Artigos

” A vida consagrada é “uma resposta livre a um chamamento particular de Cristo, mediante a qual os consagrados se entregam totalmente a Deus.”
” A vida consagrada é “uma resposta livre a um chamamento particular de Cristo, mediante a qual os consagrados se entregam totalmente a Deus.”

 Inúmeras pessoas, ao longo da história, consagram suas vidas a serviço do Reino dos Céus. Os consagrados dedicam suas vidas no seguimento de Jesus e na vivência de seus ensinamentos. A vida consagrada é “uma resposta livre a um chamamento particular de Cristo, mediante a qual os consagrados se entregam totalmente a Deus e tendem para a perfeição da caridade sob a moção do Espirito Santo” (CIC, 192). Podemos entender consagrados os sacerdotes, religiosos e religiosas.

Vivemos a consagração numa sociedade dinâmica. O mundo exige de nós muita produtividade. Mesmo entregando-nos a Deus, temos que ser produtivos, não interessa como fazer, mas temos que fazer. Trabalhamos muitas vezes não pela consagraçãovoltados para uma mística, mas na manutenção ou crescimento de uma instituição com seus objetivos, finalidades, natureza, projetos, metas e estratégias. Temos que produzir resultados e mais resultados. Nossas demandas existenciais vão além do nosso ideal de consagração. Em tempo de pandemia, em espaços de plataformas virtuaistemos que demonstrar produtividade nas iniciativas evangelizadoras. São audioconferências, videoconferências, troca de mensagens virtuais, busca de plataformas digitais etc.

O momento pede para sermos eficazes, isto é, fazer coisas certas e eficientesfazer coisas corretamente. Essas realidades estão nos bombardeando de todos os lados. Para sermos eficazes e eficientes estamos usando todo o nosso ser (corpo e mente) na produção de inúmeras videoconferências, na revisão de projetos de gestão, na adequação às redes sociais e muito mais. Focamos em posicionamento digital, queremos preparar bem as lives, que nos obrigam ser mais produtivos. Estamos sendo desafiados por um vírus que vem nos causando medos, apreensões, divisões e conflitos. Temos que ressignificar nossa consagração, voltar à fonte primeira.

Byung-Chul Han, um pensador coreano que se fixou na Alemanha, em sua obra “Cansaço dos Bons”, fala de uma sociedade configurada em torno de um excesso, tanto de positividade como de produtividade, que caracteriza a chamada “sociedade do desempenho”. A sociedade e os consagrados, com essa crise sanitária, estão sendo levados, nos últimos meses, ao excesso de positividade e de produtividade. Para Han, ao fazer uma análise patológica da sociedade, isso que estamos vivendo nada mais é do que uma série de males que variam conforme suas fases históricas. Os desafios do tempo trazem situações patológicas.

No século passado, a sociedade foi marcada por doenças virais e bacteriológicas que chegaram ao fim com a descoberta dos antibióticos pelo inglês Alexander Fleming, em 1928, pois os antibióticos podem ser bactericidas (matam) ou bacteriostáticos (impedem o crescimento).

Mesmo ciente de que a tecnologia voltada para a questão imunológica continua sendo um desafio, basta ver a procura da vacina para Covid-19, cientistas, pesquisadores ainda continuam lutando para vencerem a guerra bacteriológica.

No entanto, a questão discutida por Han é que muitas doenças típicas da atualidade não são decorrentes de infeções. São doenças provocadas por um excesso de positividade e, por isso mesmo, nenhuma técnica imunológica mostra-se eficaz para combatê-las.

Destarte, devemos entender que nós, consagrados, somos mente e corpo. Se existe uma mente existe um corpo. Uma mente sadia, um corpo sábio. Se o corpo adoece ele pode adoecer a mente, assim como a mente pode adoecer o corpo. Nesse tempo de pandemia, nós consagrados estamos sendo impactados em nosso corpo e mente pelo vírus Covid-19. Em relação ao corpo, o fazer-fazer pode nos adoecer e a nossa mente desenfreada, buscando saber e saber mais, pode ser afetada por grandes transtornos neuronais

Para Han, “a violência da positividade, que resulta da superprodução, superdesempenho ou supercomunicação, já não é mais viral”. A imunologia não assegura mais nenhum acesso a ela. A rejeição frente ao excesso de positividade não apresenta nenhuma defesa imunológica, mas uma ab-reação neuronal-digestiva, uma rejeição, manifestações de uma violência neuronal, que não é viral, uma vez que não podem ser reduzidas à negatividade imunológica.

No entanto, os consagrados devem cuidar e ser atentos em relação às doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de Burnout (SB), apatia, stress, cansaço, esgotamento (físico, mental), síndrome do pânico, ansiedade e tantas outras podem vir do excesso da positividade e da produtividade.

Necessitamos cuidar de nossas mentes para dar agilidade ao nosso corpo e, cuidando do nosso corpo, nossa mente não será atingida pela violência neuronal. Nunca podemos esquecer da escola do Evangelho que nos fortifica na consagração.

Dom Edson Oriolo

Bispo de Leopoldina – MG

O que faz uma pessoa mentir? Na grande maioria das vezes a mentira envolve uma situação em que a pessoa deseja passar ao outro

O que faz uma pessoa mentir? Na grande maioria das vezes a mentira envolve uma situação em que a pessoa deseja passar ao outro ou para si mesma, uma imagem que não é a real, para tirar proveito (e evitar consequências).

