Artigos

Convidado para falar no Forum das Pastorais Sociais da Arquidiocese de Vitória a respeito desse tema tão instigante e desafiador, complexo e inovador, cristão, resolvi

Convidado para falar no Forum das Pastorais Sociais da Arquidiocese de Vitória a respeito desse tema tão instigante e desafiador, complexo e inovador, cristão, resolvi traçar algumas características que facilitam a compreensão desta categoria que o Papa Francisco utilizou na Encíclica Fratelli Tutti. Como a Encíclica Laudato Si’, essa também está inspirada na vida e no projeto de São Francisco de Assis há centenas de anos atrás. Lembra logo no início a visita de São Francisco ao sultão Malik-al-Kamil no Egito durante dos tempos sangrentos das cruzadas.

Como categoria, a Amizade Social deve ser compreendida no contexto da fraternidade, da compaixão ativa e da prática concreta da esperança. Muitas vezes, somos movidos por sentimentos como pena, dó, diante do outro que se tornou lixo à nossa frente. O sentimento de pena não inclui. Por isso, o Papa insiste em “TODOS IRMÃOS”.

A partir desse imperativo – “todos irmãos” – vamos compreender o relacionamento universal que ultrapassa barreiras geográfica e do espaço. Vai muito além de uma relação fechada em um grupo homogêneo, um clã ou de pessoas da mesma origem ou mesma classe social. Ninguém pode ficar fora. Ninguém tem o direito de viver numa bolha social de autodefesa, de grupo de convivência social e eclesial. Também as pessoas em situação de rua devem ser consideradas nossos vizinhos como são as pessoas que habitam o nosso prédio.

A compreensão da Amizade Social do Papa Francisco transita das relações micro às relações internacionais, pois “sonhamos como uma única humanidade”. Trata-se de lutar por uma unidade das nações, e da necessidade de se agir e sonhar coletivamente, com visão solidária e abertura aos interesses de TODOS. Portanto, todos os interesses econômicos que movem as nações e as pessoas devem estar voltados ao interesse do bem comum. Daí a urgência de se incluir os pobres, os abandonados, os doentes, os migrantes, os últimos da sociedade.

A Amizade Social vai além da proposição e execução de ações caritativas, beneficentes, que não leva à transformação da realidade em que se vive. Com a Amizade Social pretende-se atingir uma unidade multiforme que gera nova vida. Caminha-se numa visão INTEGRAL como futuro possível de reconhecimento da dignidade humana, de respeito à criação e ao divino. O grito da terra também é o grito dos pobres, também é o grito dos profetas que clamam no deserto. Paz, respeito mútuo, com justiça e equilíbrio socioeconômico, com o olhar para o irmão que está ao nosso lado, o nosso vizinho em situação de rua.

Nessa luta é preciso superar algumas formas nocivas de dominação como a prática de sempre semear desânimo, ou despertar desconfiança em tudo, ou a convivência de modo polarizado, ou a estratégia de ridicularizar o outro e fazer uso permanente de suspeita. As práticas que servem à divisão como aquelas conduzidas pelas redes sociais que compartilham fake News, disseminam o ódio e a intolerância, devem ser objeto de superação urgente.

Elemento chave na constituição da Amizade Social é o desenvolvimento da “melhor política”, da “boa política”, da política que realiza projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum. Comprometida com a solidariedade humana. O Papa nos fala em um “novo estilo de fazer política”, como aquela capaz de construir comunhão e que contribui para projetos comuns. A melhor política tem como núcleo central o amor preferencial pelos últimos.

É preciso reconstruir conceitos que foram desfigurados pelos interesses particulares como democracia, liberdade, justiça e unidade. Esses pilares da modernidade perderam sua força utópica, sua força de mover para o bem comum. Foram desfigurados em prol da dominação. O Papa, então, busca discernir as profundezas de nossa política. É um discernimento espiritual e nos moldes metodológicos de promover processos para os quais a Igreja possa ouvir, discernir e agir coletivamente.

O horizonte desses processos está situado no conjunto das várias crises pelas quais passa a humanidade atual: crise socioambiental, migração, desenfreado descuido com a casa comum, agigantar-se da pobreza e da miséria, conflitos internacionais vistos como uma quarta Guerra Mundial feita em pedaços, falta de solidariedade e de amizade social. Para Francisco, argumentos do passado que invocavam a possibilidade de uma “guerra justa” não parecem adequados ao novo momento da Igreja no mundo.

As saídas propostas por Francisco estão fundadas em valores derivados da irmandade universal, do amor fraterno em sua dimensão universal. Por isso, esse sentimento não pode ficar confinado nas fronteiras nacionais, nas discriminações de religião, raça, gênero e classe social. É urgente pôr-se em prática uma política da civilização planetária multilateralista, voltada para o bem comum, à solidariedade, ao convivialismo, ao reconhecimento da igualdade e da fraternidade. Por isso, torna-se central uma governança global que elimine o vírus da desigualdade.

Concluindo, essa Encíclica do Papa se insere no longo desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja iniciada em 1891 com a publicação da Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão III que tratava da condição dos operários, explorados pela revolução industrial. Eles formavam a periferia daquele momento que requeria maior cuidado por parte da Igreja e dos governantes. A Encíclica Fratelli Tutti é fiel ao caminho do magistério da Igreja e se torna o grito profético diante de um mundo estilhaçado por tantas crises.

