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Estamos no mês vocacional e logo nesse início presenciamos o encontro do Papa Francisco com os jovens do mundo inteiro em Portugal por ocasião

Estamos no mês vocacional e logo nesse início presenciamos o encontro do Papa Francisco com os jovens do mundo inteiro em Portugal por ocasião da 37ª Jornada Mundial da Juventude. Nesse horizonte poderíamos fazer algumas reflexões voltadas para a vocação dos leigos e leigas, especialmente o chamado à santidade para os jovens.

O Concílio Vaticano II no Decreto sobre o “Apostolado dos Leigos” nos diz que diante de um mundo onde decai o número das vocações sacerdotais e religiosas e aumentam os desafios do mundo com novos problemas é preciso fortalecer o corpo místico de Cristo com o apostolado de todos os seus membros, em forma de conexão como se tudo estivesse interligado e de maneira coesa, onde cada um se torna cooperador da verdade.

O Papa Francisco na Jornada Mundial de Portugal diz aos jovens que está trazendo um sonho dentro do peito, um sonho de paz, um sonho de jovens que rezam pela paz, que vivem em paz e constroem um futuro de paz. E lhes diz: “Não temam, não tenham medo, todos vós quereis um futuro de paz”. O primeiro campo do apostolado dos leigos tem como horizonte o mundo. O Papa fez questão de ir a Fátima onde rezou junto com os doentes e reclusos, pela paz, mas sem publicidade, como fez questão de frisar.

Diante dos jovens, o Pontífice pede uma Igreja em que caibam todos e se não couber, arrumem algum espaço para que todos ali sejam acolhidos. Pelas pesquisas vemos como muitos jovens estão se afastando da vida eclesial, da vida de fé. Muitas vezes, estão saindo porque não encontram espaços para sua ação, para seu modo de agir. Pede-lhes que tenham um arraigado sentido de comunidade e uma grande fidelidade ao compromisso da comunidade, da catequese e da celebração da fé.

Nesse movimento de fortalecimento da vocação dos leigos, alguns desafios se apresentam e o primeiro deles se refere à formação de modo a compreender a sua missão enquanto sujeito eclesial, numa Igreja em saída e em processo sinodal. Outro grande desafio está em superar algumas Igrejas que se fecham à atuação dos leigos. Análises eclesiais nos mostram que desde a Conferência de Aparecida realizada em 2007 pouco se avançou no caminho como discípulo missionário.

Muitas vezes pensamos na vocação para a santidade somente na perspectiva daqueles homens e mulheres que deixaram as ocupações terrenas para se dedicarem como sacerdotes e religiosos nas coisas da Igreja. Na verdade, o chamado à santidade realiza-se ao pé da porta, com aqueles que vivem perto de nós, que caminham dia após dia testemunhando a própria fé. Uma Igreja militante nos caminhos da santidade. A Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate no diz que “a santidade é o rosto mais belo da Igreja”.

Enfim, a vocação para a santidade pode ser desenvolvida nos serviços e ministérios internos da Igreja e no encontro com o povo em suas necessidades. Uma Igreja em saída missionária e em processo sinodal é o caminho apontado nos tempos atuais para o crescimento da santidade ao pé da porta, entre nós, com todos.

Edebrande Cavalieri

Estamos acompanhando a realização da 37ª Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, Portugal, iniciativa profética criada há quarenta e oito anos atrás pelo Papa

Estamos acompanhando a realização da 37ª Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, Portugal, iniciativa profética criada há quarenta e oito anos atrás pelo Papa João Paulo II e realizada pela primeira vez em 20 de dezembro de 1985 nas Filipinas reunindo em torno de 4 milhões de jovens de todos os continentes. Os brasileiros se lembram muito da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro em 2013 quando se encontraram 3,7 milhões de pessoas. Trata-se de um dos maiores eventos da Igreja católica que através dos jovens busca construir pontes de amizade e esperança entre os continentes, os povos e as culturas. Na base do encontro, está uma vivência profunda da espiritualidade cristã e católica.

Para a Jornada Mundial que acontece em Portugal foi pensado um selo do Vaticano representando um navio de descobrimento tendo na proa o Papa Francisco e os jovens embarcados com ele. A reação contrária veio imediatamente e o selo foi retirado dos correios. Não era essa a Igreja que o magistério pontifício tinha desde o início das Jornadas. Não é uma Igreja colonizadora como a que aconteceu no século XVI. Mas uma Igreja acolhedora, misericordiosa, que se abre para o mundo como luz e como vida. Os jovens que se reúnem em Lisboa estão diante de uma Igreja em processo sinodal, que caminha junto com as dores e as angústias dos povos, uma Igreja em saída permanentemente. Jamais uma Igreja conquistadora!

É através desse caminho sinodal que a Igreja encontra os jovens em suas ansiedades e demandas, seus desejos e seus sonhos, porém sempre na perspectiva de encontrar Jesus Cristo como Caminho, Verdade e Vida. Muitas vezes confunde-se o engajamento das pessoas a partir de uma liderança religiosa que se apresenta como uma espécie de ídolo ou digital influencer. Há líderes religiosos que possuem mais de dez milhões de seguidores. São verdadeiros astros das redes sociais, formadores de opinião e influência. A Igreja em saída não se reduz a esse papel exercido pelos influenciadores. Não é para isso que a Igreja programa as Jornadas Mundiais da Juventude. Quando a fé se prende a um determinado indivíduo é como construir uma casinha num terreno movediço. Afunda muito rapidamente. Trata-se de abrir a possibilidade para que os jovens encontrem o rosto de Jesus Cristo, sua Palavra de salvação e se tornem seus discípulos. Não seguidores de um determinado influencer.

