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Na abertura dos trabalhos da primeira Congregação Geral do Sínodo dos Bispos no dia 04 de outubro o Papa Francisco nos recordou que foi

Na abertura dos trabalhos da primeira Congregação Geral do Sínodo dos Bispos no dia 04 de outubro o Papa Francisco nos recordou que foi o Papa Paulo VI quem resgatou a ideia de sinodalidade na Igreja do ocidente. Para ele, a Igreja tinha perdido essa ideia. O Papa Francisco reconhece que mesmo após tantos anos essa mesma ideia não alcançou ainda o pleno amadurecimento e nem é compreendida amplamente dentro da Igreja.

Não se trata de um parlamento e nem de uma reunião de amigos, pois o protagonismo no sínodo não somos nós, mas o Espírito Santo, que traz harmonia à comunidade eclesial. Quem estiver na pura disposição de avançar nos interesses humanos e pessoais, ideológicos, estará no sentido contrário do que indica o Espírito Santo. O Papa nos lembra que as nossas diferenças e particularidades devem servir apenas como uma sinfonia com diversos instrumentos, criada e conduzida pelo Espírito.

Ele nos lembra ainda para tomarmos muito cuidado com as palavras vazias e mundanas, pois podem ser apenas uma tagarelice que é uma doença muito comum entre nós. É preciso dizer sempre a verdade e não ficar jogando conversa por debaixo da mesa.

O que podemos esperar da Igreja após a conclusão do sínodo no próximo ano? É preciso reconhecer que não teremos uma Igreja sinodal no dia seguinte. Não se caminha juntos do dia para a noite num toque de mágica. Já temos muitas estruturas que são sinodais entre nós, que funcionam de maneira sinodal. E elas estão bem pertinho de nós, no nível mais básico e imediato, na paróquia, nas comunidades, na diocese. A forma de atuar de tantos conselhos paroquiais, tantos conselhos econômicos, tantas instituições eclesiais, tendo leigos e leigas assumindo seu protagonismo batismal em comunhão com seu pároco e seu bispo, é experiência sinodal da melhor qualidade. O Espírito Santo não nos abandonou e nem nos abandonará. Essa é uma certeza de fé.

Por outro lado, os tempos atuais parecem conter grandes vendavais contrários à força do Espírito nesse barco da sinodalidade. Duas pesquisas recentes realizadas em trinta países incluindo o Brasil revelam que não estávamos com tanta disposição para caminharmos juntos. No Brasil, os dados da pesquisa do Edelman Trust Institute apontam que apenas 30% das pessoas estariam dispostas a ajudar quem pensa diferente; apenas 20% estariam dispostas a ter vizinhos com ideologias diferentes e até mesmo no trabalho apenas 20% gostariam de sentar ao lado de quem pensa diferente. A pesquisa ainda revela que 75% das pessoas não se sentem nem um pouco incomodadas por terem rompido relações com familiares e amigos durante os últimos anos por questões ideológicas. Como praticar o caminhar juntos sinodal se não estamos dispostos a andar lado a lado e compartilhar da palavra através do diálogo?

Diante de um mundo tão polarizado, a condução do sínodo pelo Papa Francisco está apontando para a necessidade imediata para se dar prioridade à escuta e colocar em jejum a palavra. A gritaria das redes sociais e da mídia em geral recebe o primeiro antídoto contra a força bélica das palavras e fazer avançar o silêncio da paz. O sínodo se inicia com a suspensão do tempo para entrar num silêncio ensurdecedor que permite a efetividade da escuta. Somos muito ansiosos porque estamos dominados pela rotina da palavra. A primeira atitude sinodal não é o som da palavra, o grito das redes, as palavras de ordem, as pautas ideológicas, mas o som do silêncio que nos permite ouvir o outro. Desta forma, o Sínodo nos ensina que as línguas do silêncio nos permitem ser dialogantes com Deus ouvindo o Espírito Santo e dialogantes com os outros.

Edebrande Cavalieri

No dia 30 de setembro desse ano, será realizado o novo Consistório que é uma assembleia solene convocada pelo Papa Francisco quando serão empossados

No dia 30 de setembro desse ano, será realizado o novo Consistório que é uma assembleia solene convocada pelo Papa Francisco quando serão empossados 21 novos cardeais que formam o colégio cardinalício. Ele será o responsável pela escolha de novo papa e também de prestar assistência colegialmente ao Pontífice na condução da Igreja. Esse é o nono consistório convocado pelo Papa Francisco.

O título de cardeal vem da terminologia latina cardo, que significa eixo sobre o qual gira uma porta. Ele está presente desde os tempos primitivos da Igreja quando o segundo sucessor de Pedro, o Papa Anacleto nomeou 25 presbíteros das comunidades primitivas em Roma. Contudo, na forma de título deu-se pela primeira vez com o Papa Silvestre que governou a Igreja entre 314 e 335. O período medieval sofreu alguns reveses em sua composição, com muitas disputas entre famílias romanas, e por esse motivo em 1.050 o Papa Nicolau II decidiu que a eleição do seu sucessor daí em diante seria realizada pelo colégio dos cardeais.

A convocação de um consistório pode ocorrer de maneira ordinária ou extraordinária para tratar de assuntos fundamentais da vida da Igreja. Portanto, trata-se de um conselho que está em permanente vigília em relação à Igreja do mundo inteiro em comunhão com o Papa. Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte e ex-presidente da CNBB, nos diz que a convocação de um Consistório é um “forte apelo a todos os batizados e batizadas para assumirem com empenho a missão de anunciar a Boa Nova do Evangelho, trabalhando incansavelmente pelo Reino de Deus”.

