O Papa Francisco em sua mensagem para a quaresma desse ano toma o Evangelho da transfiguração de Jesus e nos mostra como o caminho
O Papa Francisco em sua mensagem para a quaresma desse ano toma o Evangelho da transfiguração de Jesus e nos mostra como o caminho quaresmal está entrelaçado com o caminho sinodal. A transfiguração de Jesus está situada no contexto de uma ascese, subida ao Monte Tabor. Para isso, torna-se necessário deixar para trás nossas mediocridades e vaidades para que possamos ser tomados à parte pertinho do Senhor. Esse é o primeiro movimento fundamental da quaresma. Aceitando o convite para subir ao monte, somos colocados à parte para escutar o mestre. A ascese cristã que nasce dos Evangelhos não nos pede autoflagelação, açoites, mas que nos coloquemos em caminhada para subir o monte deixando a vida cotidiana repetitiva e enfadonha.
A ascese cristã se apresenta como um empenho radical sempre fortalecido pela graça de Deus para que possamos superar as nossas faltas de fé e as nossas resistências em seguir Jesus no caminho da cruz. Os nossos projetos pessoais, os nossos interesses e as nossas vaidades são deixados de lado, para trás. Os quarenta dias da quaresma servem assim para um processo de purificação, de transformação. Um tempo que não se reduz ao puro sacrifício nem sempre condizente com a tradição cristã que vem dos Apóstolos.
Contudo, essa ascese deve ser realizada como Povo santo de Deus, que faz uma experiência de comunhão ascética. Não são mais os atos individualistas que fortalecem a experiência ascética, mas o caminho conjunto na subida do monte. É um “caminho de subida, que requer esforço, sacrifício e concentração”. Para quê? Para um encontro mais profundo com Jesus, para conhecê-lo. Como discípulos chegaremos juntos para esse encontro.
Esse caminho não é uma corrida de alguém disposto a bater recordes num final de semana como atleta esportivo. Não se trata de uma preparação para bater recorde olímpico. Trata-se de um caminho que deve ser percorrido de maneira sinodal, “porque o percorremos juntos pelo mesmo caminho, discípulos do único Mestre”. Pois “eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Desta forma, a ascese quaresmal se insere na experiência profunda do caminho sinodal.
Estamos diante de dois caminhos – quaresmal e sinodal – que têm como meta uma “transfiguração, pessoal e eclesial. Uma transformação que, em ambos os casos, encontra o seu modelo na de Jesus e realiza-se pela graça do seu mistério pascal”, conclui o Papa.
Lá em cima do monte Tabor, enquanto os discípulos estão a contemplar Jesus transfigurado, uma voz ecoa entre as nuvens dizendo de maneira claríssima: “Escutai-O”. Muitas vezes, achamos que estamos escutando o Senhor, mas na verdade estamos ouvindo nossas próprias vozes, nossas próprias vontades. Não é fácil escutar o Senhor. A transfiguração dá aos discípulos esse caminho para que possam escutar melhor. A surdez deixada pelas vaidades e interesses foi superada na subida, na ascese.
A quaresma assim torna-se um momento por excelência para ouvir o Senhor, para escutá-lo na “Palavra de Deus que a Igreja nos oferece na Liturgia”. O Papa ainda nos provoca dizendo para não deixar essa Palavra “cair em saco rasgado”.
Porém, o Senhor não nos fala apenas nas Sagradas Escrituras. “Ele nos fala sobretudo nos irmãos, nos rostos e vicissitudes daqueles que precisam de ajuda”. O processo sinodal entrelaça dessa forma a escuta de Cristo que passa também através da escuta dos irmãos e irmãs na Igreja.
Por fim, não é possível vivenciar essa ascese quaresmal sem ouvir o grito dos famintos pelas ruas e avenidas de nossas cidades e nossos campos. Tampamos os ouvidos? Mas o Senhor nos pede encarecidamente: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Como iremos caminhar juntos com um povo de famintos pedindo comida? Não se trata apenas de encher cestas de comida, pão e levar aos famintos.
As duas mesas expostas na abertura da Campanha da Fraternidade desse ano estavam envolvidas com toalhas nas cores do Estado do Espírito Santo e do Brasil. Estavam vazias no início da celebração e ao final o povo as encheu de pão. Mas isso não basta ao cristão. É preciso empenhar um compromisso junto aos poderes públicos para que assumam a responsabilidade humanitária de cuidar da fome e dos famintos. A luta por políticas públicas é tarefa cristã na sociedade, decorre de nossa fé.
