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Dois eventos muito significativos para os cristãos e católicos nesse fim de novembro e início do mês de dezembro. No dia 23 de novembro,

Dois eventos muito significativos para os cristãos e católicos nesse fim de novembro e início do mês de dezembro. No dia 23 de novembro, o Papa Leão publicou a Carta Apostólica In Unitate Fidei, comemorativa dos 1.700 anos da realização do I Concílio Ecumênico em Nicéia, hoje cidade de Iznik (Turquia), em 325, quando foi definida a Profissão de Fé dos cristãos, também chamada de Credo.

O segundo evento é a primeira viagem apostólica do Papa Leão XIV à Turquia e ao Líbano entre os dias 27 de novembro e 2 de dezembro. Na Turquia teremos um momento celebrativo da memória do I Concílio Ecumênico e a decisão de mais de 300 bispos presentes em Niceia (hoje cidade de Iznik) da caminhada sinodal a partir de um consenso no que diz respeito à doutrina cristã.

Foi em Niceia que o imperador romano, Constantino, realizou a convocação dos bispos para o I Concílio, garantindo segurança e apoio para que decidissem a respeito da divisão religiosa que estava comprometendo a unidade da fé cristã e do próprio Império. Um pouco antes, em 313, Constantino concedeu a liberdade de culto aos cristãos, após dois séculos de perseguições sistemáticas, e empenhou seu apoio para a reconstrução/construção de igrejas para a realização das celebrações.

A experiência dos primeiros anos do cristianismo quando ocorreu a reunião dos apóstolos e presbíteros com Paulo no Concílio de Jerusalém, conforme nos relata o livro dos Atos dos Apóstolos (At 15), para discutir a questão da circuncisão dos gentios, é continuada em Nicéia para tratar da questão central da fé. Daí resultou a definição da Profissão de Fé que conhecemos hoje. Essa experiência de caminhada sinodal foi continuada com mais 20 concílios ecumênicos. Qual era o problema que atingia a comunidade cristã discutido em Nicéia?

No início da história do cristianismo, surgiam diversas pregações, hoje conhecidas como heresias, que dividiam a comunidade cristã. Eram discussões que tocavam em questões doutrinárias da fé cristã. Uma delas foi conduzida por um padre chamado Ário, da Igreja de Alexandria no Egito. Ele dizia que Deus não pode comunicar seu ser por criação ou geração. Ou seja, Deus Pai não poderia gerar um filho em sentido estrito. Então, Jesus Cristo também era uma criação de Deus Pai e não coeterno ou consubstancial a Ele, Pai. Para Ário, Jesus somente seria “deus” em relação às criaturas, mas não era Deus como o Pai.

Não podemos pensar hoje que Ário agisse de má fé ou desonestidade teológica. Ele queria muito manter a todo custo o rígido monoteísmo do Antigo Testamento. As discussões em torno dessas ideias dividiram a comunidade cristã de Alexandria e logo passaram a ser combatidas pelo Bispo Alexandre da mesma cidade. A cristantade oriental via crescer a divisão interna do cristianismo. Os conflitos logo ganharam as ruas tornando-se uma questão popular. Hoje diríamos que aquele pequeno mundo estava ficando polarizado, em conflito, ameaçando a unidade da Igreja e a estabilidade do Império Romano.

Em 19 de junho de 325, os mais de 300 bispos presentes em Nicéia definiram que o Filho de Deus é da mesma “substância do Pai”, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, da mesma substância do Pai”. Era o cerne da doutrina cristã expressa no Credo que em outro Concílio Ecumênico, realizado em 381 na cidade de Constantinopla, completou nossa Profissão de Fé.

É a primeira síntese de fé cristã definida de modo consensual pelos pastores da Igreja, os bispos, sucessores dos apóstolos. Eles ainda acrescentaram uma determinação canônica que chega até os dias atuais chamada de anátemas. Todos aqueles que desafiassem a doutrina ali fixada deveriam ser excomungados.