Entre os requisitos exigidos previstos no Código de Direito Canônico e observados na escolha dos novos membros do Consistório destacam-se “homens que receberam a ordenação sacerdotal e se distinguem pela sua doutrina, piedade e prudência no desempenho dos seus deveres”. São escolhidos livremente pelo Romano Pontífice.

Como se apresenta no novo colégio de cardeais que se completa com a nomeação de 21 novos membros? A primeira coisa que nos salta aos olhos é sua proveniência, mostrando assim a universalidade da Igreja. O Papa Francisco diminuiu a força numérica dos cardeais europeus e aumentou o peso da África e da Ásia que atinge o percentual de 48%. Também a Itália perdeu representação passando de 24% para 13%. Porém, esse grupo menor se apresenta mais homogêneo.

Entre os novos membros destaca-se a escolha do bispo argentino, Victor Manuel Fernandez, que é amigo pessoal de Francisco e grande colaborador em textos importantes como Amoris Laetitia. Também merecem destaques os nomes de três bispos que estão em países muito tensos – Jerusalém, Sudão do Sul e China.  É motivo de grande alegria para alguns países que viram pela primeira vez um cardeal como Lesoto, Albânia, Timor Leste e Tonga.

A maioria dos cardeais escolhidos no pontificado do Papa Francisco com menos de 80 anos – eleitores no conclave – vivem longe de Roma e dos seus boatos. Há uma desromanização e uma expressão maior da catolicidade no corpo cardinalício. Porém, tem vantagens e inconvenientes. Um deles confessa: “Por um lado, você escapa das intrigas de Roma e sem dúvida é mais consciente da real necessidade da Igreja. Mas, por outro lado, não nos conhecemos, ou apenas através da imprensa, com o consequente risco de caricatura”. Em razão disso, o próximo conclave deverá gastar mais tempo até a saída da fumaça branca.

A linha reformadora da Igreja defendida no Concílio Vaticano II e retomada com força pelo Papa Francisco, antes mesmo de sua eleição, era o maior desejo dos cardeais que o elegeram, porém esse grupo precisará de tempo para se conhecer. A valorização do Sul global traz essa consequência, especialmente na valorização da África e da Ásia.

É preciso destacar dois brasileiros estão entre os 21 membros: o Arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner. É o primeiro cardeal da Amazônia brasileira e já foi secretário da CNBB por duas vezes. O outro é Arcebispo de Brasília, Dom Paulo César Costa, que também é representante da CNBB junto ao CELAM.

Além deles, também se destacam dois arcebispos e um religioso que se distinguiram pelo serviço à Igreja. O religioso é o padre Luís Pascual, de Buenos Aires, com 96 anos e com grande e significativo trabalho dedicado à Igreja conforme nos diz o próprio Papa Francisco.

Dom Walmor destaca o papel fundamental do Colégio Cardinalício, a comunhão vivenciada em torno ao Sucessor de Pedro. Textualmente assim nos diz: “Essa comunhão estimula a Igreja a continuamente concretizar a comunhão em todas as suas instâncias, tornando-se uma Igreja sempre mais solidária e sinodal, capaz de ‘escutar com o coração’ o clamor dos que sofrem, ‘falar com sabedoria e ensinar com amor’”.

Pergunta-se: então o Papa Francisco estruturou um colégio cardinalício “a sua imagem e semelhança”? Seria muita ingenuidade nossa acreditar que esse corpo seja homogêneo em todas as questões. As resistências às reformas por diversas vezes confessadas pelo próprio Papa Francisco estavam presentes na própria Cúria Romana. O Papa que veio lá “do fim do mundo” enfrentou e enfrenta cotidianamente resistências. Não se trata de resistências doutrinárias como a Direita Cristã quer atribuir, mas pastorais. O Papa Francisco é o primeiro que foi ordenado sacerdote após o Concílio Vaticano II.

Os quatros pontos de sua fala às Congregações Gerais durante o conclave que o elegeu continuarão a repercutir no espírito do colégio cardinalício, que são direções apontadas pelo Concílio. Não deverá desaparecer a “evangelização como zelo apostólico” que supõe uma Igreja capaz de “sair de si mesma”, que abandone sua autorreferencialidade e sua autossuficiência que são raízes das diversas patologias eclesiais.

E por fim, com esse movimento de sair de si mesma, esse colégio de cardeais sinaliza o caminho que leva a Igreja “rumo às periferias geográficas e existenciais”. Como o Papa sinalizou na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium em 2013, esse colégio de cardeais traz em suas fileiras uma composição que deve ajudar a Igreja na alegria de evangelizar, com uma espiritualidade que se liga a um vigoroso compromisso social e missionário.

Edebrande Cavalieri

Há um ano atrás o Papa Francisco após viagem ao Canadá, de maneira muito clara e direta, apontou para um problema que tem crescido

Há um ano atrás o Papa Francisco após viagem ao Canadá, de maneira muito clara e direta, apontou para um problema que tem crescido muito com a formação de grupos, comunidades, seminários, que vão aderindo inconscientemente ou intencionalmente ao tradicionalismo. Há inclusive até ordenação de bispos sem o consentimento papal.