A realidade dos jovens no mundo atual mostra como tem crescido o número daqueles que perderam a fé e se comportam como se Deus não existisse. O Papa Francisco nos diz que estamos diante de um tempo de ruptura na transmissão da fé entre as gerações do povo de Deus. Há desilusões com a Igreja? Sim. Não podemos negar, mas isso não é um destino fatalista. Em muitas famílias tem desaparecido o movimento para batismo dos próprios filhos. O que está acontecendo? Durante a escuta sinodal foi possível perceber muitas dores e sofrimentos nessa caminhada, e também muito sentimento de comodismo e falta de compromisso das famílias ditas cristãs. Sem batismo, sem orações, sem compromisso com a comunidade. O que esperar da juventude nesse mundo?

Durante a realização do I Sínodo Arquidiocesano de Vitória, nas sessões sinodais nos perguntávamos: onde estão os jovens? Nas reuniões das comissões de serviços eclesiais, nos conselhos das comunidades, paróquias e arquidiocese, também nos perguntamos: onde estão os jovens? Deixamos abertas as portas para que eles não apenas participem, mas se tornem protagonistas no caminhar eclesial?

Na mensagem enviada aos jovens do mundo inteiro há um ano atrás o Papa Francisco lembrava que estamos passando por tempos difíceis, não apenas decorrentes da pandemia, mas de uma humanidade dilacerada pela guerra. E apresentava naquele momento o tema da Jornada: “Maria levantou-se e partiu rapidamente”. Diante desse mundo é preciso termos pressa e os jovens podem se a expressão concreta do caminho da proximidade e do encontro, para que esse mundo possa erguer-se como caminho da paz e da vida.

A Jornada Mundial da Juventude não pode significar um “fogo de artifício” que acende num momento e apaga-se em seguida. Não pode ser expressão de um entusiasmo fechado em si mesmo. Os jovens numa Igreja em saída missionária devem estar integrados à pastoral juvenil de cada Igreja particular. Podemos até perguntar: onde estão os jovens que participaram da Jornada Mundial realizada em 2013 no Rio de Janeiro? Onde eles estão agora? O que estão fazendo nesse mundo? Foram integrados nas comunidades eclesiais? Que ações protagonistas estão realizando? A Igreja que sai se coloca a serviço, sempre.

Nessa perspectiva temos que interpretar o crescimento das Igrejas evangélicas, especialmente o aumento da juventude. Essas Igrejas tiveram nas últimas décadas uma expansão enorme nas periferias geográficas e existenciais, e nos mais distantes rincões do Brasil. Ali oferecem às populações mais chamado

uma espécie de serviço social informal, ocupando os espaços abandonados pelo poder público. E o chamado dos jovens evangélicos é feito em vista da mediação dos conflitos familiares, atuação na captação e doação de cestas básicas, no cuidado com os dependentes químicos, no atendimento aos doentes das comunidades, na incorporação dos mais miseráveis. Enfim, abraçando os sobrantes.

Os sonhos de nossos jovens vão muito além dos serviços ao altar, nas ações litúrgicas em geral. Também não podemos nos iludir com o número dos que servem ao altar. É pequeno em vista da quantidade de jovens de nossas comunidades. Os jovens nos diziam no I Sínodo Arquidiocesano que pouco entendiam das liturgias e seus movimentos. Acreditamos que o sonho dos jovens está na direção da construção de pontes de amizade e esperança, num envolvimento que abraça o mundo muito além dos limites das doutrinas e do poder.

As Jornadas Mundiais da Juventude precisam expandir aqueles momentos de grandeza com milhões de participantes e motivar os jovens para um caminho conjunto na construção da esperança, da paz e da solidariedade, como protagonistas e não como seguidores de A ou B, mas seguidores de Jesus Cristo.

Edebrande Cavalieri

Olhando o contexto atual de tanta violência nos morros de Vitória, com ocupação das forças de segurança de maneira intensiva, onde impera a voz

Olhando o contexto atual de tanta violência nos morros de Vitória, com ocupação das forças de segurança de maneira intensiva, onde impera a voz do comando e das ordens e, por outro lado, a extinção da proposta das escolas cívico-militares e algumas iniciativas para sua manutenção, fiquei refletindo muito sobre o que a Igreja poderia fazer para os nossos jovens. O que ela tem a dizer e a propor para eles em termos de educação? Será que o caminho deveria ser esse da força e do medo, da repressão e da eliminação?

Nas minhas memórias encontrei um bem precioso na carreira de professor. Em plena ditadura militar, década de 1970, eu estava em Vitória buscando colégio para trabalhar como professor. A primeira porta que se abriu para mim foi o Colégio Salesiano Nossa Senhora da Vitória, no Forte São João. E antes mesmo de pisar numa sala de aula fui convocado para uma preparação pedagógica sobre o sistema preventivo de educação criado pelo fundador dessa ordem religiosa, Dom Bosco.

Há mais de duzentos anos esse santo escrevia o livro “O sistema preventivo na educação da juventude” a ser aplicado às crianças e jovens das periferias urbanas, aos pobres, aos que buscam viver dignamente. Esse sistema é o oposto de outro sistema, o repressivo, o punitivo. Sua opção era a educação para a vida, onde os jovens se divertem muito na escola numa verdadeira gritaria da alegria tendo em seu meio os padres e professores do colégio.

