Artigos

Beatriz Herkenhoff escreveu um texto que homenageia o pe. Alberto Fontana falecido na semana passada. O texto foi publicada na Rede Lume de Jornalista

Beatriz Herkenhoff escreveu um texto que homenageia o pe. Alberto Fontana falecido na semana passada. O texto foi publicada na Rede Lume de Jornalista que autorizou a publicação no site da Arquidiocese de Vitória.

Há 28 anos participo da Comunidade Ambiental (Comam). Pequena comunidade de fé, vida e partilha de afeto e solidariedade.

Vinculada à Igreja Católica (Vitória, ES), a Comam tem um viés ecumênico, com a participação de outras denominações religiosas, como a Igreja Evangélica de Confissão Luterana: alguns de seus membros fazem parte do Coman.

Nós nos reunimos de 15 em 15 dias para orar e partilhar nossos sonhos e desejos de um mundo mais humano e justo. Temos como referência os ensinamentos de Jesus na construção de um Reino de amor, justiça e paz.

Ao celebrar a vida e entregarmos a Deus nossa pequenez e impotência, vamos ao encontro dos mais empobrecidos e vulnerabilizados.

Olhamos nos olhos, valorizamos, reconhecemos, anunciamos, denunciamos, esperançamos e nos comprometemos.

Hoje vivemos o luto, a tristeza e a dor com a partida para a vida eterna do querido e amado padre Alberto Fontana. Nosso padre, pastor, confessor e orientador espiritual. Amigo presente em todas as horas.

Ficamos órfãos, paralisados, sem saber como agir, o que fazer, o que falar ou escrever.

Padre Alberto Fontana (Foto: Divulgação)

Mas Alberto nos preparou para vivermos este momento com esperança e gratidão. Ele plantou sementes que se espalharam e deram frutos. Resgatou a nossa potência, fé e capacidade de amar. Com suas homilias e reflexões nos ensinou sobre o amor infinito e misericordioso de Deus.
Um Deus que nos aceita como somos, que não acusa, não condena, não aponta o dedo, não é vingativo e não gera culpa.

Um Deus de puro amor, que está sempre de braços abertos para acolher os seus filhos.

Alberto contribuiu para que amadurecêssemos na fé, no compromisso com os irmãos e na partilha do amor de Deus, tendo as ações e ensinamentos de Jesus como norte. Por isso não estamos sós. Ele nos ensinou que quando caminhamos de mãos dadas somos sustentáculos para o crescimento individual e coletivo.

Alberto esteve presente em todos os momentos difíceis da Comam. Quando alguns adoeceram, ele levou a sua benção, o sacramento da unção dos enfermos, a palavra de fé e de vida.

Esteve presente também nos momentos de alegria, batizou a maioria de nossos filhos e ministrou vários casamentos.

Sempre presente em nossos aniversários, telefonando, enviando bênçãos e lindas palavras de amor.

Ele ouviu, orientou, suscitou questionamentos e um novo olhar sobre o nosso testemunho como cristãos. Estimulou o diálogo, o silêncio, a escuta e a negociação. O reconhecimento e a valorização do outro.

Ele nos convidava a semear o amor, a transformar o cotidiano, a lutar por um mundo melhor, a resistir à violência e ao ódio.

Não estamos órfãos. Pertencemos a uma comunidade de fé e afeto.
Alberto deixou um lindo legado de amor e nos convidou a dar continuidade.

Sabendo que não seria eterno, suscitou a nossa autonomia na condução das celebrações, a criatividade na vivência da fé e no comprometimento com a vida.

Há um ano, quando percebeu que sua vida estava próxima de uma passagem para a eternidade, nos ensinou a serenar e confiar no infinito amor de Deus quando a morte está próxima. Criou as bases para que seguíssemos em frente com a Comam, mesmo quando ele não estivesse mais aqui.

Juntos, vamos dar continuidade ao seu legado. Fazer memória às suas contribuições. Entre tantas, citaria: foi coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Vitoria e da Cáritas; coordenador da Grande Avaliação da Arquidiocese de Vitória; vigário pastoral do setor Aribiri-Ataíde-Cavaliere, de 1984 a 1992; mentor do Prêmio Dom Luís Fernandes, instituído pela Lei estadual n. 7844, de 25 de agosto de 2004 (uma forma de reconhecer quem luta pela justiça social e pelo respeito aos direitos humanos e pelo cuidado com o meio ambiente.

Comprometimentos que fizeram a diferença na vida da Igreja e das comunidades.

Falando particularmente sobre a Comam, foram muitos os ensinamentos e aprendizados. Alberto nos motivou a construir, acrescentar, edificar, resgatar e recomeçar.

Ajudou-nos a pertencer, a criar raízes, a ir ao encontro do outro. A dizer não ao preconceito, à violência, à exclusão, à discriminação e à morte. A preservar nosso planeta, rios, mares, matas e florestas.

Alberto, em sua simplicidade e humildade, não permitiria que escrevêssemos tudo isso. Mas, como nos deu autonomia enquanto seres caminhantes na construção do Reino de Deus, escrever sobre os seus ensinamentos é uma forma de nos unirmos na despedida, de elaborarmos sua perda e darmos continuidade aos seus legados.

Padre Alberto, presente para sempre em nossos corações e ações!

Gratidão por tudo! Receba nosso amor incondicional.

Na noite escura do mundo onde palavras como “paz”, “diálogo”, “cessar fogo”, “negociação”, tornaram-se blasfêmias por tantos governantes, a Igreja conduzida pelo Papa Francisco

Na noite escura do mundo onde palavras como “paz”, “diálogo”, “cessar fogo”, “negociação”, tornaram-se blasfêmias por tantos governantes, a Igreja conduzida pelo Papa Francisco desponta como uma pequena luz que se manifesta no modo de ser experiência sinodal. A manhã da Ressurreição que deixa os túmulos vazios desponta a partir do Batismo em um mesmo Espírito. Se somos todos batizados, é preciso reconstruir o caminho da vida através do ministério que se faz serviço.