A polarização política que penetrou na Igreja contribuiu muito para essa onda nefasta e perversa, que perverte o Evangelho e o magistério da Igreja. Quando se ataca o Papa ou a Conferência Episcopal, a intenção que permeia esse ato não é a fidelidade à fé cristã, mas o enfraquecimento da autoridade eclesial para corromper as comunidades, as paróquias, o povo de Deus segundo interesses particulares.

Em tempos de redes sociais e crescimento do uso da mídia para atingir o povo conquistando seguidores, muitos influencers cristãos de muito longe estão “atrapalhando” o projeto pastoral conduzido pelas dioceses locais. Em conversas com alguns padres que foram alunos meus eles confessam que tem hora que dá vontade de desistir. O que se propõe como caminhada eclesial na Diocese é corrompido a partir de fora, com verdadeiros “gurus” que levam as pessoas mais simples para outro caminho. Esses influenciadores externos à comunidade estão criando um “magistério eclesiástico” contra o Concílio Vaticano II e contra o Papa Francisco, expressão do verdadeiro Magistério da Igreja. Na hora da Campanha da Fraternidade eles vão aparecer com muita pregação contrária.

Muitas vezes, esses “gurus” pouco ou nenhum compromisso eclesial de caminhada sinodal possuem. Acham que são os únicos capazes de salvar o mundo. Muitos deles são também influenciam na formação de seminaristas que estão se preparando para o sacerdócio. O responsável pela formação dos seminaristas da Igreja particular é o Bispo local a quem cabe o múnus episcopal.

O Papa Francisco, timoneiro da Barca de Pedro, a Igreja, assim esclarece dizendo quem são os tradicionalistas e o que representam: “Acho que isso está muito claro: uma Igreja que não desenvolveu seu pensamento no sentido eclesial é uma Igreja que anda para trás. E este é o problema de hoje, de muitos que se dizem ‘tradicionalistas’. Não são tradicionalistas, são ‘atrasados’, vão para trás, sem raízes. Sempre foi feito assim, no século passado foi feito assim. E o “andar para trás” é um pecado, porque não avança com a Igreja”.

Diante do pecado eclesial, a posição da Igreja ao longo da história é muito clara. Assim quando o Arcebispo tradicionalista Marcel Lefebvre em 1988 ordenou quatro bispos sem o consentimento do Papa, imediatamente foi excomungado. Não se trata de uma medida autoritária como muitos podem pensar. Trata-se da incapacidade de alguém que não consegue caminhar junto enquanto povo de Deus. Logo, caminha fora da Igreja.

O arcebispo acima citado não aceitou o Concílio Vaticano II, assim como tantos outros ministros ordenados também não aceitam ou proferem ensinamentos contrários ao que está aprovado em evento eclesial. Alguns até pregam a necessidade de um novo Concílio. Como? Não se brinca com essas ideias nefastas e diabólicas que querem afundar a Barca de Pedro.

Quando os primeiros cristãos se defrontaram com a questão da circuncisão das pessoas convertidas fora da Palestina, Pedro imediatamente convocou o grupo que estava trabalhando com São Paulo e o grupo que estava em Jerusalém e todos os demais apóstolos. O texto bíblico de Atos mostra até que ponto havia um risco de divisão da Igreja nascente, pois se pregava abertamente que aqueles que “não forem circuncidados conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser salvos”.

Os tradicionalistas sempre se apegam ao passado, ao que interessa do Antigo Testamento, à Igreja pré-Vaticano II. E nisso vão resistindo a mudar, a caminhar para frente, de maneira sinodal. Por isso, o Magistério da Igreja é muito zeloso na preservação e no cuidado com a unidade eclesial. Quem não quiser caminhar juntos tem a liberdade de buscar outro barco ou mesmo uma canoa furada, porém não permanecerá em comunhão com o Papa, com a Igreja.

É profundamente preocupante como muitos nutrem tanto ‘amor’ pelos costumes eclesiais pré-Vaticano. Não se trata de questão estética ou de saudade. É incapacidade de avançar. Demonstra incapacidade de conviver, concelebrar, de viver em comunhão. O Concílio nos fez olhar para frente. Retroceder como querem os tradicionalistas, não apenas é pecado, mas colabora para fazer definhar a Igreja.

Povo de nossas comunidades nas cidades e no interior, cuidado com santo de fora! Sempre ouvi esse ditado. Nem tudo que reluz é ouro. O primeiro compromisso assumido no batismo é caminhar junto na comunidade, na paróquia, na diocese. Nossa Igreja terá pela frente cada vez mais o desafio de fortalecer a comunidade local conforme o projeto pastoral estabelecido coletivamente e conduzido pelo Bispo da Igreja local. Não existe projeto pastoral de alguma pessoa mais iluminada que se diz salvadora do mundo.

Para onde o Espírito nos aponta no momento atual? Para o caminho sinodal e por isso o título do Sínodo que está acontecendo e chegará ao ponto mais alto em outubro é “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão”. A perspectiva tradicionalista não contempla esse caminho. Ao contrário, nega e renega. Esse caminho deve ser feito por cada comunidade, cada capelinha do interior que reza aos domingos ao seu modo ainda, cada paróquia, cada diocese, todos juntos. Uma Igreja em saída não é aquela em que se eleva um desbravador corajoso e vai abrindo caminho. A missão decorre da comunhão e da participação.

