaga lembrança dessa prática dizendo aos nossos filhos toda vez que saem de casa: “vai com Deus”. Ou “fica com Deus” quando os deixamos sozinhos.

A experiência das bênçãos é muito presente em toda a Bíblia e chega ao grau mais elevado sendo vista como “graça” e também “ação de graças”. Na Bíblia, a bênção é um dom que atinge a vida e seu mistério e não se refere a um bem específico e nem pode ser retirado. A bênção não se relaciona ao “ter”, mas ao “ser’, pois não depende da ação do homem. Ele depende exclusivamente do dom criador e vivificador de Deus.

Desse sentido bíblico, podemos refletir sobre a bênção das mochilas dizendo que esse ato não deveria significar uma força do alto para se tirar notas boas. A bênção não é um ato mágico. Na bênção das mochilas buscamos o dom da proteção divina para nossa vida em toda a sua extensão. Deveria servir para nos fazer crescer em sabedoria e fé.

A bênção na Bíblia sempre indica um encontro do homem com Deus selando uma união ou uma reconciliação. Portanto, ela indica um compromisso do homem, uma aliança, diante da enorme generosidade de Deus. Através dela expressamos nossa generosidade com todos os que estão à nossa volta, assim como Deus é infinitamente generoso. Ela traz abundância, não de bens materiais, mas de paz e de vida, de fecundidade florescendo e frutificando no mundo.

Novamente nossa reflexão prática diante desse sentido. Celebrar uma bênção das mochilas no início do ano letivo e desaparecer da frente de Deus o resto do ano não condiz com o sentido profundo desse ato. Ele deveria nos comprometer numa aliança com Deus e num compromisso de fecundar o mundo à nossa volta com paz e solidariedade. A bênção sempre deve fazer brotar a vida.

Desta forma, um “ser” bendito ou abençoado neste mundo se torna uma “revelação” de Deus. A bênção de Deus ao povo hebreu faz desse mesmo povo um lugar de encontro e uma fonte de irradiação. A descendência de Abraão é abençoada infinitamente mostrando que é escolhida por Deus. Toda vez que se rompe essa aliança/bênção torna-se necessária uma retomada de reconciliação.

Por fim, a bênção das mochilas não significa transportar para dentro das escolas uma prática religiosa fazendo do ambiente educativo uma espécie de “igreja”. Ela deve servir para inserir nossas crianças e jovens na comunidade eclesial. Nas celebrações nas igrejas e comunidades quase não vemos nossas crianças e jovens. Aqueles mesmos que foram no início do ano com as mochilas para uma bênção, onde estão ao longo do ano? Por que não retornam ao encontro com Deus? A bênção é um compromisso, uma aliança e não um ato mágico.

A bênção de Deus em sentido pleno é o Espírito Santo, dom de Deus. Por isso, pedimos os sete dons – Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor de Deus. Os frutos do Espírito na forma de bênção são simbolizados pela água que regenera, pelo nascimento e renovação, pela vida e fecundidade, pela plenitude e paz, pela alegria e a comunhão dos corações. A benção das mochilas deve nos levar à comunhão com Deus e com os irmãos, com os colegas de escola e as pessoas que trabalham nos colégios. Sua eficácia deveria se mostrar na exclamação das pessoas do mundo: “vejam como eles se amam!”

Edebrande Cavalieri

O primeiro consistório extraordinário do pontificado do Papa Leão XIV, realizado nos dias 7 e 8 de janeiro, reunindo 170 cardeais dos 245 atuais,

O primeiro consistório extraordinário do pontificado do Papa Leão XIV, realizado nos dias 7 e 8 de janeiro, reunindo 170 cardeais dos 245 atuais, deixa uma diretriz muito clara do caminhar da Igreja nestes tempos turbulentos. A mensagem central e o exemplo dos cardeais refletindo juntos com o Papadeveria impactar todo o mundo católico. O Papa apresentou quatro temas para os cardeais escolherem dois a serem refletidos de maneira colegiada e sinodal que foram “Missão da Igreja no mundo de hoje” e “Sínodo e Sinodalidade: instrumento e estilo de cooperação”. O foco escolhido pelos cardeais não foi nem a Liturgia e nem o Ministério da Santa Sé, que eram os outros dois temas.

Parece que o olhar para dentro de si vai perdendo força diante dos desafios para uma Igreja como “luz do mundo” e “sal da terra”. Esta é a razão de ser da Igreja: sua missão de levar o Evangelho a todos os povos, levar a Boa Notícia a todas as pessoas. Ao mesmo tempo, vemos o Papa iniciar uma nova série de catequeses retomando o caminho conciliar. Em suas palavras: “O Concílio Ecumênico Vaticano II ajudou-nos a abrir-nos ao mundo e a abraçarmos as mudanças e os desafios da era moderna, mediante o diálogo e corresponsabilidade”.