Quando finalmente iniciei as aulas no Colégio Salesiano pude entender a orientação do diretor aos professores para que tomássemos o café com calma e depois percorrêssemos as quadras onde os jovens estavam. Ali pude perceber a grande diferença entre educar para a vida e a educação para a submissão, para a disciplina rigorista. O sistema repressivo leva os jovens a conhecer as leis e lhes impõe um sistema de vigilância extraordinário para conhecer os transgressores e aplicar-lhes o castigo. Muitos jovens das escolas militares foram levados para as delegacias que são lugares de criminosos e não de estudantes.

Conforme pensava Dom Bosco, esse sistema repressivo pode funcionar no exército, mas nos jovens em geral os resultados são muito pequenos. Os superiores desses jovens submetidos à repressão educativa jamais serão amados e poderão ser respeitados, por medo das punições. Com o sistema repressivo os jovens não mudarão de vida por convicção íntima, mas apenas por pressão externa.

No sistema preventivo de Dom Bosco há sim muita vigilância, muito acompanhamento, contudo tal atitude reveste-se de um olhar amoroso dos diretores e assistentes, dos professores e coordenadores. A correção é feita com amor, com amabilidade, e não com o medo. A orientação pedagógica é constante e mais intensa que a correção punitiva. Lembro que havia alunos suspensos de aulas, mas eram raros. Geralmente quando o professor não conseguia conduzir em sala de aula, era a coordenação e a orientação educacional que entravam para ajudar. Muitas vezes, havia também ajuda de psicólogo em determinados casos.

No sistema preventivo alunos não são envergonhados por erros cometidos. Cada pessoa que trabalha nos colégios conduzidos por essa pedagogia é orientada sempre a agir com amor. Os jovens sentem que são amados. Dom Bosco usava uma palavra em língua italiana para expressar esse sentimento pedagógico: “amorevolezza”. Trata-se de uma amabilidade que sustenta a relação entre educador e educando, onde impera o afeto, o respeito, a exigência, as boas maneiras e os gestos para com o outro. O Papa Francisco chama esse sentimento de “força revolucionária”.

É muito significativo que no contexto atual de tanto ódio e intolerância o Papa Francisco tenha escolhido como futuro cardeal da Igreja o padre salesiano Ángel Fernández Artime, atual Reitor-Mor da congregação. Estará presente em Lisboa entre os dias 02 a 06 de agosto desse ano para a Jornada Mundial da Juventude com o Papa. Sua escolha como cardeal mostra para toda a Igreja o eixo em que se deve mover a educação da juventude.

Como cristãos não podemos estar ao lado de um sistema educativo punitivo, rigorista. Dom Bosco dizia que era preciso que o oratório fosse sempre festivo. Quando o oratório se mostrava triste, com poucas crianças brincando, a maioria cabisbaixas e desconfiadas de seus superiores, era sinal da ineficácia do sistema preventivo.

Hoje depois de uma carreira docente percorrendo todos os graus de ensino percebo como me fez tanto bem começar naquelas salas de aula tentando aplicar o sistema preventivo de Dom Bosco. Como era bonito ver o colégio incentivando tantas diversões, ginásticas, esportes, música, teatros, passeios, ação de graças, gincanas, festas! Esse é o caminho desejado pela Igreja em seu conjunto. É preciso formar os jovens e educá-los pelo amor e com amor. Amorevolezza!

Edebrande Cavalieri

A vida moderna urbana vai criando uma sociedade cada vez mais enclausurada em casas de portas fechadas, cheias de grades, até com cercas elétricas

A vida moderna urbana vai criando uma sociedade cada vez mais enclausurada em casas de portas fechadas, cheias de grades, até com cercas elétricas sobre os muros. Como é triste ver uma casa de família parecendo uma prisão! Vivi os tempos em que as portas serviam apenas para impedir a entrada de animais nas casas. Normalmente nem fechadura se usava. Uma simples tranca feita de madeira ou um ganchinho feito com arame bastava para sinalizar aos animais que ali estava um limite intransponível. Mesmo assim muitos se aventuravam pelas janelas que ficavam abertas.

Casas arejadas, ventiladas, cheias de luz, cheias de vida. Como era bom dormir olhando para o céu estrelado ou numa noite enluarada! Eu, particularmente, vivenciei casas muito simples; algumas feitas de estuque e até de chão batido, sem assoalho. Mas eram casas alegres e abertas. Vizinhos, amigos, parentes, todos encontravam casas abertas.

Essa imagem que parece quase poética foi usada pelo Papa Francisco ao entregar os pálios aos novos arcebispos em Roma pedindo-lhes uma Igreja de “portas abertas”, pois nela “há lugar para todos”. E continuou: “Ide aos cruzamentos e tragam todos os cegos, surdos, coxos, doentes, justos, pecadores, todos. TODOS! Tantas vezes tornamo-nos uma Igreja de portas abertas para dispensar pessoas, para condenar pessoas”. E na conversa mais reservada a dois arcebispos disse: “Para a Igreja, este não é o tempo das despedidas, é o tempo do acolhimento”. “Todos, todos. Mas são pecadores…TODOS”, insistiu o Pontífice.

Precisamos de uma Igreja que seja capaz de olhar o mundo, que não se feche sobre si mesma, olhando para o próprio umbigo, uma espécie de self eclesial. Somos verdadeiras prisões de nós mesmos, autorreferentes. Precisamos sair das prisões para ir ao encontro do mundo.

Foi assim que os Apóstolos entenderam a sua missão. Era preciso deixar Jerusalém e ir ao encontro de todos os povos. Nascia com a missão apostólica a mística de uma Igreja em saída. Igreja de portas fechadas jamais conseguirá estar em saída. Só da boca para fora, para causar boa impressão muitos se dizem Igreja em saída.

