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O mundo todo fica consternado diante da tragédia que acometeu o estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Tantas mortes, tantos desabrigados, tantas dores!

O mundo todo fica consternado diante da tragédia que acometeu o estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Tantas mortes, tantos desabrigados, tantas dores! E também atitudes desumanas! Confesso que fiquei acometido por um profundo choque existencial, pois sempre presenciei enchentes. Nunca com essa magnitude. Também nunca vi tanta hipocrisia e instrumentalização da desgraça para objetivos e interesses pessoais. Ao mesmo tempo é lindo ver o crescimento da solidariedade do povo para ajudar os irmãos despejados de suas casas pelas águas revoltas! Como dizia Dom João Batista da Mota e Albuquerque: “Somente o povo pode salvar o povo”.

Hoje só me vem à cabeça as palavras do Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’: a nossa “irmã/mãe terra clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou”. Fomos dominando tudo que vinha pela frente, apropriando de maneira absoluta do solo e das matas, das águas e das encostas. Agora em vez dos variados frutos com flores coloridas e verduras os nossos irmãos gaúchos encontram ratos e baratas subindo pelos telhados das casas.

O pecado vislumbra-se “nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. E entre os pobres abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que geme e sofre as dores do parto”. Nós somos terra, somos água. Somos o ar que respiramos. Contudo, transformamos a terra em propriedade e nos consideramos seus dominadores. Então realizamos um verdadeiro saque retirando-lhe tudo o que lhe pertencia e lhe fazia tão bela e segura. Fomos saqueando dia após dia e hoje, desnuda, não teve mais como conter a força das aguas que caiam dos céus.

A solidariedade é emergencial, urgente e necessária. Contudo, é apenas uma parte de nossa responsabilidade. Na Encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco em mais de trinta vezes nos pede para que cuidemos da casa comum. De nada adianta reconstruir nos mesmos moldes do modelo anterior de ocupação da terra. A tragédia foi preparada ao longo dos anos com o descuidado, com a liberação das encostas, das margens protetoras das águas, com o desmatamento.

A terra se mostrou extremamente fragilizada e por esse motivo a tragédia. A situação no Brasil vem piorando a cada ano. Já esquecemos São Sebastião em São Paulo, Petrópolis no Rio de Janeiro, Mimoso do Sul no Espírito Santo. Amanhã o nosso querido Rio Grande também cairá no esquecimento? E a seca recente na Amazônia? Essas catástrofes deveriam servir para aprendermos a mudar as formas de presença no solo. Com certeza, foi a nossa falta de cuidado da casa comum que propiciou ou agravou a intensidade dessas tragédias.

A construção de um novo espaço para viver requer investir na formação de uma cultura do cuidado em toda a sociedade. Os cristãos, inspirados pela narrativa bíblica da criação, são chamados a assumir a conversão ecológica, não apenas para a preservação da casa comum, mas também para a construção de um novo território sobre os escombros deixados pelas tragédias. Um cuidado que “interpela a nossa inteligência para reconhecer como deveremos orientar, cultivar e limitar o novo poder” (LS 78).

Uma economia que se apoia na diretriz do maior lucro possível no prazo mais curto, cujos condutores (empresários e governos) não apenas não se importam com as mudanças climáticas, mas negam os efeitos de sua ação predadora, só nos exporá a maiores tragédias daqui para frente. Como barrar a queima de combustíveis fósseis? Como impedir de modo radical o desmatamento de florestas tropicais e construir uma nova sociedade com muito menos consumo do que temos hoje?

Os cientistas estão alertando a todo instante sobre o aumento de temperatura para os países tropicais que devem ocasionar o aumento na frequência e na intensidade dos eventos climáticos extremos como vimos esses. Por ano, o mundo lança na atmosfera 62 bilhões de toneladas de CO2, com crescimento na ordem de 2% anual. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU recomenda uma queda anual de 5% a 7% nessas emissões para chegarmos a zero em 2050.

A lição que ressurge das águas no Rio Grande indica ser urgente mudar a trajetória atual de ocupação das terras, preparar-se melhor para eventos climáticos extremos, pressionar os países para que haja não apenas uma redução como a eliminação na queima de combustíveis fósseis, e fazer o nosso dever de casa que é zerar o desmatamento da Amazônia até 2030. Cuidar da criação depois dessa tragédia também implica na recuperação ecológica dos ecossistemas destruídos nas últimas décadas.

Por fim, caberia uma pergunta: será que o lucro das empresas do agronegócio dos últimos dez anos seria suficiente para reconstruir os espaços devastados pelas águas? Parece-me que o balancete ficará no vermelho. O preço das vidas ceifadas deverá ser embutido na responsabilidade de cada um. Os gritos de morte e de dor ecoam em todos os cantos. Deus, com certeza, nos perguntará no juízo final não apenas onde está o nosso irmão Caim, mas também onde está a nossa irmã terra, a nossa irmã água, o nosso irmão ar.

Edebrande Cavalieri

— Celebramos os 66 Anos de existência da ROMARIA NOTURNA DOS HOMENS À Penha nesta Festa da Padroeira do Estado do Espírito Santo deste 

— Celebramos os 66 Anos de existência da ROMARIA NOTURNA DOS HOMENS À Penha nesta Festa da Padroeira do Estado do Espírito Santo deste  2024.