Um dos grandes entraves na vida eclesial percebido nos diversos momentos de escuta sinodal foi o exercício do poder. O clericalismo presente em alguns sacerdotes e leigos que foram clerizalizados ou se deixaram clericalizar tem dificultado a vivência da fraternidade. Acumulamos muitos entulhos autoritários de comando ao longo da história, reduzindo o espaço das práticas participativas nas comunidades eclesiais.

Para alguns, o poder na Igreja é de origem divina e sendo assim ela não é nada democrática, justificando dessa forma o desenvolvimento de estruturas centralizadoras e excludentes, conhecidas como clericalismo. O momento sombrio do mundo em que o poder se faz com armas de destruição tem na Igreja seu antídoto, sua negação – a vivência sinodal em que todo ministério deve ser exercido como serviço.

O teólogo espanhol Andrés Queiruga afirma que a Igreja é muito mais que uma democracia, pois deveria ser sempre muito mais livre e participativa, mais eletiva e mais deliberativa no modo de caminhar todos juntos. Portanto, ninguém deveria, na Igreja, ousar em mandar em ninguém, pois todos são corresponsáveis.

Quando alguém se coloca na posição de “quem manda aqui sou eu” está negando o caminho da sinodalidade. Quando alguém se reforça no exercício do poder criando privilégios que o torna separado do conjunto, da comunidade, está absorvendo o lado mais sombrio da noite escura do mundo.

O Relatório Síntese do Sínodo nos diz que “o clericalismo, o machismo e o uso inadequado da autoridade continuam a marcar a face da Igreja e a prejudicar a comunhão”, e por esse motivo torna-se essencial uma reforma da Igreja, uma “profunda conversão espiritual e mudanças estruturais”, num diálogo aberto entre os diversos ministérios, entre leigos e padres, entre homens e mulheres.

A amizade social começa no interior das famílias, das comunidades, das paróquias. Antes de ser uma pregação para os outros, é um exame de consciência de nós mesmos. Na comunidade dos batizados não pode haver subordinação, exclusão ou competição. Ninguém reza mais bonito! A Igreja não é lugar para nenhum tipo de disputa ou de comando.

A semente do Sínodo está sendo semeada nas diversas culturas, nas diversas realidades. Por si só não se desenvolverá e dará frutos. O Espírito faz a sua parte, contudo depende da nossa pequena parcela de responsabilidade. Para que essa semente germine, brote, e cresça produzindo frutos sadios e apetitosos é preciso que sejamos bons agricultores, que reguemos as plantinhas da participação fraterna com muito cuidado e carinho. Não é momento para acerto de contas entre grupos. Não somos rivais, inimigos. Somos Povo de Deus que caminha, peregrino, sendo luz na noite sombria do mundo, TODOS JUNTOS.

Edebrande Cavalieri

O Regional Leste 3 da CNBB realizou sua Primeira Assembleia do Povo de Deus sob o tema “Comunhão, Participação e Missão: caminho para a

O Regional Leste 3 da CNBB realizou sua Primeira Assembleia do Povo de Deus sob o tema “Comunhão, Participação e Missão: caminho para a Igreja do Brasil”. Intercalando com momentos celebrativos, sob os olhares da Virgem da Penha, refletiu-se sobre a sinodalidade como desafio teológico e pastoral em tempos de amizade social e dedicou-se à escuta dos participantes, especialmente dos Referenciais das doze Comissões Pastorais do Regional, dos coordenadores de pastoral, reitores de seminários e demais segmentos da Igreja. Bispos, padres, leigos e leigas caminhando juntos como prática efetiva da Igreja do Espírito Santo – eis o caminho sinodal.

A constatação fundamental para o caminhar da assembleia é o fato de todos sermos batizados em um mesmo Espírito, formando um corpo, e todos termos bebido de um Espírito (1Co 12, 13). Desta forma, vamos tomando consciência de que os leigos e leigas participam do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, tendo papel próprio a desempenhar na missão inteira do Povo de Deus, na Igreja e no mundo. Esse é o caminho apontado pelo Concílio Vaticano II explicitado na Constituição Apostólica Lumen Gentium.

O Papa Paulo VI dizia que “o caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio”. Que caminho é esse? Uma sinodalidade que exclui algumas parcelas da sociedade, especialmente os mais pobres, não serve ao Espírito, não expressa comunhão e nem participação. No caminho sinodal devem estar TODOS. Por isso, na assembleia foi muito repetido: TODOS a caminho, TODOS a serviço, TODOS a celebrar, TODOS a buscar, TODOS a anunciar, TODOS na verdade da fé. O sínodo nos convoca para alargarmos as tendas, para que caibam TODOS.

Não se trata de todos fazerem as mesmas coisas. O itinerário do Espírito transforma a Igreja a partir de um só Batismo toda ela ministerial. É preciso ir além da sinodalidade hierárquica dividida em dois grupos: clero e leigos. É preciso recriar dinâmicas participativas para TODO o povo de Deus. Trata-se de uma normativa para a vida eclesial. Muitas vezes em nossa vida eclesial notamos uma concentração de poder ou de funções em determinadas pessoas, padres ou leigos, que impedem dessa forma outras pessoas participarem e se sentirem valorizadas em seu Batismo. O futuro da Igreja e a Igreja do futuro vão depender cada vez mais dos leigos e leigas a partir do sacramento do Batismo.

Muitas vezes, percebe-se grande preocupação de algumas lideranças religiosas ordenadas e não ordenadas com uma ênfase unilateral e excessiva na dimensão doutrinária e jurídica da Igreja. Ainda o Papa Paulo VI dizia que a Igreja de Cristo é chamada pelo próprio Cristo a uma “reforma perene”, permanente. Trata-se de reformar pessoas e a própria instituição, conversão não apenas da pessoa individualmente, mas da própria comunidade, da própria paróquia, da própria diocese. É tarefa permanente. As transformações institucionais muitas vezes dependem de mudanças jurídicas e normativas. Muitas vezes nos atrapalhamos com a crença de que “sempre foi assim”. E resistimos às mudanças. Contudo, a Igreja está na dinâmica histórica e não apenas no mistério da salvação. A norma não pode servir como impedimento para as mudanças que se fazem necessárias a partir da escuta do Espírito.