Ao término do primeiro consistório o Papa manifestava sua alegria e satisfação pela experiência de uma “profunda harmonia” e de uma “sinodalidade não técnica, mas afetiva, em continuidade com o Concílio, fundamento da conversão e renovação de toda a Igreja”. Esta é a mensagem mais profunda e clara deixada pelo Consistório. Foi tão forte e marcante que já se marcou o segundo consistório extraordinário para os dias 27 e 28 de junho deste ano.

Concluindo os trabalhos destes dias de reunião, não foi apresentado nenhum documento final. O objetivo apresentado logo no início era aprender um estilo – colegial e sinodal – para “trabalhar juntos” e “criar algo novo”. Por este motivo o Papa convida os cardeais: “trabalhemos juntos, discernamos juntos e busquemos o que o Espírito nos pede”.

Algumas questões ecoaram bem fortemente entre os presentes quando o Papa lhes perguntou: “Há vida na nossa Igreja? Há espaço para o que nasce: Amamos e proclamamos um Deus que nos coloca num caminho novo”? E alerta para que a Igreja não se feche em si e caia na tentação de que tudo está feito, terminado e basta fazer o que sempre se fez.

O caminho colegial e sinodal é o que Deus espera da Igreja nestes novos tempos. O Papa Leão XIV conclui esse momento de pontificado dizendo aos cardeais: “Como é belo estarmos juntos na barca”! Mesmo que tenhamos dúvidas pelo caminho, mesmo que haja algo que nos assuste e nem saibamos para onde ir e onde vamos chegar, “se depositarmos a nossa confiança no Senhor, em sua presença, podemos fazer muito”.

O cardeal Timothy Radcliffe, por solicitação do Papa, fez uma breve meditação dizendo que “se a barca de Pedro estiver cheia de discípulos em conflito, em desavença, não seremos de qualquer utilidade para o Santo Padre”. É preciso viver em amor e paz, mesmo “quando discordamos, pois Deus está verdadeiramente presente”.

Este caminho percorrido pelos cardeais junto com o Papa Leão XIV deveria servir de modelo para toda a Igreja. Em cada Diocese, Paróquia ou Comunidade, as palavras – “trabalhemos juntos”, “discernamos juntos” e “busquemos o que o Espírito nos pede” – deveriam ecoar fortemente tornando-se uma prática pastoral missionária de uma Igreja “Luz do Mundo”. Fora desta barca, que é a barca de Pedro confiada por Jesus, só haverá canoas furadas que em pouco tempo afundarão nas águas dos mares revoltos.

Edebrande Cavalieri

Nos dias 7 e 8 de janeiro de 2026, oito meses após sua eleição no Conclave, sem ter publicado ainda uma Encíclica que mostrasse

Nos dias 7 e 8 de janeiro de 2026, oito meses após sua eleição no Conclave, sem ter publicado ainda uma Encíclica que mostrasse seu plano de governo da Igreja Católica e uma Viagem Apostólica realizada na Turquia e Síria, o Papa Leão XIV realizará o I Consistório de seu pontificado. Conforme o Direito Canônico (cânon 353), “os Cardeais auxiliam principalmente o Supremo Pastor da Igreja por meio da atividade colegiada nos consistórios, nos quais se reúnem por ordem do Romano Pontífice e sob sua presidência”. O que a humanidade, e especialmente os católicos, podem esperar dessa reunião colegiada?

Antes de responder a esta questão, é bom lembrarmos alguns dados da biografia do Padre Robert Francis Prevost, ordenado em 1982 e enviado como missionário da Ordem de Santo Agostinho ao Peru em 1985, eleito Prior Geral da mesma Ordem por dois mandatos (2001-2013) quando viajou por diversos países escutando e acompanhando as comunidades religiosas. Em 2014, o Papa Francisco o nomeou como Administrador Apostólico da Diocese de Chiclayo no Peru e em seguida foi ordenado Bispo. Ali permaneceu até 2023 quando o Papa Francisco o escolheu para dirigir o Dicastério dos Bispos em Roma.

