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Na audiência do dia 27 de maio passado, o Papa Francisco reuniu-se com os participantes da revista La Civiltà Cattolica e da Universidade de

Na audiência do dia 27 de maio passado, o Papa Francisco reuniu-se com os participantes da revista La Civiltà Cattolica e da Universidade de Georgetown dos Estados Unidos; solicitou aos presentes naquele evento que “ajudem a ler o mistério da vida humana”. Estavam presentes poetas, escritores, roteiristas e diretores e, entre eles, o cineasta Martin Scorsese e sua família. O tema do evento era “imaginação poética e inspiração católica”.

O Papa aproveitou aquele momento para se dirigir a um conjunto de atores sociais e culturais que muitas vezes a Igreja acaba ignorando, vindos de várias partes do mundo. No mundo contemporâneo, a fé tem apresentado diversas questões à vida humana em busca de respostas à “fome de sentido”. Na verdade, o homem atual é cada vez mais carente de sentido. Vive uma vida vazia. E tantas vezes preenche-a com fugas e subterfúgios. O homem contemporâneo perdeu em grande parte sua capacidade de sonhar. Sua imaginação foi levada para desvios, foi domada pelas ideologias ou perdeu-se nas inutilidades midiáticas, especialmente das redes sociais.

Adélia Prado considerada uma das maiores poetisas brasileiras nos diz que “a poesia é o rastro de Deus nas coisas”. Em outra ocasião confessou que temia os doutores e a excomunhão. Mas “a Deus não temo. A poesia me salvará. Por ela entendo a Paixão que Ele teve por nós, morrendo na cruz”. Para ela a elevação poética é o experimento de uma realidade anterior a você, que te observa e te ama. “Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta”.

As palavras do Papa Francisco parecem confessar uma leitura dos poemas de Adélia Prado, muito improvável. Na verdade, trata-se de uma certeza: a literatura e a poesia nos conduzem à contemplação. “As palavras dos escritores ajudaram-me a entender a mim mesmo, o mundo e meu povo; mas também a perscrutar o coração humano, minha vida pessoal de fé e a ação pastoral”, confessa o Papa.

Foi durante a pandemia que também iniciei meu caminho pela poesia lançando dois livros – “Navegando por outros mares” e “Versos pelo caminho”. Estamos vivendo uma época bem mesquinha, e isso nos parece ser o grande desafio para a fé. Semear versos pelos caminhos para que se tornem árvores frondosas que nos ajudem a superar a mesquinhez do cotidiano. O caminho feito em versos é um convite para sonharmos juntos, percorrendo cada curva da vida, cada colina, cada floresta. No último livro eu digo: “Adentrar o movimento da imaginação à escuta dos seres viventes, mas também à escuta do céu, do mar, da montanha nua, do silêncio”. A poesia tornou-se vacina contra a Covid-19 antes mesmo do remédio. Também posso dizer que a poesia me salvou.

Para aquele grupo seleto de pessoas, o Papa não teve dúvida em reconhecer neles um serviço ministerial, pois “são os olhos que veem e sonham”, que impelem à contemplação e indicam o caminho. “O artista é o homem que, com os olhos, vê e sonha ao mesmo tempo; vê mais a fundo, profetiza, anuncia um modo diferente de ver e compreender as coisas, que estão diante dos nossos olhos. Na verdade, a poesia não fala da realidade a partir de princípios abstratos, mas observa a realidade, como o trabalho, o amor, a morte e tantas outras coisas da vida”.

O olhar poético e literário nos ajuda a entender a voz de Deus também a partir da voz do tempo, pois “representa a voz das preocupações humanas. A inspiração artística também é inquietante, apresenta coisas belas e trágicas da vida de todos os tempos, inclusive a guerra. O ministério literário e artístico busca “dar vida e formar o que o ser humano vê, sente, sonha, sofre, criando harmonia e beleza”. “Vocês são os que moldam nossa imaginação”, concluía o Papa Francisco.

Termino essas reflexões com a voz feminina na pessoa da poetisa Adélia Prado, cuja fé questiona e faz pensar, vai além daquela da frequência aos cultos e celebrações, bem adequada para os tempos de mesquinhez em que vivemos. Para além da vanglória de poder dos homens da sociedade e até de religiosos, ela então ora assim:

Meu Deus, me dê cinco anos.

Me dá a mão, me cura de ser grande”!

Edebrande Cavalieri

Nelson Mandela, preso durante 27 anos e eleito primeiro presidente negro da África do Sul, dizia que ninguém nasce odiando outra pessoa em decorrência

Nelson Mandela, preso durante 27 anos e eleito primeiro presidente negro da África do Sul, dizia que ninguém nasce odiando outra pessoa em decorrência da cor da pele, de sua origem ou de sua religião. “Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem também ser ensinadas a amar”. Mandela sentiu na carne o sistema de apartheid imposto por Lei na África do Sul. Ali os negros eram excluídos do governo, sem direito a voto exceto nas instituições negras, proibidos de diversos empregos, mesmo constituindo 70% da população nacional.

O caso ocorrido na Espanha com o jogador Vini Jr e que tomou conta dos noticiários e redes sociais não é único, isolado. Nessa mesma semana, o Santos jogando no Chile também teve dois jogadores atacados por posturas racistas. O racismo está entranhado na cultura ocidental. De onde herdamos essa maneira de tratar o diferente, o estrangeiro?

A primeira coisa a fazermos é ignorar ou combater fortemente posturas que nos parecem ingênuas e descabidas como aquela do Senador da República do Brasil. Não podemos ficar indiferentes a esse tipo de posição, pois ela é de cunho político. Não podemos esquecer que o fascismo e o nazismo eram racistas, e não apenas antissemitas. O holocausto tem implicações extremamente racistas. O bolsonarismo que se ergueu em nossa sociedade tem raízes profundas no racismo estrutural, por isso sua luta contra todos os avanços sociais presentes nas camadas menos favorecidas da sociedade. A destruição das universidades como vinha sendo conduzida pelo governo anterior ao atual tinha como pano de fundo a política das cotas sociais e raciais que completa dez anos.