Desta forma, o caminho sinodal e o caminho quaresmal podem trazer transformações que tornam resplandecente o Mestre com suas vestes.
A cada ano que se passa mais tragédias provocadas pelas fortes chuvas acontecem. Esse ano foi o litoral norte de São Paulo. Nos anos
A cada ano que se passa mais tragédias provocadas pelas fortes chuvas acontecem. Esse ano foi o litoral norte de São Paulo. Nos anos anteriores foram as regiões montanhosas do Rio de Janeiro e assim sucessivamente as mortes acontecem às dezenas, centenas e milhares. A culpa é de quem? São extremismos das intempéries agravados pelos desequilíbrios climáticos. Podemos ficar com a consciência tranquila assim justificando e lamentar aos céus orando a Deus que venha em nosso socorro?
Essas tragédias vêm acontecendo de maneira mais intensa nas últimas décadas no Brasil. Os mais velhos hão de lembrar das famosas trombas d’água que derrubavam pontes e pinguelas, destruindo lavouras de arroz e milho, mas nada comparado com o que vem acontecendo nos ambientes urbanos dos tempos atuais. Confesso que não dá para ficarmos tranquilos com a consciência pseudo-religiosa que sempre atribui tudo às forças naturais e a Deus, talvez.
O governo anterior reduziu drasticamente as verbas para as áreas de Defesa Civil e Combate e Prevenção de Desastres Naturais. Dessa forma, chuvas torrenciais e consequentes deslizamentos de terra e inundações escondem a ausência de políticas públicas de habitação, saneamento básico e infraestrutura eficazes, deixando bem a clara a precariedade da articulação de políticas de prevenção de desastres pelos Estados e Municípios brasileiros. O Ministério do Planejamento e Orçamento enviou um projeto de orçamento pelo Governo Bolsonaro prevendo apenas RS 671,54 milhões para ações de prevenção e gestão de desastres. Era o menor em 14 anos. Onde foi esse dinheiro? Com certa probabilidade, para o orçamento secreto de distribuição de verbas para os senhores congressistas como troca decorrente do apoio político nas eleições.
O Governo atual foi obrigado a refazer o projeto ampliando para 1,17 bilhão com aprovação da PEC da transição pelo Congresso Nacional. Esse dinheiro é muito pouco para investir em obras de contenção de encostas, drenagem, estudos de área de risco etc. Mesmo assim, a verba atual é quase o dobro do que era previsto pelo governo anterior.
Nos últimos dez anos houve 245 decretações de Situação de Emergência e mais de 525.000 pessoas afetadas pelo excesso de chuvas. Nesse mesmo período foram a óbito 1.756 pessoas. Assim poderíamos descrever tantas consequências decorrentes desses desastres.
Uma verdade ronda as grandes tragédias naturais. Na Turquia e na Síria quem mais sofreu a dor dos tremores de terra foram os mais pobres. A engenharia que construiu os pequenos apartamentos dos pobres não foi a mesma que construiu as grandes mansões das camadas ricas. Os materiais usados não eram os mesmos sendo fácil prever que não suportariam grandes tremores de terra.
No caso brasileiro, essas tragédias decorrem da má distribuição de renda e do precário funcionamento das políticas públicas voltadas para o social. O fator mais agravante dessas tragédias chama-se desigualdade social. Esse é o grande extremismo e não os fatores de ordem natural. Não justifica o argumento de que foi o excesso de chuva calculado em 660 mm. Poderia ter chovido a metade e o problema seria o mesmo. Morar nos lugares de risco decorre de uma política agrária que expulsa o homem do campo, forçando-o a vir morar nas áreas de risco no entorno das cidades. Ou também pode ser a explosão imobiliária forçando os moradores das áreas planas a buscarem moradia nas encostas, como aconteceu em São Sebastião no litoral norte de São Paulo.
Já estamos cientes da necessidade de uma reforma agrária e muito já foi realizado. Contudo, é preciso pensar urgentemente uma reforma urbana. Quanto custa? Ela é urgente e necessária e será capaz de gerar riqueza e mão de obra, além do consumo no mercado. A reforma urbana poderia gerar muitos empregos com o incremento da construção civil, fortalecendo o motor da economia. Essa reforma está em sintonia com as políticas públicas para o reordenamento das cidades, democratizando suas estruturas e democratizando o seu acesso para as camadas economicamente necessitadas.