Tentar mentir para Deus é impossível e a consequência é catastrófica! Chega a assustar, aos que têm uma ideia light do erro da mentira, a história bíblica de Ananias e Safira (Atos dos Apóstolos 5,9) que tentaram enganar a Deus e mentiram para o Espírito Santo. A falta de autenticidade lhes trouxe morte fulminante.

Mentir é tão grave assim? Se lermos a Bíblia com cuidado esse talvez seja um dos pecados mais graves, mais citados (mais de 70 citações) e condenados; o pecado contra a verdade. A falta de autenticidade é de fato falta muito grave, que Satanás – o pai da mentira- induz a minimizar a importância. Há os que mentem por fraqueza, por lhes faltarem coragem de serem autênticos, por lhes faltarem força moral de assumir seus erros (grande mal dos tempos atuais!). Como serei respeitado ou amado se for frágil?!

Há os que mentem porque precisam esconder seus erros ou sua baixa estima. Há os que mentem para distorcer a realidade para ajustar o mundo aos seus desejos e necessidades. Há os que mentem pelo desejo do poder tirânico, por ambição… são muitas as razões…

Com a exceção dos que mentem conscientemente para manipular a opinião do outro, os que mentem para protegerem seu ego do confronto com a sua fragilidade, podem tentar apagar da memória seus pecados, mas estes não deixam de existir com essa estratégia. O que lhes aconteceriam se aceitassem a sua humanidade e humildemente dissessem: perdão, eu errei. Em vez de tentarem apagar da memória, enfrentassem a si mesmo. No mundo das aparências, das imagens construídas, precisa ser forte para isso!

Quando há consciência no sujeito, o erro da mentira é grave, mas a pessoa sabe que está errada. Pior ainda é quando a pessoa perde o contato com a realidade e começa a mentir para si própria. Aí há uma outra forma de morte envolvida. Quem pode tirar uma pessoa desta ilusão que ela mesma criou e acredita ser real. A morte de sua própria identidade está envolvida. A pessoa criou uma personagem, que não erra, e agora não sabe viver com seu eu real e se esconde de si mesmo. Não consegue mais olhar, não consegue mais ver a realidade como os demais. Se distancia de si e dos que a amam, porque vive uma realidade construída por seus medos secretos (ou não).

Por mais dolorosa que seja a verdade, não minta mais para você. Não tente ajustar a realidade para você não viver ou sentir um conflito, minimizando, para não “doer” tanto. Encare e enfrente, vai doer, vai, mas passa. Peça perdão a Deus e ao outro. Não há relacionamento que suporte o peso da mentira, a malícia do demoníaco, que mata a alma e faz perder a si mesmo, e ao outro.

Encare a verdade, confesse e assume. Tenha coragem! Liberte-se do irreal e olhe para si mesmo com amor. Construa sua identidade no possível e não no irreal, no sonho desejado, mas não alcançado, só assim você conseguirá sentir a alegria de se olhar pelo espelho da alma e buscar em si a felicidade que tanto almeja.  Os que verdadeiramente o amam, sem dúvida anseiam a sua volta deste mundo construído pela fuga do que é real.

Vania Reis

[email protected]

Antes que termine o mês de janeiro marcado por uma campanha que vai crescendo ao longo dos anos e conhecida como “janeiro branco” que

Antes que termine o mês de janeiro marcado por uma campanha que vai crescendo ao longo dos anos e conhecida como “janeiro branco” que objetiva o enfrentamento de um dos maiores problemas em termos de saúde mental, vamos dedicar esse artigo a um conjunto de pessoas com as quais lidamos diretamente nas Igrejas e tantas vezes são esquecidas em suas dificuldades e na própria saúde. Faço isso em função da importância do tema e pela estima e consideração por tantos padres e alguns bispos com os quais tive oportunidade de trabalhar em sua formação.

Estamos muito mal acostumados a ver apenas o padre e demais ministros ordenados com as vestimentas litúrgicas, em celebrações maravilhosas, que tocam nossa alma e nos deixam em estado de graça. Tantas vezes nem olhamos a pessoa que vive sob estas vestimentas. Como vive? Que dificuldades possui? Será que sofre? Ou é um super herói da religião? Será que é um ser humano?

É muito bonito ver padres e demais ministros ordenados, nesse mês de janeiro também tirando férias, viajando, postando fotos dos lugares visitados. Não eram visitas apenas às Igrejas rsrsrs. Como é bonito ver fisionomias felizes e de bem com a vida! Não há incompatibilidade nenhuma entre o Evangelho e a beleza da vida! Os apóstolos não foram convidados para participarem de eventos tristes na vida com Jesus. Ele queria apenas que o seguissem. Tantas vezes cobramos muito de nossos ministros ordenados! Quando ocorrem exageros, as redes sociais são implacáveis. Então muitos nem ousam se aventurar numa viagem de cunho turístico.

Tem crescido muito as pesquisas e publicações a respeito do sofrimento psíquico dos sacerdotes, algumas abordando em sentido mais amplo como adoecimento emocional de líderes religiosos cristãos. Segundo a Internacional Stress Management Association a vida sacerdotal é uma das atividades ou profissões mais estressantes da atualidade. Segundo pesquisa de 2008, 28% dos padres entrevistados mostravam estarem “emocionalmente exaustos”. Trata-se de um percentual muito elevado e que tem trazido casos agudos de depressão que levam ao suicídio.

Esse é outro problema que temos até receio de tocar; é quase um tabu, mas está presente entre nós. A depressão e a Síndrome de Bournout, que são as mais conhecidas entre nós, matam de diversas formas, entre elas a interrupção da vida.