A Carta Apostólica In Unitate Fidei, assinada pelo Papa Leao XIV às vésperas de sua primeira viagem, enfatiza a unidade dos cristãos, a centralidade da doutrina expressa no Credo e nos convida à renovação da fé. É também um chamado para renovar o entusiasmo pela fé e ser um sinal de paz desarmada e de reconciliação. O Papa realça na Carta a herança espiritual e doutrinal deixada pelo Concílio de Nicéia.

A primeira viagem Apostólica do Papa à Turquia e ao Líbano nos traz à memória desse momento da história de 1.700 anos e nos coloca diante de temas como o ecumenismo, diálogo inter-religioso (cristãos e muçulmanos) e unidade da Igreja que se fundamenta na unidade da fé proclamada desde os primórdios. Para esta região o Papa deverá sinalizar para uma certeza: “O que nos une é muito mais do que o que nos divide”. Por isso, afirma ele, “devemos caminhar juntos para alcançar a unidade e a reconciliação entre todos os cristãos”.

Edebrande Cavalieri

Domingo passado, dia 23 de novembro, a Igreja celebrou a Solenidade de Cristo Rei, encerrando o ano litúrgico. Esta festa foi instituída em 1925

Domingo passado, dia 23 de novembro, a Igreja celebrou a Solenidade de Cristo Rei, encerrando o ano litúrgico. Esta festa foi instituída em 1925 pelo Papa Pio XI num contexto de mundo marcado pelos regimes totalitários de direita e esquerda, de briga pelo poder e crescimento da cultura secularizada. A realeza de Jesus Cristo é afirmada, não na perspectiva do poder mundano, mas do serviço e do amor.

Como Cristo está liderando a vida de cada um de nós? Esta é a reflexão fundamental que deve ser feita para o tempo de advento, de preparação para o nascimento do Menino Deus.

Em nossa Igreja local, Arquidiocese de Vitória, também iremos iniciar a preparação para a Campanha da Fraternidade de 2026 que tem como tema “Fraternidade e Moradia” iluminada pelo versículo bíblico de João 1, 14: “Ele veio morar entre nós”. Como Cristo pode ser reconhecido nos dias de hoje, vindo habitar entre nós? Como aconteceu lá em Belém?

Quem? A cidade, por acaso, se perguntava? Uma estrela guia nos céus. Mas ninguém queria saber ou se importar com o novo habitante desse mundo. Quem estaria interessado em um novo nascimento? Um simples nascimento! Tão simples que nem hospedagem havia.

Quem está vindo morar entre nós? Seria o filho de um rei? Aos ouvidos de Herodes a notícia chegava e causava muita preocupação. Era precisa cortar o mal pela raiz. Então, mandou matar todos os bebês de até dois anos de idade de Belém e assim eliminar esse novo nascituro conhecido pelo nome Jesus. Herodes já era bem conhecido. Foi ele que presenteou a filha com a cabeça de João Batista. Agora decreta o “massacre dos inocentes”.

Quem está vindo morar aqui neste chão duro da cidade de Belém? Quem teria coragem de habitar esse lugar? Na verdade, nem mesmo uma casa de chão batido para o novo morador. Como é nascer sem ter casa? Sem ter uma cama, um berço?

Sábios, conhecidos como “reis magos”, vindo de tão longe, caminhavam seguindo a estrela. Mas, a pequena cidade não mostrava nenhum sinal. Que rei é esse? Uma realeza teria provocado enorme aglomeração. Mas, não era um rei que estava vindo morar ali?

Animais aqueciam-se do frio intenso num estábulo. A cidade não comportava mais um morador. Não cabia o novo habitante naquele lugar. Essa nova realeza parecia não caber no mundo e não apenas na cidade de Belém. Quando o próprio Deus parece não caber mais na obra de sua criação é porque chegamos ao momento do juízo final. Chega!

Restava ainda um estábulo. Restavam os animais como companhias. O choro se misturava ao ruminar das vacas, E nem cama havia. Ele estava ali, de modo sorrateiro, sem ser conhecido apesar de ser anunciado ao longo do tempo; nascia sem mandar notícias, apenas vindo morar entre nós.

Seus pais, pobres pais! O que tinham para ofertar de aconchego? Apenas uma manjedoura! Lugar onde se alimentam os animais. Ali fez-se comida desde o nascimento. Pão da Vida! Nem berço de ouro, nem cama. Apenas um cocho. Era o que restava. Seu berço improvisado, uma manjedoura, e assim servir-se de alimento!