Edebrande Cavalieri

Dados divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um crescimento bem significativo em relação aos dados de 2010 a respeito

Dados divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um crescimento bem significativo em relação aos dados de 2010 a respeito do divórcio de casais acima dos 50 anos. Há dez anos atrás representavam menos de 10% do número de divorciados. Hoje chega à cifra de 30%. Segundo especialistas no acompanhamento desse fenômeno, o crescimento é nítido e crescente nessa faixa etária. Cresce também a busca por informações a respeito dos direitos, caso venham a se divorciar.

Analistas entendem que a mudança de paradigma na sociedade atual em relação à geração de nossos avós que mantinham, muitas vezes, casamentos longos marcados pela visão patriarcal da sociedade, pela religiosidade forte e maiores interditos sociais está dando lugar a uma sociedade que não mantem as relações por simples obrigação ou a qualquer custo. Também podemos mencionar os efeitos de uma cultura nos moldes de uma “sociedade líquida” em que as relações vão se desfazendo. Ao mesmo tempo, as pessoas estão chegando aos sessenta anos com novos projetos de vida, pois a expectativa é bem maior que há décadas atrás.

As mudanças sociais e culturas estão reduzindo o grau de desconforto em relação às pessoas divorciadas. A vontade de viver cada vez mais e melhor domina o horizonte das decisões a respeito da vida a dois. A própria mulher desenvolve a cada momento a valorização de sua independência. Ela se coloca como parceira. Rejeita cada vez mais o lugar de submissão, o que tem feito crescer o número de feminicídio causado por homens que não aceitam a mulher parceira. Às vezes, o divórcio representa seu grito de liberdade diante de uma relação doente e asfixiante. Tóxica! A mulher não está mais submissa financeiramente ao domínio masculino. Portanto, casamento sem sentido é caminho aberto e certo para o movimento do divórcio.

É preciso reconhecer que estamos diante de um processo permanente de transformação da situação da vida de casal e da própria família. Enfraquece aquela doutrina que colocava a família como “Igreja doméstica”, pois esse lugar sofre de inúmeras transformações sociais e culturais. Surgem novos modelos de convivência e cresce a pluralização de valores. Assim, estamos diante de uma maior valorização do amor íntimo e pessoal entre os cônjuges. Em síntese, estamos diante de uma complexidade de questões matrimoniais e familiares.

A Igreja Católica tem colocado esse assunto em pauta nas diversas assembleias pastorais e no próprio sínodo que está se realizando neste momento. A preocupação é pastoral. No Relatório Síntese de outubro de 2023 do Sínodo, a Igreja constata “que essas pessoas se sentem marginalizadas ou até excluídas pela Igreja” e “pedem para serem escutadas e acompanhadas e que seja defendida a sua dignidade”. Entre os presentes na Assembleia Sinodal, apoiados nos relatórios oriundos da escuta, “pôde-se perceber um profundo sentido de amor, misericórdia e compaixão pelas pessoas que estão ou se sentem feridas ou negligenciadas pelas Igreja” e que essas mesmas pessoas buscam um lugar onde se sintam seguras, escutadas e respeitadas, sem receio de se sentirem julgadas. O Relatório publicado nos diz que “a escuta é um pré-requisito para caminhar juntos à procura da vontade de Deus […] e os cristãos não podem faltar ao respeito pela dignidade da pessoa humana”.

O Papa Francisco em sua exortação apostólica sobre a família Amoris Laetitia se dirige aos divorciados que voltaram a se casar para que “não se sintam excomungados, como também podem viver e evoluir como membros ativos da Igreja”. E de maneira bem contundente escreve: “já não se pode dizer que todos os que se encontram em uma situação irregular vivem em pecado mortal”.

O Papa ainda pede ao clero que tenha uma visão mais ampla e misericórdia, pois “o confessionário não deve ser uma sala de torturas, mas sim o lugar da misericórdia do Senhor”. Contudo, no cotidiano da vida eclesial os casais divorciados sentem práticas discriminatórias e excludentes, de juízos condenatórios ou de indiferença. Por parte dos ministros ordenados há muito acolhimento; contudo, entre os próprios batizados a realidade tem se mostrado dura e cruel.

Um pastor não pode se sentir feliz aplicando rigorosamente leis morais aos que vivem em situações irregulares. O lugar do pastor não é o trono de Moisés onde se julga, com ar de superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas. A Igreja é o lugar da misericórdia de Deus, e não um tribunal. A Doutrina da Fé orienta os sacerdotes como pessoas chamadas a propor um caminho de discernimento que mostra sempre o “rosto materno da Igreja”. As mesmas orientações dadas aos sacerdotes devem ser seguidas pelos fiéis batizados.

O cuidado pastoral por parte dos sacerdotes deveria conduzir a uma análise em que se observam as limitações que atenuam a responsabilidade e a culpa das pessoas. Trata-se de um acompanhamento que vai além da questão do sacramento, e pode ser direcionado para outras formas de integração na vida da Igreja como uma maior presença na comunidade, participação em grupos de oração ou de reflexão ou envolvimento em vários serviços eclesiais. O fato de alguém ser divorciado não o impede de exercer serviços eclesiais.

Trata-se de um acompanhamento pastoral como exercício da “via caritatis”, que é o caminho de Jesus Cristo, de misericórdia e integração. Não se buscam licenças para a recepção de sacramentos, mas de engajamento em processo de discernimento acompanhado por um pastor. Trata-se de um discernimento pessoal e pastoral.