O ensinamento do Papa aos novos arcebispos vai se ampliando. E diz: “Uma Igreja livre e humilde, que se ergue depressa, que não adia, não acumula atrasos face aos desafios de hoje, não se demora nos recintos sagrados, mas deixa-se animar pela paixão do anúncio do Evangelho e pelo desejo de chegar a todos, e a todos acolher. Não esqueçamos esta palavra: TODOS”.

Estamos na reta final do Sínodo que se realizará em Roma como um processo que nasceu nas comunidades de cada paróquia do mundo inteiro respondendo uma questão fundamental: como é o caminho em conjunto hoje em nossa Igreja, em nossa comunidade? Que passos são indicados pelo Espírito para crescermos no nosso caminhar juntos? Com portas fechadas, impossível caminhar juntos. Portas abertas, “uma Igreja sem correntes nem muros, onde cada qual se possa sentir acolhido e acompanhado, onde se cultive a arte da escuta, do diálogo, da participação, sob a única autoridade do Espírito Santo”.

Vivemos na Igreja algumas resistências ao próprio Papa, resistências às mudanças onde muitos religiosos preferem uma Igreja da conservação dos tempos antigos, uma Igreja que sobrevive na vida pastoral marcada pela tibieza e pela inércia. Pastoral da conservação! Jamais uma Igreja missionária, em saída. O Espírito nos aponta o caminho sinodal como fundamental nos dias atuais para o fortalecimento da vida eclesial.

O Papa ainda nos desafia perguntando: o que cada um de nós pode fazer pela Igreja em vez de ficar criticando o tempo todo? E pede aos católicos para que superem os mecanismos frágeis do poder, do mal, da violência, da corrupção, da injustiça, da marginalização. “Que podemos fazer juntos, como Igreja, para tornar o mundo em que vivemos mais humano, mais justo, mais solidário, mais aberto a Deus e à fraternidade entre os homens”?

Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa, presidente atual do Regional Leste 3 da CNBB, no encerramento do encontro realizado no dia 01 de julho deste ano, com a presença dos bispos das quatro dioceses do Espírito Santos, dos coordenadores de pastoral e das lideranças das doze Comissões Pastorais Regionais fez referência a esse modo processual de caminhar juntos, de maneira sinodal, onde todos participam. Bispos, Padres e Leigos! Todos juntos.

Abrir as portas nos tempos mais difíceis da história tornou a Igreja mais forte para enfrentar as dificuldades. Trancar-se com medo do mundo para não se sujar representou na Igreja um dos pecados contra a mística de uma Igreja em saída. A parábola dos talentos reflete exatamente essa perspectiva. Não se pode enterrar com medo de perder. A Igreja verdadeira sempre será aquele descrita pela Lumen Gentium – Luz dos Povos. Abrir as portas para que todos possam entrar e encontrar a luz, e não trancar as portas recolhendo apenas os “puros”, os “fieis”. Diz o Papa, repetindo: “Não esqueçamos esta palavra: TODOS”.

Edebrande Cavalieri

O Censo 2022 do IBGE começa a ser conhecido com a divulgação de alguns resultados e um dos primeiros dados que nos chama a

O Censo 2022 do IBGE começa a ser conhecido com a divulgação de alguns resultados e um dos primeiros dados que nos chama a atenção se refere à relação entre o número de pessoas e os domicílios. No Censo de 2010 o Estado do Espírito Santo apresentava uma média de 3,19 pessoas por habitação. Agora esse número cai para 2,13 numa população total de 3.833.486 habitantes.

Junto a esse dado, a taxa de crescimento anual da população brasileira é de 0,52%. Estamos diante da menor taxa de crescimento populacional. Isso significa que não se repõe nem mesmo o número atual da população. Estimava-se que a população do Brasil chegasse a 213 milhões de pessoas, mas na verdade chegamos apenas a 203 milhões. A taxa de crescimento decaiu de 1,17% em 2010 para 0,52%. A queda é muito grande para apenas dez anos. Ainda podemos destacar as maiores quedas que foram na região sudeste com 0,45% e nordeste com 0,24%. Apenas a região centro-oeste cresceu acima de 1% (1,23%).

Esse quadro pegou de surpresa os especialistas em geografia humana. Esses dados foram considerados inesperados e inusitados, mas são reveladores de muitas questões que deverão nortear nossos cuidados nas diversas ações de planejamento e educação. De maneira muito especial, esses dados deverão ser observados pelas lideranças religiosas que atuam com pastoral familiar.

Teremos uma tendência nas próximas décadas de redução da população brasileira. Ao mesmo tempo já podemos perceber a diminuição da população do Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Belém. Crescem, contudo, as cidades próximas a essas capitais. Trata-se de um dado muito significativo para os gestores de políticas públicas. Estamos criando cidades periféricas, municípios periféricos e não apenas periferias nas grandes cidades. Não apenas há um movimento populacional para cidades próximas como também uma reprodução dos mesmos problemas enfrentados nos grandes centros urbanos.

Com esses dados, vai desaparecendo aquela imagem de se entrar numa casa e encontrar muitas pessoas morando. Eram famílias com elevado número de filhos. Algumas questões podem ser feitas e refletidas e colocadas sobre a mesa de diversas organizações principalmente as Igrejas. Como iremos pensar a pastoral familiar nesse novo contexto social?

Cresce o número de casais que fizeram a opção de não ter filhos. Como então podemos pensar uma família com a ausência de filhos? Nem filhos adotivos estão presentes nessa nova configuração familiar. Vamos ter em breve uma sociedade envelhecida demais, numa espécie de desiquilíbrio habitacional. Teremos então a necessidade de pensar políticas públicas com os olhos voltados para essa sociedade de idosos.