A reforma urbana começou a ser pensada no Brasil em 1960, integrada com a reforma agrária. Eram chamadas de “Reformas de Base”. Em 1963, o Instituto dos Arquitetos do Brasil elaborou uma proposta de reforma urbana, contudo foi sufocada pelo regime militar. Argumentava-se que a justiça social era pretexto para impedir o desenvolvimento econômico do país. Uma das instituições que mais colaborou nessa discussão foi a Igreja Católica ao lançar o documento “Ação Pastoral e o Solo Urbano”, em que se defendia a função social da propriedade urbana.
Este Documento foi publicado em 1982 na 20ª Assembleia da CNBB. A constatação da desigualdade é explicitada nos seguintes termos: “A especulação imobiliária, ao aumentar o preço do solo, agrava a situação habitacional do país e permite perceber uma característica fundamental na destinação do solo urbano: há solos para habitação, repartidos desigualmente entre as diversas camadas sociais, como também solos de especulação, estocados e ociosos, destinados a operações imobiliárias” (n.16).
Foi a partir da Constituição de 1988 que ficou mais fortalecido o Movimento Nacional pela Reforma Urbana tendo por base uma nova ética social onde a cidade é condenada como fonte de lucros para poucos em troca da pobreza de muitos. Nesse momento a crítica à desigualdade social urbana torna-se mais evidente, mostrando como se constituem as cidades em espaços para os ricos e outros espaços para os pobres.
É direito de todos os seus moradores o acesso à cidade. Assim, a reforma urbana se constitui na articulação e unificação dos movimentos sociais que vão além das circunstâncias locais das tragédias, abrangendo as questões nacionais. E envolve também uma crítica radical da desigualdade social espacial, da cidade dual (espaço dos pobres e espaços dos ricos). Em foco estão a justiça social e a luta pela igualdade de direitos. E mais ainda, torna-se urgente a constituição de uma participação democrática na gestão das cidades, superando os planos tecnocráticos dos especialistas.
Os Bispos do Brasil, no Documento acima citado, aprofundam ainda mais a questão denunciando uma “concepção privatista do direito de propriedade que garante ao proprietário como direito absoluto a faculdade de usar, gozar e dispor do solo urbano, visando exclusivamente à defesa dos próprios interesses” (n. 100).
Chegando ao momento atual das tragédias, podemos afirmar com certeza que foi a desigualdade que mais matou e não as chuvas. As mortes tinham cor, tinham escolaridade, tinham renda e estavam todos na base da pirâmide social. Quem mora nas encostas da Serra do Mar no litoral norte de São Paulo? São pessoas que trabalham nas casas de luxo e condomínios alpha Ville, migrantes expulsos do campo, pobres, negros, indígenas. Foram essas mesmas pessoas com seus esforços e, muitas vezes em mutirão, que construíram seus pequenos barracos, suas casas.
Os terrenos seguros para moradia urbana são todos proibitivos para essa população vulnerável. As famílias humildes moravam na praia onde hoje ficam os condomínios de alto padrão, as pousadas e hotéis. Essas famílias foram empurradas pela especulação imobiliária para as encostas de morros. As águas podem ter entrado nas casas dos ricos, porém foram os pobres que perderam suas vidas. Em toda grande tragédia considerada natural há uma história de desigualdade social.
Enfim, uma reforma urbana se refere ao direito à cidade. Isso significa poder participar democraticamente de sua gestão e participação, cumprimento da função social da cidade, garantia da justiça social e condições dignas para seus habitantes, subordinação de toda propriedade urbana à sua função social e previsão de sanções aos proprietários quando não for cumprida a função social da propriedade urbana e social.
Para a Igreja Católica, uma reforma urbana deve levar a cidade à condição de um espaço de convivência solidária. Porém, para isso é preciso superar inúmeros obstáculos jurídicos e políticos. A reforma urbana visa superar a situação de injustiça para “remir a cidade do estado de pecado social”. Trata-se de um conjunto de ações de cunho beneficente, caritativo, de justiça. E acima de tudo, uma reforma necessária para a sobrevivência de todos.
Estamos iniciando não apenas o tempo da quaresma, momento muito forte da liturgia cristã, e também uma nova Campanha da Fraternidade que traz a
Estamos iniciando não apenas o tempo da quaresma, momento muito forte da liturgia cristã, e também uma nova Campanha da Fraternidade que traz a temática da fome novamente. Para refletir um pouco mais a respeito disso, trouxe como título a frase acima proferida por Dom Luiz Fernando Lisboa, Bispo de Cachoeiro de Itapemirim. Ele era Bispo da Diocese de Pemba em Moçambique (África) quando o Papa Francisco o transferiu para perto de nós. Ele vivia numa região muito rica em recursos naturais como gás, petróleo, rubis, ouro, pedras preciosas, grafite, mármore e madeira. Contudo, essa mesma terra é explorada de diversas formas e a guerra sempre tem como raiz a questão econômica, e aumenta assim ainda mais a fome e a miséria.