— Iniciativa primeira de Dom José Joaquim Gonçalves, 5° Bispo da Diocese do Espírito Santo, que em datas precisas de abril/maio, a partir de 1955, reunia homens das Congregações Marianas, subindo, de dia, desde a Igreja do Rosário da Prainha/Vila Velha, até o Campinho do Convento da Penha, em especial no Domingo, véspera do Dia da Festa da Penha.   Evento concentrado em tempo diurno, portanto,  no âmbito e espaço entre a Igreja do Rosário e o Convento e Santuário da Penha.

— Já com Dom João Baptista da Motta e Albuquerque, 6° Bispo e 1° Arcebispo de Vitória do Espírito Santo, com nova e surpreendente inspiração, tornou a Romaria dos Homens  OFICIAL, ao implementá-la em maior dimensão e inédita extensão, desde a Catedral até o Convento e Santuário da Penha. Eram os idos do Ano de 1958, e por multiplicadas décadas a fio, saindo da Catedral, à meia-noite, sempre no sábado, às vésperas da querida Festa. Assim, Dom João Baptista o quis por se celebrar, naquele exato Ano as Comemorações do 4° Centenário da DEVOÇÃO a Nossa Senhora das Alegrias e Mãe da Penha1558-1958 — criando com original entusiasmo e efetiva definição a ROMARIA NOTURNA DOS HOMENS até hoje mantida como simbólico para todos os Homens como marca tradicional e referencial à devoção e à penitência em renovação e atualização de uma Nova Vida Pascal.  É  ROMARIA NOTURNA DOS HOMENS que sempre há de ser no desejo original e HOJE  sempre atual do saudoso Dom João Baptista da Motta e Albuquerque.

— A identidade única de  Romaria dos Homens não se deve perder. Não se há de dar nome a essa Romaria como Romaria das Famílias. Será sempre  Romaria dos Homens, para se destacar a participação em massa dos homens como tradição já há 66 Anos, com a providente aproximação dos homens, querida por Dom João Baptista, mais e mais, na Fé e na  integradora e sempre renovada experiência e pertença à Igreja.

— Chamou-se convencionalmente, incorreta, pretenciosa e  equivocadamente,  Romaria das Famílias desde 2006/2008 tolhendo o sentido próprio e já histórico dessa feliz Tradição por  influentes da Igreja, a se deixar perder em sentido, sem conhecimento de causa, e sem conhecerem a histórica e verdadeira Tradição da Romaria dos Homens, e que se tem de frisar, unicamente, como Romaria dos Homens  e não das Famílias.

—  As Famílias inteiras não estão impedidas de participarem na Romaria, caminhando também  desde a Catedral ao Parque da Prainha. Isso é bonito e expressivo!

— Mas, há que se guardar a identidade original e tradicional desses 66 Anos, e para mais e muito mais, de se chamar unicamente ROMARIA DOS HOMENS, tal como a  Romaria das Mulheres, desde a década de 1970,  para não se incorrer em DÚPLICES equívocos.

— Replique-se, por isso mesmo, como acentuação própria de uma Tradição já consagrada ao longo dessas inteiras décadas, a ROMARIA DOS HOMENS,  em especial a ser assim divulgada pelos Meios de Comunicação Sociais, tais como Religiosos, Privados e  Público.

A Romaria Noturna dos Homens, inscreve-se dentro do OITAVÁRIO DA PENHA,  próprio da Semana em  Oitava das Alegrias Pascais da Mãe Santa de Jesus, e não como Novena da Penha. São oito dias constituindo-se do OITAVÁRIO, culminando com o Grande Dia da Solene e Litúrgica Festa Mariana e Pascal.

Nossa Senhora da Penha e Mãe das Alegrias interceda a Deus Pai, junto de Seu Filho, por todos nós!

Padre Roberto Camillato, FMI  –  Religioso Pavoniano

Desde a chegada dos portugueses aqui no Espírito Santo quando foi construída uma pequena capela em Vila Velha teve início a devoção a Nossa

Desde a chegada dos portugueses aqui no Espírito Santo quando foi construída uma pequena capela em Vila Velha teve início a devoção a Nossa Senhora da Penha. Aqui começa a ser construída um caminho marcado por tantas coisas, dores, fé, caminho solidário e solitário também. É a estrada da vida! No mais profundo da fé do povo sempre um chamado: “Oh! Vem conosco caminhar”.

A festa que está na 454ª edição representa esse caminhar juntos. Formamos hoje um grande povo devoto. Não somos os primeiros e nem os últimos. Formamos um povo que caminhou junto ao longo dos anos e desse mesmo povo somos seus herdeiros devotos. A festa que hoje celebramos é um caminho de memória de tantos que passaram por esta estrada de fé, e por esse motivo, o nosso mais profundo respeito às marcas deixadas em formas de objetos deixados pelos diversos espaços do convento. Cada lembrança de milagre e agradecimento representa esse caminho de fé. A sala dos milagres não é um espaço de museu do passado, mas a memória que alimenta a fé presente e futura.