A segunda coisa que é preciso levar em conta na constituição do racismo enquanto processo cultural é que tanto a Europa como seus continentes colonizados foram marcados por séculos de escravidão. No caso brasileiro, não podemos esquecer que foram mais de 300 anos de escravidão.

Merece lembrar a determinação de Rui Barbosa quando era ministro da fazenda do governo de Deodoro da Fonseca mediante um despacho datado de 14 de dezembro de 1890 determinando a destruição dos documentos da escravidão. Eram arquivos que representavam a memória nacional desses tempos sombrios. Nesses documentos os ex-senhores de escravos poderiam encontrar comprovantes de natureza fiscal para usarem nos processos para pleitear indenização junto ao governo brasileiro da República. Estamos diante de um dos maiores movimentos de silenciamento da escravidão no Brasil, uma pedra de escândalo em nossa história cultural.

A pressão exercida pelo grupo de escravocratas indenezistas era muito grande e diante deles Rui Barbosa teria dito em 11 de novembro de 1890: “mais justo seria e melhor se consultaria o sentimento nacional se se pudesse descobrir meio de indenizar os ex-escravos não onerando o tesouro”. Os grupos atuais de direita são herdeiros desses escravocratas indenizistas, que não suportam que o Estado possa criar mecanismos como o das cotas sociais e raciais como forma de justiça com a população mais pobre e especialmente com a população herdeira dos escravos. Qualquer grito racista traz no fundo esse sentimento de aversão à Lei que aboliu a escravatura e pode ser encontrado nos países colonizadores da Europa, como nos países colonizados através de sua elite.

Quando Vini Jr soube que a imagem do Cristo Redentor no Rio de Janeiro estava com as luzes apagadas, agradeceu as inúmeras manifestações de solidariedade e de apoio na luta contra o preconceito dizendo: “Preto e imponente. O Cristo Redentor ficou assim há pouco. Uma ação de solidariedade que me emocionou. Mas quero, sobretudo, inspirar e trazer mais luz à nossa luta. Agradeço demais toda corrente de carinho e apoio que recebi nos últimos meses […] não vou desistir”. Há um risco grande de ficarmos em ações isoladas que funcionam bem no modo simbólico, porém é preciso trazer mais luz à luta dos negros na sociedade atual em todas as partes do mundo.

A fala do senador capixaba precisa ser combatida porque produz na sociedade o que há de pior em termos de formação ética de um povo ao naturalizar e relativizar a dor e o sofrimento não de um jogador específico como o Vini Jr, mas de um povo inteiro que compõe mais da metade da população brasileira. O deboche foi cruel ao sugerir que os demais jogadores negros do time entrassem com uma leitoa branca no colo, ou no uso do exemplo do veneno da cobra combatido pelo soro antiofídico. Não estamos diante de um discurso ingênuo de um senador incapaz. Seria muita ingenuidade nossa pensar dessa forma. Estamos diante de uma postura política que precisa ser extirpada de nosso meio para que não se reproduza nos ambientes religiosos e sociais. Não basta a sua cassação. Isso é muito pouco e fácil de ser feito. A luta, como diz Vini Jr, é muito maior.

E chegamos então à terceira consideração a ser feita sobre as raízes do racismo e aqui não podemos nos isentar enquanto religiosos cristãos. É preciso bater no peito e pedir perdão. As Igrejas cristãs nem sempre levaram a Boa Nova de Jesus Cristo. Tantas vezes usaram de uma interpretação equivocada, fundamentalista, das Sagradas Escrituras, fazendo uma releitura, reinterpretação e adaptação aos moldes dos interesses das metrópoles. No caso brasileiro, o nosso catolicismo foi implantado através do Padroado conduzido pelos reis de Portugal e não pela Santa Sé.

Entramos aqui num labirinto perigoso envolvendo a leitura e interpretação de maneira equivocada da Bíblia. Nos dias atuais o uso político da Bíblia é o que mais nos causa medo. E a Direita Cristã faz isso com maestria, e frequenta as missas e cultos em nossas Igrejas. Gostaria de trazer aqui a descrição da história da Arca de Noé e sua interpretação fundamentalista ao colocar um continente inteiro como amaldiçoado por Deus; justificativa assim as ações da escravidão usando a própria Bíblia. O nosso querido Padre Antônio Vieira fez isso nos tempos coloniais em seus famosos Sermões.

Vejamos então o livro de Gênesis 9, 18-27 que relata a história dos três filhos de Noé – Cham, Sem e Jafé, que foram os responsáveis para repovoar a terra após o dilúvio. Nesse texto vemos que Sem foi repovoar a Ásia, Jafé a Europa e Cham a África. Eram os três continentes conhecidos na época. Nesse texto bíblico conta-se que Noé havia bebido vinho e acabou ficando nu e dormiu. Enquanto Sem e Jafé tomaram o manto e se cobriram para não ver o pai nu, Cham viu sua nudez e quando Noé soube proferiu a maldição sobre esse filho: “Maldito seja Cham. Que ele seja o último dos escravos para seus irmãos. Bendito seja Javé, o Deus de Sem, e que Cham seja seu escravo. Que Deus faça Jafé prosperar, que ele more nas tendas de Sem e Cham seja seu escravo”.

Nasce da visão fundamentalista equivocada do texto bíblico a concepção ou ideologia que justificou e justifica até hoje sob a forma de racismo a inferioridade dos africanos e sua discriminação, pois estariam na situação da maldição. O padre Antônio Vieira dizia que os povos que vieram escravos para o Brasil deveriam ser muito gratos a Deus, pois aqui eles encontraram a salvação de suas almas. E assim o continente africano, que fora berço das civilizações mais antigas como a egípcia, historicamente passou a ser ignorado, escravizado, explorado. Então, a situação vivida por Mandela na África do Sul onde 30% da população se achava no direito de governar o país tem sua justificativa em tantas histórias, inclusive a religiosa.