Todos sabemos que o primeiro trabalho da Igreja é evangelizar, ele nos diz, mas como estão as barrigas das pessoas que recebem a Boa Nova? O Evangelho de Jesus Cristo não combina com a fome, com a pobreza. De nada servirão tantos jejuns na quaresma se ao nosso lado o nosso irmão passa fome. Pessoas que se dizem super zelosas da fé ficaram indignadas com a representação do demônio no desfile de carnaval no Rio de Janeiro, porém não conseguem indignar-se pela fome presente em seu dia a dia. Isso se chama hipocrisia e não fé.
Acaba de ser publicada uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre “As múltiplas Dimensões da Pobreza na Infância e na Adolescência no Brasil”. O quadro social é estarrecedor. São 32 milhões de meninos e meninas no Brasil, ou seja, 63% do total de crianças e adolescentes submetidas a uma situação de pobreza que compreende diversas dimensões como renda, alimentação, educação, trabalho infantil, moradia, água, saneamento e informação. São pessoas que possuem no máximo 17 anos de vida. Que futuro terão?
Quem são as crianças e adolescentes mais atingidos, que sofrem maiores impactos? São aqueles que estão em situação mais vulnerável como negros e indígenas e moradores das regiões norte e nordeste. Nessas regiões os índices chegam a 72,5% como pobreza multidimensional.
Estamos diante de uma nova abordagem da pobreza que inclui a fome. Há interação entre privações e exclusões e isso mostra os grandes desafios estruturais como as desigualdades regionais, raciais e de gênero que impactam profundamente a sociedade brasileira. Dois fatores levaram ao maior agravamento dessa situação: a pandemia e ausência de políticas públicas relativas à geração de renda, à alimentação e à educação nos últimos anos.
Com essa situação tão grave recaindo sobre nossas crianças e adolescentes, que perspectiva de futuro elas terão? Que país será o Brasil daqui a alguns anos com o crescimento das desigualdades sociais revestidas de desigualdades regionais, de raças e de gênero?
Ouvimos alguns católicos em todas as quaresmas pedindo o direito a jejuar e fazer penitências conforme se fazia antigamente. Até pedem à Igreja que lhes devolva a quaresma, pois segundo eles, foi tomada por temas não pertinentes a sua espiritualidade. A essas pessoas podemos trazer o texto bíblico de Isaias 58. Que jejum é agradável a Deus?
O texto sagrado vai relacionando outras formas de jejum que agradam mais a Deus. É preciso que se soltem as ligaduras da impiedade, desfaçam as ataduras do jugo, deixem livres os oprimidos, que repartam o pão com o faminto, que recolham em casa os pobres abandonados, que cubram os homens nus. Deus deseja que cada cristão abra a sua alma ao faminto, que sacie a alma aflita. Na fome e na pobreza de nada adiantarão tantos jejuns. O ato de jejuar na quaresma deveria representar uma luz nas trevas da iniquidade.
O mundo queima em maldades e de suas brasas incandescentes nada para cozinhar e alimentar, apenas a morte. Crianças com fome, crianças morrendo, futuro destruído. Sobram as cinzas e a fuligem, resultados da ganância e concentração. A quaresma começou com a quarta-feira de cinzas; outras cinzas que representam a conversão, a humildade em reconhecer os próprios pecados. O jejum sem a prática da justiça pouco vale aos olhos de Deus. Evangelização desvinculada da prática da justiça, da ação saciadora da fome, é incompatível com o Evangelho de Jesus Cristo. “Não se evangeliza de barriga vazia”!
Na oração do Angelus do dia 12 de fevereiro, o Papa Francisco desabafava dizendo que “as notícias que chegam da Nicarágua me magoaram muito
Foto: Vaticano News
Na oração do Angelus do dia 12 de fevereiro, o Papa Francisco desabafava dizendo que “as notícias que chegam da Nicarágua me magoaram muito e não posso deixar de lembrar com preocupação o Bispo de Matagalpa, José Álvarez Lagos, que amo muito, condenado a 26 anos de prisão. Também dois sacerdotes, Manuel Garcia e José Urbina, estão presos. Há cinco padres, um diácono e dois seminaristas condenados a dez anos de prisão e expulsos imediatamente do país com perda dos direitos de cidadania por toda a vida; também lideranças leigas que foram deportadas para os Estados Unidos. O que está acontecendo na Nicarágua?