Temos visto a preocupação da Igreja na pessoa do Papa Francisco com a presença dos avós e idosos nas famílias. Neste ano, a mensagem do Papa fazia referência ao texto bíblico – “De geração em geração, a sua misericórdia” (Lc 1, 50). Como dar-se-á doravante o desafio da continuidade geracional? Na história houve época próxima ao ano 1000 em que as pessoas escolhiam não se casar e nem ter filhos, pois compreendia-se que o fim do mundo estaria chegando. Foi preciso a Igreja mudar radicalmente sua ação pastoral junto à sociedade.

Morre-se sem deixar herdeiros, uma nova geração! Parece muita loucura pensar nisso, porém a pesquisa do IBGE serve para que olhemos com mais cuidado para a nova realidade habitacional que vai crescendo entre nós e não fiquemos com imagens de um tempo que não existe mais.

Outra questão que brota desse encolhimento familiar se refere ao fato de termos muitas residências com apenas um morador. Nem mais se fala em família a partir da moradia; cresce a configuração habitacional de uma pessoa isolada, vivendo na solidão cercada de paredes. Os quadros de doenças mentais decorrentes desse contexto são muito grandes e complexos. A solidão pode ter crescido muito entre nós. E junto com ela a amiga inseparável, a depressão. E nos casos mais graves a interdição da vida.

O que está levando as pessoas, os casais, as famílias a reduzirem o número de filhos, levando a essa situação de decrescimento populacional? Será que se trata apenas de uma escolha subjetiva, baseada num comodismo? Estamos atentos mesmo com a realidade social de nossas cidades? Ou estamos colocando a pobreza debaixo do tapete e olhando apenas a violência das armas de fogo atingindo prédios mais próximos?

Penso que devamos ampliar o horizonte de nossa análise desses dados demográficos. Há um conjunto de fatores que estão interferindo diretamente no modo de organização de nossa sociedade e sua geração. A crise econômica aliada com a dificuldade de mercado de trabalho tem afetado de maneira muito forte. As pessoas não estão encontrando emprego e quando conseguem o salário é muito pequeno. A maioria dos concursos públicos das prefeituras brasileiras não consegue oferecer nem dois salários mínimos para um profissional de nível superior. A maioria delas optam por processos seletivos, com rotatividade grande de empregados.

Outro impacto que afeta nosso quadro demográfico refere-se ao crescimento dos custos com educação dos filhos e com saúde. Os cenários de violência nas escolas com ataques pelo país causam muitos impactos na estrutura social familiar. Durante muito tempo desenvolveu-se uma narrativa que questionava o fato de se colocar filho no mundo sem as devidas condições socioeconômicas. Isso foi esvaziando o projeto de constituição familiar. A grande verdade agora é que as famílias encolheram.

A Igreja, sempre atenta à história, terá nesse novo cenário demográfico resultante da pesquisa do Censo 2022, pelo IBGE, o desafio de pensar um projeto pastoral afastando posturas românticas ou abstratas, desligadas da realidade concreta. O Papa Francisco no dia 30 de maio deste ano lançou o Pacto Global pela Família afirmando que “não podemos ficar indiferentes ao futuro da família”.

Nessa proposta ele aponta a necessidade de se aproveitar os estudos e pesquisas desenvolvidos principalmente nas universidades católicas a respeito das temáticas familiares em diálogo com o trabalho pastoral de modo a favorecer a cultura da família e da vida na sociedade. Tais estudos deveriam servir para ajudar as novas gerações em tempos de carestia de esperança a estimar o matrimônio, a vida familiar com seus recursos e desafios, a beleza de gerar e proteger a vida humana. E conclui sua mensagem no lançamento desse Pacto solicitando que se use de criatividade e confiança, ajudando a repor a família no coração do compromisso pastoral e social da Igreja.

Edebrande Cavalieri

Foi linda a festa, Pai! Foi linda a celebração da 6ª Romaria das Águas e da Terra no domingo dia 18 de junho desse

Foi linda a festa, Pai! Foi linda a celebração da 6ª Romaria das Águas e da Terra no domingo dia 18 de junho desse ano. Murcharam e queimaram nossas matas, secaram nossos rios, devastaram a vida espalhada na Bacia do Rio Doce que tinha vida, era limpa e sem fome. Mas esqueceram uma semente, que mesmo tendo léguas a nos separar daquele paraíso perdido de pouco tempo atrás, cá estamos nós a navegar novamente, carentes, cantando uma nova primavera. O que está sendo celebrado?

Há oito anos atrás, numa tarde entre tantas outras para as pessoas que moravam ali perto, no município de Mariana, MG, felizes, mas sempre assaltadas pelo medo do que poderia acontecer. Naquela tarde de 05 de novembro de 2015, um forte estrondo e começava ali um êxodo para a morte. Vidas humanas foram ceifadas, vida ao largo de toda a Bacia do Rio Doce e seus afluentes. Esse crime aconteceu a céu aberto, com laudos caros e licenças ambientais sob suspeita. Esse crime cometido por tantas pessoas, tantas empresas, direta ou indiretamente, é um pecado grave.

No ano seguinte, 2016, a Igreja Católica com outras Igrejas e organizações sociais iniciou essa grande peregrinação que clama no deserto da ganância, da estupidez, dos interesses financeiros. Naquele mesmo dia 05 de junho de 2016, o Povo de Deus da Bacia do Rio Doce iniciava esse grande movimento de fé e peregrinação. Buscava na Igreja o amparo necessário e isso foi atestado pelo testemunho do Arcebispo de Mariana, Dom Geraldo Lírio Rocha. E agora, essa mesma Igreja tendo à frente o Bispo de Colatina, Dom Lauro Sérgio Versiani, convoca o povo de toda a Bacia do Rio Doce (Minas e Espírito Santo) para seguir em Romaria.