Há um risco de se entender a conversão apenas como uma ideia, que se torna com muita frequência numa fé ideologizada, fundamentalista e subjetivista. A conversão que se espera numa Igreja sinodal deve repercutir no caminho pastoral. Deve ser uma conversão pastoral integral. Os novos tempos exigem da Igreja enquanto povo de Deus esse processo.

Desta forma, a conversão pastoral integral integra de maneira radical uma conversão sociopolítica. Nesse sentido, o Relatório Síntese do Sínodo nos exorta como Igreja um comprometimento com a “denúncia pública das injustiças” perpetradas por indivíduos, governos e empresas e engajamento ativo na política, nas associações, nos sindicatos e nos movimentos populares, “sem qualquer discriminação ou exclusão de quem quer que seja”.

A conversão integral da Igreja inclui também a conversão cultural, constituindo uma nova cultura sinodal capaz de orientar a vida e a missão da Igreja. O relatório síntese nos fala do “rosto de uma Igreja sinodal”, “novo modo de ser Igreja que articula comunhão, missão e participação”. Nesse sentido, trata-se de uma valorização forte das diferenças culturais presentes na Igreja e do envolvimento de todos. O processo de conversão cultural inicia-se com a adoção de uma linguagem litúrgica mais acessível a cada cultura, ao homem de hoje, mais incorporada à diversidade das culturas. Até que ponto a Igreja hoje é luz no mundo da cultura? Como estamos construindo uma pastoral da cultura?

Por fim, não é mais possível tratar da conversão integral sem considerar a conversão ecológica. O grito da terra e das águas ecoa a cada instante em nossos ouvidos. Estamos ouvindo? Ou somente sabemos reclamar do calor que queima nossos corpos? Não basta ficar gritando contra o calor se continuamos a secar os rios, a derrubar matas, a jogar lixo sobre a terra, a devastar nossos rios com práticas mineradoras. Confessamos nossos pecados ecológicos? A destruição da criação de Deus talvez seja o maior pecado que a modernidade cometeu com a revolução industrial, com a colonização dos territórios, com a produção do desenvolvimento que vai destruindo e envenenando nossas terras. Cada um de nós é corresponsável na destruição das matas e dos rios.

Parafraseando Lucas 11, o sangue de todos os profetas derramado desde a fundação do mundo também é o sangue das florestas e dos rios; e esse sangue todo será requerido por Deus no fim dos tempos. Desta forma, uma Igreja sinodal sempre andará de mãos dadas com os pobres e excluídos que vão derramando seu sangue no dia a dia, e também com o mundo, nossa casa comum. O grito dos pobres também é o grito forte das matas e dos rios, dos animais e da vida.

Edebrande Cavalieri

A sociedade brasileira nos últimos dez anos sofreu um forte impacto no seu modo de viver e conviver socialmente, produzindo uma divisão radical em

A sociedade brasileira nos últimos dez anos sofreu um forte impacto no seu modo de viver e conviver socialmente, produzindo uma divisão radical em dois polos ou dois grupos que se fecham em suas convicções políticas, religiosas ou culturais. A disposição para estabelecer relações de diálogo definha a olhos nu. A situação é tão marcante que 78% dos brasileiros sentem que a sociedade ficou ainda mais dividida e 80% que cresceu a falta de respeito entre as pessoas.

Conforme a pesquisa feita pelo Instituto Edelman Trust Barometer em 28 países incluindo o Brasil, divulgada em abril desse ano, apenas 21% das pessoas estariam dispostas a ajudar alguém que pensa diferente delas e 22% apenas dispostas a trabalhar com alguém que tem ponto de vista diferente. Qual a percentagem de pessoas que estariam dispostas a rezar com grupos divergentes? Essa é uma ótima pergunta para um exame de consciência de cada cristão.

A polarização social transpôs as fronteiras sociais e atingiu frontalmente a Igreja de Cristo. Essa é a grande preocupação do magistério do Papa Francisco e da Igreja atual. Como enfrentar esse desafio? A divisão ao longo da história foi motivo de grande preocupação desde a era apostólica.

Qual o chamado que está sendo feito pela Igreja a todos os católicos? Com certeza, não é para fingir que nada está acontecendo. Não é para entrar num “faz de conta” que convivemos pacificamente. Somos chamados para viver um estilo da sinodalidade, buscando caminhos de reconciliação, de esperança, de justiça e de paz. Como superar a polarização e caminhar na amizade social?

Trata-se de um caminhar juntos como batizados, na diversidade de carismas, de vocações e de ministérios. Não é cada um cuidando do seu quadrado ou cada equipe eclesial cuidando apenas de sua função! É preciso reconstruir o rosto sinodal da Igreja como modo de atuar e trabalhar, como caminho conjunto do Povo de Deus, em diálogo fecundo de carismas e ministérios a serviço da vinda do Reino, que também já está entre nós. São Paulo nos diz que “todos fomos batizados por um só Espírito em um só corpo” (1Cor 12, 13).

No dia a dia essa imagem apresenta-se como um grande desafio. A sinodalidade não é ausência de conflito em uma Igreja que está “normalmente” em unidade. A Igreja não é um “grupículo” de anjos!  Como lidar com os conflitos? A prática sinodal apresenta-se como resposta profética da Igreja frente ao individualismo da própria Igreja, do populismo que divide e de uma globalização que homogeneíza e aplaina tudo impondo asfalto duro para peregrinos descalços.