Acreditamos piamente que a fé seria suficiente para superar todos os desafios que o sacerdote encontra pela frente no dia a dia. Poucas pessoas sabem o grau de exigência da Igreja em relação a eles. Idealizamos um padre como modelo de virtude e santidade, um novo Cristo entre nós que consegue carregar todas as cruzes das cada pessoas que o procuram e assim o submetemos na vida pastoral. Como se trata de uma pessoa pública, qualquer deslize é fatal para a sua vida. Pode ser um simples gesto no altar, num momento de desatenção. Em tempos atuais tudo é gravado e distribuído. E aquele segundo, no dia seguinte, torna-se um inferno. Haja força e fé para aguentar o estrago em sua vida.

Um dado marcante também na pesquisa da Associação citada acima é que no meio do clero diocesano o stress é mais intenso que no meio do clero religioso, que convive numa comunidade. Tem momentos que são muito desafiadores para o presbítero como do final de semana, no domingo a noite, quando todas as atividades pastorais foram realizadas com tanto esmero e empenho, e o padre retorna para a sua casa. Deu tudo de si. Mas tantos sentem-se esgotados, exauridos, sugados. Encontrar formas para superar esse momento é um grande desafio na vida religiosa. O convívio numa comunidade religiosa é o caminho que os padres de congregação encontram para superar a solidão dessa hora. O cansaço é grande, que nem o sono parece vir em seu socorro.

No contexto da campanha do “janeiro branco”, um mal ao qual todos estamos envolvidos é a publicização da doença. Parece que ao se falar que alguém está com depressão é motivo para deboche, indiferença ou simplesmente negação de qualquer ajuda. Vejamos como em nossas organizações sociais é tratada a depressão em seus funcionários. Na Igreja é um pouco pior em relação aos padres. Logo algum desavisado vai dizer que o problema daquele padre é falta de fé. Essa é a forma mais cruel para se tratar da depressão no meio sacerdotal. Além do mal em si ainda ele recebe o juízo de que está em “crise de fé”. Isso é muita crueldade.

Nessa via “crucis”, o nosso sacerdote passa a dormir cada vez menos, geralmente tendo que tomar remédios para o sono, passa a se alimentar da pior maneira, aumentando seu grau de irritação com tantas pequenas coisas que se tornam enormes em decorrência de sua doença. Até o caminho do álcool pode ser percorrido. Acho que não podemos mais fingir que isso não acontece entre nós. Como a Igreja cuida de seus pastores?

Com a idade avançando, e o padre transformando-se cada dia numa verdadeira “máquina de distribuição de sacramentos”, logo vai se cansando, e chegando à casa dos 60 a 70 anos passando a viver cada vez mais isolado numa solidão desastrosa, ao ponto de um sacerdote dizer: “nós já não somos importantes, apenas uma presença reconhecida em certas cerimônias, praticamente às margens da vida”.

Muitos adotam como caminho de seguir doente caindo no isolamento ou no silêncio. Contudo, ao longo dessa via vai deixando sinais do próprio adoecimento. Quando acompanhava os seminaristas em salas de aula o que eu mais temia era o silêncio da turma. É perigoso e traiçoeiro. Sempre admirei alunos e lhes dei essa possibilidade de falarem o que estavam sentindo do percurso pedagógico que conduzia. É preciso temer o silêncio nessas circunstâncias de stress. Pode não ser o melhor sinal para a superação dos obstáculos pastorais.

O Vice-Presidente da CNBB dom Jaime Spengler sugere que os padres devam buscar ajuda imediata junto ao seu bispo local, que é o grande responsável pelo cuidado de seus filhos. Mas também o bispo está nesse mesmo contexto precisando de ajuda. Não é fácil. Muitas pesquisas estão sendo desenvolvidas pelo mundo afora tomando essa problemática como foco e atenção. Há diversas iniciativas pelo mundo afora. Em algumas dioceses está se desenvolvendo a Pastoral Presbiteral que além da formação permanente dos sacerdotes busca discutir os caminhos da saúde física, psíquica e afetiva dos mesmos.

Como se trata de uma campanha, esse problema não poderia ficar dissimulado ou indiferente à vida eclesial. Deus chama os seus ministros ordenados em sua totalidade e não apenas uma parte deles. É um chamado para cuidarmos das necessidades espirituais, com certeza, e nunca se deve abrir mão dessa necessidade na formação dos padres. Mas Deus os chama também nas necessidades da mente, sem sofrimentos, sem stress e sem depressão. E Deus os chama por fim nas necessidades do corpo. Sem cuidar do equilíbrio dessas três dimensões, o super herói em pouco tempo estará esgotado. Descartado!

Edebrande Cavalieri

A Igreja lança novamente para o tempo da Quaresma desse ano de 2022 a Campanha “Fraternidade e Educação”, buscando traduzir as vivências da fé

A Igreja lança novamente para o tempo da Quaresma desse ano de 2022 a Campanha “Fraternidade e Educação”, buscando traduzir as vivências da fé cristã para a construção de relações cada vez mais fraternas num mundo justo e solidário. Essa Campanha da Fraternidade está em sintonia com o apelo do Papa Francisco em vista da reconstrução do Pacto Global Educativo. O lema que orienta toda essa caminhada está na Sagrada Escritura escrito de maneira lapidar: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (Pr 31, 26).