Ele veio morar entre nós. De onde veio? Saiba Deus! Alguns homens tentavam adivinhar. Inútil. Ninguém acredita em adivinhações. Mas eram profecias! – Menos ainda. Ele veio morar em nós, na incredulidade do mundo. Ele veio morar entre nós, na miséria do mundo. Ele veio morar entre nós, onde não havia lugar.

Ele veio morar entre nós! O seu nascimento foi a insistência absoluta de Deus, de achar uma fresta para incutir esperança na terra, uma fresta para deixar passar um raio de luz, uma fresta para a semente colocar raiz, para o amor colocar-se entre nós.

O amor veio morar entre nós. E se fez carne. Esse é o Rei que se encarnou e assumiu a missão dada pelo Pai de resgatar o mundo, a humanidade pecadora. Loucura de uma fé! São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios (1, 18) escreve: “Porque a palavra da cruz é a loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus”.

Edebrande Cavalieri

Estamos caminhando para o final da 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudança Climática, realizada em Belém, discutindo ações de combate às mudanças

Estamos caminhando para o final da 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudança Climática, realizada em Belém, discutindo ações de combate às mudanças climáticas. Em meio a quase 200 delegações de países participantes, a voz da Igreja ecoa de maneira muito forte. Cardeais do Sul Global, que inclui América Latina, Ásia, África e Oceania, apresentaram o documento “Um chamado por justiça climática e a casa comum: conversão ecológica, transformação e resistência às falsas soluções”, reafirmando que a Igreja não se calará e erguerá sua voz junto à ciência, à sociedade civil, aos mais vulneráveis e com verdade e coerência, até que a justiça seja feita.

Antes dessa manifestação, o cardeal Jaime Spengler, que é arcebispo de Porto Alegre e Presidente da CNBB, juntamente com Dom Leonardo Ulrich Steiner, que é arcebispo de Manaus e presidente do Regional Norte I, constatavam que a presença da Igreja na COP 30 assusta aqueles que querem destruir a Amazônia.

Nesta segunda-feira passada, dia 17 de novembro, o Papa Leão XIV manifestou seu apoio através de mensagem dizendo aos cardeais do Sul Global e denominando de “voz profética dos meus irmãos na COP 30”: “Vocês escolheram a esperança e a ação frente à desesperação, construindo uma comunidade global que trabalha em conjunto. Tem se alcançado avanços, mas não suficientes. A esperança e a determinação devem se renovar, não só com palavras e aspirações, mas também com ações concretas”.

A Igreja é um dos atores que, não apenas no Brasil, mas também na América Latina, marcou e assumiu uma aliança, um compromisso em defesa dos povos amazônicos e de seus territórios. Sua voz se fez ouvir no Sínodo da Amazônia e se comprometeu com o destino desse espaço.

Em sua marcha com os povos do mundo inteiro, a Igreja se compromete com o cuidado da Casa Comum. A crise ambiental ameaça o planeta. Alguns desafios fazem parte da agenda prioritária como a realização de acordos para uma progressiva saída dos combustíveis fósseis, a saída do modelo extrativista predatório que inclui os minerais, a superação do agronegócio que é responsável pelo desmatamento da Amazônia, a superação da ilusão de que a solução provenha daqueles atores que provocaram o colapso climático e o enfrentamento de falsas falácias da tecnocracia dos governos.

Não compete à Igreja propor soluções, porém sua presença deve ser sempre profética, que vai além da religião, que protege a vida e tudo aquilo que nos rodeia.

O Papa Leão XIV diz que acordos são importantes, mas não “é o Acordo que está faltando, mas nossa resposta. O que está faltando é a vontade política de alguns. Ações climáticas mais contundentes criarão sistemas econômicos mais sólidos e justos. Medidas políticas e climáticas firmes constroem uma inversão em um mundo mais justo e estável”.