As Igrejas cristãs estão comprometidas profundamente com os processos de escravidão na história. O trabalho de evangelização não pode ficar indiferente a essa situação, pois nas próprias Igrejas de maneira velada se praticam processos de exclusão dos negros de cargos ou funções eclesiásticas. É preciso penetrar nas raízes profundas da cultura do povo, bem além de demonstrar um gesto de solidariedade como o que ocorreu com a imagem do Cristo Redentor no Rio de Janeiro.

O Papa Francisco nos diz que o racismo é um vírus que não desaparece. Vive escondido à espreita para agir sob a forma de palavras ditas como aquela dirigida a Vini Jr, através de brincadeiras, através de expressões da linguagem, através de práticas. O racismo nos mostra que os progressos da sociedade não estão assegurados para todos. Assim, diante do que aconteceu na Espanha, segundo o Papa Francisco, “não podemos tolerar nem fechar os olhos para qualquer tipo de racismo ou de exclusão e pretender defender a sacralidade de cada vida humana”.

Edebrande Cavalieri

A Diocese de Colatina está se mobilizando para esse grande momento de vida para o povo da Bacia do Rio Doce, nossa casa comum,

A Diocese de Colatina está se mobilizando para esse grande momento de vida para o povo da Bacia do Rio Doce, nossa casa comum, com vários eventos culminando com a grande celebração em Regência, Linhares, no dia 18 de junho. Na verdade, o início dessa Romaria se dá em 2015 na Diocese de Mariana (MG) após o rompimento da barragem de rejeitos de minério da empresa Samarco. Junto de Mariana vieram outras Dioceses da Bacia do Rio Doce como Caraginga, Governador Valadares, Itabira-Coronel Fabriciano, Guanhães e agora chega ao Espírito Santo.

Como filho dessa terra jamais poderia renegá-la em minhas memórias e minha fé. Quero deixar aqui alguns elementos dessa memória tão querida por mim, tão amada. As pessoas da minha idade terão oportunidade de reviver um tempo diferente do atual, talvez bastante inconsequente em relação às ações executadas por nossos pais. Hoje com certeza terei que pedir perdão por aqueles que já se foram desse mundo e deixaram suas pegadas nas matas derrubadas e nos rios e riachos secos.

Como esquecer a ganância para ganhar dinheiro vendendo dormentes para a Companhia Vale do Rio Doce que estava construindo a estrada de ferro Vitória-Minas? Serrarias espalhadas por todos os lados, distritos habitados por trabalhadores da madeira. Quando não eram as serrarias a cortar os grandes troncos de madeira de lei, eram os pequenos trabalhadores com seus grupiões que era uma espécie de serra usada por dois homens. Motosserra? Ainda não havia. Era na base do machado mesmo. Muitas vezes um homem ficava quase um dia para derrubar uma grande árvore. E assim fomos devastando as terras dessa região. Era preciso derrubar rapidamente para vender a madeira e plantar café.

As dores das crianças como eu eram muitas. A mata tinha seu encanto. Quando o fogo chegava era preciso correr para apagar o incêndio. A noite escura projetava uma mata cheia de pequenos focos de incêndio. Muita tristeza, pois o fogo representava o fim da vida, a morte das araras, dos papagaios, das aves e animais. Como era triste ver a carcaça de um tatu queimado pelo fogo! Como era triste ver filhotes de araras despencando do alto de uma árvore ao seu derrubada!

Minha primeira escola foi reconhecer árvores como jequitibá, vinhático, sapucaia, peroba, brejaúba, farinheira, jacarandá, farinha seca, ipês…de longe ao avistar a mata do alto ficávamos identificando os diversos tipos de árvores, especialmente aquelas que mais se destacavam. Junto das árvores era hora de aprender a reconhecer as aves e animais como onça parda, onça pintada, porco do mato, antas, macacos, macucos, inhambus, gaviões, cobras de todas as espécies e as mais temidas como a preguiçosa, a coral e a surucucu. Tínhamos um museu vivo na natureza.

A vida nessa região não era em todo triste assim. A lembrança me conduz aos tempos das enchentes do Rio Doce. No momento em que as águas baixavam, era o momento que via meu pai montando num cavalo, com um saco de lona e uma peneira, dizendo que ia pegar peixes. Nas margens do Rio Doce os peixes lá estavam prisioneiros sem ter para onde escapar. Era a hora que os moradores da região vinham com seus cavalos e recolhiam esses peixes, levando para suas casas. Eram limpos e salgados. Depois secos no sol e guardados para muito tempo. Era o nosso bacalhau. Como esquecer tucunarés, grumatãs, acará, corvina, lambari, piaba, traíra, piau, cascudo! Era muita fartura. Terra abençoada!

Como meus pais eram meeiros nessas terras, era comum ficar pouco tempo em cada lugar. Aprendi a não me apegar nos novos lugares, com seus desafios. Chorava quando tinha que fazer mudança, mas não havia alternativa. Quando o trabalho acaba, a vida do meeiro fica comprometida. Era preciso arrumar mais matas para derrubar. Era assim que meus pais conseguiam alimento para os filhos. Quando chegava a hora de colher o café, dependendo da safra, era possível não ser suficiente para pagar a dívida com o dono do comércio que nos vendia a fiado. Era triste ver meu pai chegando depois da venda do café e dizer para a mamãe: não sobrou um tostão.

Outra experiência muito significativa nessas mudanças era ver meu pai buscando um lugar onde pudesse achar nascente de água boa. Não era difícil. Fazendo um buraco na terra com um metro e pouco de profundidade era a hora de ver os olhos d’água brotando cristalina. Em pouco minutos o poço estava cheio de água da melhor qualidade, para uso doméstico e para beber.