Desta forma, maior que a preocupação com o aumento do número de católicos divorciados deve ser a preocupação com o caminho da misericórdia e integração dessas pessoas na vida da Igreja. Regras, leis, proibições e ameaças com sanções se mostram pouco eficazes para a solução dos problemas existentes. É preciso afastar os procedimentos excludentes e condenatórios aos divorciados presentes nos diversos ambientes eclesiais, e incrementar os processos de discernimento pessoal e pastoral, pois é grande a distância entre o matrimônio ideal apresentado pela Igreja e a realidade vivida por um número cada vez maior de pessoas.

Edebrande Cavalieri

Desde 2007, no Brasil ficou designado 21 de janeiro como Dia de Combate à Intolerância Religiosa lembrando sempre o Artigo 5, Inciso VI, da

Desde 2007, no Brasil ficou designado 21 de janeiro como Dia de Combate à Intolerância Religiosa lembrando sempre o Artigo 5, Inciso VI, da Constituição Federal que assegura como “inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”. Mas o que se tem visto na última década é o aumento de práticas de intolerância. Como essas práticas se manifestam?

Os grupos mais visados estão relacionados às religiões de matriz africana como Umbanda, Candomblé, Macumba e religiões indígenas. Temos aqui invasões de terreiros e casas de rezas. Há casos de violências físicas e assassinatos. Também a intolerância se dá com incêndios e depredação de capelas cristãs católicas com imagens de santos sendo pisoteados e destruídos. Cresce também a prática de ofensas e violência física às mulheres muçulmanas, agressões contra judeus e profanação de suas sinagogas, assédio e ofensas contra ateus ou pessoas que confessam outras crenças religiosas. Por fim, com o crescimento evangélico, também tem crescido atitudes que os desqualificam publicamente como pessoas esquisitas, alienadas, ignorantes, vigaristas e charlatães.

Segundo o Ministério dos Direitos Humanos, em 2022 houve em torno de 1200 ataques contra pessoas e espaços religiosos qualificados como ações de intolerância religiosa. No ano passado, 2023, foram protocoladas 58 mil ações judiciais nos tribunais brasileiros tendo como motivo práticas de intolerância religiosa. Há inclusive ações contra práticas de “racismo religioso”, em que a motivação está não apenas relacionada à crença, mas também ao preconceito racial. De acordo com o “Relatório sobre Liberdade Religiosa no Mundo”, nos dias atuais a liberdade religiosa é violada em um terço dos países do mundo, onde vivem cerca de 5,2 bilhões de pessoas

É bom registrar que o Brasil conviveu com essa prática nociva ao direito de crença desde o descobrimento. A Bula “Romanus Pontifex” do Papa Nicolau V, assinada em 1454, dava à metrópole portuguesa o direito de empregar todo tipo de força e violência contra aqueles que resistirem aos “planos de Deus” como indígenas, negros, judeus, hereges, mulheres e pagãos. Implantava-se no Brasil uma colônia estruturada como “Padroado” em que a Igreja Católica estaria sob o controle de Portugal. A expansão imperial da Coroa Portuguesa estava ancorada nesse direito garantido pela Igreja Católica. A cristandade brasileira sob o governo português foi marcada o tempo todo por práticas de intolerância religiosa. O antigo lema do Império Romano se mantinha nos tempos modernos: ou crê ou morre. Numa mão a cruz e na outra a espada. Como foi heroica a resistência dos grupos religiosos perseguidos nos engenhos, nas minas de ouro e nas fazendas de café!

Foi e é difícil o caminho para a constituição de uma paz entre as religiões e não religiões.  Temos grande incapacidade e falta de vontade para coexistir, reconhecer e respeitar os diferentes. Continuamos a manter e alimentar preconceitos religiosos e raciais, discriminação nas instituições, inclusive religiosas, segregação, práticas de ódio e de violência. Ainda somos herdeiros e defensores da ideologia da superioridade europeia, branca e cristã. Defensores de práticas decorrentes da religião dominante. O que está havendo entre nós que essas práticas que são antievangélicas, pois não fazem fazer da pregação de Jesus Cristo, crescem e tornam a convivência difícil e com grande sofrimento?

Poderíamos detalhar os elementos que contribuíram e contribuem com a avanço da intolerância religiosa, mas vamos nos ater apenas a dois fatores.

O primeiro fator que ajudou muito no crescimento foi o aumento do fundamentalismo religioso, e nos últimos anos o fundamentalismo com viés político. Ou seja, muitas Igrejas deixaram ser instrumentalizadas pelo poder político que usa os altares para disseminar guerra eleitoral de cunho religioso. Há então candidatos de Deus e candidatos do demônio. Esse discurso atrai votos.

Ao mesmo tempo, o uso de uma leitura fundamentalista do texto sagrado. Essa prática vem de tempos longínquos. O próprio Padre Antônio Vieira em seus Sermões justificava a escravidão negra utilizando textos das Sagradas Escrituras. No Sermão XXVII ele nos diz: “É particular providência de Deus que vivais de presente escravos e cativos para que por meio do cativeiro temporal consigais a liberdade ou alforria eterna”.

O segundo fator que favoreceu enormemente o crescimento da intolerância religiosa está situado na formação de grupos de ultradireita conservadora que projeta uma guerra religiosa contra os inimigos da fé, da família e da pátria. São radicalmente contrários à pluralidade cultural e religiosa. Ao mesmo tempo pregam uma mentalidade apocalíptica restauradora do um suposto “reinado de Deus” e o risco representado por supostos “inimigos da fé”. Numa sociedade baseada ainda fortemente por crenças com baixo grau de educação e instrução, as redes sociais tornarem-se as novas escolas que ensinam o caminho a seguir.