Em suma, a criação é obra de Deus e nos foi dada gratuitamente. Hoje chegamos a uma situação de desespero vital, pois não temos um plano B. O mundo é somente este em que vivemos e realizamos nossos sonhos. Não mais domínio, mas relação respeitosa. Nas palavras do Papa: “Somos guardiões da criação, não rivais por seus bens”. E conclui sua mensagem: “Que este Museu Amazônico seja recordado como o espaço onde a humanidade escolheu a cooperação frente à divisão e à negação”.

O sonho do Papa Francisco continua vivo, mais vivo como nunca!

Edebrande Cavalieri

Foto de capa: CELAM
Duas Cartas Encíclicas dirigidas pelo Papa Francisco e Papa Leão XIV a todos os bispos da Igreja Católica e também a todos os fiéis.

Duas Cartas Encíclicas dirigidas pelo Papa Francisco e Papa Leão XIV a todos os bispos da Igreja Católica e também a todos os fiéis. Como tocam na questão do amor do Sagrado Coração de Jesus e aos pobres, esse ensinamento pontifício deve repercutir em toda a humanidade.

O Papa Francisco, em outubro de 2024, publicou a Encíclica falando do amor que se expressa no Sagrado Coração de Jesus com a declaração “Ele nos amou”. Um ano depois, o Papa Leão XIV assume como herança outra Encíclica deixada ainda inconclusa pelo Papa Francisco considerando-a como sua. Gesto lindo entre dois Papas! Expressão da mesma fé que move a Igreja.

As duas Encíclicas fazem uso do verbo latino “deligere” sendo traduzido pelo verbo “amar” em português. Chama-nos a atenção que há outro verbo mais comum na língua latina para se referir ao nosso “amar”, que é “amare”. Então, porque a Igreja, na pessoa dos dois papas, prefere falar de amor com o verbo “deligere” e não “amare”? São duas expressões diferentes de amar?

O amor que brota do coração de Jesus não é qualquer amor, que pode ser encontrado em qualquer pessoa e em qualquer momento de paixão ou admiração. A Encíclica do Papa Francisco aponta um caminho para a Igreja que é aprofundar o amor ainda mais que reformar as estruturas. O Sagrado Coração nos chama à reparação em “ações e palavras de amor” e não ao choro de autopiedade.

Com o mesmo verbo “deligere”, o Papa Francisco parece manifestar a conclusão do caminho de amar e o Papa Leão XIV agora completa o ensinamento para toda a Igreja, tendo por objetivo levar a todos os cristãos a perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento para o amor aos pobres, a fim de nos tornarmos mais próximos deles.

Ele ressalta em sua primeira Carta Encíclica que os cristãos, muitas vezes, se deixam levar por atitudes e ideologias enganadoras que conduzem ao desprezo ou à ridicularização do exercício da caridade como se fosse coisa de “comunistas”. E nos diz que é preciso retomar à leitura do Evangelho para não o substituir pela mentalidade mundana. É preciso retornar ao núcleo incandescente da missão da Igreja. Esquecer os pobres nos leva a sair da corrente viva da Igreja que brota da Evangelho. A opção pelos pobres não é marxismo e nem ideologia. É Evangelho vivo.

O Papa Leão afirma, de maneira bem direta, que está convencido “de que a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade”. Dificilmente, sem ouvir o clamor dos pobres, seremos capazes de nos libertar dos males da autorrefencialidade e do clericalismo.

O amor aos pobres e o amor do Sagrado Coração de Jesus são expressos como o mesmo verbo latino – deligere. Esse amor envolve uma escolha, uma alta consideração, profunda estima e apreço. É um amor muito mais profundo. Não é coisa emocional de momentos. O amor que Deus nos pede não é feito de momentos, de ações esporádicas. Ele nos envolve em nosso ser, nosso corpo, nossa alma e nosso espírito.

O mesmo verbo “deligere” está presente na palavra “diligente”. O que seria um amor diligente que nos coloca no mesmo movimento do amor do Sagrado Coração? É um amor que age com muito cuidado, muita dedicação. Nasce de um movimento de escolha consciente e se expressa como ação feita com esmero. Não é um amor que está presente numa esmola que se dá a um pedinte que encontramos na rua como se assim nos livrássemos de seu implorar. A caridade nasce e se expressa como amor diligente, que cuida, que escolhe com muita atenção.