Na Assembleia Sinodal realizada há poucos dias em Roma, a proposta metodológica foi iniciar com uma vigília espiritual denominada Together, juntos. Diante dos novos desafios, a Igreja propõe-se a uma reforma permanente que atinge três dimensões: conversão das mentalidades, mudanças de posturas e renovação institucional. No caminho sinodal não existe um grupo que ganha ou vence e outro que perde. Precisamos enquanto comunidade aprender a viver com consensos sofridos e plurais que não significam unanimidade. Esta é característica de regimes autoritários.

Os conflitos internos e com o mundo são desafiadores e profundos, porém eles nos ajudam a chegar a uma visão mais clara de nossa identidade cristã na medida em que se dá um processo dialógico de escuta paciente e escuta mútua. Quando não se tem tempo ou não se está disposto a escutar nem adianta achar que o tempo irá resolver nossos conflitos. Apenas ficarão cada vez mais graves. Cada cristão e, de modo especial, cada católico é chamado pela Igreja a um processo de conversão e de escuta.

Numa Igreja sinodal há espaços para divergências e conflitos e não podemos evitá-los. Não é fazer assembleia e colocar em votação para se saber quem venceu determinada questão. É preciso chegar ao ponto de transcender as abordagens conflitantes para encontrar outros caminhos melhores. Isso não é democracia, mas discernimento à luz do Espírito Santo. Se em um determinado ponto não se chegar a um consenso, é preciso ter paciência, ter tempo, ter humildade. O Espírito Santo vai agir na medida em que estivermos disponíveis para escutá-lo. O Documento sobre a sinodalidade publicado pela Comissão Teológica Internacional afirma que o caminho sinodal é o que “Deus espera da Igreja no terceiro milênio”.

Edebrande Cavalieri

 

As Dioceses com suas paróquias e comunidades iniciam no final de cada ano a preparação para a Campanha da Fraternidade do ano seguinte. Encontros,

As Dioceses com suas paróquias e comunidades iniciam no final de cada ano a preparação para a Campanha da Fraternidade do ano seguinte. Encontros, seminários, organização de grupos, tudo é cuidadosamente preparado para que o tempo da quaresma seja vivido de maneira ainda mais profunda. O tema – “Fraternidade e Amizade Social” – que nos propõe a Igreja é desafiador e vamos ter oportunidade de aprofundar em outros artigos. Hoje vamos refletir sobre o surgimento desse grande evento eclesial.

A Campanha da Fraternidade foi pensada desde o início no contexto da recepção das inovações do Concílio Vaticano II, das Conferências Episcopais de Medellin (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007). Portanto, está inserida como um Projeto de Evangelização e renovação da Igreja. Não é apenas campanha de arrecadação de fundos.

Em alguns anos as temáticas foram objeto de instrumentalização ideológica, em que algumas pessoas alegam a perda do sentido espiritual e litúrgico da Quaresma. E algumas chegam a atacar ou boicotar a Campanha da Fraternidade. Não estariam assim demonstrando sua escusa em assumir ações solidárias? Algumas lideranças religiosas vão caminhando fora da perspectiva sinodal de caminhar juntos e em comunhão. A vida do nosso povo não importa? Infelizmente, alguns católicos entram nessa onda, muitas vezes por falta de conhecimento.

Queremos aqui mostrar dois pontos que nos parecem fundamentais para entendermos as Campanhas da Fraternidade: iluminação bíblica e contexto histórico de seu nascimento.

A Campanha se desenvolve ao longo dos 40 dias da Quaresma e uma das práticas espirituais mais desenvolvidas é o jejum. O que é e o que significa essa prática? Qual sua fundamentação bíblica? No Livro de Isaias, capítulo 58 iremos encontrar qual o jejum que é agradável a Deus.

O texto bíblico é de uma clareza espetacular. “Que adianta jejuar, se tu nem notas? Por que passar fome, se não te importas com isso”?

O Senhor Deus, de maneira dura adverte: “A verdade é que nos dias de jejum vocês cuidam dos seus negócios e exploram os seus empregados. Vocês passam os dias de jejum discutindo e brigando e chegam até a bater uns nos outros”. Assim iremos encontrar pessoas que gritam aos quatro cantos da terra que estão jejuando, de barriga vazia, mas com os olhos enraivecidos, o coração petrificado, agindo na exploração do irmão faminto. E Deus alerta: “Será que vocês pensam que eu vou ouvir as suas orações”?

Desta forma, sendo a Quaresma também um tempo de jejum, é preciso que cuidemos para que essa prática não se torne nossa própria condenação, pois “não é esse o jejum que eu quero”, diz o Senhor. Fomos educados, no passado, a realizar práticas penitenciais de autossofrimento, autoflagelação, desligadas do agir propriamente cristão. Era um tempo de sacrificialismo e sem conexão com a vida prática. Qual o jejum que é agradável a Deus conforme o texto bíblico?

A descrição pormenorizada das práticas está baseada no conceito de justiça. O verdadeiro jejum se ampara no exercício da justiça. Então é preciso que soltem as pessoas que foram presas injustamente, que se alivie o peso que colocamos nos ombros de nosso próximo, que se garanta liberdade aos oprimidos, que se dê comida aos famintos, que se dê roupas aos nus, que se dê abrigo aos desabrigados.

Então temos que olhar o contexto histórico onde nasceu a experiência de solidariedade enquanto Campanha da Fraternidade, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. O que aconteceu de extraordinário ali?

É preciso retroceder até o tempo da II Guerra Mundial, quando os Estados Unidos decidiram entrar no conflito. Então montaram em Natal (cidade estratégica) uma base militar enviando um contingente de soldados que elevou a população local em 20%. Da noite para o dia a cidade se transformou.

De maneira abrupta os espaços urbanos foram reorganizados, bares e cabarés superlotados com comércio em dólar, espaços de lazer, mudança na linguagem, incremento da gastronomia, enfim, a cidade de Natal explodia com esses novos rumos. Mas o pior estava para acontecer.