A proposta apresentada pela CNBB convoca todo o povo cristão para esse momento, especialmente as Instituições de Educação Católica e outras Igrejas e organizações que buscam seguir o referencial humanista na educação. É preciso não perder esse foco e abandonar propostas de conteúdos que objetivam mais a exclusão e o descarte. O Papa Francisco nos solicita que aceleremos o movimento inclusivo da educação para combater a cultura do descarte, que rejeita a fraternidade, semeando o ódio, a competição, a intolerância, a discriminação. Nesse sentido, a educação enquanto realidade dinâmica deve orientar-se para o desenvolvimento pleno da pessoa, em sua dimensão individual e social. Não haverá educação humanista sem estar inserida no contexto social e comunitário.

Estamos ainda em tempo de pandemia que agravou ainda mais a condição de pobreza extrema que impossibilita o acesso integral à rede pública de educação. Vemos crescer um contingente cada vez maior de pessoas sem estudo, sem diploma e sem capacitação profissional, o que vai fechando todas as portas do mercado de trabalho. Tantos jovens buscam alternativa de emprego em atividades ilícitas como o tráfico de drogas. A impossibilidade de acesso à educação também cria obstáculos a tantos outros direitos como a habitação, a saúde, o transporte, a cultura. Por isso, um humanismo que não enfrenta a condição concreta da exclusão social é apenas perfumaria para ficar bem com a própria consciência.

O chamado mais específico é feito às escolas católicas de ensino fundamental, médio e superior. Uma escola cristã que forma apenas para o mercado de trabalho pessoas que podem pagar altas mensalidades, que fortalecem a competição mais acirrada possível, sem a inserção do educando na realidade social mais ampla, não cumpre sua função como educadora verdadeiramente cristã. Para isso, todos os currículos em seus diversos níveis (fundamental, médio ou superior) deveriam ter como objetivo a formação completa, permitindo que o educando tenha um conhecimento de si mesmo, tenha um conhecimento crítico da Casa Comum onde é chamado a viver, e a descoberta da fraternidade dentro de uma composição multicultural da humanidade em sua diversidade.

Trata-se de uma proposta educativa de cunho ecológico, como muito bem é refletida pela Encíclica Laudato Si’. Uma educação que visa apenas o indivíduo é contrária ao projeto do Reino de Deus. Todo educando necessita de uma formação de si mesmo como pessoa, como ser solidário com os outros e com todos os seres vivos, culminando com uma formação espiritual com Deus. A vivência da fé não se reduz a uma visão particularista exclusiva com Deus. Sempre ela estará implicando a si mesma, aos outros homens e ao mundo no qual habitamos. Isso exige “educadores capazes de reordenar os itinerários pedagógicos duma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão”, nos diz a referida Encíclica.

Por fim, o projeto de uma educação para a fraternidade que se queira humanista requer enfrentar o desafio da inclusão. Aqui estão presentes os maiores desafios para a vivência da fé cristã, pois excluídas são aquelas pessoas tomadas pela pobreza, pela vulnerabilidade, pela guerra, pela fome, pela seletividade social, pelas dificuldades familiares e existenciais. No mundo atual gritam ainda mais forte as vozes dos refugiados, das vítimas do tráfico de pessoas, dos migrantes, sem nenhuma distinção de gênero, religião ou etnia. Tantas vezes temos a impressão que construímos uma sociedade que se move sempre na direção da rejeição da fraternidade ou fica apenas indiferente perante essa realidade.

Com essa Campanha da Fraternidade envolvendo as instituições educativas, professores e alunos, e toda a comunidade pedagógica, todos são chamados a testemunharem perante o mundo que é possível uma sociedade pacífica, sem ódio, em paz. Nosso desafio atual está nesse compromisso, vivendo num mundo cada vez mais plural, cada vez mais dividido entre gerações, povos, culturas, populações ricas e pobres, homens e mulheres, economia e ética, humanidade e ambiente. A humanidade está muito enferma decorrente dessas fraturas. Quase não consegue mais andar. Estamos doentes de nós mesmos, sem entender que a diversidade nunca atrapalha a unidade; ao contrário, ela é que nos enriquece. É o medo do diferente que nos adoece. Então, a educação humanista jamais deverá nortear suas ações pelo caminho da homogeneidade, mas da diversidade em seus inúmeros aspectos.

A grande tarefa que nos deixa essa Campanha da Fraternidade em vista de resgatar com justiça e dignidade todas as pessoas com uma educação inclusiva é reunir educadores e educadoras, educandos/as para pressionar os governos (municipal, estadual e federal) por políticas públicas concretas de modo que se possa falar com sabedoria e ensinar com amor. Para isso, a educação humanista implica o acesso à terra, às oportunidades de trabalho, a capacitação para o trabalho e a geração de renda, estando assim lutando contra toda forma de exclusão.

Edebrande Cavalieri

Nesse tempo em que estamos envolvidos com a crise sanitária Covid-19 e suas consequências para a evangelização, entramos em um mundo totalmente desconhecido para

Nesse tempo em que estamos envolvidos com a crise sanitária Covid-19 e suas consequências para a evangelização, entramos em um mundo totalmente desconhecido para anunciar as verdades sobre Jesus Cristo, a Igreja e o homem, na era digital. Em tal cenário, encontramos desafios e, sem muita expertise para evangelizar e por ignorância digital, caímos muitas vezes no ridículo. Não estamos sabendo administrar o espaço virtual.

A evangelização no mundo digital defronta-se com recursos que devemos, minimamente, ter noção. São ferramentas que nem sempre são bem usadas no cenário (écrans) virtual. Esse mundo digital, baseado no algoritmo, faz-nos defrontar com bolhas digitais, ou seja, com envio de assuntos segundo o uso que fazemos da internet como que condicionando nosso universo de notícias. Junto com Bad News, Good News, Fake News, surge a deepfake, ampliando o mundo da pós-verdade.