Os organizadores calcularam em tordo de quatro a cinco mil pessoas. É muito? Não. É muito pouco, diante do tamanho do desastre ocorrido, das vidas mortas e afetadas pela lama tóxica. É pouco também diante de tantos que professam a mesma fé em Jesus Cristo. Ali em Regência estava um “resto”. Olhando o povo caminhando com o grande cruzeiro, povo pobre, lembrei-me do Texto Sagrado de Isaías 2, 20: “Nesse dia, o resto de Israel, os da casa de Jacó que escaparem, não vão mais procurar apoio naquele que os fere; vão se apoiar, com toda fidelidade, em Javé, o Santo de Israel”. Apesar de tão numeroso o povo de Israel, apenas um resto se manteve na luta. É o resto que faz crescer a esperança. Não tenhamos ilusões com grandes concentrações, grandes multidões.

A Vila de Regência no município de Linhares tornou-se templo nesse dia. Nossa casa comum recebeu seu povo para um grande momento de fé e contemplação. Os romeiros foram acolhidos na praça principal e depois em procissão seguiram carregando um grande cruzeiro pela avenida principal, rezando e cantando lindas canções que motivaram a luta ao longo de tantos anos, e seguiram até a foz do Rio Doce, onde as águas carregadas de lama tóxica com dejetos de minério vieram de longe, daquelas represas feitas por empresas exploradoras do ferro que se romperam.

Também somos corresponsáveis como herdeiros de famílias que ajudaram a devastar a Mata Atlântica em toda a extensão do Rio Doce. Era para fazer dormentes para a construção da Estrada de Ferro Vitória-Minas. Esquecemos isso. Mesmo não tendo consciência naquela época, hoje não podemos nos eximir de responsabilidade pela destruição de nossa Casa Comum. A inspiração para a Romaria foi o texto bíblico que trata da criação no livro do Gênesis e a Encíclica do Papa Francisco Laudato Si’.

Celebrar sobre as areias que foram cobertas de lama tóxica tinha um sentido muito profundo. A terra sofrida recebe agora os pés dos caminhantes da fé. E ao final da celebração cada um pode levar um vidro contendo água e areia, a mesma, mas agora ressignificada no altar da Misericórdia onde foi celebrada a Eucaristia. O alimento sob a forma de pão e vinho colocava-se sobre o altar. Celebrar o mistério da comunhão naquela manhã de outono sobre as areias de Regência tem um sentido muito profundo. Muito além de tantas outras celebrações que realizamos. A vivência da fé ali naquele lugar foi indescritível.

Ao final, outro momento forte: a ficada da grande cruz, do cruzeiro também sobre as mesmas areias. O povo queria ajudar, elevando a cruz, sem auxílio de forças mecânicas, apenas mãos e cordas. Eram muitos braços, juntos, fazendo força para colocar em prumo. O sol brilhando sobre o povo em torno daquele cruzeiro. Era preciso dizer ao mundo que ali houve morte. Era preciso fincar a maior cruz possível, para que não desapareça tão cedo daquele lugar. Memória da morte. Mas para as pessoas que tem fé, não somente isso.

E agora? Foi a pergunta que me fiz naquele momento. O que será feito nesse lugar, aos pés do cruzeiro? Quando eu era pequeno no interior lembro que eram fincados grandes cruzeiros no alto das montanhas. Era destino permanente de nosso olhar, mas era também destino permanente de nossas orações em tempos de seca. Subíamos ao monte para rezar, levando água para despejar aos pés da cruz. Vivíamos, sim, um tempo de Igreja mais triunfalista. Agora um mesmo cruzeiro na perspectiva de uma Igreja servidora, que abraça, que acolhe o mundo. Uma Igreja que se fez capaz de alimentar todo o povo, sem necessidade de identificação, que foi para a Romaria após a celebração religiosa. E sobrou muita comida. Moradores da vila puderam levar para suas casas. Lindo gesto!

E agora, Regência? O que farás com essa cruz no meio da praia? A memória da morte não se conclui na cruz do Calvário. Se assim fosse, nossa fé seria vã. É preciso irmos além do objeto fincado na praia, que não é mais um simples objeto. Aquele cruzeiro na praia que um dia foi coberta de lama tóxica doravante nos remeterá para um grande compromisso com a vida. A cruz do Calvário nos leva à Ressurreição. Então a semente crescerá a partir dessas areias e o resto, mais fiel ainda, lutando em prol das águas e da terra. Em prol da vida.

Edebrande Cavalieri

Ao completar 75 anos de idade, Dom Dario Campos encaminhou uma carta de renúncia ao Papa Francisco, conforme estabelecem as normas canônicas da Igreja.

Ao completar 75 anos de idade, Dom Dario Campos encaminhou uma carta de renúncia ao Papa Francisco, conforme estabelecem as normas canônicas da Igreja. Trata-se de um ato administrativo, sim, contudo revestido de profundo zelo apostólico. Trata-se da conclusão de um cargo eclesial, mas não do fim do serviço eclesial, do ministério apostólico. A conclusão do cargo está inserida como parte integrante do próprio serviço.

O cargo eclesial não é uma conquista do poder como age e pensa a sociedade civil e política. Com a renúncia de um bispo ele se coloca com nova forma de disponibilidade para a Igreja. Ele não perde o elemento constitutivo de ser a garantia da apostolicidade do ministério episcopal. O bispo é a garantia da autenticidade da comunidade eclesial com a sua fidelidade ao ministério apostólico.