O cardeal Jean-Claude Hollerich, que é o secretário do Sínodo dos Bispos, disse que se trata de uma “perseguição do Estado”. O Secretário Geral da ONU, Antônio Guterres exigiu a imediata libertação de todas as pessoas detidas “arbitrariamente”, respeito aos direitos de “todos os cidadãos” e, principalmente, o direito de reunião, da liberdade de associação e religião.
A ditadura de Daniel Ortega chega a um ponto que está gerando muito medo entre os padres católicos do país, pois os seus defensores querem uma Igreja silenciosa, alinhada ao poder. Os próprios padres temem falar para não prejudicar os bispos de suas dioceses. A ditadura de Ortega ataca a liberdade religiosa. Ortega confessa que “nunca teve respeito pelos bispos”. Acusa a Igreja de ter acobertado a ditadura de Somoza e de tê-lo enterrado com as honras de príncipe da Igreja.
Ao mesmo tempo, vemos nesse país a deterioração da vida democrática, pois a Ditadura de Ortega já se prolonga pelo quinto mandato, e quarto consecutivo, tendo sua esposa como vice-presidente. As reações a esse governo vêm de todos os lados do mundo, e a Corte de Direitos Humanos (IDH) tem declarado repetidamente que a Nicarágua “desrespeita permanentemente os Direitos Humanos”. Os opositores ao regime em números elevados enchem as prisões. Em abril de 2018, a Comissão interamericana de Direitos Humanos denunciava a morte de 25 pessoas, com dezenas de feridos, violência contra jornalistas e um plano de censura fechando canais de televisão que fazia cobertura dos protestos populares.
Ao mesmo tempo há forte “repressão migratória”, violenta, desde 2018, proibindo nicaraguenses de saírem do país, muitos com passaportes apreendidos no próprio aeroporto do país. Trabalhadores do Estado, inclusive professores de universidades públicas, devem solicitar permissão para deixar o país explicando as razões pelas quais vão sair, para onde irão e por quanto tempo pretendem ficar por lá. Sem autorização, ninguém sai.
Até agosto do ano passado, o governo nicaraguense havia fechado sete estações de rádio da Igreja Católica, e perseguindo o Bispo José Rolando Álvarez, agora condenado e preso, acusado de incitar atos violentos. A estratégia de Daniel Ortega é silenciar os críticos de seu governo. Assim ocorreu em 2018, ao invadir a sede do jornal Confidencial dirigido pelo jornalista Carlos Fernando Chamorro. Em 2021, as autoridades do governo prenderam sete potenciais candidatos presidenciais para as eleições de novembro daquele ano, vencida por Daniel Ortega.
Os protestos contra o atual governo cresceram a partir da reforma da previdência social de 2018 liderados por empresários, lideranças católicas e outros setores. De imediato, o governo agiu reprimindo com as forças de segurança e milícias civis aliadas. Nesses protestos foram mortas 355 pessoas, mais de duas mil ficaram feridas e 1600 foram presas.
É interessante vermos um pouco o caminho que a Igreja católica da Nicarágua tem assumido ao longo das últimas décadas. De 1930 a 1970 esteve ao lado da ditadura dos Somozas. Em decorrência dos abusos realizados por essa ditadura, passou a apoiar o movimento sandinista. E já sob o governo de Daniel Ortega, a Igreja católica através de seus líderes, deu apoio à elite conservadora do país. No momento em que eclodiram os protestos, Ortega pediu que a Igreja fosse a mediadora das negociações de paz; foram um grande fracasso. Aos poucos, a Igreja foi tomando consciência da gravidade do caminho conduzido pelo atual presidente.
Com o passar dos tempos, a Igreja nicaraguense foi se aproximando das manifestações sociais e apoiando suas causas. A catedral de Manágua serviu em 2018 como abrigo para abrigo dos estudantes, local de coleta de alimentos e dinheiro para apoio em suas manifestações e lutas. O cardeal Leopoldo Brenes e o bispo-auxiliar de Manágua, Sílvio Báez, foram duros ao rejeitar a violência em todas as suas formas, considerando as manifestações plenamente justificadas.
Em 2019, a pedido do Vaticano, o Bispo Sílvio Báez deixou o país; fato esse festejado pelos sandinistas e lamentado pela oposição ao regime. Daniel Ortega chamou os bispos de “terroristas”. Até mesmo o núncio apostólico de Manágua, Dom Waldemar Stanislau Sommertag que atuava na libertação dos opositores ao governo que estavam presos foi forçado pelo governo Ortega a deixar o país. O Vaticano chamou esse fato de “decisão injustificada”.