Em todos os caminhos e em cada passo dessa devoção uma certeza: nunca estamos sozinhos. A primeira pessoa a puxar a procissão é Maria, a mesma que esteve com os apóstolos e com eles percorreu as estradas de Jerusalém depois da Ressurreição de Jesus Cristo. Por isso, a certeza que “Santa Maria vai”.

Pelas estradas da vida vamos nós, hoje. Como estamos indo nesse caminho? Cada um por si e Deus por todos? Caminhamos divididos ou em pé de guerra? A devoção mariana nos chama e nos convoca: não negues nunca a tua mão a quem te encontrar? O caminho solidário jamais poderia ser solitário e muito menos egoísta. Somos um povo reunido historicamente num caminhar juntos, numa experiência profunda de amizade social, de fraternidade. As dores nos unem. Os interesses nos separam. A fé nos salva. O ódio nos manda para o fogo eterno da perdição.

O grande desafio nas estradas da vida desse momento presente é o caminhar juntos, numa experiência de fé fraternal. A Campanha da Fraternidade foi esse chamado mais concreto para esse ano e ela deveria ecoar em nossas vidas. Um mundo dividido em guerras, em divisões, em polarizações políticas e ideológicas é radicalmente o oposto da fé e da devoção a Nossa Senhora da Penha. Nunca uma mãe gostaria de ver seus filhos divididos! Nunca uma mãe gostaria de ver sua família em pé de guerra!

Cada procissão que realizaremos nesse oitavário deveria expressar essa luta por um mundo novo de unidade e paz. Cada romeiro precisa seguir o caminho, pois abre-se caminho e tantos seguirão. Não haverá romaria cristã numa comunidade polarizada. Ou caminhamos juntos, ou perdemos os passos de Maria e nos perdemos nos caminhos da vida. Maria caminha conosco em romaria, caminha conosco como irmãos, caminha conosco em nossas dificuldades e nossa fé. Nunca nos deixa sozinhos.

A festa da Penha desse ano nos chama para celebrar esse caminhar junto de Maria com a Igreja de Jesus Cristo. As romarias concretas devem expressar nossa vida em comunhão e participação. Participamos em nossa fé dos passos de Maria ao longo da história realizados por seus devotos, por seus filhos. Passos de Maria, caminhada com Maria!

Nas estradas da vida nos sentimos irmãos e irmãs, nos sentimos filhos que habitam uma mesma casa. Somente seremos dignos das promessas de Cristo na medida em que caminhamos como irmãos e irmãs, juntos, abrindo novas trilhas, buscando novas fontes de água pura, trazendo em nossas mãos tantos irmãos e irmãs que nos pedem solidariedade e sustento na caminhada. As mesmas mãos que elevamos aos céus serão as mesmas mãos que se estendem aos irmãos e irmãs necessitados.

Assim a nossa Festa da Penha desse ano fará das estradas da vida um caminho de paz e bem, um povo que luta por um mundo novo de unidade e paz, um povo que aprende a cada dia a viver em comunhão e participação.

Edebrande Cavalieri

As tradições culturais foram incluindo, ao longo da história, alguns elementos que nos remetem ao sentido do evento salvífico conhecido como Semana Santa. Assim

As tradições culturais foram incluindo, ao longo da história, alguns elementos que nos remetem ao sentido do evento salvífico conhecido como Semana Santa. Assim temos um tempo marcado entre o domingo de ramos lembrando a recepção de Jesus em Jerusalém e o domingo da Ressurreição de Cristo, mistério central da fé cristã. Ao longo da semana se lembra os momentos em que Jesus é ungido por sua mãe Maria, o anúncio de sua morte, a traição de Judas Iscariotes, a última ceia de Jesus Cristo, a crucificação e morte. Os ritos na Igreja Católica são riquíssimos de significado e propícios à expressão da fé de seus fiéis.

Ao mesmo tempo, nesse cenário que nos remetem àquele momento específico da história da salvação, encontramos diversos caminhos representados por alguns atores que acompanharam a via sacra. O Papa Francisco nos propõe algumas perguntas para refletirmos: “Quem sou eu, diante de Jesus que sofre”? Quem sou eu diante do Crucificado e do Ressuscitado?

A atitude de Judas Iscariotes sempre nos aparece de maneira clara. Alguém que finge amar Jesus e o beija. Só que esse beijo é traiçoeiro, traidor. Era o sinal para a entrega do mestre. Fingimento e traição estão no horizonte da vida de tantos cristãos!

Também poderíamos encontrar a atitude das lideranças políticas que agem com pressa, instituem tribunais, buscam falsos testemunhas e constroem mentiras. São capazes de levar a multidão de pessoas a escolherem Barrabás em vez de Jesus. Em vez de trilharem o caminho da verdade, pautam suas vidas com mentiras e processos fraudulentos.

Temos a disposição de pessoas como Simão Cirineu que se ofereceu a ajudar a Jesus a carregar a cruz. Aquela cruz que foi levada ao calvário foi suficiente para o mistério da salvação, contudo há tantas outras cruzes espalhadas na humanidade com pessoas que precisam de ajuda para que possam superar as dificuldades do dia a dia. A solidariedade no sofrimento é atitude essencialmente cristã, pois expressa o mandamento do amor.