Edebrande Cavalieri

No dia 11 de setembro passado, o Papa Francisco recebeu os membros recém-eleitos que compõem a Presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe,

No dia 11 de setembro passado, o Papa Francisco recebeu os membros recém-eleitos que compõem a Presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe, ocasião em que o Pontífice ouviu dos bispos as alegrias, esperanças e também angústias do continente latino-americano.

Na linha do Concílio Vaticano II, o encontro dos Bispos com o Papa demonstra a importância da colegialidade episcopal e da sinodalidade, trazida por Francisco ao coração da Igreja. Ainda durante o Concílio, o Papa João XXIII manifestou de maneira veemente seu desejo que o povo de Deus, através dos bispos do mundo inteiro, fosse o verdadeiro protagonista do processo histórico. Portanto, não se trata de uma visita protocolar dos bispos latino-americanos e caribenho com o Papa Francisco. Ali tiveram ocasião de apresentar ao Papa as realidades vividas nas diversas conferências episcopais e os projetos em vista dos próximos quatro anos.

Um quadro sucinto do panorama do catolicismo nessa parte do continente nos mostra que 80,2% são de católicos perfazendo um total de 452 milhões de pessoas. Hoje o México é o país mais católico, ficando o Brasil em segundo lugar com 106 milhões de fiéis. Contudo, a diminuição do catolicismo no Brasil atinge a cifra hoje de 50% da população, com o veloz crescimento do pentecostalismo, neopentecostalíssimo e pessoas sem religião.

Os bispos puderam destacar para o Papa a força da vida religiosa feminina e dos leigos e leigas. Registraram que o maior destaque é com o ministério dos catequistas com 956.792, contudo em muitas Igrejas particulares esse ministério não está sendo implementado com reconhecimento explícito. Em tempos de sinodalidade, essa realidade requer que se reflita sobre o que Deus espera da Igreja nesse continente.

Partindo da realidade descrita pela Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil, vemos que diante de nós são apresentadas doze realidades que cada católico deveria considerar no seu agir missionário como Igreja em saída. Numa Igreja em processo sinodal, esses pontos indicam como todo o conjunto eclesial (bispos, padres, diáconos e leigos e leigas) deveria conduzir seu cuidado pastoral.

De imediato nos salta aos olhos a necessidade de reconhecer e valorizar o papel dos jovens nas comunidades eclesiais. Onde eles estão? O que fazem? No Primeiro Sínodo Arquidiocesano de Vitória e na escuta sinodal recentemente percebe-se um alto grau de esvaziamento da presença dos jovens nas comunidades. Sem eles, a Igreja definha e morre.

Outra realidade dura e antievangélica é a situação das vítimas de injustiças sociais e eclesiais nos processos de reconhecimento e reparação. O Papa Francisco tem demonstrado sempre grande preocupação com as injustiças eclesiais de maneira muito transparente.

O terceiro ponto destacado pela CNBB se refere à promoção da participação ativa das mulheres nos ministérios, órgãos governamentais, discernimento e tomada de decisões eclesiais. Não se trata apenas de reconhecer sua participação, mas de garantir sua inclusão nas instâncias de discernimento e decisão. Ainda nos chama a atenção esse ponto o apoio que deveria ser dado às mulheres nos órgãos governamentais.

A arquidiocese de Vitória está retomando a missa com os “políticos católicos”, porém o Arcebispo Dom Dario Campos enfatiza que “é necessário convocar a todos e todas a crescerem na direção de um verdadeiro e concreto amor social, capaz de construir e apontar novos rumos na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária”. Particularmente pude acompanhar as missas em anos anteriores com os políticos católicos, contudo a presença feminina como “políticas católicas” era bem ínfima. Está aí um grande desafio para as próximas eleições.

Essa decisão da Arquidiocese está em plena sintonia com outro desafio apontado pelos bispos do Brasil que é a promoção da participação dos leigos em espaços de transformação cultural, política, social e eclesial. Esse ponto também foi apresentado ao Papa pelos Bispos do CELAM. Trata-se de caminhar nas trilhas da Encíclica Fratelli Tutti, da melhor política, que seja capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos. Os interesses particulares e corruptos enfraqueceram muitas instituições fundamentais da sociedade latino-americano. É preciso agora uma política capaz de reformar essas instituições.

Ainda dois pontos merecem ser destacados no quadro latino-americano e caribenho apresentado ao Papa Francisco e explicitado pela CNBB de maneira bem radical. Na escuta sinodal também estiveram muito presentes essas duas realidades.

Em primeiro lugar é preciso aumentar a formação sobre a sinodalidade para erradicar o clericalismo. Não se trata apenas de reprodução de um discurso propagado, mas de uma vivência diária, em cada lugar em que se está. Não é um aprendizado mental sobre a sinodalidade, mas uma prática eclesial. Há muitos clericalistas que proferem discursos bonitos sobre sinodalidade.

O segundo ponto em destaque proposto pela CNBB é “reformar os itinerários formativos dos seminários onde são formados os novos sacerdotes, incluindo temas como ecologia integral, povos nativos, inculturação e interculturaldiade e pensamento social da Igreja”. Em muitos lugares há uma preocupação excessiva com conteúdo com pouca ou nenhuma aderência eclesial. São mais voltados para aspectos conservadores e tradicionalistas, pré-conciliares.