As deepfakes são vídeos criados pela inteligência artificial com a finalidade de imitar as expressões e até a voz da pessoa, fazendo com que o sujeito possa aparentar, fazer ou dizer algo que nunca fez. Trata-se de um recurso ou ferramenta que tem uma finalidade que pode ser desvirtuada por quem a maneja. Por detrás da ferramenta está sempre um ser humano que é o responsável pelo uso que faz desse instrumental. Essa prática polêmica já se encontra nas redes sociais. Está se tornando uma brincadeira entre os adolescentes, jovens e também sendo usada para sátiras com autoridades e pessoas comuns.

Hoje, os membros da geração dos écrans virtuais têm uma facilidade enorme na criação de vídeos falsos usando deepfakes em espírito de brincadeira, mas com alta dose de ingenuidade. Existem diversos aplicativos capazes de fazer manipulação de imagens com resultados convincentes. Esses vídeos, criados pela inteligência artificial, produzem a aparência, as expressões e até a voz de alguém do mundo real. São vídeos falsos cada vez mais realistas e com evolução da tecnologia fica difícil de discernir o que é real e o que não o é.

Essa técnica, usando a inteligência artificial, manipula o rosto das pessoas. Essa substituição de um rosto ou de uma fala tem sempre um objetivo e uma intenção humana. Como são vídeos manipulados pela perfeição técnica, torna-se difícil saber o que é o real ou falso. Colocar rostos de pessoas em vídeos ou em fotos dos quais os indivíduos não participam é sempre uma fraude. O intuito é enganar os espectadores. Pode-se dizer que se trata de uma mentira profundamente bem construída. Com tal ferramenta criam-se sátiras políticas; humilham-se pessoas, colocando autoridades ou pessoas comuns à sombra do ridículo; aumentam a desinformação; manipulam discursos de personalidades políticas e eclesiásticas.

O que acentua a dificuldade é o fato desse recurso ser disponibilizado pelo seu caráter curioso e que pode desvirtuar a imagem de alguém. Isto, pode ser um simples objeto de diversão (um brinquedo sofisticado), mas pode também ter uma conotação mais pejorativa pelo intuito de colocar o indivíduo como vítima, não só de ridículo, mas de desonra. Assim, fere-se a sua dignidade ou prejudica suas atividades e convivências familiar, eclesial e social.

Há uma responsabilidade moral tanto para quem utiliza de forma perversa o instrumental como para quem o recebe e o difunde. Por mais que se queira exaltar a inteligência artificial, o seu universo radica-se na criatividade humana e, como tal, é regido pelos princípios de individualização, personalização, conhecimento e comunicação da verdade e pela responsabilidade quanto aos resultados bons e maus das próprias ações.

No entanto, usar a inteligência artificial como um falsificador incorrerá em muitos desafios. Dizem os especialistas que daqui a três anos ficará difícil distinguir o verdadeiro do falso. Temos que nos alertar e sermos mais proativos, críticos em relação aos vídeos que estamos recebendo e compartilhando. Uma expressão que vamos escutar muito, uma mentira profundamente bem construída.

A popularização do deepfake fica no aspecto curioso ou divertido, sem atinar para a má intenção com que faz uso desse recurso. O que falta, portanto, é a educação para o discernimento de como se confrontar com um resultado perverso que é veiculado nas redes sociais. Existem indicativos que nos ajudam a identificar um vídeo manipulado, com o rosto desfocado e embaçado, movimento dos olhos, bocas e sobrancelhas, entre outros detalhes perceptíveis.

Contudo, com a evolução da tecnologia, é possível concordar que ficará difícil, mas não impossível, distinguir o verdadeiro do falso. Afinal, desde que as tecnologias da comunicação sobre a vida (fumaça, tambor, rádio, televisão) e da representação da vida (pintura, fotografia, cinema) foram sendo aperfeiçoadas, usos com diversos sentidos foram feitos e pouco se conseguiu em termos de como saber interpretar as informações seja em temos de palavras seja em termos de imagem.

Finalmente, a evangelização dá importância aos meios de comunicação (cf. EN 45), ao contato pessoal (cf. EN 45), aos sacramentos (cf. EN 45) e principalmente a verdade que é o próprio Cristo (Jo 14,6; 18,37-38). A internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus. Formas atuais de comunicação nos orientem efetivamente para o encontro generoso, a busca sincera da verdade íntegra, o serviço, a aproximação dos últimos e compromisso de construir o bem comum. No entanto, não podemos aceitar um mundo digital projetado para explorar as nossas fraquezas e tirar fora o pior das pessoas ( cf. FT 205)

Por Dom Edson Oriolo

Bispo de Leopoldina

Nesse artigo queremos não apenas tratar do aniversário de tão importante Congregação, mas também mostrar o contexto em que ela foi criada e um

Nesse artigo queremos não apenas tratar do aniversário de tão importante Congregação, mas também mostrar o contexto em que ela foi criada e um pouco do panorama missionário da atualidade que se relaciona às Obras missionárias.

A era moderna para a Igreja Católica foi desafiadora desde o início. Os velhos modelos eclesiais foram abalados com os processos de reforma protestante que se alastravam por todos os países da Europa. Restavam a Itália, Portugal e Espanha ainda intocados pela revolução reformadora. Era preciso salvar o que restava da Europa e garantir a presença católica em terras dos continentes americano, africano e asiático.