A Semana Santa, nos diz o Papa Francisco, é um bom momento para “confessar e retomar o caminho certo”. É um tempo muito forte e uma oportunidade para abrirmos as portas dos nossos corações, as portas de nossas paróquias, nossas comunidades, nossas fraternidades. Um tempo para cada um, recolhido no silêncio desse tempo, abrir o coração para a graça de Deus. A semana santa é um tempo de graça.

Só que a abertura do coração à graça de Deus não termina nesse movimento individual, pessoal, podemos dizer. O Papa nos diz que é preciso sair ao encontro de Jesus e ao encontro dos outros. A ressurreição não é um evento particular, algo que acontece apenas para uma pessoa ou um grupo. Ela nos impõe a obrigação de sairmos pelo mundo e dar a boa notícia, a notícia verdadeira.

Como seguidores somos chamados a sermos suas testemunhas. Contudo, as forças do mundo representadas no Evangelho de Mateus (28, 8-15) pelos sumos sacerdotes e anciãos, logo após o domingo da ressurreição, compraram o serviço dos soldados para que difundissem uma grande mentira: “Dizei que os discípulos dele foram durante a noite e roubaram o corpo, enquanto vós dormíeis”. A ressureição de Jesus não interessava a eles, que pagaram bem caro para que os soldados difundissem uma mentira. E a mentira espalhou-se rapidamente entre os judeus.

Às forças do mundo não interessa a verdade da fé cristã. Ainda temos tantos sumos sacerdotes e anciões que contratam “soldados espalhados nas redes sociais” para mentirem para o povo negando o evento salvífico decorrente da fé cristã. Vivemos um tempo de muito medo e silêncio, de guerras e divisões, de sofrimento e angústia.

Mas o Ressuscitado nos encoraja: “Não tenhais medo” (da verdade). “Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”. A fé cristã está construída sobre os alicerces da Verdade e dela temos que ser testemunhas. A verdade da fé é Jesus Cristo Ressuscitado. Do contrário nossa fé seria vã, falsa.

Edebrande Cavalieri

Desde a realização do I Sínodo Arquidiocesano de Vitória nos anos de 2007 a 2009, a nossa Igreja local tem diante de si o

Desde a realização do I Sínodo Arquidiocesano de Vitória nos anos de 2007 a 2009, a nossa Igreja local tem diante de si o desafio da formação. Há um reclame geral de que “falta formação”. Muitas iniciativas foram realizadas com encontros, palestras, cursos, contudo a sensação que se tem é que “falta formação”. É muito angustiante ouvir os diversos grupos eclesiais reclamando isso. Mas de que formação estamos sentindo falta?

Muitos dizem que é preciso retomar os velhos esquemas do passado que funcionaram muito bem, com catequese doutrinária rigorosa a ponto de se reprovar jovens na primeira eucaristia. Outros alegam que os tempos atuais requerem mais competência formativa nos seminários para formação dos novos padres. E tantos outros já desistiram até de reclamar. Estão conformados.

Gostaria de aproveitar algumas intuições da Carta Pastoral publicada pelo Vigário Apostólico da Arábia do Sul que engloba Emirados Árabes, Omã e Iêmen, de autoria de Dom Paolo Martinelli, apontando para a necessidade de uma “Formação Cristã”. O que envolveria esse movimento? Ele nos diz que é preciso “repensar na formação, nos conteúdos e nos meios”. Os novos tempos exigem que a formação cristã não termina com a transmissão dos conteúdos da fé, mas deveria “gerar uma nova mentalidade, uma nova maneira de ler a história e a sociedade em todas as suas articulações”.

Então podemos dizer que qualquer encontro, curso ou seminário não se esgota na transmissão dos conteúdos pertinentes ao tema em questão. Um encontro de liturgia não se reduz ao ensinamento a respeito do novo Missal Romano, por exemplo, mas deveria gerar nas pessoas que estão participando uma nova mentalidade, uma nova maneira de ler a história. A liturgia não está dissociada da vida, da cultura em que ela se desenvolve. Um encontro sobre espaço litúrgico, outro exemplo, não se reduz à adequação para os fins celebrativos. Há uma dimensão cultural da fé que precisa ser levada a sério, pois o desejo missionário da Igreja é que todos e todas busquem a Deus.

O mundo atual está passando por mudanças de época em níveis globais. Nenhum país está isento dessas transformações. Então, a formação cristã exige como primeiro passo a capacidade de leitura da história, leitura da realidade, para identificar os desafios que o cristão deverá enfrentar em seu cotidiano. Portanto, os meios e os conteúdos deverão corresponder às necessidades dos fiéis. São Paulo em suas viagens apostólicas buscava primeiro de tudo conhecer a realidade de cada comunidade a ser evangelizada. Não ia levando as normas do judaísmo sacerdotal como a prática da circuncisão.