Terminada a guerra, toda essa população não brasileira também da noite para o dia desapareceu das ruas de Natal. O que deixou? Uma cidade em ruína e miséria, muitas mulheres com filhos ou grávidas. A fome rondando cada rua, cada casebre.

A crise social da região descambou para o caos social. Uma iniciativa eclesial de emergência surge. Dois padres, Nivaldo Monte e Eugênio Salles que pouco depois tornou-se bispo auxiliar de Natal, iniciaram um movimento bem amplo no campo social, urbano e rural.

Iniciava-se ali o Movimento de Natal que impulsionou o planejamento pastoral, a organização de sindicatos rurais, a formação de escolas radiofônicas que fizeram germinar as Comunidades Eclesiais de Base, e principalmente a Campanha da Fraternidade realizada durante a quaresma.

Em 1962 foi realizada na cidade de Natal. No ano seguinte a experiência ampliou-se para 16 Dioceses do Nordeste. Em 1964, os Bispos Brasileiros encamparam a Campanha da Fraternidade com texto aprovado em assembleia para o Brasil inteiro. No próximo ano iremos comemorar o 60º aniversário.

No contexto do Movimento de Natal, ainda cabe ressaltar a experiência na Paróquia de Nísia Floresta/RN. Em função da carência de sacerdotes na Arquidiocese de Natal, essa paróquia foi entregue por Dom Eugênio Sales para ser administrada pelas Missionárias de Jesus Crucificado, dando-lhes todos os direitos e deveres de vigárias paroquiais, exceto a administração dos sacramentos da Penitência e da Eucaristia indo de 1963 a 1989. Era uma forma de a Igreja favorecer aos trabalhadores rurais condições para se tornarem protagonistas de seu destino.

Foi a partir do Movimento de Natal que a Igreja viabilizava daí em diante propostas de solução coerente com o pensamento da doutrina social, utilizando de seu prestígio para pressionar e sensibilizar as autoridades do país estimulando ações governamentais mais responsáveis. Nesse sentido, a Campanha da Fraternidade colocava em prática o texto bíblico descrito em Isaías 58 a respeito do verdadeiro jejum a ser concretizado durante a Quaresma. Não há dissociação entre fé e vida.

A Igreja saía em direção às periferias das cidades, especialmente de Natal; começava a desenvolver uma presença forte nos presídios; criava centros sociais para acolhimento das pessoas vulneráveis; desenvolvia o serviço de assistência a menores, especialmente infratores; e seu trabalho social alcançava os espaços rurais com Semanas Rurais em todo o Rio Grande do Norte. As escolas radiofônicas foram implementando educação de base especialmente nas áreas rurais. Foi muito destacado o trabalho da força jovem.

O Movimento de Natal contribuiu para transformações advindas do Concílio Vaticano II com a renovação das paróquias, renovação do ministério sacerdotal, renovação dos educandários católicos e seminários para formação dos novos padres e introdução da pastoral de conjunto.

Dessa forma podemos concluir que a Campanha da Fraternidade esteve iluminada desde seu início pelas Sagradas Escrituras, inserida no contexto histórico bem concreto das periferias geográficas e existenciais, e em plena sintonia com o Concílio Vaticano II e o Magistério da Igreja. A Campanha da Fraternidade não é apenas a coleta de doações, mas também projeto de evangelização que une fé e vida.

Edebrande Cavalieri

No último dia 20 de outubro, as Pontifícias Obras Missionárias, através da Agência Fides, divulgaram alguns dados atuais da situação da Igreja Católica no

No último dia 20 de outubro, as Pontifícias Obras Missionárias, através da Agência Fides, divulgaram alguns dados atuais da situação da Igreja Católica no mundo, que nos levam a pensar e nos aventurar com algumas possibilidades de caminho sinodal. Sem nos conhecermos, torna-se difícil esse caminho.

O número de católicos no mundo aumentou passando para 1.375.852 membros, perfazendo um total de 17,67% da população mundial. A população mundial hoje está em 7.785.769.000 habitantes. Às vezes, achamos ingenuamente que todo mundo é católico ou que somos a maioria. O que não é verdade. A realidade nos leva a ser mais humildes, me parece.

O primeiro dado que pode parecer preocupante é a diminuição do número de bispos tendo hoje 5.340. São 23 bispos a menos em relação ao ano passado. Também diminuiu o número de sacerdotes. Hoje temos uma média de 3.373 fieis por sacerdotes. Comparado com as comunidades cristãs evangélicas essa relação padre x fieis é desafiadora na pastoral, especialmente no acompanhamento a grupos e pessoas. Estamos na linha de frente do trabalho pastoral com Bispos e Padres em números decrescentes e isso é motivo de preocupação. Indica a diminuição das vocações, pois também o número de seminaristas maiores que estudam filosofia e teologia diminuiu.

Essa realidade do ministério ordenado é o grande desafio para a Igreja do século XXI. Seria o modelo presente seguro para enfrentarmos os novos desafios do mundo atual? Vamos aguardar os discernimentos que virão do Sínodo dos Bispos que está acontecendo em Roma. Contudo, não podemos deixar de refletir sobre essa realidade tão desafiadora. Em que condições o nosso sacerdote pode acompanhar pastoralmente quase 1.500 fiéis? E o Bispo realizando visitas canônicas e pastorais nas paróquias e comunidades de suas extensas dioceses em condições nem sempre favoráveis também é objeto de preocupação nos dias de hoje. Tantas vezes os fiéis católicos não se dão conta dos grandes desafios que enfrentam seus sacerdotes e bispos, achando que vivem na vida tranquila.

Um dado nos salta aos olhos: no mundo atual houve um aumento significativo dos diáconos permanentes chegando a 49.176 ordenados. A diaconia dá sinais claro de sua força na Igreja como foi na Igreja dos tempos apostólicos. E sabemos que em nossas comunidades a imensa maioria tem à sua frente mulheres que, mesmo não recebendo nenhuma ordenação ministerial, exercem fiel e eficazmente a diaconia. Como a Igreja irá aproveitar essas forças que o Espírito nos apresenta? Confesso que não podemos fingir de cegos diante de ecos tão fortes. Como reconhecer a diaconia de fato como uma diaconia de direito?