Diante desse quadro duro e sofrido para tantas pessoas, pensamos que a reversão dessa situação passa antes de tudo pela luta em garantir o direito de cada grupo de viver e conviver numa sociedade plural. Trata-se de uma luta por justiça e por direito, garantidos pela Constituição brasileira. Em segundo lugar, não temer as ameaças, registrar e denunciar em órgãos adequados garantidos pelo Estado todo tipo de discriminação, preconceito, violência, ódio, de cunho religioso e racial. Em terceiro lugar, cabe educar a sociedade para a valorização da pluralidade religiosa e cultural em todos os espaços como escolas, Igrejas, salas de catequese e educação cristã, associações, sindicatos e órgãos do próprio Estado.

O Papa Francisco convoca a todos os cristãos e, de modo especial, os católicos para escolherem “o caminho da fraternidade, porque, ou somos irmãos, ou todos perdemos”. Então, a perspectiva de uma coexistência pacifica será sombria se a liberdade de religião ou de crença não for respeitada como um direito humano fundamental baseado na dignidade de cada pessoa.

Edebrande Cavalieri

O Papa Francisco retomou no último dia 27 de dezembro, na Audiência Geral, o ciclo catequético tratando do tema dos vícios e das virtudes.

O Papa Francisco retomou no último dia 27 de dezembro, na Audiência Geral, o ciclo catequético tratando do tema dos vícios e das virtudes. Nesse primeiro momento, ele nos diz que “a vida espiritual do cristão exige um combate contínuo”.

Falar de vícios e virtudes nos tempos atuais pode causar espanto e até desdém, pois vivemos numa sociedade basicamente regulada pelo prazer a qualquer custo, a vida sem esforço, numa relação quase absoluta de “salve-se quem puder”. Contudo, a história humana nos revela que a preocupação com o educar para as virtudes sempre foi posta como desafio na formação e educação das pessoas.

O filósofo grego Aristóteles pensou uma estrutura ética que pudesse conduzir a cidade grega de modo perfeito. Por isso, entendia que o modelo de sociedade que deveria ser formado na constituição da cidade seria aquele em que o bem individual e o bem coletivo tenderiam a unir-se. As virtudes seriam qualidades essenciais para o convívio social e consistiriam “na disposição adquirida de fazer o bem e se aperfeiçoar com o hábito”. Portanto, não nascemos com vícios ou virtuosos. A cidade viveria cada vez mais em paz na medida em que predominasse a prática de virtudes e cada vez menos de vícios.

Enquanto a filosofia grega coloca como referencial ético o equilíbrio entre o bem individual e o bem coletivo na convivência da cidade, a Bíblia nos lança para outro referencial ético. “Caminhai com Deus” (Gn 5, 22). As virtudes nos levam para o caminho da perfeição, da santidade, e os vícios nos levam para a degeneração. Não é mais a vontade ou a necessidade da cidade que devem ser a referência ética, pois Deus quer reunir os homens entre si e consigo mesmos. Essa comunhão intersubjetiva e individual exige o progresso moral de todos. Assim, a virtude consiste num relacionamento vivo com Deus.

A Bíblia nos faz olhar para a raiz da virtude ou do vício. Ela está no coração do homem. Um coração cheio da Lei de Deus fará um homem ser virtuoso, e vazio da Lei de Deus, um homem degenerado, perverso. Ao longo dos dois Testamentos, a Bíblia irá traçar uma grande lista de vícios que deveriam ser combatidos e evitados na formação das pessoas e virtudes, opostas radicalmente aos vícios, que deveriam ser ensinadas. Os profetas, os Sábios, Jesus Cristo e seus Apóstolos não se cansam de mostrar os dois lados da conduta moral. Paulo nos diz que a causa profunda dos vícios é o desconhecimento do verdadeiro Deus, preterido em troca dos ídolos. Os vícios não apenas dividem os homens, como os colocam em oposição entre si.

Ao contrário, as virtudes se complementam. Assim, o princípio da unidade conforme nos diz Miquéias (6, 8) é “andar humildemente com Deus, cumprindo a justiça e amando com ternura”. Jesus Cristo nos aponta para o caminho da humilde mansidão e do amor que leva a dar a própria vida, amor que deve ser o modelo para a vida de seus discípulos entre si – “vejam como eles se amam” – constituindo-se em sinal distintivo do ser cristão. São Paulo nos aponta como modelos as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Essas virtudes estão relacionadas à Santíssima Trindade.

A Tradição da Igreja enumera 12 virtudes (Gl 5) e 7 dons do Espírito Santo concedidos aos cristãos. A Igreja nos ensina que as virtudes são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade. Portanto, não se torna virtuosa uma pessoa praticamente apenas atos esporádicos de boa conduta, mas que age de maneira firme e permanente, levando uma vida moralmente boa. Por isso, o Papa Francisco em sua catequese nos diz que “a vida espiritual do cristão exige um combate contínuo”.

Nos dias atuais, de tantas polarizações e movimentos de combate à Igreja conduzida pelo Papa Francisco, essas catequeses nos apontam para um grande combate de luta contra extremos opostos. O orgulho desafia a humildade; o ódio se opõe à caridade; a tristeza diante da alegria do Espírito; o endurecimento do coração que se opõe à misericórdia. Somos chamados pela Igreja para uma grande luta espiritual contra os vícios que nos impedem de caminhar e nos dividem tanto.

Todas as instituições educativas e eclesiais ou religiosas são responsáveis pela formação de uma nova humanidade e o campo das virtudes poderá ser desenvolvido na medida em que a educação em âmbito geral for comprometida com a formação de jovens virtuosos. A pregação do Papa Francisco nos chama para o desenvolvimento de atos de vontade com renovada perseverança no esforço e na luta. Acreditamos na eficácia da graça divina que purifica e eleva, contudo ela não é uma fórmula mágica que por si só garante a formação do homem virtuoso.