A prisão e condenação do Bispo José Alvarez é justificada pelo governo como o responsável por “organizar grupos violentos”. Na verdade, Dom Álvarez tem lutado para que haja uma reforma eleitoral que leve o país a “alcançar efetivamente a democratização”. Além disse, exige a libertação de 190 pessoas consideradas presos políticos. A luta pela democracia é o motivo ou causa principal do empenho da Igreja da Nicarágua nesse momento.
Desde 2018 a situação vai piorando a cada dia. Não apenas há perseguições a autoridades eclesiásticas, como templos sendo invadidos e profanados, grupo de apoiadores do presidente invadem templos durante as celebrações para agredir as pessoas, os bispos e o próprio núncio apostólico. Há padres e bispos que foram feridos nesses ataques.
O coletivo que está organizando as manifestações contra a política de Daniel Ortega assim se define: “Somos formados por um grupo de organizações e cidadãos diversos e heterogêneos, entre eles estudantes, integrantes do setor empresarial, movimento campesino, ativistas dos direitos humanos e cidadão de região autônoma […] A aliança que dá voz as demandas de milhares de nicaraguenses que clamam por justiça e democracia com objetivo de revisar o sistema político desde a raiz para lograr uma autêntica democracia”.
O caminho histórico da Igreja, muitas vezes em decorrência de seu lado humano, tropeçou em erros de alianças e apoios que custaram muito caro à própria Igreja. Na Nicarágua não é diferente. Houve e há setores que apoiam o atual governo e, muitas vezes, torna-se difícil o discernimento para o caminhar dos cristãos. O cardeal Pietro Parolin nos diz que “para responder ao mal-estar dos populismos é necessária a boa política”. A Igreja não pode abster-se de assumir uma posição profética que é também uma posição política. O grito dos profetas sempre foi contra as estruturas que massacravam o povo, que impunham o jugo da injustiça.
Na Carta Encíclica Fratelli Tutti o Papa Francisco defende “uma conversão à boa política” que é constituída pela “escuta, diálogo, consenso, convivência e cuidado com o bem comum”. Em razão desses princípios, o Pontífice evita tecer grandes comentários sobre a situação atual, esperando que a diplomacia seja suficiente para a garantia da paz. Ele nos diz que sempre acredita na força do diálogo aberto e sincero para encontrar as bases de uma convivência respeitosa e pacífica.
Para a Igreja nicaraguense trata-se de uma situação opressiva por parte do governo de Ortega, onde as razões do direito que deveriam guiar as ações políticas são sistematicamente contornadas. O Bispo Alvarez confessa que na Nicarágua há uma Igreja coesa e solidária, nem desamparada nem inerte, nem esmagada pela situação de perseguição. Sente a presença da Santa Sé e de modo especial do Papa Francisco bem pertinho com posturas adequadas às circunstâncias do momento.
Quatro países da América Latina – Cuba, Colômbia, Venezuela e Nicarágua – estão entre os cinquenta países que mais perseguem cristãos no mundo todo. A corrupção e a ineficácia dos governos vão deteriorando as condições concretas de vida desses países. Dessa realidade surgem grupos criminosos e lideres étnicos, formando redes criminosas e dominando amplos territórios. O quadro é muito preocupante.
Por fim, a tomada de posição mais firme da Igreja frente à realidade optando preferencialmente pelas populações empobrecidas, acaba levando à morte muitas lideranças religiosas e leigas formando uma constelação de mártires brilhando sobre a terra. Também morrem milhares de pessoas assassinadas em decorrência da repressão. Desse momento duro vivido pela Igreja da Nicarágua deve crescer uma memória martirial que fortalece e reforça a identidade e coesão do povo de Deus, animando-o nas crises, e a Igreja Latina assim torna-se herdeira da Igreja cristã primitiva, perseguida e firme até a morte. A memória desses mártires deverá sempre nos chamar a atenção para as causas que eles empenharam na vida e defenderam.
Tem aumentado no Brasil, especialmente nos últimos quatro anos, as agressões contra padres, bispos e o Papa Francisco. No dia 12 de outubro do
Tem aumentado no Brasil, especialmente nos últimos quatro anos, as agressões contra padres, bispos e o Papa Francisco. No dia 12 de outubro do ano passado a cena deprimente ocorreu em plena Basílica de Nossa Senhora Aparecida quando um padre disse aos fiéis que eles estavam de parabéns por terem vindo receber as bênçãos de Nossa Senhora e não para pedir votos. E logo foi interrompido com vaias e palavras de ordem.