Este perfil biográfico foi determinante para sua escolha como Papa pelos cardeais. Ele não fez nenhuma campanha eleitoral com promessas nem sempre exequíveis. Esta é a imagem que desponta nestes poucos meses à frente da Igreja. A mensagem de Natal se encaixa perfeitamente no contexto de seu ministério missionário ordenado: “Negar ajuda aos pobres é rejeita Deus […]. Na terra não há lugar para Deus se não há lugar para a pessoa humana […] Até mesmo um estábulo pode se tornar mais sagrado do que um templo”.

Este pequeno raio x de sua vida nos mostra um homem marcado por uma forte ação missionária entre as populações mais pobres do Peru e um homem capaz de ouvir muito como quando esteve em cargos de comandos como Prior da Ordem, Bispo e Presidente do Dicastério dos Bispos. Nestes oito meses de pontificado, podemos comprovar isso. Sempre atento, ouvindo e estando em posição de escuta das pessoas, sem pompa, na simplicidade e humildade de um homem de Deus. Esta é uma marca que estará presente nesta primeira reunião com os Cardeais: vai “perder” o máximo de tempo para ouvi-los atentamente.

Que desafios estão sobre a mesa nesta reunião? A primeira questão é a da unidade da Igreja. Este desafio não se resolve da noite para o dia e nem mediante um decreto. A unidade da Igreja é um processo que depende de muitas coisas, entre elas a lealdade de todos os que estão no poder. A unidade formal pode até acontecer e virar notícia de jornal, contudo a verdadeira unidade é aquela que brota do coração e da fé do povo de Deus. É preciso reconhecer que o Papa Leão XIV herdou uma situação complexa com forte impulso de uma parte da Igreja (os tradicionalistas) e de setores sociais também conservadores que temem que católicos progressistas possam acabar abandonando a Igreja, caso o chefe da igreja deixe de seguir os caminhos abertos pelo pontificado de Francisco.

A segunda questão que está sobre a mesa é o progresso das reformas aprovadas no Sínodo sobre a Sinodalidade. Há muitas resistências na implementação destas reformas tanto na Cúria Romana, como nas Cúrias diocesanas do mundo inteiro. Ficar na zona de conforto em tempos de ebulição política e social é a maior tentação dos seguidores de Cristo. Mas isso seria viver o Evangelho? O costume de se fazer sempre do mesmo modo é muito cômodo e tranquilo. Assim, as reformas correm risco de ficar no papel. Na própria Cúria Romana, após a morte do Papa Francisco, diversas lideranças tentam recuperar a influência perdida.

Aqui está o terceiro desafio do Consistório: como controlar parte dessa Cúria e colocá-la como “um pequeno modelo da Igreja, isto é, como um ‘corpo’ que procura, séria e diariamente, ser mais vivo, mais saudável, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo”, perguntava o Papa Francisco aos Cardeais e colaboradores da Cúria Romana em 2014.

Outros pontos também estão sobre a mesa nesse início de pontificado: a atuação da diplomacia do Vaticano em tempos de tantos conflitos, o desarmamento que foi tema na mensagem de Natal, o meio ambiente e os abusos sexuais que envergonham a Igreja.

Desta forma, a realização do I Consistório cumpre um compromisso do Papa após o conclave que é trazer os cardeais para auxiliá-lo no governo universal da Igreja, assumindo um papel mais ativo. A vontade do Papa é ouvir os cardeais e motivá-los para expressarem suas opiniões. Era esse o desejo de maior participação dos cardeais ao elegerem o novo papa, expressando a disposição de seguirem no caminho do processo sinodal. Ao mesmo tempo, nos parece que Papa Leão XIV deseja realizar uma gestão bem mais compartilhada e sinodal da Igreja. Assim a Barca de Pedro inicia a navegação com seu novo timoneiro no novo ano em mares nem tão calmos como gostaríamos.

Edebrande Cavalieri

Quantas guerras há no mundo hoje? Os meios de comunicação falam muito das guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza. Segundo o Comitê

Quantas guerras há no mundo hoje? Os meios de comunicação falam muito das guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza. Segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, hoje são mais de 120 conflitos armados. De ano para ano esse número dobra. Em 2024 eram 61 países em Guerra. Os principais conflitos são Israel-Hamas/Palestina, Rússia-Ucrânia, na África com Sahel, Sudão, Etiópia, R. D. do Congo, Moçanbique, Mali, Burkina Faso. No Oriente Médio há guerras na Síria, no Iêmen, no Iraque. Temos até conflitos étnicos com o governo de Mianmar.

O Papa Francisco sempre se referia a uma Terceira Guerra Mundial em pedaços. O Papa Leão XIV, desde o início do pontificado, tem insistido de maneira incisiva no compromisso da humanidade para o estabelecimento de uma paz duradoura. Agora, em sua primeira mensagem para o 59º Dia Mundial da Paz celebrado em 1º de janeiro, apresenta como tema “A paz esteja com todos vós: rumo a uma paz ‘desarmada e desarmante”.