Para fazer florir o jardim das virtudes em nosso redor há que se lutar dia e noite. A Encíclica Fratelli Tutti nos convoca para um verdadeiro combate em prol fraternidade entre os homens, pela dignidade humana, pela solidariedade, pelo diálogo e encontro com todos e todas, pelo cuidado com o meio ambiente, por uma economia inclusiva e solidária e pela construção da paz. Assim constituímos a amizade social, uma sociedade pautada nas virtudes.

A vida espiritual do cristão não é pacífica, como se estivesse numa “zona de conforto” ou numa calmaria subjetiva, isenta de desafios. Ao contrário, exige um combate contínuo. A unção com óleo no batismo anuncia simbolicamente que a vida é uma luta. Com esse sacramento aceito sinceramente com um “sim” estamos nos dispondo para esse combate. A pessoa que recebe o sacramento do batismo dispõe-se para esse grande combate aos vícios e a construção de uma sociedade cada vez mais marcada por virtudes.

Edebrande Cavalieri

Iniciamos um novo ano com um chamado forte da Igreja para a construção da “amizade social”, tema que foi assumido pela Campanha da Fraternidade.

Iniciamos um novo ano com um chamado forte da Igreja para a construção da “amizade social”, tema que foi assumido pela Campanha da Fraternidade. Porém, trata-se de um compromisso que se estende para além dos quarenta dias da quaresma. Diversos tipos de vírus sociais foram tomando conta das redes sociais e contaminaram a sociedade como um todo. Apologia ao ódio indiscriminado até contra o Papa e contra os Bispos, produção e compartilhamento de mentiras sem limite e os diversos tipos de violência estão ponde em crise a própria humanidade. A barca de Pedro navega por mares revoltos. Tem hora que dá medo, muito medo, como aquele que acometeu os apóstolos do tempo de Jesus.

Por onde começar a reconstrução da estrada esburacada e até destruída? Laços pessoais e familiares foram rompidos da noite para o dia. Até mesmo relações de namoro, de matrimônio, de vida eclesial, de grupos de amigos e de práticas políticas foram deterioradas ao longo dos últimos anos. As empresas do mundo inteiro estão preocupadas com os impactos desse terremoto para a produção, pois em torno de 80% das pessoas não estão dispostas a trabalhar com colegas que estão do outro lado. A polarização está impactando não apenas o mundo da política, mas o campo dos negócios. Ela ameaça a vida eclesial comunitária e participativa. Igreja dividida é caminho para a divisão e a separação.

Parece-nos que o primeiro ponto a reconstruir deverá ser o nível de confiança das pessoas. Trata-se de um verdadeiro “fio de ouro” que permite tecer laços, reconstruir redes rompidas. O contrário da confiança é o medo e segundo os cientistas, medo e confiança estão situados no mesmo espaço mental. Portanto, um exclui o outro. Não é possível sentir medo e confiança ao mesmo tempo.

No Evangelho de Mateus (10, 31) Jesus nos ped: “Não tenhais medo”. Ele sabia que discípulos medrosos não ajudariam em nada na pregação da Palavra, na expansão do Reino. O medo atrofia a capacidade das pessoas e produz uma verdadeira paralisia existencial. Ele nos torna incapazes para qualquer ação, qualquer passo à frente. Por isso, nos dias atuais se prega tanto medo para anestesiar as pessoas. Cria-se um movimento de retorno aos tempos nostálgicos do passado. Líderes religiosos medrosos tendem a refugiar-se em ritos litúrgicos dos tempos antigos. Para isso ressuscitam práticas religiosas até contrárias às orientações do Concílio Vaticano II.

Tantos medos difundidos entre nós são objetos fabricados, sem base real. Assim se prega o “medo ao comunismo”, sem sequer conhecimento do que seja realmente o comunismo. Cria-se uma fantasia para paralisar a vida das pessoas. Parece-nos que a grande ameaça à fé realmente é o medo. Ele nos torna covardes, corrói as fibras humanas, esvazia a vida, enfraquece os laços de amor e de esperança.

Por outro lado, o sentimento de confiança constitui-se como caminho onde se assenta a fé, o dom da fé. Não tenhais medo! A confiança nos torna criativos, proativos, nos mobiliza para ações ousadas, nos torna inspirados para avançar. Se os doze apóstolos tivessem medo, estariam reclusos em Jerusalém sob o domínio dos fariseus e sacerdotes do Templo. Ao contrário, lançaram-se pelo mundo a fora. Uma Igreja em saída missionária não pode ser dominada pelo medo, mas pela confiança, pela esperança.

Como é difícil libertar-se da “pastoral do medo”! As pregações sobre o inferno, sobre o demônio, as práticas de exorcismos, crescem tanto entre nós. Medos vendidos estão presentes em todas as tradições religiosas. Custa muito caro o acesso ao “paraíso”. O Evangelho de Jesus contraria radicalmente a pastoral do medo. A dinâmica do Reino está enraizada na confiança o tempo todo. Ela expressa uma profunda experiência de quem é Deus para cada um de nós.

É com o fio de ouro da confiança que iremos reconstruir o caminho da vida em abundância entre nós. Com esse fio iremos reconstruir laços, redes, reerguer pessoas enjauladas no medo. Através da confiança encontraremos capacidade de reagir aos tempos turbulentos dos dias atuais. Viver na defensiva ou aprisionados no passado não fortalece o caminho da fé. A confiança é o primeiro degrau da amizade social.