Por fim, a tarefa desafiadora dos novos tempos da América-Latina e do Caribe é a “promoção de um encontro pessoal com Jesus Cristo encarnado na realidade do continente”. Uma fé desencarnada, mais preocupada com usos tradicionais da vida litúrgica e sem aderência à realidade dura e cruel de nosso povo, não está em sintonia com o caminhar sinodal da Igreja conduzida pelo Papa Francisco em conjunto com os Bispos do mundo inteiro.

Edebrande Cavalieri

O Papa Francisco realizou no período de 31 de agosto a 4 de setembro a viagem a um dos países com menor número de

O Papa Francisco realizou no período de 31 de agosto a 4 de setembro a viagem a um dos países com menor número de católicos em torno de 1.500 fiéis. O Jornal Correio Brasiliense trouxe como manchete “O destino curioso do Papa, com pequena comunidade católica”. O Portal Terra considera como “visita discreta numa Mongólia budista”, contrastando com outras viagens internacionais que sempre causam grande impacto em termos sociais. Artigos destacam como “inesperada visita”. Por que tanta surpresa?

Antes da viagem, o Papa Francisco dizia: “Partirei em viagem de alguns dias ao coração da Ásia, na Mongólia. Esta é uma visita muito desejada e será a oportunidade de abraçar uma Igreja pequena em número, mas viva na caridade, para encontrar um povo nobre e sábio”.

A Mongólia é o 18º maior país do mundo, com mais de 1,5 milhões de quilômetros quadrados, com baixa densidade demográfica em uma população de, 3.3 milhões de pessoas. Seu relevo é marcado por estepes, e pouco arável, o que propicia a presença de povos nômades e seminômades em torno de 30% da população. Em termos religiosos 53% da população é budista, 3% muçulmanos, 3% xamãs, 2% cristãos, 0,04% católicos, 39% ateus.

A Igreja Católica só foi aceita oficialmente em 1992 na Mongólia, após o fim da aliança do país com a União Soviética, contudo o império de Genghis Khan que se constituiu num dos maiores impérios da história com 20.000 quilômetros quadrados, nos séculos XII e XIII, indo do Oceano Pacífico ao Mar Mediterrâneo tinha por tradição a tolerância religiosa entre as diversas tribos mongóis. Então o Papa destaca a longa história de tolerância e diálogo inter-religioso de seu povo como um grande bem.

Na verdade, essa viagem acontece num momento de tensões do Vaticano com a Rússia e a China, países vizinhos da Mongólia. E o Papa demonstra assim que “permanece firme no seu compromisso com o diálogo”, pois a Igreja Católica acredita firmemente nesse caminho para a paz.

Falando para líderes de dez religiões o papa disse: “O fato de estamos juntos no mesmo lugar já é uma mensagem: as tradições religiosas, na sua originalidade e diversidade, constituem um formidável potencial de bem ao serviço da sociedade. Para quem possui a responsabilidade das nações o caminho do encontro e do diálogo com os outros contribui de forma decisiva para acabar com os conflitos que continuam a causar sofrimento a tantos povos”.

Antes de se dirigir à pequena comunidade católica, o Papa fez questão de encontrar com uma senhora que encontrou uma imagem de Nossa Senhora no lixão e levou para casa. Quando soube que se tratava de uma imagem religiosa católica, imediatamente ela levou para a comunidade católica cuidar daquela imagem.

Então o Papa tomou esse fato para falar aos católicos: “Neste caminho de discípulos-missionários, tendes um apoio seguro: a nossa Mãe celeste, que quis dar-vos um sinal palpável da sua presença discreta e solícita ao deixar que se encontrasse a sua imagem numa lixeira. Naquele lugar dos detritos, apareceu esta bela estátua da Imaculada: Ela, sem mácula, imune do pecado, quis chegar tão perto a ponto de ser confundida com os desperdícios da sociedade, para que, da imundície do lixo, emergisse a pureza da Santa Mãe de Deus”. Na catedral de Ulan Bator essa imagem foi entronizada em 08 de dezembro de 2022 e nessa visita o Papa a abençoou.

Em seus discursos fez referência ao amplo horizonte geográfico desse país que ajuda a superar a estreiteza das perspectivas curtas, bem como a experiência do nomadismo das estepes que é um elemento identificador de diversas culturas e também um modo de como preservar o mundo em seu entorno. O Papa enfatiza que o povo mongol possui uma vasta sabedoria carente no mundo de hoje, que é míope na procura por interesses particulares.

Da experiência nômade o Papa extrai uma mensagem para o mundo atual: “Aquilo que a criação representa para nós, cristãos, isto é, o fruto dum benévolo desígnio de Deus, vós nos ajudais a reconhecer e promover com delicadeza e atenção, contrastando os efeitos da devastação humana com uma cultura feita de cuidado e previdência, que se refle em políticas de ecologia responsável”.

A questão geopolítica e ambiental está no horizonte dessa visita. Trinta anos após o fim da aliança com a União Soviética, a Mongólia presencia uma crise dos ideais democráticos e o crescimento da corrupção. Nesse aspecto, as influências dos países vizinhos Rússia e China podem fortalecer as tendências autoritárias e antidemocráticas. Por outro lado, não há relações diplomáticas entre Vaticano e China, que é um Estado ateu e exerce controle severo sobre as organizações religiosas. Isso gera sempre muitas tensões nos trabalhos diplomáticos.