Outro dado muito significativo é a diminuição do número de catequistas em relação ao ano passado. Foram menos 5.397 catequistas que deixaram de exercer essa função hoje reconhecida como ministério. Como nossas Igrejas estão implementando o ministério do catequista? Não podemos ficar perdendo tempo em questões de menor importância na catequese e nem alimentar a onda polarizada que infiltrou em nossas comunidades. Um Igreja em saída como é sinalizada pelo magistério pontifício exige ultrapassar barreiras e chegar a todos e todas com a Boa Nova do Reino.

É muito significativo o fato de a Igreja católica manter muitas instituições educativas e assistenciais, principalmente nos países africanos e asiáticos. Alguns dados merecem ser destacados: 74.368 escolas infantis, 5.405 hospitais, 567 hospitais para tratamento de hanseníase, 14.205 ambulatórios, 9.703 orfanatos, 10.567 creches, 15.276 lares para idosos, 3.287 centros de educação e reeducação social. Geralmente essas instituições são ou foram necessidades nas terras de missão, e muitas delas hoje já não se mostram tão essenciais para o trabalho de evangelização. Muitas dessas instituições sobrevivem de doações cada vez mais escassas. Neste sentido, cresce o desafio de pressionar os poderes públicos para a implantação de políticas sociais eficazes especialmente nas regiões mais pobres.

Uma reflexão que emerge desses dados nos leva a pensar a evangelização não apenas a partir do ministério ordenado – diáconos, padres, bispos; mas a partir do serviço cristão decorrente do sacramento do batismo. Foi-se a época que se pensava o batismo como sacramento de salvação das almas. Dom Pedro Casaldáliga dizia: “Desejaria que todos e cada um de nós pudéssemos visitar, pelo menos em espírito, a própria pia batismal, mergulhar nela a nossa cabeça e descobrir a missionariedade do próprio batismo […]. Então, devo ser missionário. Se eu não sou missionário, então não sou cristão”. A salvação se dá na medida em que se põe a caminho do outro, das periferias.

Quando a vocação dos leigos e leigas assumem verdadeiramente o sacramento do batismo, que é fonte primeira e fundamental da vocação cristã, o trabalho de evangelização toma a perspectiva sinodal de uma Igreja em saída missionária para as periferias sociais, culturais, geográficas e existenciais. Celebramos recentemente o 12º Encontro de CEBs, representando 3.472 comunidades no Espírito Santo. Um dos marcos da caminhada das CEBs sempre foi marcado pela vocação decorrente do sacramento do Batismo. Ao redor da Palavra escutada e refletida, os cristãos, mesmo sem a presença do sacerdote, foram alargando a tenda para o acolhimento de todos e todas. Por esse motivo, nas Diretrizes Pastorais a CNBB atribui o nome de “Comunidades Eclesiais Missionárias”.

A realidade decrescente em alguns setores ministeriais da Igreja católica deveria servir de impulso, motivação, adesão para caminhar juntos sem ficar se lamentando. “A messe é grande, mas os operários são poucos”. Bem verdadeiro para os dias atuais.

Edebrande Cavalieri

Aconteceu entre os dias 13 a 15 de outubro desse ano o 12º Encontro das CEBs do Regional Leste 3 da CNBB, envolvendo as

Aconteceu entre os dias 13 a 15 de outubro desse ano o 12º Encontro das CEBs do Regional Leste 3 da CNBB, envolvendo as quatro dioceses do Estado do Espírito Santo na cidade de Colatina, tendo como tema “CEBs: Igreja em saída na busca de vida plena para todos e todas”. O lema que guiou esse encontro foi extraído da Sagrada Escritura (Is 65, 17): “Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra”. Grande sinal de esperança a nos guiar! Esse encontro representa de 3.472 comunidades do Espírito Santo, tendo as mulheres papel determinante em sua condução que com sua feminilidade e sensibilidade potencializam e fazem da Igreja lugar de gerar vida.

O que é uma Comunidade Eclesial de Base? São pequenos grupos que se organizam em torno de uma paróquia nas cidades ou nas capelinhas no meio rural, por iniciativa de leigos e leigas, padres, bispos. Elas possuem natureza religiosa e caráter pastoral, porém sempre organizadas como pequenos grupos de pessoas. Decorre dessa organização três forças: elas formam as pessoas, elas sustentam as pessoas e elas abrem o ambiente. A centralidade de cada comunidade está na escuta da Palavra de Deus e em sua vivência. Em tempos sinodais de hoje diríamos que elas alargam as tendas para que todos possam participar.

Uma definição que costumamos usar é de caracterizar as CEBs como “um novo e antigo jeito (modo) de ser Igreja” e “de toda a Igreja ser”. Entre nós, seu desabrochar com força se deu nos anos de 1960 com os novos ventos que vinham do Concílio Vaticano II. Contudo, sua presença está marcada desde os tempos apostólicos. Como?

Quando os apóstolos partiram em missão evangelizando as terras para além do mundo da Palestina e do Império Romano, sua preocupação primeira não foi olhar para si e lamentar que eram muito poucos diante dos desafios que estavam encontrando pelos caminhos. Sua primeira preocupação não foi aumentar o número com novos apóstolos. Em cada lugar que chegavam, logo iam organizando uma pequena comunidade de pessoas, e colocando à frente da mesma um responsável, homem ou mulher, que ficou conhecido como diácono, diaconisa ou presbítero.

Cada comunidade formada continuava sua vida cristã formando-se, lendo as Escrituras, partilhando o pão, celebrando com festas, repartindo seus bens com os mais necessitados. Foi assim que iniciou o caminho das primeiras comunidades cristãs. Por isso, dizemos que as CEBs são “um novo e antigo jeito de ser Igreja”.