Esse cenário todo sofreu as mais absurdas transformações. Recentemente andei dando umas voltas por aquelas terras, e voltei triste. Aqueles rios onde encontrava peixe secaram. As matas acabaram. As pessoas fugiram para a cidade. Pasto e bois habitando aquelas terras. O Rio Doce que é o ente mais visível sofre em seu leito de morte. A tragédia de Mariana que se configura como crime tornou-se o símbolo dessa história de devastação e destruição.

A Romaria das Águas e das Terras é realizada por todas as dioceses da Bacia do Rio Doce. Trata-se de uma grande celebração cujo templo sagrado é a casa comum. Como peregrinos caminhamos nessas terras buscando o alimento e a vida. Fomos expulsos. Agora retornamos como peregrinos numa grande marcha transformando a mística e a espiritualidade em gestos e compromissos concretos em favor da vida, da casa comum. A Romaria das Águas e da Terra é uma celebração que se constitui como contribuição profética, como grito profético em favor da vida, da existência humana e do nosso planeta. As águas gritaram e gritam! As terras gritaram e gritam! As aves e animais gritaram e gritam! O grito deles não pode nos encontrar de braços cruzados em nossa indiferença.

A Romaria das Águas e da Terra se constitui verdadeiramente como sacramento da caminhada. Não é um ato religioso de cunho individual que se faz num templo. A Romaria deve convocar a todos, independentemente de sua religião, de sua Diocese apesar de ser coordenada pela Diocese de Colatina. Convoca os povos da Bacia do Rio Doce para essa celebração abraçados a sua terra e às suas águas.

Circulou pelas redes sociais uma imagem linda de Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa rezando na foz do Rio Doce, em Regência, local que recebeu de forma trágica a lama dos rejeitos de minério. Concluo essa reflexão com as palavras de Dom Lauro, ditas nessa ocasião: “Essa situação toda mostrou o que faz o pecado concretamente na sociedade: a destruição da criação de Deus, da harmonia, das relações fraternas, da relação com a natureza e com o meio ambiente”. E mais ainda: “É preciso agir com os pés na terra e ter um olhar no céu”.

Nessa peregrinação penitencial e profética iremos nos encontrar no dia 18 de junho em Regência, Linhares, depois de vários momentos celebrativos e reflexivos ocorridos em Baixo Guandu, Colatina e Linhares. Nesse dia 18 de junho, considerado o grande dia, a romaria comportará celebração eucarística, caminhada pela foz do Rio Doce, colocação da cruz, exposições, vivência e apresentações culturais. Dessa forma a memória do passado e as dores do presente são apresentadas no altar da misericórdia de Deus, nesse olhar para os céus, mas com os pés fincados na terra, mesmo que ainda tenha muita lama.

Edebrande Cavalieri

Estamos acompanhando a realização da 60ª Assembleia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) num contexto nacional e internacional onde as polarizações políticas

Estamos acompanhando a realização da 60ª Assembleia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) num contexto nacional e internacional onde as polarizações políticas acabaram repercutindo na Igreja Católica. Alguns países estão sofrendo bastante a divisão que fere a comunhão eclesial com golpe mortal. Em nosso meio, muitos leigos e também ministros ordenados também empunharam as armas da divisão, da cizânia, açoitando impiedosamente o Papa Francisco e também a CNBB. Hoje o maior mal que precisa ser extirpado da sociedade e, principalmente, do interior de determinados ambientes eclesiais é a polarização divisória, vestida de ódio e intolerância.

Desde 1953, quando ela foi criada, a CNBB representou um dos pontos mais positivos frutificados no Concílio Vaticano II que é a comunhão eclesial. Nesse sentido, as Conferências Episcopais mais do que um órgão burocrático da Igreja representa concretamente a possibilidade de um agir colegial, com linhas comuns de ações no país inteiro e um caminhar juntos, de maneira sinodal. Conforme palavras de Dom Geraldo Lyrio Rocha, a Assembleia da CNBB é “uma bênção de Deus para a Igreja do Brasil. É um momento bonito principalmente na expressão da comunhão eclesial”.

Aos pés de Nossa Senhora Aparecida, mãe que acolhe a todos os seus filhos, 326 bispos ativos e 157 bispos eméritos estão reunidos entre os dias 19 e 28 desse mês de abril. Nenhuma atividade particular de sua diocese está acima desse momento de vivência colegiada. Somente casos extraordinários poderiam impedir a presença de algum desses bispos. Esse compromisso de caminho sinodal é expressão dessa comunhão eclesial, exemplo para todos os demais ministros ordenados (padres e diáconos) e todo o povo de Deus. O ponto central dessa comunhão é o Papa Francisco. Portanto, a comunhão deverá sempre ser concretizada em sua relação com o Pontífice, com o Bispo local, com o Padre, com todo o povo vivendo em comunidade. Essa é a força do Espírito que mantém e move a Igreja.

Não se trata de uma Assembleia meramente eletiva, mas a expressão concreta de uma “Igreja em saída”. A eleição para os diversos cargos na Conferência é apenas a forma de se melhor organizar para essa direção. Em destaque a eleição do novo presidente da CNBB, Dom Jaime Spengler, para o quatriênio 2023-2027. Terminada a eleição, todos em comunhão para o sentido da Igreja no mundo, como luz da terra. Nada de revanchismos ou rupturas. Nada de polarização política ou ideológica.

Assim será a direção, nas palavras de Dom Geraldo Lyrio Rocha, “os olhos voltados para a realidade, olhos voltados para o contexto social, político, econômico do nosso país. Olhos voltados para a realidade de nossas famílias, para a juventude, para as classes dirigentes, para as classes trabalhadoras. Olhos voltados para os povos indígenas, para os negros, para os afrodescendentes de modo geral. Olhos voltados para a vida. Para a vida concreta e como ela vai se desenrolando no momento atual”.