O único caminho apresentado pelos Evangelhos para o caminho da paz não é a venda de incenso, mas a luta pela não violência em sua multifacetada presença entre nós. Não se trata de uma mera ausência de conflito ou de guerra, mas um dom ativo e envolvente que compromete cada cristão, cada pessoa, independentemente de sua vinculação religiosa.

O Papa Leão XIV esclarece que “a busca da paz exige a prática da justiça”. Os numerosos desequilíbrios e injustiças a começar pelas condições indignas de trabalho, com uma sociedade cada vez mais intolerante e conflituosa, são o terreno propício para a explosão de conflitos e guerras.

Entre nós há uma guerra que aparece quase todos os dias nos jornais e redes sociais. Trata-se da violência contra as mulheres. Em 2024 o Espírito Santo registrou 15.954 atendimentos por violência contra a mulher no canal Ligue 180. Como falar de paz nessa guerra que toca nossos vizinhos e até nossa própria casa?

Esse drama levou Dom Luiz Fernando Lisboa, Bispo de Cachoeiro de Itapemirim, a publicar uma Carta Dirigida aos Homens para “lembrá-los de que o tema não é apenas um drama social; é uma ferida moral, espiritual e humana, que marca famílias, destrói vidas, traumatiza crianças e humilha a dignidade dada por Deus a cada mulher. No rosto de cada mulher violentada, vemos o rosto do Cristo Crucificado, da Igreja ferida”.

Continuando a reflexão do Papa Leão XIV, podemos dizer que a paz é tarefa de cada pessoa. Ela se inicia em cada um de nós, na forma como lidamos com as relações conflituosas no dia a dia, como ouvimos os outros, como falamos dos outros. A fofoca é uma forma de violência que alimenta os conflitos. Com palavras podemos ferir e matar as pessoas. A “língua” é uma grande arma.

Além disso, é preciso trabalhar para a construção de uma cultura de paz, que seja capaz de construir pontes, mediante o diálogo e o encontro. Essa tarefa começa dentro da própria casa, nas salas de catecismo das comunidades e paróquias e nas escolas em todos os seus níveis. Como está a campanha da amizade social lançada pelo Papa Francisco?

Por último, não podemos deixar de lado o contexto da cultura digital e a formação de redes de comunicação. Temos a impressão que tem crescido uma cultura digital de violência e intolerância. Há uma guerra de narrativas, uma guerra de palavras proferidas pelos dedos nos smarthphones. Estamos criando uma comunicação desarmada e desarmante? Ou queremos ver o circo pegar fogo?

No contexto das guerras, o Papa Leão nos chama para enfrentar a perversa indústria armamentista: “Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento”. Por fim, uma paz duradoura e verdadeira requer estar atento ao grito dos pobres, dos necessitados e dos marginalizados, bem como aos desafios que marcam o nosso tempo, desde a salvaguarda da criação à inteligência artificial”. A paz exige a proteção absoluta e completa “da dignidade de todas as pessoas, especialmente as mais frágeis e indefesas”.

Um Feliz Ano novo de Paz em todos os seus momentos!

Edebrande Cavalieri

Considerando a demanda pastoral na qual envolve um casal separado civilmente com filhos; posto que, pós a separação, a guarda dos filhos foi determinada

Considerando a demanda pastoral na qual envolve um casal separado civilmente com filhos; posto que, pós a separação, a guarda dos filhos foi determinada pela justiça civil no regime de guarda compartilhada. Entretanto, somente a mãe deseja batizar a criança na Igreja Católica. Desse modo, embora o pai se oponha ao batismo, a mãe solicita ao pároco a celebração do sacramento. Perante a essa solicitação, o ministro sagrado deparou-se com uma grande dúvida: qual procedimento pastoral se deve tomar? Considerando o aspecto jurídico, pode-se licitamente batizar crianças, de pais separados, sem o consentimento de um deles?

  1. Foro Canônico

A priori, procede ressaltar que a legislação canônica garante o direito natural da criança de ser batizada, em vista do bem supremo que é a salvação. Esse pressuposto teológico está fundamentado na Revelação (cf. Mc. 16,16).  Ademais, os fiéis têm direito de receber dos seus pastores os auxílios hauridos dos bens espirituais da Igreja, especialmente a Palavra de Deus e os Sacramentos (cf. Cân. 213). Por isso, em casos especiais, independente do poder civil, por direito nativo, a Igreja cumpre o seu dever e garante o direito da criança, mesmo contra a vontade dos pais. Outrossim, em caso de perigo de vida, a criança pode ser batizada, embora a vontade dos genitores seja antagônica (cf. Cân. 868 § 2).