Internamente a Igreja realizou o Concílio de Trento realizado entre os anos de 1546 e 1563, tendo à frente as ordens religiosas franciscana, dominicana e jesuíta. Convocado para estabelecer novas diretrizes de ação evangelizadora e restabelecer a unidade rompida com a Reforma Protestante, acabou prevalecendo a tendência intransigente que dificultou o diálogo. Internamente a Igreja se reforma com medidas mais radicais como a reorganização do Tribunal do Santo Ofício, a implantação de Congregação para a censura ao que é publicado e a reestruturação dos seminários formando um novo clero.

Externamente a Igreja viu-se na necessidade de estabelecer acordos com os países católicos como Portugal e Espanha para conter o avanço do protestantismo nas terras descobertas. O grande acordo foi o Padroado, que era uma espécie de direito conferido às coroas de Portugal e Espanha para cuidarem dos negócios eclesiásticos. Os interesses políticos dessas potências coloniais vão se sobrepondo aos interesses da Igreja. No Brasil, implanta-se um catolicismo de cunho medieval, deixando-se para o século XIX a implantação das diretrizes do Concílio de Trento através do movimento de Romanização.

Esse acordo, o Padroado, deixou a Igreja católica atrelada aos interesses de Portugal e Espanha. A administração colonial cuidava até do ingresso dos candidatos ao presbiterato nos seminários e a expansão das circunscrições eclesiásticas. O povo brasileiro foi criando um catolicismo independente dos ministros ordenados (bispos e padres) e dependente das Irmandades conduzidas por leigos. Nesse catolicismo devocional, o padre era convidado para abrilhantar a festa com celebrações bonitas e belas homilias. Exemplo maior é a obra do padre Antônio Vieira, Os Sermões.

Ao mesmo tempo, algumas congregações religiosas foram avançando no trabalho de evangelização independente da administração colonial, criando seus próprios modelos de pastoral. Os jesuítas tiveram ainda mais sucesso pois estavam diretamente ligados ao Papa com o chamado quarto voto e não dependiam do governo português. Criaram colégios pelo Brasil a fora mantendo-os com suas fazendas. Não podemos negar que tenha havido até conflitos entre as congregações como ocorreu na Amazônia. Era natural, pois não havia uma orientação centralizada no trabalho missionário.

Foi nesse contexto que o Papa Gregório XV em 6 de janeiro de 1.622, na solenidade da Epifania do Senhor, fundou a Sagrada Congregação “de Propaganda Fide”, que agora comemora seu 400º aniversário, tendo por objetivos a reunificação dos cristãos e a difusão da fé entre os pagãos. Essa Congregação compõe-se por um conjunto de dicastérios que formam a Cúria Romana, que ajuda o Papa no exercício de seu supremo múnus pastoral, promovendo a missão própria da Igreja no mundo.

A missão dessa nova Congregação era atender à atividade missionária da Igreja, no velho e no novo mundo, com finalidades eminentemente espirituais, abandonando de vez os patrocínios coloniais das potências europeias no caso do Padroado e superando as tendências e interesses particulares da ação missionária das ordens religiosas, dando uma unidade de ação pastoral.

De imediato a Congregação tratou de organizar o Colégio Urbano de Propaganda Fide para a formação de um novo modelo de clero, e fundou a Tipografia Poliglota para a impressão dos documentos da Igrejas e do trabalho pastoral nas diferentes línguas dos povos. O caminho apontava para uma ação de unidade na formação do clero e da ação missionária, com apoio financeiro necessário. Até hoje, mesmo com as mudanças na história, a Congregação para a Evangelização dos Povos manteve os objetivos fundamentais inalterados adaptando-os aos novos contextos e tempos.

Hoje a De Propaganda Fide (Congregação para a Evangelização dos Povos) possuiu 1.117 circunscrições com sua ajuda, sendo 517 na África, 483 na Ásia, 71 na América e 46 na Oceania. Esses números mostram a grande necessidade da Missão Ad Gentes em termos vocações ministeriais, mão de obra leiga, inteligência com quadro de professores e formadores, estruturas e capacidade de financiamento. Em 2021, o seu orçamento chegou à cifra dos 25 milhões de euros. Sem a ajuda financeira proveniente das doações o trabalho missionário nos rincões mais afastados da terra seria impossível ou precariamente realizado. Daí a importância da ajuda dada pelas comunidades no mês de outubro.

Ao comemorar seu aniversário de 400 anos, é preciso frisar que desde o início manteve-se inalterada na intuição de ser um centro de propulsão, direção e coordenação para a atividade missionária.

No Brasil, as Pontifícias Obras Missionárias têm trabalhado junto às Igrejas locais através de várias Obras como a Propagação da Fé envolvendo as Famílias Missionárias, a Juventude Missionária, os Idosos e Enfermos Missionários, a Infância e Adolescência Missionária e a Pontifícia União Missionária que cuida da formação missionária de todo o povo de Deus, especialmente da formação do clero e da vida consagrada.

Seguindo as orientações do Papa Francisco no sentido da caminhada sinodal, as Pontifícias Obras Missionárias em sintonia com os Conselhos Nacional e Regional estão implantando o Programa Missionário Nacional através de quatro prioridades: Formação, Animação Missionária, Missão Ad Gentes e Compromisso profético social.