O Papa Francisco nos diz: “Nunca ter medo de Deus! Temor sim, medo não. O medo é um dos piores inimigos da nossa vida cristã”. Por isso, ele nos recomenda antes de mais nada que identifiquemos nossos medos para não perdermos tempo e energia, pois muitos são fantasmas vazios e sem rosto. Por isso, o lema de 2024 poderia ser: “Não tenhais medo! Confiai”!

Edebrande Cavalieri

A mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz – 1º de janeiro de 2024 – refere-se a um dos temais mais

A mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz – 1º de janeiro de 2024 – refere-se a um dos temais mais desafiadores dos tempos atuais: os impactos causados pelo desenvolvimento da inteligência artificial. Os progressos da informática e o desenvolvimento das tecnologias digitais começaram a produzir profundas transformações na sociedade global, mudando a fisionomia das comunicações, da administração pública, da instrução e educação, do consumo, dos intercâmbios pessoais e tantos outros aspectos da vida diária. São impactos que não demoram a acontecer. Parece que acontecem da noite para o dia.

Ainda não nos damos conta de que estamos diante de uma inteligência mais poderosa, mais rápida e mais complexa que a inteligência humana. Tem a capacidade de analisar bilhões de dados em segundos. Isso está fazendo com que as máquinas nos dispensem de refletir e nos obriguem a reagir, a tomar uma decisão. O pensamento profundo parece estar sendo dispensado. Não lemos mais. No Brasil, 52% das pessoas leem hábito de leitura e a cada ano menos leitores. A situação é ainda mais crítica quando vemos que 16% das pessoas nunca compraram um livro no último ano, segundo a Câmara Brasileira de Livros.

A posição da Igreja definida no Concílio Vaticano II é de apoio ao desenvolvimento da ciência e da técnica em vista de tornar a terra “habitação digna para toda a humanidade”, ajudando a organizar melhor a sociedade humana, promovendo a liberdade e aumentando a comunhão fraterna. O desenvolvimento das novas Tecnologias de Informação, contudo, apresentam oportunidades entusiasmantes e também graves riscos e até ameaça à sobrevivência humana. Portanto, a Igreja pauta sua postura em torno de uma ética humana da vida.

Para a maioria das pessoas essa temática é uma verdadeira nebulosa. Não se conhece praticamente nada. De repente ouvimos falar em algoritmos. E achamos coisa de maluco mesmo. Porém a questão é muito séria. Qualquer pessoa que começa a navegar na internet vai deixando rastos, pegadas, que são captados por essas tecnologias imediatamente. Se você busca um determinado produto para comprar, poucos segundos após sua busca, uma avalanche de ofertas chegas às suas mãos através dos smarthphone ou dos computadores. Os famosos buscadores da internet nos levam de um lado para outro em segundo, dispensando nosso trabalho de reflexão e análise. Tornamo-nos autômatos devorando informação sem pensar. Neste contexto proliferam as fake News.

Na mensagem do Papa, um alerta: esses seres invisíveis da inteligência artificial podem controlar nossos hábitos mentais e relacionais para fins comerciais e/ou políticos, mesmo sem o consentimento da própria pessoa. Parece uma terra sem lei. Esses mecanismos entram em nossas casas, em nossas vidas, e vão transformando nossa maneira de pensar e agir. A liberdade de escolha vai sendo reduzida drasticamente. Rapidamente nos tornamos alienados e perdemos a capacidade de tomar iniciativa. Nossos dedos decidem em segundo compartilhar qualquer informação, qualquer anúncio comercial.

A inteligência artificial é uma verdadeira galáxia de “realidades diversas e de antemão não se pode presumir que o seu desenvolvimento traga um contributo benéfico para o futuro da humanidade e para a paz entre os povos”, alerta o Papa Francisco. O resultado positivo dependerá da capacidade de agirmos de maneira responsável respeitando os valores humanos fundamentais como “a inclusão, a transparência, a segurança, a equidade, a privacidade e a fiabilidade”.

Não apenas se espera um agir ético de quem projeto algoritmos e tecnologias digitais, mas também se torna urgente a criação de organismos encarregados de examinar as questões éticas emergentes e tutelar os direitos de quem utiliza essas tecnologias e das pessoas que são influenciadas. Nesse contexto, cresce o número de “influencers” que ganham fortunas no mercado e até influenciadores que vão contaminando através de suas pregações o trabalho pastoral das Igrejas locais. Tudo está interligado. Não se vendem apenas produtos, também ideias, ideologias, comportamentos, ações políticas, preconceitos, indução à praticas contrárias à ética cristã.

Estamos ingressando num mundo em que somos invisivelmente vigiados a todo momento. Trata-se do uso invasivo da vigilância. São olhos e ouvidos que percorrem as vias da internet. Olham para cada passo que damos e acabam determinando o modo como entendemos tantas coisas, especialmente os direitos humanos, pondo de lado valores essências como da compaixão, da misericórdia e do perdão. O terreno do ódio e da vingança cresce ao nosso redor.

Essas tecnologias estão impactando o mundo do trabalho eliminando a mão de obra humana com sua substituição pelas aplicações industriais da inteligência artificial. Grandes vantagens para poucos, empobrecimento de muitos. Então do ponto de vista moral deve-se perguntar: onde fica o respeito à dignidade dos trabalhadores, o bem-estar econômico das pessoas, das famílias e das sociedades, a estabilidade dos empregos e a equidade dos salários?