Na celebração final do 12º Encontro de CEBs, Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa nos lembrava em cada momento da homilia que “a Igreja é para todos e todas, em busca de vida plena para todos e todas”. E pedia para cantarmos: “Irá chegar um novo dia, uma nova terra, um novo mar”. Vida plena para todos e todas. E completava: “É preciso mudarmos de paradigma e nos inserirmos na perspectiva de uma ecologia integral, formando gente nova, sustentando as pessoas na caminhada de maneira sinodal, alargando a tenda para caberem todos”.

Cada comunidade cristã torna-se comprometida com o alargamento das tendas para que caibam todos. Dom Lauro fez questão de registrar de maneira veemente: “Entre nós, nesta celebração, temos a presença dos povos originários. Não podemos esconder vocês”! O grito da terra e as lágrimas secas dos rios são também o grito e as lágrimas desses povos. E foi listando os grupos que não podem ser esquecidos ou escondidos: negros e negras, quilombolas, migrantes, imigrantes, crianças, idosos, professores, pobres, moradores em situação de rua, os jovens, as mulheres (…). Assim se constrói uma fraternidade cristã. “Todos somos amados por Deus”.

As CEBs possuem uma experiência religiosa profunda educando todos nas orações, nas rezas do rosário, nas vigílias, nas adorações, nas procissões, nas peregrinações e romarias. Assim rezam, cantam, comemoram, e assumem como centralidade a leitura da Bíblia em pequenos grupos ou círculos (bíblicos) discutindo à luz de sua própria experiência de vida. Era assim que as comunidades formadas pelos apóstolos caminhavam na fé. Dessa forma, as CEBs são um instrumento de evangelização e de promoção da pessoa humana.

Em nossa história, essa experiência de fé trouxe para a pauta as demandas de cada grupo, de cada rua, de cada rocinha. Isso passou a incomodar muita gente, pois com essa formação as pessoas começaram a exigir dos poderes públicos o direito à moradia, à luz elétrica, ao cuidado com esgoto nas cidades, à água potável, ao direito à terra. As comunidades tornaram-se escolas de lideranças políticas atuantes nos diversos conselhos, nas associações de moradores, nos partidos, nos sindicatos, nas câmaras de vereadores, nas assembleias legislativas e nos espaços do poder executivo. Foram as comunidades que fortaleceram a luta pelo bem comum, o bem de todos e todas, o incremento de políticas públicas.

A história das CEBs nos mostra que sua vocação fundamental é de serem proféticas, o que não significa capacidade de predizer o futuro, mas função de “edificar, exortar, consolar, denunciar”. Para isso, é preciso que cada líder comunitário não reduza a si o ser próprio da comunidade, como uma autorreferencialidade, como se fosse o dono da comunidade. O critério da profecia colocado por São Paulo sempre deveria ser exercido em benefício da comunidade. Nesse aspecto, Dom Lauro ainda na homilia da celebração de encerramento do encontro nos alertou: “Se cada um ficar cuidando dos seus negócios, das suas terras, do seu quadrado, não teremos vida plena para todos e todas. Teremos, sim, apropriação indevida do que Deus deu para todos nós”.

Por fim, da escuta dos grupos de trabalho do encontro e da análise do assessor que nos acompanhou em todos os momentos destacam-se alguns desafios decorrentes da realidade atual: necessidade de formação política e religiosa; resgate do trabalho de base nas comunidades; organização de equipes de educação popular; união entre fé e vida; o cuidado da casa comum; o ser Igreja em saída para as periferias sociais, culturais, geográficas e existenciais; a luta pela transformação social; o fortalecimento da eclesialidade em todos os níveis; incremento do modelo de caminhada sinodal.

Um registro forte e marcante foi a presença da imagem de Nossa Senhora da Penha trazida de Vitória, recebida pelos participantes no pátio da Paróquia Divino Espírito Santo (Colatina) e permanecendo presente em todo o tempo do encontro. A caminhada realizada no domingo da Praça do Sol Poente, passando pela Ponte Florentino Avidos até o Ginásio Castelão, seguindo os passos de Maria, representou de maneira viva a caminhada do povo de Deus, peregrino, em busca de novo céu e nova terra. Nossa Senhora é central nas devoções religiosas de nosso povo, e nas CEBs é expressão do acolhimento, do carinho, da ternura, da mãe que acolhe todos os seus filhos e filhas.

Seguindo as trilhas do Papa Francisco, por ocasião do XV Intereclesial ocorrido nos dias 18 a 22 de julho desse ano, em Rondonópolis (MT) em sua mensagem dirigida especialmente a esse evento, nos diz: “Sejam Igreja em saída e nunca escondida”. E que as CEBs possam “trazer aos desafios do mundo urbano e rural um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam a Igreja”.

Edebrande Cavalieri

Escrevendo esse artigo tendo como cenário uma notícia de intolerância religiosa ocorrida na cidade de Sete Barras, interior de São Paulo, dia 05 de

Escrevendo esse artigo tendo como cenário uma notícia de intolerância religiosa ocorrida na cidade de Sete Barras, interior de São Paulo, dia 05 de outubro, quando um grupo de criminosos invadiu a Igreja Matriz deixando um rastro de destruição. Usando de picareta, os criminosos cravaram a violência numa estátua de Nossa Senhora do Carmo e em outra de São João Batista, além de espalharem hóstias e roupas litúrgicas pelo chão, pisoteadas. Tudo isso numa cidadezinha pacata, desconhecida. Volta e meia essas cenas acontecem também em lugares pertencentes às religiões afro-brasileiras e indígenas. O nome disso é intolerância religiosa.

Ao mesmo tempo, em Belém naquele final de semana, a maior festa mariana em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, com milhares de pessoas expressando, das mais diversas formas, sua devoção e sua fé. Na semana seguinte, outra grande festa mariana, Nossa Senhora Aparecida.