Ao mesmo tempo, a preocupação com a casa comum em que os próprios mongoleses consideram seu país o segundo pulmão do mundo. Sendo um país muito pobre poderá abrir caminho para a exploração dos riquíssimos recursos naturais por parte de empresas russas, chinesas e australianas. O país enfrenta hoje uma grave crise ambiental provocada pela mineração, pastoreio excessivo e desertificação. Isso está provocando a migração da população para a capital, residindo em moradias precárias. A viagem do Papa então ganha muita importância no cenário mais amplo de seu magistério.

Um dos eventos mais significativos foi a celebração ecumênica e inter-religiosa no Teatro Hun reunindo representantes do Xamanismo, do Budismo, do Islamismo, do Judaísmo, do Hinduísmo e outras denominações religiosas. Essa celebração pretende representar o sinal de coexistência pacífica como vocação do povo mogol. Segundo o Pontífice, é preciso confirmar os ensinamentos que professamos para não sermos motivo de escândalo. “Nenhuma confusão, portanto, entre credo e violência, entre sacralidade e imposição, entre percurso religioso e sectarismo”.

Trata-se, enfim, de uma viagem que acolhe como Pastor o pequeno rebanho de 1.500 fieis, e também amplia o horizonte do magistério marcado pelo diálogo inter-religioso, diálogo ecumênico e cultural como antídoto à guerra; também é uma viagem marcada pela preocupação com a casa comum conforme está descrito na Encíclica Laudato Si’. Termina assim uma viagem definida pelo Portal do Vaticano como um “sussurro no silêncio da estepe”.

Foto capa: Vatican News

Edebrande Cavalieri

A morte de Dom Geraldo Majella, cardeal e arcebispo emérito de Salvador, repercutiu intensamente nos meios de comunicação e na mídia em geral, independente

A morte de Dom Geraldo Majella, cardeal e arcebispo emérito de Salvador, repercutiu intensamente nos meios de comunicação e na mídia em geral, independente do vínculo religioso. Os noticiários dedicaram grandes espaços para informações sobre a morte e o velório, porém o que mais nos chama a atenção é a vinculação quase automática com um dos organismos mais impactantes na sociedade que é a Pastoral da Criança, criada por ele em Londrina com a médica Zilda Arns, em 1983. Juntava-se a Dom Paulo Evaristo Arns que um ano antes teve um encontro com o diretor da UNICEF mostrando a preocupação com a mortalidade infantil objetivando enfrentar essa grande chaga social.

É nesse horizonte que o seu cuidado de pastor numa Igreja que se faz luz do mundo, transformando aquela realidade cruel, começa a mostrar resultados práticos. A taxa de mortalidade infantil era de 127 por cada 1000 habitantes. Um ano depois essa taxa caiu para 28 mortes no município de Florestópolis onde deu início. Hoje no Brasil a taxa de mortalidade infantil está em torno de 16 mortes por 1000 habitantes, contudo as desigualdades regionais mostram que no Norte do país a taxa atinge 21 mortes e no Nordeste 19.

O primeiro lugar para iniciar o movimento de cuidado com as crianças foi o município de Florestópolis. A morte das crianças era causada por diarreia que levava à desidratação e à desnutrição. Diagnóstico traçado em termos médicos. Como enfrentar essa realidade difícil? Dom Geraldo e a médica Zilda Arns iniciaram com uma receita simples composta do soro caseiro e uma mistura de farinhas. Nas mãos de voluntários, esse cuidado foi dando resultados altamente significativos, e foi crescendo até atingir o Brasil inteiro, a África, a Ásia e América Latina.

Sabemos que a Igreja não deve substituir as mãos do poder público. Porém, não podemos negar que foi a ação da Igreja nesse campo que pressionou os governos para políticas públicas eficazes. Mesmo assim, ainda hoje a Pastoral da Criança conta com mais de 260.000 voluntários, atuando de maneira ecumênica, promovendo educação e planejamento alimentar, hortas caseiras, aleitamento materno, etc. A mortalidade infantil é indicadora de saúde e condições de vida de uma população. A partir de 2010, o governo brasileiro estabeleceu uma política de vigilância do óbito infantil e fetal nos serviços de saúde, públicos e privados, que integram o SUS em vista do planejamento de ações para prevenção.

Podemos dizer com muita segurança que Dom Geraldo Majella exerceu o profetismo evangélico de maneira muito prática, acolhendo com amor, promovendo a fraternidade e a paz. Dom Sérgio da Rocha, atual arcebispo de Salvador, diz que ele marcou a Igreja pelo “jeito simples, fraterno, bondoso e delicado”. Sempre que o víamos nas mídias ficava e fica a imagem da mansidão. Aquela mansidão evangélica que Jesus tanto se referia. Não importam os cargos que ocupamos. Importa para qual finalidade os ocupamos. Alguns usam desses cargos para engrandecimento pessoal, mas Dom Geraldo sempre os colocava a serviço da Igreja.

A repercussão de sua morte ressalta sempre suas qualidades de “religioso íntegro”, “comprometido com as causas sociais”, “sinônimo de caridade, humanidade e de amor ao próximo”, que apontam sempre para a iniciativa fundadora da Pastoral da Criança.