O Concílio Vaticano II, no Decreto Christus Dominus (nº 21) descreve de maneira bem clara como se conduz o ato de renúncia na Igreja: “Sendo o múnus pastoral dos bispos de tanta importância e responsabilidade, pede-se instantemente aos bispos diocesanos e aos outros a eles equiparados pelo direito que, vendo-se menos aptos para exercer o seu ministério, por motivo de idade avançada, ou por outra causa grave, apresentem a renúncia do seu cargo, ou espontaneamente ou a convite da autoridade competente. Por sua parte, se esta autoridade competente a aceitar, providenciará para que não lhes falte a justa sustentação e lhes sejam reconhecidos peculiares direitos”.

A partir do Concílio Vaticano II, cada novo Papa eleito promulga um ato administrativo na forma de Motu próprio, ou seja, de sua iniciativa própria, dando a diretriz que deverá ser tomada. O Papa Francisco publicou essa carta em 12 de fevereiro de 2018 denominando-a “Aprender a se despedir”. Não é fácil para aquelas pessoas que tomam o cargo como conquista pessoal. É possível que algum bispo por ser humano tome o cargo episcopal como conquista.  Contudo, nenhum ministério ordenado de bispo, sacerdote e diácono ou instituído como ministros da Palavra, presidir às orações litúrgicas, administrar o batismo e distribuir a sagrada Comunhão conforme prescreve o Direito Canônico nº 230 deveria ser concebido poder e conquista pessoal, como merecimento ou mesmo lugar de representação política.

O Papa Francisco pede aos bispos na carta que se preparem para a despedida, para deixarem seus cargos. Não é apenas um ato de humildade que requer muita oração, mas também um momento de se preparar para novos projetos de vida marcados por “austeridade, humildade, oração, tempo dedicado à leitura ou disponibilidade de serviços pastorais”. Um bispo emérito continua a serviço da Igreja. Não fica aposentado “esperando a morte chegar”, como diz a música de Raul Seixas. É lógico que também será um tempo de descanso merecido, de cuidar da própria saúde tantas vezes relegada em segundo plano no dia a dia de bispo.

A renúncia também poderá ocorrer antes dos 75 anos em casos de enfermidade ou de motivo grave na conduta do exercício pastoral. Quando alguma coisa grave atrapalhar o zelo pastoral, para o bem da Igreja a renúncia será o melhor caminho a ser tomado. Casos de conduta não compatível com o cargo ou ministério são objetos de renúncia. No pontificado do Papa Francisco há casos de renúncias em função do acobertamento ou negligência diante dos crimes de pedofilia presentes na Igreja. E diante desse pecado, o Papa lhes disse que “sejam adotados os procedimentos destinados a prevenir e combater esses crimes que traem a confiança dos fiéis”.

Portanto, a responsabilidade dos sucessores dos apóstolos, que são os bispos, requer liderança pastoral, compromisso de seguir de perto as pegadas de Jesus Cristo, governo das Igrejas particulares que lhes são confiadas em todos os sentidos e não apenas administrativo.

A renúncia de Dom Dario Campos não implica automaticamente que logo será nomeado um novo arcebispo para Vitória. Trata-se de uma ação de governo na Igreja conduzida pelo Papa que implica a virtude da prudência, da paciência, do discernimento adequado para que se possa tomar a decisão mais apropriada para a Igreja local presente na Arquidiocese.

Hoje na Igreja do Brasil são muitos bispos eméritos e a CNBB organizou uma subcomissão especificamente para esse fim. Dom Angélico S. Bernardino dizia em 2010 como presidente dessa comissão que “o Bispo emérito é uma benção para a Igreja”. Continua ainda mais forte o espírito de comunhão eclesial agora envolvendo sua nova missão, a missão do novo bispo e os padres da mesma Diocese. No fundo, nos diz dom Angélico, “alguns bispos eméritos estão trabalhando muito mais do que antes, inclusive, sem ter aquelas tarefas do governo diocesano”.

Ser bispo emérito não significa ser lançado ao campo da aposentadoria compulsória como ocorre na sociedade civil e nem ser sinônimo de invalidez. Com a liberdade diante do governo da Igreja, cada bispo emérito poderá dar o melhor de si advindo da maturidade e da experiência para construção do Reino de Deus.

Enquanto Povo de Deus, queremos nesse momento marcante da vida de Dom Dario dizer-lhe não apenas muito obrigado por tudo o que fez por nossa Igreja, mas dizer “permaneça conosco”. Não vá embora! Seu carinho e simplicidade foram marcantes nesses anos entre nós. Seu modo particular de acolher as pessoas como um pai que ama os filhos nos tocou desde o início. Seu rosto sempre sorridente mostrando a alegria de evangelizar. Acima de tudo, sua fidelidade ao Evangelho e ao Magistério da Igreja conduzido pelo Papa Francisco foram marcas profundas em nossas vidas.

Quando ele chegou a Vitória dizia que era preciso estarmos atentos ao pedido do papa: “Quero uma Igreja pobre, solidária e para os pobres. Quero uma Igreja servidora, atenta às necessidades das pessoas”. Nesse sentido, assim que tomou posse criou o Vicariato para a Ação Social, Política e Ecumênica onde teve e tem grande destaque a ação permanente da Campanha de Combate à Fome. “Paz e Pão” tornou-se uma marca da caminhada da Arquidiocese de Vitória. Poderíamos citar as demais ações permanentes, porém penso que aqui avançamos muito. Nos tempos da pandemia a Igreja conduzida por Dom Dario teve um destaque especial na luta contra a fome com a realização de diversas campanhas. Porém, descobrimos que a pandemia da Covid-19 é apenas uma entre tantas outras pandemias que nossa sociedade sofre.