Então, diante da festa de Nossa Senhora Aparecida, celebrada no dia 12 de outubro, bem próxima da festa do Círio de Nazaré, meu olhar de homem de fé e de ciência, me impulsiona na direção de luta contra essas atitudes.

Duas grandes festas Marianas, próximas nas datas e unidas na expressão popular da fé.  O espírito de mãe que acolhe a todos sofre quando seus filhos brigam entre si. Em tempos de tantas intolerâncias religiosas e ideológicas, o coração de mãe não comporta tantas divisões.

As devoções populares precisam ser olhadas a partir da situação em que o povo vive e está. Tantas vezes não tem mais em quem recorrer, a não ser na transcendência, na fé – último recurso de tantos pobres. Deixem o povo rezar, deixem o povo carregar suas imagens, deixem o povo fazer promessa. Deixem o povo celebrar seus orixás nos terreiros. A falta de fé não justifica tanta violência com destruição de imagens e espaços religiosos.

Registros históricos nos mostram que quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil trouxe consigo a imagem de Nossa Senhora da Esperança. E pouco tempo depois, em Porto Seguro, foi construído o santuário de Nossa Senhora da Ajuda. E também a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos.  Essa divisão da época colonizadora é contrária ao sentimento da Mãe de Deus. Ali nascia um ambiente de profunda intolerância e divisão.

A cultura brasileira vai sendo impregnada de devoções populares. Como esquecer dos versos escritos por Anchieta dedicados à Nossa Senhora da Conceição nas areias? Como não reconhecer a terceira festa mariana iniciada por Frei Pedro Palácios no penhasco da Penha? Enfim, nascemos como país e nação alimentados em nossa fé com muitas devoções marianas. Os títulos dados à Mãe de Deus expressam essa diversidade devocional.

Agora interessa-nos conhecer um pouco como nasceu a devoção à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

O contexto histórico do século XVIII do vale do Paraíba do Sul onde foi encontrada a imagem de Nossa Senhora Aparecida era marcado por forte crise econômica, com a escassez da lavoura e da mineração, e declínio do comércio pois por aí passavam as tropas de comércio rumo ao porto de Paraty no Rio de Janeiro. O próprio rio Paraíba já estava assoreado e com escassos pescados. Contudo, o povo alimentava sua fé em muitas devoções cultivadas em cabanas cobertas por sapé ou aos pés dos cruzeiros no cume das montanhas.

A pobre vila de Guaratinguetá, marcada pela vida de pescadores, recebe a notícia que servirá de hospedagem para a comitiva inteira do Conde de Assumar. Imediatamente a câmara de vereadores determina a pesca de peixes para o conde e designa João Alves, Domingos Garcia e Felipe Pedroso para tal tarefa. Sem esperança de encontrar peixes naquele rio assoreado, eles cumprem a obrigação. Nada estavam encontrando. Tentaram desistir, mas foram obrigados a percorrer mais extensão do rio.

E foi nessa busca desesperançada que encontraram o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição agarrado nas redes de pesca e mais distante a cabeça. Era o mês de outubro de 1717. A data exata do encontro da imagem no rio é imprecisa e por isso a CNBB em 1953 fixou o dia 12 de outubro como o dia da festa.

A imagem enegrecida não conferia com a original de Nossa Senhora da Conceição, de pele clara, manto vermelho e azul. Estudiosos como F. Alvarez explicam que no processo de cozimento da imagem retirada do forno estava com pele acinzentada e algumas partes rosadas. Depois de esfriada, o escultor aplicou uma tinta azul-escuro sobre o manto e uma tinta avermelhada no forro do manto. Contudo, a senhora clara nasceu negra.

O povo simples, pobre e muito devoto, logo foi acreditando que Nossa Senhora quis aparecer negra, pois era o período da escravidão. Era a mensagem de libertação dos escravos impressa na cor negra da imagem. E logo foi construída uma capelinha para ser venerada por seus filhos, pobres e negros. O povo passou a chamar de Nossa Senhora Aparecida. O lugar passou a ser ponto de encontro do povo da vila e dos viajantes que passavam por aquela estrada. Rapidamente, com as notícias de milagres, o lugar passa a ser centro de romarias.

A devoção se espalha rapidamente, pois ali era estrada de passagem de muita gente, migrantes, viajantes, tropeiros e comerciantes. Logo foi feito um santinho e distribuído para quem parasse na capelinha para rezar. A devoção popular cresce sem previsibilidade e muitas vezes sem razões plausíveis. Não vamos tratar da questão dos milagres, pois é outro capítulo muito importante que alimenta e fortalece a fé.

Um fato que merece ser refletido ocorreu em 16 de maio de 1978 e se relaciona com a cena descrita no início. Numa noite, após a celebração da missa a energia elétrica acabou. Todas as luzes se apagaram e um jovem reconhecido como evangélico pela própria comunidade jogou-se sobre o altar onde estava a imagem. Ao ser visto pela guarda da basílica ele deixou cair no chão a imagem que ficou toda quebrada em pedaços bem pequenos.

O povo devoto sente como se tivesse partido o próprio corpo. Ao contrário do que se espera, a devoção aumenta ainda mais. A destruição de imagens nunca significará a destruição de uma devoção. Os padres redentoristas que cuidavam da basílica encaminharam aquele saco de pedaços de imagem para o Museu de Arte de São Paulo para que fosse restaurada na forma como hoje se encontra.

Romarias aumentam a cada ano vindo de tantos lugares distantes. Fé e devoção no contexto atual deveriam expressar uma grande mensagem: independente da crença religiosa de cada um ou de não crença, o espírito materno que alimenta as devoções populares especialmente a Nossa Senhora deveria servir para que entre cada grupo haja mais respeito, diálogo, acolhimento e paz. Que a Nossa Senhora Aparecida seja a nossa Rainha da Paz. De verdade!

Edebrande Cavalieri