O Papa Francisco, escolhido no conclave em que participava dom Geraldo escreveu: ‘Minhas orações são também de gratidão a Deus pelos longos anos de seu serviço dedicado à santa mãe Igreja, sempre guiado pelo zelo apostólico, nas várias missões que lhe foram confiadas como bispo de Toledo, arcebispo de Londrina, secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e, por fim, arcebispo primaz do Brasil e presidente da Conferência episcopal”. A sua grande marca foi sempre esse zelo apostólico fundamentado no cuidado que gera mais vida, mais força, une e protege. A CNBB destaca sua grande “afabilidade e virtude de criar laços de amizade e comunhão entre as pessoas”.

De maneira muito especial, a Igreja do Brasil ganha uma herança muito fecunda que sempre irá iluminar e animar a Pastoral da Criança, em sua tarefa de transformação social. Desse poço de águas limpas nasceram tantas outras inspirações, tantas fontes de vida para a superação das desigualdades sociais numa ação evangelizadora de transformação social. A herança deixada por Dom Geraldo Majella serve e sempre servirá para hidratar o caminho pastoral da Igreja. Fica a tarefa deixada por ele no sentido de criar laços de amizade que garantam a vida aos menos indefesos, as crianças. Muito obrigado, Dom Geraldo Majella. Avante, Pastoral da Criança!

Edebrande Cavalieri

Estamos a todo instante ouvindo dizer de uma tal “cultura do ódio” que impregnou as redes sociais e a sociedade brasileira nos últimos anos.

Estamos a todo instante ouvindo dizer de uma tal “cultura do ódio” que impregnou as redes sociais e a sociedade brasileira nos últimos anos. É tão forte que até mesmo o interior da Igreja foi contaminado pela polarização política, repercutindo como polarização religiosa. Nunca se fez tanta oposição ao Papa Francisco e à própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil como aconteceu e acontece ainda hoje. Quando será o dia que iremos superar essa cultura que não pertence ao Evangelho cristão?

Isso não afetou apenas a Igreja católica, mas as próprias Igrejas evangélicas. Pastores tornaram-se defensores das armas, da violência, da intolerância, da guerra. Que pastores? Aquele que está descrito nos Evangelhos como “bom Pastor” que conhece suas ovelhas e busca a ovelha desgarrada? Ou melhor, busca o voto perdido? A Igreja não é lugar para buscar votos, buscar juntar pessoas para a luta em prol de interesses de grupos privilegiados. Nem adianta dizer “Deus acima de todos”, pois a fé cristã tem outros fundamentos. A Igreja de Jesus Cristo está junto com seu povo, sofrendo e até sendo perseguida, para a luta pela justiça social e pelos direitos.

O antigo Conselho Pontifício da Cultura em 1999 publicou um conjunto de diretrizes para uma Pastoral da Cultura renovada pela força do Espírito. De maneira bem clara este Conselho nos diz que “uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno acolhida, não inteiramente pensada e nem com fidelidade vivida”. Mas que fé é essa? Com certeza não é aquela religiosidade superficial das pessoas enroladas na bandeira nacional postando-se de joelhos em frente aos quarteis. A que pastor essas ovelhas estavam seguindo?

Em suma, não é por esse caminho que iremos construir uma cultura de paz, daquela paz descrita no Evangelho como está escrito em Jo 14, 27: “Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbem os seus corações, nem tenham medo”. É percorrendo os caminhos da Palavra de Deus contida nos Evangelhos que podemos enquanto Igreja reconstruir essa cultura do ódio, da guerra e da morte.

Para isso, a tarefa da Igreja é ser luz do mundo impregnando a cultura com valores cristãos. No próximo ano teremos uma Campanha da Fraternidade que irá tratar da “amizade social”. Está aqui um compromisso evangélico que a Igreja deve espalhar pelo mundo a fora. Com essa campanha o episcopado brasileiro mostra sua preocupação em aprofundar a fraternidade como contraponto ao processo de divisão, ódio, guerras e indiferença que tem marcado a sociedade brasileira de maneira muito forte nos últimos anos. Chega de empunhar armas!

Como reconstruir a cultura brasileira na perspectiva de uma fé que se faz amizade? Em país como o Brasil marcado por vários séculos com uma cristandade é preciso fazer chegar essa mensagem nas diversas celebrações festivas, nas peregrinações, no turismo religioso, na piedade popular, com um envolvimento pastoral intenso das comunidades cristãs e com teólogos e pastores capazes para elevar uma religião baseada em crenças para uma fé expressa culturalmente.

Seria muito importante que as instituições educacionais, as universidades, os colégios, os centros de estudos e todos os grupos de expressão cultural pudessem acolher essa proposta em prol de uma nova cultura cristã, marcada pelo abraço social e não pelo ódio político.

Essa mesma cultura baseada na amizade social precisa chegar aos centros e cursos de formação teológica e cristã, aos seminários onde são formados os futuros padres, aos grupos de catequese, aos meios de comunicação e informação e, especialmente, aos jovens. É preciso superarmos a cultura do ódio mantido e alimentado nas redes sociais que dividiu famílias e amigos.

O Brasil dos últimos anos sofreu um desenraizamento cultural muito profundo, que se apoiava numa religiosidade dominada por crenças, favorecendo não apenas sua desestruturação e enfraquecimento ou até perda da identidade cultural. Não choramos a perda de fiéis católicos nessa transição cultural, mas lamentamos que esse terreno social tão frágil em sua fé cristã se tornou terreno privilegiado para práticas desumanizantes em termos de convívio social. O estrago foi grande com o crescimento das negações e violações da dignidade humana. A perda dos valores evangélicos da cultura brasileira é bem marcante e visível. Daí o fortalecimento de uma “cultura da morte”, e não da vida, pois se rejeita um Deus que é fonte de toda vida.