A grande e urgente mensagem que as duas Encíclicas querem nos orientar na caminhada é: “Há um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres”, conclui o Papa Leão. Onde estão os pobres em nossa ação pastoral? Onde estão os pobres em nossas grandes manifestações religiosas?

Edebrande Cavalieri

Aldeia Global e Torre de Babel são duas metáforas muito significativas a respeito do desenvolvimento tecnológico e seus impactos na sociedade. O texto bíblico

Aldeia Global e Torre de Babel são duas metáforas muito significativas a respeito do desenvolvimento tecnológico e seus impactos na sociedade. O texto bíblico que relata o mito da torre está em Gênesis 11 e apresenta uma humanidade que falava uma só língua. Mas um grupo ambicionava ter seu nome honrado por todos e jamais disperso pela terra. Por isso, decidiu construir uma torre que chegasse aos céus. Mas o Senhor, percebendo as intenções ilimitadas desses homens falando uma só língua, começou a fazer com que a língua deles começasse a se diferenciar de modo que já não se entendiam mais.

A outra metáfora, aldeia global, foi cunhada por Marshall McLuhan, falecido em 1980, mostrando como o avanço tecnológico especialmente nos meios de comunicação vai encurtando distâncias transformando o mundo como se fosse uma pequena aldeia onde todos estão mais próximos e interligados. Será que hoje é assim mesmo? O que estas metáforas representam?

A evolução tecnológica foi muito rápida, e tudo aparece instantaneamente em nossas mãos através de um simples smartphone. Nunca tanta informação à nossa disposição. Seria essa a revolução maior dos tempos atuais? Realmente conseguimos construir uma aldeia global ou caímos numa torre de babel?

O Papa Leão XIV, seguindo a intuição de outro Papa que deu início à Doutrina Social da Igreja publicando a Rerum Novarum, logo após a sua posse, enfatizou que a Igreja é chamada a responder a “outra revolução industrial e ao desenvolvimento da inteligência artificial”. Estaríamos diante de uma Res Digitalium (Das coisas digitais). Que coisas seriam? Seriam aquelas relativas aos novos modelos tecnológicos?

Um grande estudioso dessa questão hoje é Dominique Wolton. Para esse sociólogo, a grande revolução não está na informação, mas na comunicação. As mensagens podem chegar aos milhares em nossas mãos, porém sem “relação” de nada valem. Produção e distribuição de informação é muito fácil e cada vez mais perigoso com o advento da inteligência artificial. Mas onde tudo isso chega? Como ocorre a sua recepção nas mesmas mãos que abraçam a tecnologia? Wolton conclui que sonhávamos com uma aldeia global, mas caímos numa torre de babel. Já não nos entendemos mais e estamos nos dispersando!

Para uma verdadeira comunicação, a presença do outro que recebe a mensagem é essencial. Quem é esse outro que recebeu nas próprias mãos um mundo caótico de mensagens? Criamos tantas redes e em apenas um click, executado com um dedo apenas, compartilhamos tudo o que chegou às nossas mãos e quase sempre nem atenção damos a seus destinatários. Quem são eles? Será que desejam receber esse tanto de informações e até fake News?

Nesse processo de convivência digital pode ser que estejamos mais compatíveis com a Torre de Babel, juntos e indiferentes, com um modelo de convivência que desaba a qualquer click. Sem uma verdadeira comunicação, com uma linguagem que nos faça entender o outro, nosso modelo de convivência que parece uma “aldeia” desaba facilmente. Perdemos a confiança e a convivialidade.

A recuperação dos verdadeiros processos comunicativos em tempos digitais exige que nos tornemos humanos recuperando de início a civilidade. Respeito e liberdade do outro são pontos fundamentais da civilidade. A Torre de Babel atual nos leva a não mais nos interessarmos pelos outros a ponto de, entre nossos dedos tocando no smarthphone, não haver lugar para um simples “bom dia”, um “como vai”. É preciso uma “releitura das coisas digitais” e o compromisso para a construção de uma bela e santa fraternidade humana, onde todos possam se reconhecer como pessoas.