Nesse mesmo dia, Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida, foi vaiado pelo grupo bolsonarista ao dizer que era preciso “vencer muitos dragões, de modo especial o dragão do ódio que faz tanto mal, o dragão da mentira que não é de Deus, mas do maligno, o dragão do desemprego, o dragão da fome, o dragão da incredulidade”. Nem mesmo os funcionários da TV Aparecida escaparam das agressões.
No ano passado, o Padre Zezinho que é muito conhecido no mundo católico e não católico por suas lindas canções desabafou: “Depois das ofensas de hoje contra o Papa, contra os bispos, contra mim, com calúnias e palavras de baixo calão, estou fechando esta página […] Continuam a dizer que sou mau padre, que sou comunista e que sou traidor de Cristo e da Pátria porque ensino doutrina social cristã”.
Dom Odilo Scherer, cardeal e arcebispo de São Paulo, foi chamado de “comunista” por usar roupas vermelhas, que é norma da Igreja para cardeais como ele. Assim manifesta sua preocupação: “Tempos estranhos esses nossos! Conheço bastante a história. Às vezes, parece-me reviver os tempos da ascensão ao poder dos regimes totalitários, especialmente o fascismo. É preciso ter muita calma e discernimento nesta hora”.
Entre nós, o Padre Moacir Pinto da Diocese de São Mateus e professor de Teologia Moral no Instituto Interdiocesano do Espírito Santo foi agredido recentemente durante uma homilia em sua paróquia, seguindo a liturgia do domingo cujo texto bíblico se referia a Cristo sendo perseguido pelas autoridades “por ter abraçado os mais sofridos”. Ao aplicar na vida concreta essa Palavra de Deus o Padre Moacir disse que a Igreja se opõe à violência cometida pelos garimpeiros contra os Yanomami em Rorâima. Foi logo interrompido de modo agressivo por um homem que se diz historiador chamando o padre Moacir de “desgraçado” e dizendo que os indígenas eram “venezuelanos infiltrados”.
A Diocese de São Mateus, historicamente, tem sido uma voz profética conduzida por seus bispos e seguida por seus ministros ordenados. Logo depois do ocorrido, em nota, o Bispo Dom Paulo Bosi Dal’bó repudiou “as declarações de ofensas e de humilhação pública sofridas pelo Padre Moacir Pinto […] ressaltando que toda a ação profética da Igreja em defesa da Vida é fundamentada nas Sagradas Escrituras, na Doutrina Social da Igreja e no testemunho de tantos homens e mulheres de fé que doaram seu sangue para defender outras vidas”. E onde a vida estiver sendo ameaçada, todo cristão tem o dever de defendê-la como compromisso de sua fé.
A relação de ofensas sofridas por ministros ordenados é cada dia maior e isso é preocupante e muito perigoso. O risco de nos dividirmos enquanto Igreja é enorme e em tempos de redes sociais e fake News esse risco aumenta enormemente. Estamos presenciando aumentar o número de padres que celebram com medo, estão adoecendo em seu ministério. Trata-se de um grande desafio para cuidar da saúde mental dos nossos sacerdotes e bispos. A palavra não pode ser calada ou aprisionada.
O ministro ordenado, como é o caso dos presbíteros e bispos, não é um simples funcionário ou executor de organogramas eclesiásticos. Ele é um homem livre para testemunhar e realizar seu ministério sacerdotal e sua missão pastoral em conformidade com as exigências espirituais mais profundas de sua alma e seu desejo de servir a Cristo. O Profeta Isaías (61, 6) nos diz que eles “serão chamados sacerdotes do Senhor, ministros do nosso Deus”.
Nunca se viu cenas como as atuais, com tantas agressões aos padres e bispos em plenas celebrações eucarísticas. Sempre vivemos o lugar celebrativo como sagrado e digno de respeito. Então, podemos nos perguntar se o surgimento da extrema direita fascista seria a única causa do crescimento dessa intolerância. Pelo que temos observado, a resposta é negativa. No próprio meio eclesiástico encontramos padres e bispos, e até cardeais que estão naufragando em navios que são verdadeiras canoas furadas. Os movimentos que pregam práticas pré-conciliares, negando o próprio Concílio Vaticano II, são responsáveis também por esse clima de insegurança, de constrangimento e ausência de paz.