Enfim, Dom Dario, muito obrigado! Muito obrigado mesmo! De coração! Mas, não vá embora. Fica conosco! Deixa-nos embebedarmos continuamente de sua alegria, de seu sorriso fácil. Queremos continuar seguindo seus passos nessa novas missão como bispo emérito. Que Deus o abençoe!

Edebrande Cavalieri

Estamos diante de uma das festas mais fortes do catolicismo tanto em termos de conteúdo como de simbolismos. Tem crescido a prática de enfeitar

Estamos diante de uma das festas mais fortes do catolicismo tanto em termos de conteúdo como de simbolismos. Tem crescido a prática de enfeitar as ruas, mas é muito pouco celebrar dessa forma apenas para “Deus passar”. O Papa Francisco nos diz que essa solenidade nos convida para sair e levar o Senhor para a vida cotidiana, entre as alegrias e os sofrimentos. Jamais poderia ser uma passagem de certa forma indiferente à realidade das ruas.

Historicamente falando essa devoção tem início com Santa Juliana de Mont Cornillon (1193-1258) que teve uma visão divina de solicitar à Igreja a inclusão de uma festa no calendário litúrgico para comemorar o sacramento da Eucaristia. Tem início na Bélgica e em 08 de setembro de 1264 o Papa Urbano IV decreta para toda a Igreja. Com o Concílio de Trento houve maior incentivo ainda para fazer frente ao movimento de Martinho Lutero que negava a transubstanciação.

É bom também registrar que nessa época a prática da comunhão eucarística era mais reservada para os momentos finais da vida. Daí a ideia da comunhão espiritual. Então a festa de Corpus Christi tem várias motivações e não apenas a devoção e adoração.

Na verdade, trata-se de uma festa devocional, pois a verdadeira festa da Eucaristia é aquela em que Jesus celebra a chamada última ceia com seus apóstolos, na quinta-feira santa. No Brasil essa festa foi trazida pelos portugueses; na região de Ouro Preto teve início a prática de enfeitar as ruas para a procissão realizada com muita pompa.

É muito significativo celebrar em forma de procissão a fé eucarística seguindo o ostensório com o Corpo de Cristo pelas ruas das cidades, não para ostentar, não para se mostrar ou fazer proselitismo. Conforme nos diz o Papa Francisco, “as procissões com o Santíssimo Sacramento, que nesta Solenidade acontecem em toda a Igreja Católica, são expressões de fé eucarística do povo santo de Deus”.

Quando o Papa São João Paulo II esteve na Catedral de Orvieto na Bélgica em 1990, lugar onde teve início esta festa, disse que “Jesus se converteu em nosso alimento espiritual para proclamar a soberana dignidade do homem, para reivindicar seus direitos e suas justas exigências”.

Então presenciamos nas procissões o Corpo de Cristo no meio de tantos outros corpos. Não é um corpo que fica indiferente aos sofrimentos daqueles que o acompanham. Trata-se de um corpo que nos convoca para a comunhão. “Porque não podes partir o Pão do domingo, se o teu coração estiver fechado aos irmãos. Não podes comer este Pão, se não deres o pão aos famintos. Não podes partilhar deste Pão, se não partilhas os sofrimentos de quem passa necessidade”, nos faz refletir o Papa Francisco.

Em toda a história da Igreja essa teologia sobre a Eucaristia é muito forte e presente. Diante do ostensório não estamos como se ali houvesse um objeto mágico que resolve nossos problemas. É nossa sede Deus que nos leva ao altar, que nos chama para a procissão. E nossa sede de Deus é sede de justiça, de vida, de comunhão, de paz.

No século IV, São João Crisóstomo fazia uma pergunta muito simples: “Você poderia me dizer como é que você é rico”? Na reflexão, ele dizia que cada um poderia buscar mil e uma explicação para a sua riqueza, o seu bem-estar. “Contudo você não consegue demonstrar que a sua riqueza seja justa. Não se pode negar que tudo começou com uma injustiça. Porque Deus no início não criou a um rico e a outro pobre. E não deixou que um descobrisse tesouros, ao passo que escondeu estes para outros. Deus deu a todos a mesma terra para ser cultivada. Deus distribuiu tudo a todos como se todos fossem irmãos dele”.

O Corpus Christi que celebramos nos convoca para a solidariedade entre os corpos todos no altar da vida. A Eucaristia nos leva à transformação de nossa realidade através do testemunho, da partilha, da solidariedade. Ao comungar o Corpo de Cristo estabelecemos um pacto, um compromisso com os corpos explorados, manipulados, usados, escravizados. Corpos famintos e desfigurados também caminham na procissão celebrativa. Somente assim a Eucaristia se torna fonte de Graça e de luz que ilumina os caminhos da vida, sustento nas dificuldades e conforto no sofrimento de cada dia.

Nessa festa renovamos a surpresa e a alegria pelo maravilhoso dom do Senhor que é a Eucaristia. O nosso “Amém” tantas vezes pronunciado nas celebrações deve expressar nossa gratidão ao Corpo de Cristo “para que o dinamismo de seu amor transforme a nossa vida em oferta pura e santa a Deus e para o bem de todos aqueles que encontramos no nosso caminho”, sintetiza o Papa Francisco. E quanto recebemos na comunhão o Corpo de Cristo e dissermos “Amém” que ele seja dito de maneira consciente, não mecânica, como concordância na força que recebemos para viver e partilhamos como pão de justiça e solidariedade.

Edebrande Cavalieri