Ainda estamos muito presos aos esquemas tradicionais de repassar conteúdos e doutrinas como elemento único da formação cristã. Na Carta Pastoral, o Vigário Apostólico nos diz que é preciso passar dos conteúdos e doutrinas para um testemunho vivo, para explicar o vínculo entre fé e vida, fazendo chegar à realidade de cada pessoa que está em processo de formação. O Diretório para a Catequese do Pontifício Conselho nos diz que a evangelização é a chave interpretativa da catequese em todas as suas fases e a própria liturgia é um lugar e um meio de formação.

Ainda durante o I Sínodo Arquidiocesano dizia-se que a formação cristã deveria impregnar todas as forças vivas da Igreja e não apenas determinados segmentos ou pastoral. Naquelas sessões chamávamos a atenção para o enorme papel formativo que possuem as escolas e universidades católicas e cristãs. São essas forças que deveriam tomar a direção no processo formativo para a dimensão cultural da fé, devido a sua capacidade de diálogo e conhecimento. Essas forças formativas podem dar uma enorme contribuição para a transmissão da fé, para o bem social e para a coexistência entre as pessoas, promovendo o diálogo inter-religioso e um senso de fraternidade humana universal.

Mas é preciso muito cuidado. O primeiro passo não é a celebração do mistério da fé no meio universitário, mas a preparação formativa de toda a comunidade universitária no sentido da dimensão cultural da fé. Somente assim a comunidade poderá amadurecer e dar o passo decisivo posterior na direção da explicitação da fé. Antes de qualquer coisa, as escolas e universidades católicas precisam atuar para melhorar o ambiente da convivência social, cultural e inter-religiosa. Hoje é imperioso superar a polarização que envolve e divide as pessoas.

A formação cristã deverá envolver de maneira colaborativa todas as forças da Igreja, escolas, universidades, clero, religiosos/as, catequistas, leigos/as, associações eclesiais, movimentos apostólicos, outras Igrejas cristãs. Uma Igreja sinodal requer esse caminhar juntos em seu modo de ser e de agir. Não cabe mais nos tempos atuais a prática de cada um cuidar de seu quadrado. Muitas vezes, temos a impressão de termos diversas igrejas numa mesma paróquia ou comunidade, pois cada equipe cuida apenas do seu quadrado, do seu apresentar-se, do seu aparecer perante os demais.

A conjuntura atual requer muitos missionários para a formação cristã. Do contrário, não apenas veremos o definhamento institucional da Igreja, mas seu pouco poder de iluminar o mundo como “luz do mundo” e “sal da terra”. A formação para a vida realmente cristã deve servir para um novo dinamismo eclesial nos moldes apontados pelo Concílio Vaticano II e pelo Magistério da Igreja. Talvez estejamos diante do maior desafio na formação cristã dos nossos jovens, cada vez em menor número em nossas comunidades. O futuro da Igreja passa obrigatoriamente pela formação cristã de nossos jovens. Do contrário, veremos uma sociedade cada vez mais agnóstica e indiferente, sendo educada para o domínio em vez da solidariedade e da paz.

Edebrande Cavalieri

Em quase todas as religiões existe a prática do jejum que pode indicar um caminho de ascese espiritual, de purificação, luto, súplica, etc. Ele

Em quase todas as religiões existe a prática do jejum que pode indicar um caminho de ascese espiritual, de purificação, luto, súplica, etc. Ele tem lugar de destaque nos ritos religiosos. No Islamismo, o jejum é um dos cinco pilares e representa o meio por excelência de reconhecimento da transcendência divina. Já o Budismo considera uma forma de purificação física e espiritual que facilita a prática da meditação e leva a estados de calma e maior sensibilidade.

Entre nós há mais práticas de abstinência na quaresma que de jejum, bastante incompreendido e desprezado. Volta e meia ele vira moda como fórmula para emagrecer ou recurso mágico para fazer acontecer determinada coisa.

A Bíblia Sagrada nos mostra uma concepção clara regulamentando o jejum junto com a esmola, devendo traduzir os atos essenciais diante de Deus que são a humildade, a esperança e o amor do homem.

Percorrendo os textos sagrados vemos que o jejum não é uma façanha ascética, nem obtenção de estado de exaltação psicológica ou religiosa. Ele serve para expressar a humildade diante de Deus. A privação de um alimento precisa ser compreendida adequadamente, assim como a abstenção de relações conjugais. Em qualquer situação de jejum o que importa é a abertura para a luz divina, a espera da graça e a preparação para o encontro com Deus. Portanto, trata-se de se colocar em atitude de fé de maneira humilde para aceitar a vontade de Deus e de se pôr em sua presença.

Jesus Cristo enfrentou por diversas vezes a prática do jejum feito pelos judeus que o aprisionavam num formalismo estéril já denunciado pelos profetas, como a prática de jejuar de maneira orgulhosa e para ostentar uma santidade de fachada. O verdadeiro jejum pregado por Jesus Cristo e pelos profetas (cf. Is 58) deve estar acompanhado do amor ao próximo, da busca da verdadeira justiça, sempre acompanhado da esmola e da oração. Trata-se de um jejum que nos abre o coração para a justiça interior, feito de maneira humilde e que seja pura esperança em Deus.