As Pontifícias Obras Missionárias buscam contribuir para um despertar da Missão Ad Gentes nas Igrejas particulares, para além fronteiras. Desta forma, três regionais da CNBB Sul I, Sul II e Sul III enviam missionários para Moçambique e Guiné Bissau. Isso é muito pouco para uma Igreja tão grande como a do Brasil. Além desse projeto, deve-se destacar o Projeto Igrejas Irmãs que tem participação ativa da Arquidiocese de Vitória enviando padres, diáconos e leigos, e contribuições materiais; ainda cabe destacar a Campanha Missionária que ocorre no mês de outubro quando recorda aos fieis seu compromisso concreto com a intensificação da oração e a ajuda material para as Igrejas com mais necessidades do mundo.

Gostaria de terminar essa reflexão destacando o valor e a necessidade de sair de sua terra, de sua paróquia, de sua diocese, para ir além das fronteiras, especialmente para as periferias geográficas e sociais. Se um padre, um diácono ou um leigo for chamado para a missão Ad Gentes trata-se de um mandato de Jesus Cristo contido no Ide a todos os povos… Uma Igreja em saída missionária não pode permanecer presa a seus compromissos locais. O Papa São João Paulo II conhecido como “Papa Peregrino” viajou por 129 países, percorrendo mais de um milhão de quilômetros, dizia na encíclica Redemptoris Missio: “Desde o início do meu pontificado, decidi caminhar até aos confins da terra para manifestar esta solicitude missionária e este contato direto com os povos, que ignoram Cristo”.

Tantas vezes o chamado de Deus se concretiza numa ação mais forte da fé para além dos muros da própria comunidade e do próprio presbitério. É preciso experimentar a pobreza de quem vive além de nossa fronteira de conforto e bem estar. Muitas vezes vivemos numa zona de conforto na Igreja. Cada batizado é chamado a ser missionário, a sair de sua terra, a ir para as periferias existenciais e geográficas.

Portanto, o aniversário de 400 anos da Congregação de Propaganda Fide é muito mais que uma festa a ser comemorada. Trata-se de um momento de reflexão e decisão para lançar-se na missão de maneira concreta, sob diversas formas como apresentamos acima. Uma Igreja fechada em si mesma definha, pois o que dá vigor à fé é seu empenho missionário, como dizia o Apóstolo Ai de mim se não evangelizar.

Edebrande Cavalieri

Foto capa: Vatican News

Na missa celebrada no dia primeiro de janeiro passado na Basílica Vaticana o Papa Francisco iniciou o novo ano sob o signo de Maria

Na missa celebrada no dia primeiro de janeiro passado na Basílica Vaticana o Papa Francisco iniciou o novo ano sob o signo de Maria e nesse caminho da maternidade ele apontou remédios para superarmos as divisões, os conflitos, as violências. Chamou-nos ainda mais a atenção a respeito da violência contra as mulheres e nos disse que é através do olhar materno que podemos encontrar o caminho para renascer. Por isso, qualquer violência contra a mulher, qualquer ferida imposta a uma delas, é ultrajar a Deus.

Trata-se de uma transgressão à Lei de Deus ofendendo gravemente a dignidade da mulher. Pode ser uma afronta, bem como uma desonra, um insulto, etc. Não se fere apenas com uma arma de fogo ou uma faca, ou mesmo com os próprios punhos. Afronta-se também com palavras de insulto à dignidade, tratando-a como um ser inferior e a serviço do macho.

O Pontífice ainda nos brindou com a reflexão sobre a verdade revelada nas Escrituras em que Maria e todas as mulheres são obrigadas a suportarem o escândalo da manjedoura. Muitas vezes, a violência contra a mulher começa no nascimento do próprio filho, semelhante à Maria, que não teve nenhuma alternativa de escolha, nem sequer um berço para que pudesse deitar o bebê recém nascido após o parto. Tantas mães veem seus filhos nascerem sem ter sequer um pano para o enrolar. A miséria dos estábulos tem aumentado muito em nossas cidades, em nossos países.

Depois do parto a via crucis aumenta ainda mais, pois são as mulheres mães que fazem das tripas o coração para dar comida a seus filhos. Muitas vezes, seus companheiros nem se dão conta do tamanho desse sofrimento materno. A panela vazia é como se fosse um deserto árido, sem água e sem comida. E nos questiona: “Que há de mais duro, para uma mãe, do que ver o seu filho sofre a miséria?”

A mulher não é destinada por Deus para servir ao homem como muitas pregações religiosas repercutem nos templos, mas é uma pessoa “capaz de tecer fios de comunhão, que contrastem os numerosos fios de arame farpado das divisões”. Foi Maria enquanto mulher e mãe quem conseguiu harmonizar o trono do rei e a pobre manjedoura, conciliando a glória do Altíssimo com a miséria de um estábulo.

Por fim, é preciso considerar que as mulheres olham o mundo não para explorar, mas para que tenha vida, pois são mães que dão a vida e guardam o mundo. É preciso considerar que a violência contra as mulheres está na ordem da conduta política e não apenas da criminalidade. Nascem na esfera política em torno de nossas organizações as orientações que dissolvem o tecido construído pelas mulheres. Como sofrem nossas representantes nas Câmaras de vereadores, nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional!

Ao mesmo tempo é preciso considerar que nosso aparato jurídico não atende aos princípios da justiça e do direito na maioria das vezes. Historicamente vemos como se matava as mulheres para “salvaguardar a honra” (do macho). Não avançamos muito. Quase sempre os feminicídios desaguam na absolvição ou pena simples de pouco tempo de reclusão.