Procede memorar as determinações canônicas para essa situação. Vejamos:

  1. É infante (criança) aquela pessoa que não completou 7 anos de idade, pois ainda não tem o uso da razão (Cân. 97 § 2). Essa pessoa pode requerer seus direitos espirituais por meio dos seus pais ou tutores (Cân. 98 § 2). Consequentemente, o cânone 226 determina a gravíssima obrigação e direito dos pais de cuidarem da educação cristã dos filhos. Em congruência com essas prescrições jurídicas, o cânone 867 indica a obrigação dos pais de procurarem o pároco para pedir o batizado das crianças, nas primeiras semanas do nascimento;
  2. O cânone 868 apresenta dois requisitos canônicos básicos para que uma criança seja batizada, a saber: que os pais, ou pelo menos um deles, ou quem legitimamente poder fazer, consintam; que haja fundada esperança de que a criança será educada na religião católica.

Resulta presumir que, ipso Iure, (Direito Canônico), o pároco poderia celebrar o batismo da criança, uma vez que um dos pais está implorando o batismo para o filho (a). Entretanto, considerando a sociedade hodierna polarizada, bem como a situação de separação judicial dos pais do batizando, urge usar de prudência pastoral. Esse procedimento pastoral se justifica com o intuito de evitar expor a criança e de alimentar um litígio marital existente. À vista disso, embora sejam foros jurídicos distintos, parece necessário averiguar as prescrições civis sobre a questão, a fim de se evitar que a celebração do batismo se transforme em um fato social e objeto de uma ação jurídica.

  1. Foro Civil

Para a legislação civil brasileira, o batismo refere-se a uma decisão ligada ao poder familiar, e não pode ser tomada unilateralmente, enquanto o outro expressamente se opõe, particularmente se houver guarda compartilhada. Portanto, em caso de guarda compartilhada, o poder familiar compete ao pai e a mãe, independentemente de estarem casados ou separados (cf. Código Civil Brasileiro, Art. 1.630 – 1.638).

Singularmente, para o Código Civil, as decisões sobre religião dos filhos são atos do poder familiar. Desse modo, a legislação civil brasileira regula que compete a ambos os pais dirigirem a criação e a educação dos filhos (cf. Código Civil Brasileiro, Art. 1.634, Iº). Isso posto, significa que, para a legislação civil, batizar deve ser uma decisão conjunta dos pais, uma vez que, em guarda compartilhada, nenhuma decisão relevante pode ser tomada somente por um dos pais (cf. Código Civil Brasileiro, Art. 1.583-1584).

Nos casos em que o consenso não seja possível, a solução para a divergência dever ser a via judicial. Portanto, deve-se recorrer ao juiz da vara familiar. Particularmente, conciso de que há uma vontade expressa contrária ao batismo, por parte do pai da criança; nessa situação pastoral-jurídico, o padre deve agir com prudência.

  1. Procedimentos Práticos possíveis

Considerando a legislação canônico e civil atuais, sugere questões práticas:

  1. Mostrar aos interessados que, para a doutrina canônica, para a realização do sacramento do batismo, basta que um dos pais peça. Embora haja essa disposição legal, o juiz eclesiástico (Bispo), normalmente determina a busca do consenso dos dois pais para que a celebração. Determina isso com a intenção de que a mencionada celebração não seja usada como pretexto para confrontos conjugais e litígio jurídico;
  2. Urge uma conversa pastoral do pároco com o casal (os dois juntos ou conversas individuais), a fim de convencê-los da relevância do batismo para a criança. Esse bem espiritual deve ser posto acima das polêmicas conjugais. Registrar esse consentimento por escrito e pedir a assinatura de ambos;
  3. Fracassada a primeira tentativa, orientar a mãe a apresentar ao juiz de família uma petição, fundamentada no Código Civil Brasileiro e Canônico, solicitando que dirima o conflito e defira ou indefira sobre a súplica (cf. Código Civil Brasileiro, Art. 1.631). Aguardar essa decisão judicial e cumpri-la.

Esperamos ter ajudado a esclarecer e encaminhar essa demanda jurídico-pastoral comum na maioria das nossas Comunidades Eclesiais. Que, guiados pela força do Espírito Santo e sob a proteção de Nossa Senhora da Penha, nossos pastores nos ajudem a receber válido e licitamente os sacramentos.