A reflexão que o Papa Francisco traz para o próximo dia 1º de janeiro é um forte alerta para que olhemos rapidamente ao que está acontecendo ao nosso redor, impactando nossas vidas de maneira instantânea. Ao mesmo tempo, há que se conduzir esse desenvolvimento para a constituição da fraternidade humana e da paz, que “é fruto de relações que reconhecem e acolhem o outro na sua dignidade inalienável, e de cooperação e compromisso na busca do desenvolvimento integral de todas as pessoas e de todos os povos”.

A Igreja, por sua história, por sua sabedoria e pela capilaridade social tem um papel muito importante a realizar nesse campo e cada Igreja local terá que incluir em seus projetos pastorais essas preocupações trazidas pelo Papa Francisco. Assim, a nossa oração deveria ser uma súplica a Deus no sentido de iluminar o desenvolvimento da inteligência artificial de modo a não aumentar as desigualdades e injustiças, para que possamos entregar às novas gerações um mundo mais solidário, justo e pacífico. A paz desejada, celebrada e festejada no dia primeiro de janeiro também decorre do caminho do desenvolvimento da inteligência artificial.

Edebrande Cavalieri

Nesses tempos natalinos o mundo se enche de luz, de música e tantos movimentos. Muita pressa! O comércio parece ser o movimento predominante. Mercado

Nesses tempos natalinos o mundo se enche de luz, de música e tantos movimentos. Muita pressa! O comércio parece ser o movimento predominante. Mercado nervoso, pois é preciso vender. É preciso comprar. Vive-se um tempo bem na contramão do sentido profundo do Natal. Ao mesmo tempo a Igreja conduzida pelo Papa Francisco nos convoca para vivermos a amizade social, pois somos todos irmãos.

Envolvido nesses pensamentos contraditórios de um mundo que parece não abrir mão das guerras e do ódio, da divisão e indiferença, busquei inspiração numa música de natal muito conhecida na Itália e também entre nós. Trata-se da composição (letra e música) de Santo Afonso Maria de Ligório – “Tu scendi dalle stelle” (Tu desces das estrelas), composta em 1754. Trata-se de uma obra lindíssima de admiração pelo Mistério da Encarnação, e uma das canções natalinas mais famosas na Itália com interpretação marcante de Luciano Pavarotti.

Santo Afonso é uma das pessoas mais cultas e comprometidas com o Evangelho. Como advogado tornou-se muito famoso e defensor das causas dos menos favorecidos da sociedade. Aos trintas anos foi ordenado padre tendo como lema de ordenação “Deus me enviou para evangelizar os pobres”. Sua vocação sempre foi pautada por esse objetivo, e por isso criou a Congregação dos Padres Redentoristas que possuem como missão a pregação do Evangelho aos pobres.

Nesse sentido, a composição natalina que estamos fazendo referência nessa reflexão nos toca profundamente, mostrando o verdadeiro sentido espiritual do Natal. Não se trata de uma crença ou devoção religiosa apenas, uma festa como tantas outras, mas de um comprometimento com o mistério da Encarnação.

Esse Mistério deve ser admirado a partir do lugar onde se deu o fato: numa gruta, ao frio, ao léu. Tu desces das estrelas, não para sentar em trono real, mas para uma pobre manjedoura. Lugar de alimentação dos animais. Não era berço lindamente preparado para o nascimento. Santo Afonso fica chocado com essa beleza, divina. E exclama: “Que preço tu pagaste por ter-nos amado”!

O sentimento de admiração ao qual aponta a canção é um processo atrativo através do qual não passamos indiferentes. Não é um olhar que passa, uma cena que se vai. Não é uma noite festiva como tantas outras. A admiração mística nos carrega e nos sustenta. Essa admiração nos compromete com o sentido mais profundo da fé cristã.

Como Jesus nasceu no hemisfério norte, era tempo de inverno rigoroso. Santo Afonso não se contém e conversando com o Menino Deus diz: “Eu te vejo a tremer de frio, faltou roupa, faltou fogo para aquecer”. Não faltou comida, pois tinha o leite materno, contudo seus pais devem ter sentido fome naquela noite santa.

Tu desces das estrelas não carregado em carruagens douradas, entre fogos explodindo no horizonte, mas no silêncio frio de uma simples gruta. “Como esta pobreza me apaixona demais”, exulta o santo. “Que preço que pagaste”!

Santo Afonso termina sua canção admirando a Encarnação do Verbo dizendo que “o amor tornou-se pobre demais”. Não temos capacidade para entendermos racionalmente tal mistério. Por isso, o Natal nos chama para a admiração desse cenário. Esse é o presépio descrito pelo fundador dos Redentoristas. Essa é a missão que decorre dessa contemplação da noite de Natal. Foi nessa compreensão que outro santo, Francisco, dizia bem antes que “somos todos irmãos” (Fratelli Tutti), e a Igreja hoje, conduzida pelo Papa, nos convoca para a “amizade social”.

Edebrande Cavalieri

Gostaria de tomar a reflexão feita pelo padre Edemar Endringer da paróquia Bom Pastor em Vila Velha no momento da homilia na festa de

Gostaria de tomar a reflexão feita pelo padre Edemar Endringer da paróquia Bom Pastor em Vila Velha no momento da homilia na festa de Cristo Rei, comentando o Evangelho de Mateus, capítulo 25. (Parabéns, padre, pela linda e preparada homilia!). A imagem do Juízo Final em que o Filho do Homem, como um pastor, vai separando as ovelhas dos cabritos, colocando-os à direita e à esquerda, destinando a posse do Reino que foi preparado desde a criação do mundo para as ovelhas, e o fogo eterno destinado ao demônio e seus anjos. Na verdade, o Rei nada mais faz do que “fazer as contas” sobre o que cada um fez em sua vida na terra.