O Papa Francisco nos lembra que o jejum deveria seguir o exemplo do Bom Samaritano, marcado pelo valor num estilo de vida sóbrio e uma vida que não desperdiça, que não descarta. Não se trata apenas de escolhas alimentares, mas de estilo de vida marcado pela humildade e coerência reconhecendo os próprios pecados, os próprios erros. “Curvar a cabeça como uma cana”, ou seja, humilhar-se, pensar nos próprios erros e pecados. “O jejum não é uma simples renúncia, mas um gesto forte para lembrar ao nosso coração o que importa e o que passa”.

Segundo o Papa Bento XVI, ao nos privarmos de algo que em si seria bom e útil para o nosso sustento deveríamos abrir-nos o coração a fim de evitarmos o pecado e tudo o que leva a ele. Desta forma, o jejum se mostra como um meio e não um fim que nos é oferecido para que renovemos nossa amizade com o Senhor. Ele deve nos levar ao verdadeiro alimento que é fazer a vontade do Pai.

O Papa João Paulo II nos diz que o jejum representa uma realidade complexa e profunda e não é uma simples abstinência alimentar ou material. “É um símbolo, um sinal, um chamado sério e estimulante para aceitar ou fazer sacrifícios. Quais renúncias? Renúncia ao ‘eu’, a tantos caprichos ou aspirações doentias; renúncia aos próprios defeitos, às paixões impetuosas, aos desejos ilícitos”. E completa sua catequese dizendo que o jejum significa privar-se de algo “para responder à necessidade do irmão, tornando-se um exercício de bondade, de caridade”.

Tomando como referência o texto sagrado do profeta Isaías, o Papa Paulo VI nos convida assim ao jejum: “não é este o jejum que eu prefiro? (…) Repartir o teu pão com o faminto, acolher em sua casa o pobre sem abrigo, ver alguém nu e vesti-lo e não se afastar daquele que é a sua própria carne”. Dessa forma, o jejum deveria servir para que cada um realmente participe dos sofrimentos e misérias de todos. Seguindo a mesma linha, o Papa João XXIII nos diz que o jejum é um sério compromisso de amor e generosidade para o bem dos irmãos à luz do antigo ensinamento dos profetas.

Neste tempo quaresmal a Igreja nos convida para inserir o nosso jejum no contexto da Amizade Social e por este motivo ele aponta para sermos mais solidários e fraternos com os nossos irmãos e irmãs necessitados. Serve desse modo como crítica à nossa sociedade de consumo e de produção de descartáveis e nos conduz ao que é essencial.

Edebrande Cavalieri

O Carnaval desse ano de 2024 mostrou uma nova face celebrativa da festa considerada profana e banida de muitos segmentos religiosos. Alguns desses segmentos

O Carnaval desse ano de 2024 mostrou uma nova face celebrativa da festa considerada profana e banida de muitos segmentos religiosos. Alguns desses segmentos acabaram rompendo a barreira do interdito e começaram a transformar a festa pagã em ambiente de pregação religiosa. A pop-pastora Baby do Brasil pertencente a uma igreja neopentecostal foi logo avisando sobre um “arrebatamento” que deverá acontecer entre 5 e 10 anos.

Ela talvez desconheça que essa mesma previsão fora feita em 1970 por Hal Lindsey que disse que “em quarenta anos desde 1948 quando foi formado o Estado de Israel seria o início da última ‘geração’”. Portanto, o arrebatamento deveria ter acontecido em 1981 ou 1982. Outra artista neopentecostal, Cláudia Leite, já está mudando letras de músicas que a tornaram conhecida no ambiente musical de “Axé Music”. Assim, em vez de falar em Iemanjá na música “Caranguejo” clama “Yoshua”, que é o nome para Jesus em hebraico.

Não queremos entrar na polêmica da reação conduzida por outra artista muito conhecida, Ivete Sangalo que disse que não ia deixar acontecer o apocalipse, mas tentar refletir um pouco sobre a função da religião no meio das sociedades, das culturas. Por que estamos vendo o ambiente público sendo tomado por pregadores religiosos? Seria um processo de conversão da cultura secularista ou laica para uma determinada fé? Que riscos há para a sociedade essa mudança religiosa e cultural, especialmente para o Brasil? São complexas essas questões.  Vale refletir sobre os riscos desse domínio para a vida democrática.

Recordando um pouco a história de séculos passados, podíamos lembrar das Cruzadas organizadas por Papas e Príncipes medievais europeus para combater os mouros nas regiões do oriente especialmente nos lugares santos onde Jesus andou. Até uma Cruzada com 60 mil crianças foi organizada em navios e levadas para a guerra santa, ou carnificina infantil. Todas elas foram trucidadas pelos mouros. Vemos nesse fato como a religião pode ser corrompida ou instrumentalizada por interesses políticos e bélicos.

Também é bom recordar as guerras de religião que aconteceram com a Reforma Protestante. Como foi difícil conquistar a paz em meio às guerras entre católicos e calvinistas! Teve guerra que durou 30 anos e ceifou oito milhões de vidas. Como não lembrar da Noite de São Bartolomeu na França conduzida pelos reis católicos que massacraram milhares de protestantes? O mundo moderno surgiu em pé de guerra, tanto no velho como no novo mundo onde indígenas e negros eram obrigados a serem batizados compulsoriamente.