Dr. Pe. José Paulino Francisco Neto – SBC 658/17.

Dra. Lúcia Maria Roriz Veríssimo Portela – OAB/ES 5.593

A celebração do Natal é repleta de histórias e símbolos. Ao mesmo tempo, o sistema econômico apoiado no comércio aproveita esse evento religioso e

A celebração do Natal é repleta de histórias e símbolos. Ao mesmo tempo, o sistema econômico apoiado no comércio aproveita esse evento religioso e cultural para despejar sobre as pessoas um conjunto de objetos que seduzem, principalmente as crianças, induzindo-as ao consumismo desregrado.

O principal dado da fé fica quase sempre relegado à indiferença. O Natal assim passa a ser celebrado como uma festa, um evento, que reúne as pessoas e alimenta a confraternização. Isso é muito bonito, contudo não reflete o fundamento da fé cristã. Qual é o sentido profundo do Natal?

Somente vamos encontrar esse dado central de nossa fé se o colocarmos no contexto da História da Salvação. É bem longo esse caminho. Não é apenas uma história de acontecimentos humanos, mas a história que se inicia com a criação do mundo por Deus e o pecado que acometeu a todos os homens. Desde então, os seres humanos passaram a caminhar formulando inúmeras perguntas sobre o seu destino na terra, sobre os sofrimentos, sobre suas angústias e seu desejo de felicidade.

A pergunta mais angustiante se refere ao fato de termos nascido para vida e, no fim das contas, o que nos espera é a morte. Onde está Deus? É a pergunta que o homem faz diante da morte. Qual é o sentido último de nossa existência? A História da Salvação, apresentada no Antigo Testamento, nos mostra essa angústia dos homens, suas buscas de ídolos como o bezerro de ouro, e a manifestação de Deus ao longo dessa mesma história. Parecia muito, mas Deus não criou o mundo e dele se afastou. Para Santo Tomás de Aquino, a criação não é um “big bang”, mas uma “criação contínua” no sentido de sua conservação. Era preciso fazer algo a mais.

Aqui surge o grande mistério do Natal. É o desejo de Deus em chegar mais pertinho dos homens. Como? Gritando nos montes? Falar como os oráculos dos pagãos? O Deus que fez aliança com o povo eleito parecia silencioso demais, distante demais. Porém, Deus precisa falar mais pertinho dos homens. Ele quer estar mais perto da humanidade toda. Os homens tantas vezes se mostraram surdos à sua voz. Como incluir a salvação após o pecado?

“A Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós”. O Natal é Deus que fala da maneira mais próxima possível para cada homem. Não é uma palavra bonita proferida em shows, em palanques, em tantos jogos de luzes. Deus se fez carne e assim irá sofrer conosco. Não justifica ou explica os sofrimentos, mas sofre conosco.

O seu nascimento se dá numa estrebaria. Seu berço de recém-nascido é apenas um coxo para alimento dos animais. Ele se faz alimento desde o nascimento. Ele nasce e passa a viver a mesma aventura dos homens. Somente o cristianismo tem a ousadia de um Deus que se faz carne e caminha com os homens. Morre como todos os homens morrem, da forma mais vil, crucificado. E ressuscita. O mistério da encarnação se completa com a ressurreição. Do contrário, nossa fé seria vã, nos diz São Paulo.

O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, afirma: “O Filho de Deus…trabalhou com mãos de homem, pensou com mente de homem, agiu com vontade de homem, amou com coração de homem. Nascendo da Virgem Maria, Ele se fez verdadeiramente um de nós, em tudo similar a nós, exceto no pecado”.

A grande verdade do Natal é essa: “Não somos mais solitários, mas solidários”, afirma Leonardo Boff. Deus se faz solidário com a criação. O Natal muda tudo na História da Salvação: temos um Deus encarnado. Não é mais um profeta. Esse Deus entra em nossas vidas e, por isso, nossa esperança não é inútil ou vã.

O Filho encarnado no Natal nos dá motivo para a alegria, a esperança, a fraternidade, a confiança, a solidariedade. O Natal representa o ponto forte de nossa total confiança no Pai. Contudo, isso só terá sentido se Ele nascer em cada coração. Não vamos cantar parabéns para o Menino que nasceu em Belém. Vamos nos alegrar com o Menino que nasce em nosso coração. Se Jesus Cristo não nascer em cada um de nós no Natal, pouco ou nenhum sentido terá a festa comemorativa de seu nascimento em Belém.

Então, podemos dizer: feliz é o homem que deixa o Menino Deus nascer em seu coração. Feliz Natal!