O Papa Francisco, por ocasião da Assembleia dos Bispos Italianos dizia que devemos caminhar na sensibilidade eclesial que se revela na colegialidade e na comunhão entre os bispos e os seus sacerdotes, na comunhão entre os próprios bispos, entre as dioceses ricas e aquelas em dificuldade, entre as periferias e o centro”. Não se trata de um mero sentimentalismo de união. Em 2013, por ocasião da Jornada da Juventude, ele dizia aos Bispos Latinoamericanos que “estamos um pouco atrasados no que se refere à Conversão Pastoral”.

E aqui chegamos na caminhada que foi convocada pelo Papa Francisco com a escuta sinodal realizada em cada comunidade, cada paróquia, diocese, continente, a ser concluída em outubro próximo com a grande Assembleia Sinodal em Roma. Após a conclusão do Sínodo Episcopal, a Igreja do Brasil realizará a atualização das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora. É para tirar o atraso, poderíamos dizer na expressão popular.

Por fim, a realização da 60ª Assembleia da CNBB representa um momento muito forte da caminhada sinodal, da comunhão eclesial. É um chamado para que todo o povo de Deus participe desse mesmo espírito de reconciliação, de conversão pastoral. Tem muita erva daninha crescendo nos quintais eclesiais, mas a força do Espírito nos impulsiona para a superação de nossas divisões e nossas polarizações. A eucaristia recebida por cada fiel nas celebrações deve ser efetivamente expressão da comunhão eclesial.

Após sua eleição, Dom Jaime Spengler disse: “Eu acolho a eleição com muita humildade, tanta simplicidade com temor e tremor, mas orientado pela fé, pela fé de quem conduz a Igreja é o nosso Senhor, não somos nós”.  E não deixa de reconhecer que a situação mais difícil e preocupante se refere às camadas mais simples da nossa população. “Quase sempre temos que reconhecer: quem fica com a conta maior são os pobres”. Por isso, “os pobres sempre estarão no coração da obra evangelizadora da Igreja”.

Edebrande Cavalieri

A Festa da Penha sempre me chamou muito a atenção por diversos fatores. A experiência das romarias é algo profundo na vida do povo

A Festa da Penha sempre me chamou muito a atenção por diversos fatores. A experiência das romarias é algo profundo na vida do povo que segue o caminho da peregrinação. É a expressão concreta e visível de uma Igreja que avança em sua peregrinação superando as perseguições e sofrimentos ao longo da história em busca da consolação de Deus.

Foi algo profético a convocação de Dom João Batista da Mota e Albuquerque feita aos homens para seguirem em romaria da catedral de Vitória até o Convento da Penha. E dessa romaria tantas outras começaram a ser organizadas. Não é desfile, mas um caminho a ser percorrido. A cada ano novas romarias são incluídas no tempo festivo do oitavário até o dia da festa propriamente dito, na segunda-feira, dia de Nossa Senhora (das Alegrias, da Penha).

Se não é desfile, também não é uma corrida esportiva como tantas que são programadas pela sociedade. Ninguém está numa romaria para competir, para disputar primeiro lugar. Muitas vezes, pessoas seguem o trajeto programado em seu silêncio, num encontro profundo com Deus. Não busca caminhar como se estivesse num show artístico. Tantas vezes, podemos confessar, confundimos o altar com o palco e transformamos a devoção num show. A festa é bem diferente de um show. Ela marca nossas vidas, nossa história. Quando ocorre algum evento na festa que se coloca como show, todo cuidado deve ser tomado para que o foco não seja perdido. Tudo deve ser motivo para a elevação festiva da fé. As pessoas não devem ser atraídas para o show, mas pelo show em vista do que está sendo celebrado.

O silêncio buscado por tantas pessoas que caminham em romaria também nos chama a atenção. Carregam em seu silêncio tantas preocupações, tantas dores, tantos sofrimentos. Nas salas dos milagres restam as lembranças deixadas por tantos romeiros ao longo da história. Cada objeto ali presente expressa um dado muito profundo da vida. Tantas vezes as pessoas não tinham com quem contar em seu sofrimento, suas doenças, seus medos, a não ser com Deus, com Maria. Quando vemos tantos nomes dados à Maria (das Dores, da Saúde, das Graças, do Bom Parto, Auxiliadora, Consolação, Guia, dos Navegantes, do Perpétuo Socorro e por aí adiante) neles encontramos de maneira radical o sofrimento das pessoas que não possuíam assistência do Estado e das organizações sociais. Somente a fé e a devoção a uma mulher, mãe! Que símbolo mais perfeito para uma devoção! Assim sempre vejo as devoções marianas. Elas espelham a vida de nosso povo sofrido e esperançoso.

O homem atual está perdendo esse sentido religioso da vida. Torna-se a cada dia mais “ateu”. Muitos desmerecem as devoções populares considerando-as como algo atrasado ou sem sentido. Há movimentos cristãos que combatem literalmente as devoções marianas. É bom nunca esquecer o tratamento dado às imagens de Nossa Senhora, sendo até chutadas e quebradas. Estamos vendo crescer entre nós uma sociedade desamparada até de Deus, até de Maria. O fim da fé pode ser literalmente o fim da vida. Acredito que se aquelas crianças e jovens que estão ameaçando massacres nas escolas fossem catequisadas, educadas, desenvolvidas na fé verdadeira, elas não estariam nesse caminho de destruição e semeando medo entre nós. Poucos casos poderiam existir e seriam facilmente identificados como surtos psiquiátricos.

A solução não é encher as escolas de seguranças armados, mas encher as escolas de movimentos educativos para a paz. Discursos de ódio, com gestos de violência apontando armas, somente fazem crescer a violência entre nós. As redes sociais e a internet hoje estão cumprindo funções perigosas para o convívio social. Quem está por trás desse movimento? É no silêncio das madrugadas que nossos filhos percorrem os caminhos mais perigosos, não das ruas, mas das redes sociais e internet. Esses espaços estão promovendo ódio e violência até em simples joguinhos que nos parecem ingênuos.