Foi muito noticiado na década de 1970 o suicídio coletivo de um grupo de seguidores do Templo do Povo dirigido por Jim Jones. Esse líder transformou 900 seguidores em religiosos fanáticos que idolatravam seu guru. Em 1978, ele mesmo determinou a “noite branca final” para acabar com aquela agonia levando todos os seus seguidores à morte ingerindo um refresco adulterado com cianeto. Ao longo da história podemos encontrar grande quantidade de fatos mostrando como a religião pode ser instrumentalizada por diversos interesses, ideologias e loucuras de líderes sem escrúpulos.

A Revolução Francesa de 1789 teve um papel muito importante nesse contexto de que estamos falando. Ela incorporou a filosofia iluminista na política e passou a organizar o Estado nos princípios da laicidade, reduzindo os bens eclesiásticos e seus poderes na ordem social, suprimindo privilégios políticos do clero e promulgando a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Nessa declaração, o artigo 10 diz que “Ninguém deve ser molestado por suas opiniões, mesmo religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida por lei”. Temos a partir daí a secularização da cultura e da laicidade do Estado, a liberdade de crença e a prevalência do Estado sobre a religião no que se refere à ordem pública. Cabe à religião o domínio na ordem interna das consciências.

Alguns teóricos acharam que a religião estaria com os dias contados. O positivismo de August Comte dizia que o modelo tradicional de religião estaria superado pelo advento da ciência e que apenas o positivismo seria a “religião da humanidade”. Contudo, isso não aconteceu. O domínio da ciência não foi suficiente para pôr fim ao domínio religioso. A virada do milênio entre nós parece que impulsionou a força religiosa para além dos limites ideológicos e jurídicos preconizados pela modernidade. Vemos a cada dia o uso e a instrumentalização da religião por parte das forças políticas. Parte da sociedade acredita fielmente que é preciso que haja um governante que represente a vontade de Deus entre nós. O Salmo 33, 12 passou a ser palavra de ordem na esfera política: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”.

É inegável o domínio e fascínio que a religião exerce na consciência e na vida das pessoas. É muito significativa a contribuição teórica do psicanalista francês Jacques Lacan que dizia que “A religião não triunfará apenas sobre a psicanálise, triunfará sobre outras coisas. É inclusive impossível imaginar quão poderosa é a religião” (O triunfo da religião). Ela é inquebrantável. Portanto, parece-nos que a luta pela eliminação da religião como desejava a filosofia positivista é tarefa inglória.

Por fim, o discurso religioso dificilmente sobrevive sem o espaço sagrado conhecido como “igreja”. A elevação de qualquer pessoa ao grau de líder religioso por uma igreja existente ou criada por ela mesma é uma das tarefas mais fáceis na sociedade atual. O pentecostalismo e o neopentecostalismo romperam a barreira dos longos anos de estudos de teologia para alguém se tornar pastor como as Igrejas históricas faziam para formar seus quadros para a pastoral. Com isso, torna-se fácil alguém tomar um texto da Bíblia e tecer uma interpretação fundamentalista de acordo com seus interesses ideológicos.

As mudanças culturais por que passa o Brasil nos levam à necessidade de repensar o lugar da religião em nossa sociedade. Nota-se um efeito venenoso da infiltração da religião na política brasileira pondo em risco os ideiais democráticos. Qualquer pessoa pode fundar sua própria igreja e sair pregando conforme seus interesses e esse parece ser o caminho mais fácil para alguém ser eleito em algum cargo político. Incorporam esses candidatos um discurso fundamentalista, conservador, moralista e através de um forte proselitismo religioso transforma os altares em palanques eleitorais. Se na República Velha do Brasil havia os coronéis atrelados às oligarquias econômicas, hoje vemos se desenvolver outro tipo de coronelismo, agora atrelado às oligarquias religiosas. Esse nos parece ser o maior risco para a vida democrática brasileira.

Essa não é a função da religião. Em qualquer sociedade, a religião deveria cumprir além da dimensão espiritual inerente à sua constituição, a função ética. Não cabe a nenhuma igreja ou religião num ambiente democrático impor seus padrões morais, doutrinários ou ideológicos a todas as pessoas de um determinado país. Ao Estado caberia tão somente zelar pela ordem pública, garantido o direito de todos, a justiça para todos, o bem comum, jamais deveria se intrometer na ordem religiosa.

Edebrande Cavalieri

O Brasil tem mais templos ou estabelecimentos religiosos que a soma das instituições de ensino e unidades de saúde; foi o que divulgou o

O Brasil tem mais templos ou estabelecimentos religiosos que a soma das instituições de ensino e unidades de saúde; foi o que divulgou o IBGE no senso de 2022 nesse início de ano. Será que o nosso país tem mais necessidade da fé que de educação e saúde? Os números parecem confirmar isso. Contudo, o dia a dia do brasileiro parece mostrar uma realidade bem diferente como vimos durante a pandemia da covid-19. Também poderíamos nos perguntar sobre os impactos de tantas expressões religiosas na história concreta de nosso país.

