Dois eventos muito significativos para os cristãos e católicos nesse fim de novembro e início do mês de dezembro. No dia 23 de novembro, o Papa Leão publicou a Carta Apostólica In Unitate Fidei, comemorativa dos 1.700 anos da realização do I Concílio Ecumênico em Nicéia, hoje cidade de Iznik (Turquia), em 325, quando foi definida a Profissão de Fé dos cristãos, também chamada de Credo.
O segundo evento é a primeira viagem apostólica do Papa Leão XIV à Turquia e ao Líbano entre os dias 27 de novembro e 2 de dezembro. Na Turquia teremos um momento celebrativo da memória do I Concílio Ecumênico e a decisão de mais de 300 bispos presentes em Niceia (hoje cidade de Iznik) da caminhada sinodal a partir de um consenso no que diz respeito à doutrina cristã.
Foi em Niceia que o imperador romano, Constantino, realizou a convocação dos bispos para o I Concílio, garantindo segurança e apoio para que decidissem a respeito da divisão religiosa que estava comprometendo a unidade da fé cristã e do próprio Império. Um pouco antes, em 313, Constantino concedeu a liberdade de culto aos cristãos, após dois séculos de perseguições sistemáticas, e empenhou seu apoio para a reconstrução/construção de igrejas para a realização das celebrações.
A experiência dos primeiros anos do cristianismo quando ocorreu a reunião dos apóstolos e presbíteros com Paulo no Concílio de Jerusalém, conforme nos relata o livro dos Atos dos Apóstolos (At 15), para discutir a questão da circuncisão dos gentios, é continuada em Nicéia para tratar da questão central da fé. Daí resultou a definição da Profissão de Fé que conhecemos hoje. Essa experiência de caminhada sinodal foi continuada com mais 20 concílios ecumênicos. Qual era o problema que atingia a comunidade cristã discutido em Nicéia?
No início da história do cristianismo, surgiam diversas pregações, hoje conhecidas como heresias, que dividiam a comunidade cristã. Eram discussões que tocavam em questões doutrinárias da fé cristã. Uma delas foi conduzida por um padre chamado Ário, da Igreja de Alexandria no Egito. Ele dizia que Deus não pode comunicar seu ser por criação ou geração. Ou seja, Deus Pai não poderia gerar um filho em sentido estrito. Então, Jesus Cristo também era uma criação de Deus Pai e não coeterno ou consubstancial a Ele, Pai. Para Ário, Jesus somente seria “deus” em relação às criaturas, mas não era Deus como o Pai.
Não podemos pensar hoje que Ário agisse de má fé ou desonestidade teológica. Ele queria muito manter a todo custo o rígido monoteísmo do Antigo Testamento. As discussões em torno dessas ideias dividiram a comunidade cristã de Alexandria e logo passaram a ser combatidas pelo Bispo Alexandre da mesma cidade. A cristantade oriental via crescer a divisão interna do cristianismo. Os conflitos logo ganharam as ruas tornando-se uma questão popular. Hoje diríamos que aquele pequeno mundo estava ficando polarizado, em conflito, ameaçando a unidade da Igreja e a estabilidade do Império Romano.
Em 19 de junho de 325, os mais de 300 bispos presentes em Nicéia definiram que o Filho de Deus é da mesma “substância do Pai”, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, da mesma substância do Pai”. Era o cerne da doutrina cristã expressa no Credo que em outro Concílio Ecumênico, realizado em 381 na cidade de Constantinopla, completou nossa Profissão de Fé.
É a primeira síntese de fé cristã definida de modo consensual pelos pastores da Igreja, os bispos, sucessores dos apóstolos. Eles ainda acrescentaram uma determinação canônica que chega até os dias atuais chamada de anátemas. Todos aqueles que desafiassem a doutrina ali fixada deveriam ser excomungados.
A Carta Apostólica In Unitate Fidei, assinada pelo Papa Leao XIV às vésperas de sua primeira viagem, enfatiza a unidade dos cristãos, a centralidade da doutrina expressa no Credo e nos convida à renovação da fé. É também um chamado para renovar o entusiasmo pela fé e ser um sinal de paz desarmada e de reconciliação. O Papa realça na Carta a herança espiritual e doutrinal deixada pelo Concílio de Nicéia.
A primeira viagem Apostólica do Papa à Turquia e ao Líbano nos traz à memória desse momento da história de 1.700 anos e nos coloca diante de temas como o ecumenismo, diálogo inter-religioso (cristãos e muçulmanos) e unidade da Igreja que se fundamenta na unidade da fé proclamada desde os primórdios. Para esta região o Papa deverá sinalizar para uma certeza: “O que nos une é muito mais do que o que nos divide”. Por isso, afirma ele, “devemos caminhar juntos para alcançar a unidade e a reconciliação entre todos os cristãos”.
Edebrande Cavalieri

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