Diante desse cenário atual tão ameaçador podemos sugerir mais um movimento de peregrinação sob a forma de uma grande romaria, envolvendo todas as escolas públicas e privadas da grande Vitória, planejada de maneira ecumênica, rumo a um espaço que simbolizasse acolhimento, paz, alegria, festa. Não basta acender imagens de Nossa Senhora nas praças públicas. Precisamos acender na vida das pessoas o que Maria representa como mulher e como mãe. Sem doutrinar ou catequisar. Mas educar para a paz. As escolas católicas já deram um grande exemplo na Campanha Paz e Pão e poderiam expandir esse tipo de educação entre a juventude capixaba. A prevenção contra a violência deve acontecer ou iniciar a partir das salas de aula, na própria comunidade educativa.

Por fim, fé e festa estão entrelaçadas em todas as culturas. Nos últimos tempos vemos algumas lideranças religiosas mais preocupadas com a doutrina, pautando a vida cristã como um controle absoluto. Alguns chegam a encontrar expressões de heresias numa simples festa celebrada. A fé está acima das questões normativas institucionais e marca o relacionamento com Deus em todos os espaços da ação humana. A festa então torna-se o lugar de celebrar a alegria. A vida não é apenas sofrimento e dor, medo e angústia. Festejar também é dar glória a Deus.

Com o Concílio Vaticano II recuperamos a experiência de uma Igreja peregrina, que caminha como Povo de Deus. Falava-se numa verdadeira primavera que estava sendo vivida no mundo católico. Há hoje movimentos que querem um “inverno eclesial”, triste e frio, sem cor e sem vida. O Papa Francisco, logo no início de seu pontificado, lançou a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium sobre a alegria cristã. E nos diz logo no início que “é preciso aos poucos permitir que a alegria comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias”.

A festa em romaria, em peregrinação, assim vai misturando as dores, as angústias, os sofrimentos, com a alegria, com a festa, com a esperança. A festa se torna força e não diversão pura, mundana. A festa se torna celebração da vida.

Viva Nossa Senhora da Penha!

Edebrande Cavalieri

Entre a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém que celebramos no domingo de Ramos até o Calvário há um longo caminho de profundas contradições.

Entre a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém que celebramos no domingo de Ramos até o Calvário há um longo caminho de profundas contradições. Em primeiro lugar, o mesmo povo que o carrega nos braços é também o que foi seduzido pelas autoridades políticas para que escolhessem Barrabás livre da condenação.

Jesus é condenado num processo originário da sedução das massas, da omissão de Pilatos, da falta de coragem daqueles que tanto o ouviram e tanto receberam dele. Jesus não foi crucificado pelo poder romano, mas pelo próprio povo que o acompanhava. A traição não pode ser atribuída exclusivamente a uma pessoa, no caso Judas Iscariotes. Na traição de Jesus todos nós nos encontramos.

O segundo aspecto central desse caminho está na imagem real de o condenado ser obrigado a carregar esse instrumento de suplício, expressão maior da humilhação e vergonha, até o Calvário onde será crucificado diante do povo. O mesmo povo vai nesse caminho, alguns debochando e outros ajudando em seu silêncio e ajuda. Provavelmente, a maioria estava aí como se estivesse numa diversão. Muitas vezes, nosso sofrimento é motivo de festa por tantas outras pessoas. Até nos divertimos com milhares de mortes durante a pandemia e induzimos o povo a escolher remédios ineficazes! Esquecemos? Não devíamos.

O caminho da cruz descrito pelos evangelistas não serve para fazer carreira, nem para enriquecer instituições. Quem busca Jesus na Igreja não pode servir-se desse caminho para fazer carreira, para angariar honrarias, para ficar rico. Ao aceitar percorrer o caminho de Jesus até a cruz torna-se essencial vestir-se com as roupas da humildade, com as sandálias de pescador, disposto a sofrer humilhação a qualquer momento. A busca por prestígio e honrarias não é caminho cristão, mas mundano. O caminho do mundo se opõe ao caminho da cruz.

Quem quiser ver Jesus precisa defrontar-se com a cruz, olhar para a cruz. Ela é expressão da morte. Não de qualquer morte, mas da morte que se torna semente fincada no chão. Qualquer sofrimento, provação ou extrema solidão, na perspectiva cristã será semente que faz germinar a vida. A cruz não é o aniquilamento de tudo e assim a morte de Jesus mostra-se completamente diferente da morte de qualquer outro líder ou pessoa. Permanecer na cruz é acabar com o cristianismo. Ela deve sempre sinalizar para frente, para a luz, para o clarão da madrugada fria, para a esperança.

O sofrimento em si e para si não serve para muita coisa. Entregar-se à autoflagelação como se fosse o caminho da perfeição cristã é um grande equívoco. A semente de trigo ficada no chão deve morrer para poder renascer, brotar e gerar muitos frutos. A morte na cruz na perspectiva cristã não pode deixar de expressar o amor, o serviço, o dom de si sem reservas. A cruz na perspectiva cristã irá sempre apontar para o grande clarão da ressurreição.

Dois grandes desafios se colocam para os cristãos nos dias de hoje: permanecer com um cristianismo sacrificialista que não supera a cruz ou fugir rapidamente para o clarão da ressurreição, escapando do sofrimento, da humilhação. Há um mesmo Cristo que morre na cruz e que ressuscita. A paixão, a morte e a ressurreição estão intrinsecamente interligadas, formando uma totalidade redentora.

Por fim, esse caminho percorrido não é percurso solitário. Trata-se de um processo sinodal como nos ensina o Papa Francisco na mensagem para a Quaresma desse ano. O caminho da cruz é feito junto de cada pessoa, com os algozes também. Eles estavam ao lado de Jesus, chicoteando o tempo todo, debochando. O caminho reservado a poucos escolhidos não é caminho cristão. A transfiguração nos é apontada, mas necessitamos descer o morro, para caminhar junto do povo. A ressurreição acontece na história do próprio povo e não fora dele. Portanto, fugir do mundo não é o caminho apontado pela cruz do Ressuscitado.