O desafio que se apresenta hoje de maneira urgente é evangelizar a cultura urbana, especialmente das periferias existenciais e geográficas. Foi nesse setor que o desenraizamento foi mais forte e foi também onde as novas práticas incutiram outro tipo de cultura que fala em Deus, mas não explicita esse mesmo Deus em sua fé. Torna-se crucial reestruturar formas de ação pastoral em vista da constituição de uma cultura da paz.

Edebrande Cavalieri

Em uma entrevista recente para a Rádio Itatiaia, Padre Fábio de Melo dizia que sempre acreditou que a fama seria perfeitamente conciliável com o

Em uma entrevista recente para a Rádio Itatiaia, Padre Fábio de Melo dizia que sempre acreditou que a fama seria perfeitamente conciliável com o sacerdócio, mas hoje reconhece que tem outra percepção. A fama pode prejudicar o sacerdócio e para isso ele tem tomado cuidado a cada momento. E completa: “Um dia eu descobri que muito tempo eu menti para mim. Eu dizia que a fama é perfeitamente conciliável com o sacerdócio, mas não é não. São duas coisas muito diferentes. A fama pode ofuscar profundamente o meu sacerdócio. Todo santo dia tenho que me lembrar o que eu sou e o que eu quis da minha vida. Eu quis ser padre. Eu sou essencialmente padre e, aonde quer que eu esteja, eu quero ser padre”.

Com o advento da cultura digital e das redes sociais os limites da ação pastoral não estão mais demarcados geograficamente. O padre pode ter uma paróquia, contudo sua influência se estende muito além desse limite eclesiástico. O padre Fábio, por exemplo, possui em suas redes sociais 25 milhões de seguidores. Por onde passar, na rua ou descansando, em volta de si estarão sempre centenas de pessoas querendo pelo menos uma fotinha no seu celular. Com certeza, o ego ficará muito inflado, mas onde fica seu lugar de sacerdócio? Cresce cada vez mais o número de líderes religiosos com dons artísticos fantásticos. Porém, essa questão levantada pelo padre Fábio merece algumas reflexões.

Gostaria de compartilhar muito essa fala do padre Fábio de Melo. Ela não é apenas importante para os seminaristas que estão se formando para o sacerdócio, para os padres já formados, mas principalmente para o povo de Deus. Nas últimas décadas, a cultura pentecostal sob a influência da cultura gospel desencadeou inicialmente no meio evangélico a emergência de líderes religiosos que são verdadeiros artistas que são utilizados para atrair as pessoas para suas Igrejas. Hoje vemos que algumas figuras dessa cultura constituem verdadeiras empresas que são contratadas pelas Igrejas a preços elevadíssimos.

O sacerdócio não pode ser objeto do mercado. Não está à venda e nem pode ser consumido como uma coisa. O sacerdócio é um serviço, que decorre de uma vocação. O perfil para o ministério ordenado segue outras características, outros caminhos. A sedução do mercado transformou a coisa religiosa, seja ela qual for, em objeto de consumo a preços muito elevados. Ao contrário, o serviço na Igreja e para a Igreja é dom, é gratuidade. Nenhum padre tem salário determinado pela fama. Nenhum pregador se define pelo valor monetário de suas palavras. Houve um tempo na Igreja que os bons pregadores eram pagos pelas irmandades com valores elevadíssimos.

Por outro lado, e talvez seja o ponto mais importante, o sacerdócio não pode ser buscado pelos fieis como se estivessem atrás de um mito, um artista, um influencer. Temos a tendência, como seres humanos, de misturar os lugares e buscar algo que na verdade não é. O padre deve ser buscado enquanto padre, enquanto pastor, enquanto servidor do Povo de Deus. Podemos seguir determinado sacerdote nas redes sociais com muita tranquilidade e isso ajuda na evangelização. Esse é um caminho muito adequado para aproximação com a camada jovem. Porém, jamais poderia ser seguido como se fosse um mito, um artista de televisão agora substituída pelas redes sociais.

A nossa fé não está marcada pela adesão como seguidor de um determinado ministro, muito menos como se fosse um guru, porque a fé nos reúne na comunidade e nos faz comunidade e nela deve ser vivida. Então o caminho é na direção da comunidade e não de uma determinada pessoa. É preciso tomarmos cuidado com algumas atividades pastorais que reduzem o compromisso da vivência comunitária da fé. Por isso é tão desafiador o chamado “turismo religioso” para o crescimento da fé.

A partir da comunidade a nossa missão é tornar o Reino de Deus presente no mundo vivendo um amor fraterno, humilde e de serviço aos caídos à beira do caminho. A Igreja não é uma empresa de negócios ou uma ONG como nos diz o Papa Francisco. O grande desafio do ministério sacerdotal está exatamente no serviço aos pobres e marginalizados, que não dá ibope, não alimenta o mercado. Por isso a percepção do padre Fábio de Melo sobre a incompatibilidade entre fama e sacerdócio, pois serviço aos pobres e exercício da profecia não estão adequados às leis de compra e venda. “A fama pode ofuscar profundamente o meu sacerdócio”, confessou.

Edebrande Cavalieri