O Evangelho nos mostra a radicalidade da fé cristã que confere a uns o Reino e a outros o inferno. É a prova final! Que matéria cai nessa prova? O que vai determinar o nosso lado – das ovelhas ou dos cabritos? O amor! O amor na concretude da vida, a partir das ações mais simples e comuns – saciar a fome, matar a sede, vestir as pessoas, dar abrigo ao estrangeiro, visitar os enfermos, visitar os presos…Deus está conosco até o fim do mundo, contudo o que mais importa é o Deus que está em nós. Que Deus está em mim em cada momento da vida? Que Deus está em mim diante dos rejeitados do mundo?

A imagem da ovelha é das mais ricas em toda a Bíblia e aparece mais de 200 vezes, juntamente com a imagem do pastor e a ação de apascentar. Como é lindo esse versículo de Isaías (40, 11): “Como pastor ele cuida de seu rebanho, com o braço ajunta os cordeiros e os carrega no colo; conduz com cuidado as avelhas que amamentam suas crias”. Em quem se fiar? Ezequiel (34, 31) nos diz: “Vocês, minhas ovelhas, ovelhas da minha pastagem, são o meu povo, e eu sou o seu Deus”. Em um dos poemas (Salmo 22) mais lindos do Antigo Testamento, cantado em diversos momentos nas Igrejas, se diz: “O senhor é meu pastor, e nada me faltará”. Jesus Cristo toma a imagem da ovelha para o momento derradeiro, do juízo final. Ele mesmo será o “Cordeiro de Deus” que será entregue como alimento e bebida.

O que esse animal tão frágil nos mostra?

A ovelha é o animal de onde se retira tudo para a vida. Ela produz lã o tempo todo, mesmo sendo tosquiada a cada ano por ocasião do verão. É com esse produto que o povo podia se aquecer no inverno rigoroso e fazer suas vestimentas do dia a dia. Da ovelha também o povo extrai o couro, a carne e o leite. Portanto, do animal mais frágil, que não possui nenhum mecanismo de autodefesa, se extrai os elementos mais importantes para a vida humana. Essa imagem nos traz à lembrança da parábola dos talentos. O povo de Deus nunca pode parar de produzir frutos, alimentos, cuidados, proteção aos mais indefesos. O mesmo amor que Deus nos concede é o parâmetro para o juízo final; como ovelhas seremos julgados ou como cabritos. Depende de nossas ações na concretude da vida.

Esse animal tão frágil carece sempre da figura do pastor. Se ele se distrair, elas poderão tomar caminhos errados, comer ervas venenosas, serem assaltadas e raptadas. O pastor tem função central na vida das ovelhas. Ele não pode cuidar primeiro de si mesmo, de maneira autorreferencial, mas do rebanho ao qual foi confiado. Se uma ovelha cair, é ele que precisa ir em seu encontro para levantá-la. Do contrário, ela morrerá, pois não consegue erguer-se com o estômago cheio de comida, ou vazio e com fome. As ovelhas seguem o pastor porque o conhecem pelo cheiro, por sua voz. Elas dependem dele para tudo. Em troca lhe oferecem lã, couro, carne e leite. Não são seres inúteis, dependentes da caridade do pastor. O bom pastor sabe que mesmo uma apenas que se perdeu é muito importante, e vai em busca dela. Todos e todas fazem falta no rebanho.

Que imagem linda! Todos fazemos falta. Cada um de nós faz falta no rebanho de Deus. O Papa Francisco, no sínodo, tem enfatizado muito essa palavra que se torna um conceito da teologia da sinodalidade: Todos e Todas. Ao mesmo tempo, essa imagem chama para a responsabilidade aqueles e aquelas que foram chamados para cuidar das ovelhas, os pastores e as pastoras. Não se pode reduzir a função de pastor apenas para aquelas pessoas que foram ordenadas. Cada um que recebeu uma determinada quantidade de talentos é chamado a ser pastor ou pastora. Por isso, é através do sacramento do batismo que nos inserimos nesse rebanho de ovelhas. Cada um então tem a exercer algum ministério nesse mundo, e será sobre isso que teremos o acerto de conta ao final.

Alguns que se dizem pastores nesses tempos sombrios de noite escura estão levando as ovelhas para um sentimento de medo do inferno e do demônio o tempo todo. As pregações sobre os pecados estão deixando as ovelhas sem comida com erva boa. O juízo final descrito no Evangelho da festa de Cristo Rei nos apresenta o quadro de ações que serão determinantes para que o Bom Pastor separe as ovelhas e os cabritos, entregando-lhes o Reino dos Céus ou o inferno.

O mundo sente sede, fome; está doente e prisioneiro. Sente frio por estar nu. Não tem onde morar, pois as guerras matam ou afugentam as ovelhas. As ideologias estão infectando as religiões e as Igrejas. O mundo está doente! Se o juízo final acontecesse hoje com toda certeza o Filho do Homem em sua glória iria nos cobrar pelo que fizemos pela paz. Sem ela as ovelhas não têm onde se alimentar de verdes pastagens. Não tem onde beber de águas cristalinas. O reinado de Cristo não se constrói com armas, mas com amor e caridade, com o cajado do bom pastor. Não se constrói com exércitos, mas com pastores cuidadosos e atentos.

Edebrande Cavalieri