A Páscoa não é uma simples passagem de Cristo entre nós. É a sua permanência. É nosso compromisso transformando o caminho da cruz em semente de nova vida. O caminho glorioso da ressurreição deve estar disponível a todas as pessoas, especialmente aquelas que mais sofrem todo tipo de humilhação. Entre todas as humilhações hoje no Brasil são destaques a vergonha da fome e da violência desmedida. Nesse espírito, queremos desejar o que há de melhor na vida cristã para todos. É preciso fincar a semente da Páscoa nas escolas onde professores e alunos sofrem humilhações e entregam a própria vida.

Boa Páscoa!

Edebrande Cavalieri

Depois de quarenta anos dedicados à educação de jovens e adultos aqui em Vitória, meu coração anda muito inquieto vendo ameaças a professores, colegas

Depois de quarenta anos dedicados à educação de jovens e adultos aqui em Vitória, meu coração anda muito inquieto vendo ameaças a professores, colegas e funcionários, feitas por alunos alegando diversas justificativas. Em Águas Claras um jovem ameaçava colegas de três séries dizendo que eles deveriam “apenas orar e rezar ao seu deus. Aproveitem enquanto podem. Amanhã será o grande dia”. Na cidade de Serra, no Espírito Santo, outro jovem alertava sobre o “grande massacre”. Enquanto isso, uma professora de 71 anos morreu esfaqueada dentro da escola onde trabalhava e outras pessoas saíram também esfaqueadas.

O cenário é cada vez mais macabro. Filme de terror! Em Coqueiral de Aracruz as cicatrizes continuam a sangrar e não fecham depois que aquele jovem disfarçado de soldado nazista invadiu duas escolas no final do ano passado e executou um grande plano diabólico. Sim. Isso não é coisa de Deus. Também os nazistas gritavam o nome de Deus – em vão –  e até prostravam-se de joelhos, e nada temiam diante dos milhões de judeus executados nos campos de concentração.

Muitos jovens professores abandonam a carreira docente, outra maior quantidade perde a motivação para se preparar para o magistério. Profissão que outrora era considerada um verdadeiro sacerdócio, hoje vai perdendo o encanto nos diversos projetos de vida profissional. Escolas sendo transformadas em lugares de medo e covardia. Agentes públicos fazem propostas cada vez mais absurdas para conter a violência que senta nos bancos escolares ao lado de nossa juventude. Nas Igrejas ouvimos orações ineficazes, pois Deus quer que cada um de nós cumpra com a sua parte. Ele não é nenhum mágico para livrar da morte violenta que explode nos corredores e salas de aula.

Pensamos que seja necessário fazermos uma psicanálise da sociedade contemporânea para compreender melhor essa situação caótica e violenta. Nossos gestores da educação tem um grande desafio: empreender estudos e pesquisas com profundidade para que possam elaborar planos educativos mais eficazes. Continuar nos moldes antigos como hoje se faz é deixar crescer a erva daninha. Logo teremos o fim da escola.

Não está longe esse dia. Quando a escola perde espaço na vida dos jovens passando a ser lugar de obrigações, de medo, de punições, de “salve-se quem puder”, é sinal que ela está acabando. Esse modelo de escola que não traz sabor não tem capacidade para ser lugar do saber. É preciso que nossas crianças e jovens sintam o sabor da vida escolar, e não a dor e o sangue derramado. Quando se torna lugar do medo é o momento de fechar e apagar a última lâmpada. Contudo, o cristão sempre é movimento pela esperança. A morte não encerra a trajetória da história, da vida de cada pessoa.

O que a Igreja e as religiões poderiam fazer? Como estamos num país profundamente marcado pela fé cristã, não tem sentido essa sensação apocalíptica de destruição da esperança. Num encontro em outubro de 2021, o Papa Francisco falava do Pacto Educativo e convocava religiões e escolas para esse movimento dizendo que “toda mudança precisa duma caminhada educativa para fazer amadurecer uma nova solidariedade universal e uma sociedade mais acolhedora”.

Dessa pequena frase, podemos nos perguntar como estamos desenvolvendo uma “solidariedade universal” a partir de cada sala de aula? Quem é solidário não pensa em assassinar professores. Formamos uma sociedade perversa que se alimenta do discurso da violência para combater a própria violência. Esses algozes fascistas logo gritaram após a morte da professora que se ela estivesse armada não teria morrido. Esses sujeitos perversos acham que sobre a mesa do professor basta uma pistola carregada para impor medo e transformar assim a vida dos alunos.

O segundo fundamento proposto pelo Papa é dotar a escola de uma cultura de acolhimento. Deixamos crescer uma sociedade que segrega, que exclui, que expurga. O acolhimento fica por conta do lado mais sombrio dessa mesma sociedade, as organizações criminosas. Essas acolhem e organizam as atividades “sociais” necessárias para o sustento.

Nesse Pacto Educativo, a Igreja através do Magistério do Papa Francisco busca reavivar o compromisso em prol e com as novas gerações, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva. Para que isso seja eficaz, torna-se necessária uma escola capaz da escuta paciente, do diálogo construtivo e mútua compreensão.

O tecido social do Brasil está sendo rasgado aos poucos, produzindo uma sociedade intolerante, violenta, polarizada e armada. Investimos na capacidade de armar as pessoas e desinvestimos no esforço para amar. Ou buscamos construir um mundo mais fraterno ao nosso redor, ou nos trancamos cada vez mais no medo e no desespero. O Papa nos lembra que o princípio educativo do “conhece-te a ti mesmo” é fundamental, mas não se pode descuidar de outros princípios como “conhece o teu irmão”, “conhece a criação” e “conhece o Transcendente”. E conclui: “Não podemos esconder às novas gerações as verdades que dão sentido à vida. As religiões sempre tiveram uma relação estreita com a educação, acompanhando as atividades religiosas com as educativas, escolares e acadêmicas”.