Edebrande Cavalieri

A fé cristã hoje requer um posicionamento mais firme e concreto contra o crescente número de conflitos internos em cada país e externos, com

A fé cristã hoje requer um posicionamento mais firme e concreto contra o crescente número de conflitos internos em cada país e externos, com outros Estados. Até a guerra entre Rússia e Ucrânia, havia 169 conflitos, o que leva o Papa Francisco a chamar de “Terceira Guerra em Pedaços”. O recente conflito envolvendo Israel e Irã, inclusive com a entrada dos Estados Unidos levando sua arma mais poderosa para bombardeio subterrâneo, nos mostra que há uma tendência entre os diversos atores externos de apoiar uma das partes. Isso já nos mostrou no passado das duas Guerras Mundiais que a formação desse tipo de aliança é o passo decisivo para a deflagração de uma guerra mundial entre dois blocos.

Pensando nesse cenário sombrio, cheirando à pólvora, podemos nos debruçar sobre a Doutrina Social da Igreja e meditar sobre esse Magistério tão fundamental para a fé cristã diante de cenários bélicos. Um dos documentos mais importantes e mais atuais a respeito dessa questão é a Encíclica do Papa João XXIII, publicada em 11 de abril de 1963, denominada de Pacem in Terris: a paz de todos os povos na base da verdade, justiça, caridade e liberdade.

A Igreja vivia nesse momento num contexto de “Guerra Fria” envolvendo dois blocos antagônicos controlados respectivamente pelos Estados Unidos e União Soviética. O terror das bombas atômicas lançadas durante a II Guerra Mundial sobre o Japão era a grande ameaça para a sobrevivência de toda a humanidade. Esse contexto é bem atual, vendo o conflito entre Israel e Irâ com a intervenção norte-americana. Estamos na “era atômica” em seu mais alto grau de conhecimento e tecnologia. Não é possível pensar que hoje a guerra atômica seja um meio apto para ressarcir direitos violados, ameaças latentes. Basta vermos a quantidade de países que possuem bombas atômicas pelo mundo afora e tantos outros que dominam a tecnologia para sua produção em pouco espaço de tempo.

Qualquer conflito bélico deixa o mundo pior do que o encontrou, nos diz o Papa Francisco. A guerra é um “fracasso da política e um fracasso da humanidade”. A Encíclica Pacem in Terris constata (cf nº 109) como é doloroso ver estados economicamente mais desenvolvidos fabricarem gigantescos armamentos, gastando somas enormes de recursos materiais e energias espirituais, impondo aos cidadãos enormes sacrifícios enquanto “tantas nações carecem de ajuda indispensável ao próprio desenvolvimento econômico e social”.

A corrida armamentista não se justifica como meio para a paz com a produção de um equilíbrio de forças. “Se uma comunidade política produz armas atômicas. Isso faz com que outras comunidades políticas se empenhem em aumentar o próprio armamento”, nos alerta o Papa João XXIII. “Quem não possui arma atômica vai empenhar-se em preparar semelhantes armas, com igual poder destrutivo”, completa o Papa.

A Doutrina Social da Igreja, ao falar de paz, não romantiza a questão. Ela nos alerta que a “guerra de agressão é intrinsecamente imoral”. Nada a justifica. E caso isso aconteça, é dever da humanidade proteger os inocentes, dar ajuda humanitária de modo que a população civil afetada seja amparada e que se abram as portas para uma das categorias mais vulneráveis na guerra, os refugiados.

A tarefa cristã de natureza evangélica não se enquadra em ações que manifestam adesão a um dos lados do conflito, muitas vezes ostentando símbolos, mas o compromisso de ser uma “centelha de luz, um foco de amor, um fermento para toda a massa”, conclui a Encíclica. A paz não é privilégio de poucos, mas um bem comum universal.

A luta pela paz implica em estancar a corrida armamentista. Se a humanidade conseguisse barrar a fabricação de armas em um ano, se conseguiria resolver o problema da fome no mundo. Seria ingênuo pensarmos que, com o advento da energia nuclear, conseguiríamos resolver as controvérsias entre as nações através do recurso às armas.