Nesses tempos de pandemia quem mais ficou sobrecarregado nas casas foram as mães, mulheres, sem as mínimas condições para acompanharem seus filhos nos trabalhos escolares, e tantas vezes sem alimento para colocar nos pratos, com tantos desempregados. A pandemia também revelou seu lado violento com as mulheres, esquecidas nas casas. Que esse ano que se inicia os cristãos e especialmente os católicos invistam forte no combate a todo tipo de violência, a todo movimento que fere a dignidade da mulher. Para concluir, o Papa afirmou que “Igreja é mãe, Igreja é mulher”. Nesse sentido, a grande tarefa pastoral é “promover as mães, e tutelar as mulheres”.

Edebrande Cavalieri

Os tempos atuais provocam o raciocínio naquilo que tangencia as questões morais em situações tidas em um tempo histórico da ‘pós-verdade’. Neste sentido, é

Os tempos atuais provocam o raciocínio naquilo que tangencia as questões morais em situações tidas em um tempo histórico da ‘pós-verdade’. Neste sentido, é fundamental que se parta de tais conceitos para que eles se tornem fundamentos do raciocínio a ser desenvolvido. Sendo assim, pode-se pensar que a pós-verdade é uma espécie de falência da racionalidade e da ética ocidentais. Caracteriza-se pela relativização da realidade das coisas em benefício de convicções formadas em um cenário eminentemente afetivo e ideológico, ainda que sem nexo com a razão. Há a exaltação do subjetivo e o critério passa a ser o sujeito. Neste sentido, as coisas são de determinado modo porque o indivíduo quer que elas sejam assim ou porque elas, sendo assim, favorecerão tal discurso, o restante não interessa.

Em tempo de crise sanitária Covid-19, tenho refletido e escrito sobre os inúmeros desafios causados pelas redes sociais na vida e no processo de proclamar as belezas do Bom Deus, na Igreja. As redes sociais estão inaugurando um mundo totalmente novo e, com efeito, traçando rumos sem volta. Hoje, a tecnologia digital é a língua materna da maioria das pessoas. Estamos nos tornando “nativos digitais”. A grande maioria das pessoas é capaz, em poucos minutos, de entrar nesse universo digital. Ele é rápido, fascinante, multifuncional e nos conquista com muita facilidade.

Observemos as inúmeras expressões: on-line, off-line, fomo (fear of missing out – medo de ficar de fora), jomo ( joy of missing out – alegria de estar de fora), wi-fi, instragram, facebook, fake News, bad News, good news, pós-verdade, deepfake que estão transformando fundamentalmente a nossa maneira de viver, relacionar, agir, manifestar opiniões e sentimentos. São expressões imbuídas de um campo semântico que significam a atualidade, bem como o comportamento moral de seus envolvidos.

Essas descobertas do mundo digital vêm afetando o nosso desenvolvimento somático (obesidade e maturação cardiovascular), cognitivo (linguagem, concentração), intelectual (muita distração e pouco conhecimento), emocional (agressividade, ansiedade, esconder atrás das telas, medo) e principalmente o “senso moral” em relação aos verdadeiros e autênticos valores como: honestidade, transparência, sinceridade, justiça, respeito, educação, solidariedade, humanização. Ou seja, frutos do Evangelho.

Destarte, não obstante a evolução tecnológica, alguns desafios continuam nos desvirtuando de valores morais por causa da suposta superioridade tecnológica das novas gerações. As telas e os écrans virtuais estão nos influenciando e quebrando paradigmas em nossos expedientes racionais que foram construídos, tendo por base o afeto. Em relação à moralidade, estamos entrando em um “efeito manada” sem qualquer juízo a priori.

A pós-verdade favorece a produção de uma lógica muito arraigada de “desinformação”. Se o conteúdo simplesmente compactua com as paixões individuais, gerando despreocupação em relação à veracidade e há a divulgação o mais rápido possível, a pessoa se converte em instrumento poderoso na mão de manipuladores, que
visam a destruição ou, ao menos, a polarização e a desconfiança mútua, mesmo no interior da Igreja. Jesus nos ensinou como devemos reagir diante dessas situações: “Entre vós não
deve ser assim” (Mt 20,17).

Nesse tempo com tanta ciência (estrutura do saber) e técnica (fazer virtual), além de sermos adolescentes nesse novo mundo estamos cometendo muitos equívocos em relação à moralidade dos fatos e acontecimentos. Mesmo sendo “nativos digitais”, devemos resgatar o senso da moralidade ou “senso moral”, isto é, ajudar os outros, ter empatia, não cometer atos ilícitos, ser honesto, ser transparente no agir, nas ações e no falar, zelar pela boa fama a que toda pessoa tem direito.

O “senso moral” é quando uma pessoa tende a agir por conta de seus sentimentos para com o próximo, pelos seus valores e pelo senso de igualdade entre si mesmo e o próximo. A pessoa age imediatamente em favor do próximo para se sentir bem em relação aos valores. Mas, com os desafios do dinheiro, da sexualidade e do espirito santimonial, as pessoas estão agindo de maneira impensada ou erradamente, desencadeando sérios problemas alimentados pela telas e os écrans virtuais.

No entanto, esses desafios interligam entre si e causam sérios problemas na sociedade e, principalmente, nos ministros ordenados, que têm a missão de anunciar a beleza do Bom Deus ontem, hoje e sempre. Urge, a partir daí uma nova concepção antropológica, a necessidade de uma nova gestação da sensibilidade humana. O revisar do senso moral passa precisamente pelos critérios evangélicos e inaugura sempre novos comportamentos.

Dom Edson Oriolo

Bispo da Igreja Particular de Leopoldina – MG