Diante de nós se apresenta o desafio que deve servir de estímulo e não desespero para uma renovada ação educativa que possa fazer crescer no mundo a fraternidade universal, a possibilidade de uma convivência pacífica no respeito mútuo. Em nota a CNBB através de seu presidente, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, nos diz que esse quadro atual “é sintoma de uma sociedade adoecida, mergulhada na violência que a todos ameaça. Precisamos reagir a esse cenário de desolação que enlouquece a sociedade: não se enfrenta a violência com armas, mas estabelecendo um contraponto à banalização da vida. Isso significa testemunhar, com atitudes e por políticas públicas, o precioso dom da paz”.

Edebrande Cavalieri

Celebramos há poucos dias o décimo aniversário do pontificado do Papa Francisco e, entre tantos desafios, podemos considerar com certeza que sua convocação da

Celebramos há poucos dias o décimo aniversário do pontificado do Papa Francisco e, entre tantos desafios, podemos considerar com certeza que sua convocação da Igreja para o caminho sinodal tem um destaque central em todos esses anos e não apenas quando convocou o Sínodo dos Bispos que será concluído nesse ano no mês de outubro em Roma. Mas isso não é algo novo na Igreja como algumas pessoas consideram ou apenas uma dimensão do magistério do Papa Francisco. Na verdade, ele está convocando toda a Igreja para um retorno às origens da própria Igreja, ao modo como as comunidades eclesiais viviam nos primeiros séculos de sua história.

Antes de sua eleição, ele fez um pequeno discurso de cinco minutos para os colegas do conclave a respeito do perfil que deveria ter o novo papa. E foram aqueles pontos breves, descritos em poucas linhas, que moveram a decisão de cada um dos eleitores a escolher Mário Bergóglio como novo papa. Ele dizia que o escolhido deveria ajudar a Igreja “a sair de si mesma e ir às periferias geográficas e existenciais”, que ajudasse a sair de si mesma, pois quando fica autorreferencial adoece acreditando possuir luz própria fundamentada num “narcisismo teológico”. A Igreja deveria escolher naquele momento um homem que, a partir da “contemplação e adoração de Jesus Cristo” ajudasse a Igreja a ser “mãe fecunda” que vive da “doce e confortadora alegria de evangelizar”.

Foi esse caminho que Francisco trilhou em dez anos ajudando a Igreja num amplo processo de escuta do povo de Deus e não apenas das autoridades eclesiásticas, na “busca de um discernimento, à luz do Espírito Santo, ouvindo o que esse mesmo Espírito diz à Igreja”. Essa metodologia está ajudando o povo de Deus em cada Igreja particular na caminhada eclesial buscar superar seus antagonismos, suas polarizações.

Temos que reconhecer que em muitos lugares, muitas comunidades eclesiais, vivem verdadeiros cismas, divisões, trazidos do mundo sócio-político. Em muitas dioceses do mundo inteiro foram convocados sínodos diocesanos utilizando essa mesma metodologia. Com isso, as comunidades vão superando seus clericalismos entrando num clima bem mais sereno de ouvir o que o Espírito Santo tem a dizer e não como alguns (padres, bispos e leigos) estavam fazendo impondo suas ordens e decisões. Através do processo de escuta as pessoas vão se envolvendo cada vez mais deixando de ser “massa de manobra eclesial”, característica da cristandade triunfalista e restauradora.

A partir da síntese da escuta realizada na arquidiocese de Vitória, da escuta das comunidades, os dois males que atrapalham mais ao nosso ser Igreja são o clericalismo e as polarizações, divisões herdadas da polarização social. O Papa Francisco nos diz do risco de se cair num “mundanismo espiritual” achando que todo postar-se de joelhos para qualquer proposta seja expressão de fé cristã verdadeira.

As visões diferentes que entraram nas comunidades estão levando para divisões em função de posturas dogmáticas, radicais, fundamentalistas. As diferenças sempre existiram na Igreja, porém deveriam ser conduzidas como contribuições na busca de uma compreensão maior tendo por objetivo a busca de um caminho comum, e não a exclusão do outro, a ruptura da comunidade.

Essa retomada do Concílio Vaticano II em vista de um retorno às origens mediante o caminho sinodal é a chave para uma Igreja que quer promover a justiça, a solidariedade e a paz. Trata-se de uma “diaconia social”, um serviço ao mundo como luz e sal da terra, que se volta para as periferias, em favor dos mais pobres. Em tempos de revitalização dos diversos tipos de autoritarismo e regimes tecnocráticos, a Igreja convoca para um olhar de misericórdia, para um caminhar juntos, para um perdão sem medida e não a vingança desmedida.

Os cinquentas anos da realização do Concílio Vaticano II nos mostram que as grandes demandas e necessidades da Igreja não estão mais na definição da doutrina como tantos pregam alegando riscos de desvios, mas na necessidade de sinodalidade e colegialidade em todos os níveis. No caminho universal, nacional e local da Igreja. Esse é o chamado do Espírito Santo para a caminhada dos bispos juntos, dos padres e diáconos e de todo o povo de Deus. Quando algum líder religioso, padre ou leigo, se impõe como uma espécie de “dono” da paróquia ou da comunidade, ele está construindo o caminho da ruptura.

Por fim, é preciso registrar que a superação das polarizações e antagonismos seja algo mecânico e rápido. Para se alcançar a sinodalidade necessária é preciso uma constante conversão pastoral e missionária, uma profunda renovação de mentalidade, de atitudes, de práticas e de estruturas. Trata-se de alcançar uma consciência sinodal que nos leve a intensificar a mútua colaboração de todos em vista de uma evangelização a partir dos dons e serviços sem cair num clericalismo de “manda e obedece”. A Igreja então se torna a casa e a escola da comunhão. Sem a conversão pastoral, do coração e da mente, pouco alcançaremos com os instrumentos externos da comunhão. No máximo teremos uma Igreja envolvida em máscaras, sem coração e sem rosto.

Edebrande Cavalieri