Por fim, o grito mais alto para atingir a consciência de cada pessoa, realizado pela Encíclica de João XXIII: “Eis porque a justiça, a reta razão e o sentido da dignidade humana terminantemente exigem que se pare com essa corrida ao poderio militar, que o material da guerra, instalado em várias nações, se vá reduzindo duma parte e doutra, simultaneamente, que sejam banidas as armas atômicas” (cf. n.º 112).

Esse é o Grito Profético da Igreja para os dias atuais!

Edebrande Cavalieri

Foto de capa: Canva

Enquanto o Papa Leão XIV não apresenta sua primeira Encíclica onde serão apresentados os principais pontos de seu pontificado, uma espécie de programa pastoral

Enquanto o Papa Leão XIV não apresenta sua primeira Encíclica onde serão apresentados os principais pontos de seu pontificado, uma espécie de programa pastoral e de governo, nós vamos colhendo de suas apresentações e encontros alguns elementos que nos parecem importantes e que deverão nortear essa caminhada da Igreja com novo Pontífice.

Dentro desse horizonte inicial, salta-nos aos olhos o encontro que ele manteve com os diplomatas do mundo inteiro no dia 16 de maio desse ano. Ali ele faz uma radiografia de como a Igreja deverá conduzir a diplomacia do Vaticano perante o mundo, como irá desenvolver sua função política. Para isso, ele nos diz que a diplomacia da Santa Sé possui três pilares: paz, justiça e verdade. Trata-se de um enorme desafio enfrentar o mundo globalizado com esses três pilares, contudo a Igreja deve sempre se mostrar ao mundo e servi-lo como luz. Para isso é chamada a ser “Luz dos Povos” (Lumen Gentium).

O pilar da paz é o mais referenciado desde seu aparecimento na sacada central da Basílica de São Pedro. É a palavra mais presente em todas as suas homilias e discursos. Paz não apenas como ausência de guerra, mas como algo que se inicia em nossos corações, eliminando o orgulho, a vingança, o ódio, a intolerância e escolhendo bem as palavras no uso cotidiano. Ele nos diz que as religiões e as Igrejas cristãs podem dar sua contribuição para a promoção de um clima de paz. Mas isso exige liberdade religiosa em todos os países.

A paz, em termos de uma política mundial, exige um verdadeiro desarmamento. Em nome da defesa, uma nação não pode partir para uma corrida armamentista. Paz armada é apenas adiamento de guerras para futuro próximo de nós. A famosa ideia de “guerra justiça” que vem dos tempos de Santo Agostinho, não nos parece mais compatível em termos de mundo globalizado.

Outro pilar, essencial à paz, é a justiça. Nesse ponto, o Papa Leão XIV é bem claro: “A Santa Sé não pode deixar de fazer ouvir a sua voz face às numerosas desigualdades e injustiças que conduzem a condições indignas de trabalho”. Por isso, a política externa da Igreja deverá “trabalhar para construir sociedades mais harmoniosas e pacíficas”. Inspirado em Leão XIII que publicou a Encíclica Rerum Novarum, as questões sociais presentes nas periferias geográficas e existenciais deverão pautar sua agenda pastoral repercutindo no campo da política internacional.

O terceiro pilar da diplomacia conduzida de maneira profissional pela Secretaria de Estado do Vaticano refere-se à verdade. O Papa nos diz que “onde as palavras assumem conotações ambíguas e o mundo virtual, com sua percepção alterada da realidade, assume o controle” e põe no caldeirão da dúvida, da incerteza e da mentira, a verdade dos fatos escorre para os esgotos do caminho das fake news. Neste contexto, torna-se quase impossível a construção de relacionamentos autênticos, quanto mais de relações internacionais sólidas em vista de uma paz verdadeira.

A Igreja, segundo o Papa, não hesitará de falar a verdade sobre a humanidade e o mundo, para que todos sejam tratados com amor e respeito. “A verdade não cria divisões, mas permite-nos enfrentar os desafios de nosso tempo, como a migração, o uso ético da inteligência artificia e a proteção de nossa amada terra”.