Conforme pesquisa do IPEA realizada em 2021, 70% dos templos ou estabelecimentos religiosos estão no segmento das Igrejas evangélicas, 11% desses templos são católicos e 19% são de outras denominações religiosas. As pesquisas também apontam que há um declínio das filiações católicas, aumento das filiações evangélicas e aumento também do número de pessoas que se declaram “sem religião”, que também são chamados de “desigrejados”.

Olhando o mapa do Brasil, podemos perceber os Estados do Sul e Sudeste com exceção do Espírito Santo são os que possuem menos templos ou estabelecimentos religiosos, enquanto os Estados do Norte do país são os que mais construíram espaços religiosos. Essa realidade tenderia a mostrar um país mais secularizado no sul e sudeste?

Os dados do IBGE a respeito do número de templos religiosos demonstram como tem ocorrido de maneira rápida a transição religiosa, pois são esses espaços construídos com finalidades da fé que irão fidelizar os fiéis. O Brasil está caminhando a passos largos para uma cultura evangélica e pentecostal. Certos discursos religiosos presentes nas homilias de vários líderes católicos bem como algumas práticas pastorais estão mais na linha da perspectiva evangélico-pentecostal que da identidade católica. Até mesmo elementos estéticos evangélicos e formas discursivas estão sendo assimilados por lideranças católicas. Que consequências teremos com essa mudança na cultura brasileira?

O que aconteceu com o Brasil para que isso ocorresse em pouco tempo? Será que apenas o empenho missionário das Igrejas evangélicas explicaria esse fenômeno? Parece-nos que outros fatores precisam ser considerados.

Essa transição está ligada às transformações econômicas do país, que vai deixando para trás uma estrutura primário-exportador, com agricultura de subsistência, e aumento do êxodo rural formando as grandes periferias urbanas. É nas grandes periferias urbanas assim formadas de maneira desordenada que as Igrejas evangélicas de cunho pentecostal e neopentecostal atuarão na construção de pequenos templos, colocando sempre a sua frente um pastor. Pode-se até questionar por sua formação teológica, contudo a figura dele na porta da Igreja recebendo os fiéis desalojados do campo configura um acolhimento muito importante para essas pessoas.

A Igreja católica que não consegue acompanhar o crescimento urbano e fazer o mesmo colocando um padre à frente de cada comunidade. Vimos recentemente que há um declínio do número de pessoas ordenadas no mundo inteiro, bem como a diminuição de seminaristas que se preparam para a ordenação presbiteral. A ordenação de diáconos tem crescido e contribuído muito nas comunidades para uma pastoral do acolhimento. Contudo, a criação de Comunidades Eclesiais de Base nem se compara em termos de crescimento como nas comunidades evangélicas.

A história brasileira presencia assim uma mudança em sua cultura que foi preservada ao longo de quatro séculos. O catolicismo português dominado pelo Padroado de 1500 a 1889 era marcado por práticas, crenças, rituais e ensinamentos que tinham boa receptividade junto à população no contexto de um país pobre, rural, tradicional, com baixas taxas de escolaridade e baixa mobilidade social. Das décadas finais do século XX até hoje temos um país que foi alterando essa estrutura social e educacional, essa cultura. As grandes devoções ainda resistem fortemente, de maneira especial as devoções marianas. Contudo, no dia a dia urbano o que tem crescido é o número de pessoas frequentando os cultos evangélicos.

Se no passado tivemos no Brasil uma forte cristandade que transformava toda a sociedade em povo católico, agora abre-se no horizonte a possibilidade de se ter uma cristandade evangélico-pentecostal. Essa será a grande transição cultural possível de acontecer no país. O ingresso dessas Igrejas elegendo candidatos aos vários cargos contribuiu muito para essa transformação.  É preciso que aguardemos as próximas duas décadas para vermos melhor como essa cultura irá se comportar.

Ao mesmo tempo temos no horizonte o crescimento das pessoas que estão rompendo os vínculos institucionais, formando o segmento “sem religião” ou desigrejados. Estaria aqui o germe crescente da secularização que tomou conta do território europeu? As regiões sul e sudeste, mais desenvolvidas, nos mostram que esse cenário é possível. O desencanto com muitas lideranças religiosas pode contribuir com o fortalecimento da secularização. Então teremos igrejas vazias de fiéis e cheias de turistas.

Por fim, cabe registrar o grande esforço do Papa Francisco resgatando a Igreja que despontou no Concílio Vaticano II e chega nesse momento com o desenvolvimento de uma perspectiva eclesiológica da mais alta importância, a sinodalidade. Infelizmente, muitas lideranças católicas parecem não entender a importância do novo “avivamento” (aggiornamento) promovido pelo Concílio e preferem refugiar-se nas práticas pré-conciliares. Alguns líderes partem sozinhos como se fossem salvar a Barca de Pedro. Sem um caminhar juntos, a Igreja no Brasil terá muitas dificuldades para dialogar com essa nova cultura sem perder a identidade católica. A sinodalidade requer um caminhar junto nessa pluralidade religiosa. Este é o sinal dos tempos em meio a tantas mudanças para o fortalecimento da fé. Juntos, TODOS, TODOS, TODOS, nos aponta o Papa Francisco.

Edebrande Cavalieri