Edebrande Cavalieri

De volta para o Vaticano, vindo de sua primeira Viagem Apostólica à Turquia e ao Líbano, o encontro com 81 jornalistas no mesmo avião

De volta para o Vaticano, vindo de sua primeira Viagem Apostólica à Turquia e ao Líbano, o encontro com 81 jornalistas no mesmo avião foi o momento do Papa Leão XIV responder a diversas perguntas. Algumas muito intrigantes. Mas, sempre respeitosas e de muita admiração pelo novo Pontífice. Uma das questões se referia aos bastidores do conclave que o elegeu.

O Papa Leão, então, disse: “Eu pensava em me aposentar, mas em vez disso me rendi a Deus”. De fato, depois de tantos anos como missionário no Peru, ocupando cargos de Prior e Provincial da Ordem de Santo Agostinho, escolhido bispo da Diocese de Chiclayo também no Peru em 2014 e chamado à Roma em 2023 para ajudar o Papa Francisco na Congregação dos Bispos, agora atingindo os 70 anos de idade, realmente em termos humanos pode-se afirmar que a aposentadoria é o horizonte mais próximo. Mais cinco anos ele seria Bispo emérito e estaria vivendo numa casa para descanso.

Porém, “tudo está nas mãos de Deus”. Chegar a este momento é dos mais desafiadores para qualquer pessoa. Implica em uma “oração permanente e espiritualidade profunda onde simplesmente entregamos nossa vida ao Senhor e permitimos que Ele nos guie”. Ainda esclarece aos jornalistas que naquele momento do Conclave, vendo como estavam as coisas e as votações com seu nome elevando-se a cada votação, disse que respirou fundo e respondeu ao Senhor: “Eis-me aqui, Senhor. Tu és o chefe, Tu guias o caminho”.

Render a Deus! Estamos diante de uma dinâmica central da vida cristã, característica dos grandes mestres da espiritualidade e da mística cristã. Santa Teresa d’Ávila dizia que “aquele que deixa tudo nas mãos de Deus, em breve verá as mãos de Deus em tudo”. Outra grande Santa e mística, Edith Stein, martirizada em campos de concentração nazista, seguiu esse mesmo caminho. Para ela, o ser do homem que descobre o seu “nada”, o seu vazio, percebe que não se pode dar a vida a si mesmo, a qual lhe é dada continuamente.

Trata-se de um caminho bem oposto àquele com o qual nos formamos na sociedade e nas escolas da vida. Somos “catequisados”, não para a entrega total de si, mas para a construção de nossos projetos pessoais de emprego e sucesso financeiro. Até mesmo em algumas igrejas se prega esse caminho de prosperidade material a partir da fé. Somos educados a buscar respostas para os desafios do mundo, a ter controle de nossas atividades e de nosso tempo e a confiar nos resultados materiais.

Há poucos dias nossos jovens realizaram a prova do ENEM. O que ronda a cabeça desses estudantes? Geralmente, a definição de uma vocação, uma escolha profissional, que represente sucesso financeiro e status social. Quando um jovem se rebela contra essa imposição social parece que o mundo vai acabar em seu entorno. A vocação é pensada apenas na dimensão material. Nunca suspeitamos que Deus sempre nos chama. Como ouvir a voz de Deus se nossos ouvidos estão repletos de outros chamados, outras vozes?

O Papa Leão XIV adiantou que, se alguém quiser conhecer seu caminho espiritual, basta percorrer o livro do Irmão Lawrence – A prática da presença de Deus – onde se apresenta um caminho espiritual marcado pela beleza da simplicidade no cotidiano. A forma de caminhar continuamente com Deus não nasce de uma atitude da cabeça, mas a partir do coração. Qualquer pessoa, independentemente da idade e das circunstâncias da vida, pode praticar este caminho que leva a conhecer a paz e a presença de Deus.

Render-se à vontade de Deus implica em reduzir nosso apego tão radical aos nossos projetos pessoais. Mesmo na vida eclesiástica, há muitos líderes religiosos que estão mais apegados ao sucesso religioso que à entrega às mãos de Deus. A experiência do conclave na eleição do Papa nos mostra um certo conflito entre os projetos pessoais de pontificado e a proposta de Deus, que é o caminho mais seguro para a sua Igreja. Muitas vezes, na história, os homens venceram a vontade de Deus, mas Ele nunca desistiu de nós.

Percorrendo sua história de vida, olhando fotos e vestimentas usadas como padre e bispo, e agora sete meses de Pontificado, podemos resumir em duas palavras: humildade e serviço. Este é o segredo do caminho espiritual que lhe permite dizer: “eu me rendi à Deus”. E nossa oração é na intenção de que o mesmo Deus conduza cada passo seu guiando a Barca de Pedro.