Esses três pilares deverão se conduzidos na perspectiva de uma política multilateral envolvendo o máximo as nações no compromisso efetivo de construção de pontes e, seguindo os passos do Papa Francisco, mantendo boas relações com todos para criar um clima e um contexto favoráveis de entendimento e paz. É uma diplomacia comedida, mas necessária para não frustrar a esperança entre os povos.

Ao final recorda aos embaixadores que o seu ministério começa no coração de um ano jubilar dedicado à esperança. Tempo de “conversão e de renovação, oportunidade para deixar para trás os conflitos e iniciar um novo caminho”. Leão XIV conclui seu discurso aos diplomatas dizendo que acredita que seja possível construir “um mundo em que todos possam levar uma vida autenticamente humana, na verdade, na justiça e na paz”. E termina agradecendo o trabalho desses diplomatas do mundo inteiro na construção de pontes entre os países e a Santa Sé e os abençoa com as suas famílias e seus povos.

Edebrande Cavalieri

O Papa Leão XIV manteve um encontro com os agentes da comunicação no dia 12 de maio passado e apontou para a necessidade de

O Papa Leão XIV manteve um encontro com os agentes da comunicação no dia 12 de maio passado e apontou para a necessidade de desarmar as palavras para desarmar a terra. A humanidade carece de uma comunicação que partilha uma visão diferente do mundo e um agir que seja coerente com a nossa dignidade humana.

O diagnóstico que sentimos ao longo dos últimos anos nos apresenta um campo de disputa de narrativas onde o que tem mais peso não parece ser a verdade dos fatos. As próprias narrativas estão permeadas de preconceitos, de rancor, de fanatismo religioso e político e muito ódio. A falta com a verdade sob a forma de fake News corrompe os corações de todos nós. As redes sociais se transformam na batalha mais aguerrida e destruidora de relações.

Além desse cenário aterrorizante, temos ainda outro grande desafio, que é o compromisso com a verdade. Vivemos numa Torre de Babel de grande confusão de linguagens sem amor, ideológicas e tendenciosas. Então, o Papa aponta o grande desafio de se promover uma comunicação capaz de nos tirar desse lamaçal que parece uma verdadeira Torre de Babel.

Em razão desse cenário quase catastrófico, o papel da comunicação hoje é um verdadeiro “serviço à verdade”. Diz-se que vivemos um tempo de “pós-verdade”, contudo o caminho para a paz implica em desarmar as palavras, a começar pelas palavras de cada um de nós. Diz uma música do Padre Zezinho: palavra não foi feita para dividir ninguém, pois é uma ponte onde o amor vai e vem. Palavra é feita para dialogar e unir.

O Papa Leão XIV nos apresenta o desafio de se criar uma cultura, de ambientes humanos e digitais que sejam espaços de diálogo e discussão. O primeiro passo para a criação dessa cultura está no propósito de se colocar na posição de escuta. É preciso que comecemos a escutar o outro de maneira atenta, sentindo o outro dentro da gente. A escuta é o primeiro passo da paz nas relações.

Por fim, sua proposta é que iniciemos com a mudança na nossa forma de nos comunicar no dia a dia, que é de fundamental importância. E nos diz: “devemos dizer ‘não’ à guerra das palavras e das imagens; devemos rejeitar o paradigma da guerra”. Sabemos como um mundo polarizado em cada cantinho de nossa existência alimenta todo tipo de guerra. Um cuidado especial deveria ser com o campo das relações entre as redes sociais. Essa terra sem dono é um campo fértil para o crescimento dos sentimentos mais perversos existentes na humanidade.

A construção da paz em nosso meio não se faz apenas no processo de desarmar nossas palavras. A paz desarmada é apenas uma face do processo. É preciso que cada um de nós lute para desarmar as narrativas, as palavras, os processos de comunicação presentes nas mídias sociais. Por isso, é uma paz desarmante. Um mundo mais sadio é constituído pela paz em nossos lares, em nossas instituições, em nossas formas de comunicação, em nossos corações.

O Papa Leão XIV conclui o seu discurso reforçando que os agentes de comunicação estão na linha de frente, “narrando conflitos e esperanças, situações de injustiça, de pobreza”. E lhes pede para que “escolham, de forma consciente e corajosa, o caminho da comunicação da paz”.

Edebrande Cavalieri