Edebrande Cavalieri

A visita do Papa Leão XIV à Turquia e ao Líbano reveste-se de uma importância central para a vivência da fé cristã: o investimento

A visita do Papa Leão XIV à Turquia e ao Líbano reveste-se de uma importância central para a vivência da fé cristã: o investimento na unidade da fé. As divisões que ocorreram na história da Igreja marcaram um caminho escandaloso que incluiu até guerras e não apenas divisões doutrinárias.

Contudo, a maior parte das divisões ocorreu por motivos relativos ao exercício do poder. A religião foi usada e abusada em prol das divergências políticas. Há um risco de se usar o altar para palanque eleitoral ou divisão política. Daí, o grande escândalo das divisões que marcaram e marcam a história da Igreja.

Na Turquia e no Líbano, o Papa Leão XIV tem presente a missão evangélica de construção de pontes de amizade, de ecumenismo e de diálogo inter-religioso entre católicos, ortodoxos e sua pluralidade de Igrejas e muçulmanos. A construção de pontes tem como alicerce a reconciliação diante de tantas marcas ofensivas e mortes nas guerras religiosas. O cenário geopolítico dessa viagem nos mostra um conjunto de povos que busca a paz e sofre com tantas guerras.

A igreja deve ser, conforme pedido do próprio Jesus Cristo, sinal de paz e luz do mundo. A plena comunhão em Jesus Cristo é o fundamento da fé cristã e somente ela é garantia da realização da fraternidade entre todos os seres humanos.

Os povos ainda estão muito marcados por divisões e, nem sempre os cristãos e católicos podem servir de exemplo de fraternidade. Neste sentido, o Papa Leão XIV disse de maneira explícita na cidade onde se realizou o I Concílio Ecumênico em 325 d.C.: “O uso da religião para justificar a guerra e a violência, assim como qualquer forma de fundamentalismo e fanatismo, deve ser rejeitado com veemência, enquanto os caminhos a seguir são os do encontro fraterno, do diálogo e da colaboração”.

A guerra e a violência não ocorrem apenas entre religiões diferentes como cristianismo e islamismo, mas dentro das próprias comunidades cristãs. A polarização política tem contribuído imensamente para dividir comunidades eclesiais, colocando até bispos contra bispos, padres contra padres. Não está em jogo algum dogma religioso, mas apenas posições político-ideológicas alimentadas por interesses particulares.

Por isso, o chamado do Papa para que vivamos reconciliados e assim podermos dar testemunho crível do Evangelho de Jesus Cristo. O desejo de comunhão plena entre todos os que creem em Jesus Cristo é o caminho da fraternidade entre toda a humanidade.

Em seu discurso aos jovens que se encontravam no Líbano, provenientes também de países vizinhos, formando uma verdadeira multidão que se assemelhava a uma mini Jornada Mundial da Juventude, o Papa disse: “Talvez lamentais ter herdado um mundo dilacerado por guerras e desfigurado por injustiças sociais. Não obstante, há esperança! E em vós reside esta esperança. Vós tendes tempo! Tendes mais tempo para sonhar, organizar e realizar o bem. Vós sois o presente e, nas vossas mãos, já se está a construir o futuro! E tendes o entusiasmo para mudar o curso da história! A verdadeira resistência ao mal não é o mal, mas o amor, capaz de curar as próprias feridas, enquanto se curam as dos outros”.

A celebração dos 1.700 anos do I Concílio Ecumênico em Niceia (Iznik) nesta viagem do Papa Leão XIV expressa o apelo à unidade da fé cristã para os dias atuais num contexto marcado por tantas guerras. A intenção comemorativa reveste-se de um apelo à paz “em circunstâncias muito complexas, conflituosas e incertas”. Aos jovens se coloca o desafio da promoção da paz com um “contínuo recomeçar”, sem medo diante das “aparentes derrotas e sem se deixar abater pelas desilusões”, olhando para o futuro e “abraçando todas as realidades com esperança”.

O Patriarca de Antioquia dos Maronitas, ao final da visita do Papa, disse que esta viagem trouxe uma mensagem de paz e esperança e, acima de tudo, “serviu para mudar os corações”. A construção da comunhão requer de maneira fundamental o estabelecimento de uma convivência fraterna. A fraternidade é o caminho mais seguro para a paz e para a comunhão na Igreja.

Edebrande Cavalieri

Foto de capa: @Vatican Media