Infelizmente dentro do meio eclesiástico encontramos sacerdotes e bispos que se afastam das orientações da Igreja conduzida pelo Papa Francisco e isso nos faz lembrar o texto de Jeremias (23) relatando a existência de profetas e sacerdotes contaminados, que percorrem lugares escorregadios, que profetizam da parte de Baal e levam ao erro o povo de Israel. Na Samaria, nos diz o texto bíblico, havia muita loucura. Em Jerusalém, muitas coisas horrendas, com profetas cometendo adultérios, caminhando na falsidade, fortalecendo as mãos dos malfeitores, dando a impressão de viverem em Sodoma e Gomorra.
O texto de Jeremias é muito forte ao mencionar os profetas que desviam o povo do caminho santo: “Eis que lhes darei a comer losna e lhes farei beber água de fel; porque dos profetas de Jerusalém saiu a contaminação sobre toda a terra”. E diz ao povo: “Não deis ouvidos às palavras dos profetas, que entre vós profetizam; fazem-vos desvanecer; falam da visão do seu coração, não da boca do Senhor”.
O Papa Francisco em seu retorno da viagem ao Congo e Sudão do Sul disse aos jornalistas que estamos vivendo tempos difíceis, onde “a morte do Papa Emérito Bento XVI foi instrumentalizada por algumas pessoas no sentido de trazer a água para o próprio moinho. Essas pessoas não têm ética. São pessoas de um partido, não da Igreja.
Posturas como a do padre Moacir Pinto nos revelam a necessidade fundamental para os tempos atuais de padres incomodados. Padres acomodados, “normalizados”, “elegantes”, “funcionais ao sistema”, que fazem homilias que servem apenas para agradar os ouvidos particulares sem incomodar as consciências de cada participante, pouco servem ao Evangelho. A Igreja nasceu como caminho envolto no sangue dos mártires, iniciando pelos Apóstolos.
As perseguições atuais podem continuar, porém a Igreja e seus ministros ordenados não podem abrir mão da luta “por dar comida aos pobres” como estão sendo convocados os cristãos nessa Campanha da Fraternidade, e nem lutar contra o “discurso de ódio”. Isso não é comunismo, mas Evangelho. Os Bispos do Brasil, através da CNBB, empenham sua força “para defender vidas ameaçadas como as dos Yaonomami, direitos desrespeitados e para apoiar a restauração da justiça, fazendo valer a verdade. A sociedade democrática brasileira está atravessando um dos períodos mais desafiadores da sua história. A gravidade deste momento exige de todos coragem, sensatez e pronta correção de rumos”.
Por fim, cabe a cada cristão especialmente católico ações de solidariedade e apoio aos ministros ordenados que lutam contra a contaminação do povo, contra o desvio da caminhada evangélica. Do ponto de vista civil, talvez seja necessário constituir uma força com determinadas competências, especialmente jurídica, para aplainar o caminho do direito e da liberdade. Em determinados casos, quando o bom senso não é capaz de solucionar conflitos, o recurso à Lei torna-se o melhor caminho para o restabelecimento da concórdia e da paz. Penso que a maioria das agressões sofridas pelos ministros ordenados esteja na ordem na infração ao Direito. Portanto, caberia às autoridades eclesiásticas pensar no ajuizamento de ações em processos na esfera civil. Internamente, a Igreja também dispõe de seu aparato jurídico constituído como Direito Canônico, que pode ser também utilizado. Não é bom que as comunidades eclesiais abandonem ou deixem sem apoio seus ministros ordenados.
A unidade da Igreja Católica corre risco e por esse motivo todo cuidado é pouco nesse momento desafiador. A comunhão eclesial requer seguir a voz dos pastores conduzidos pelo Papa Francisco. Qualquer injúria, desrespeito ou agressão àqueles que conduzem o povo no caminho do bem deve ser motivo de repulsa da parte de cada fiel. O espaço celebrativo não é assembleia de condomínio ou campo de futebol com torcidas aguerridas.
O Papa Francisco realiza nessa semana a 40ª viagem apostólica rumo a dois países africanos – República Democrática do Congo e Sudão do Sul.
O Papa Francisco realiza nessa semana a 40ª viagem apostólica rumo a dois países africanos – República Democrática do Congo e Sudão do Sul. Ao chegar em Kinshasa, capital do Congo, o Pontífice foi logo dizendo que estava trazendo “solidariedade, afeto e consolação de toda a Igreja”.
Esse anúncio se contrasta com as chegadas das potências europeias no século XIX na conquista do continente africano num movimento denominado de neocolonialismo. Semelhante ao que fora feito no século XVI no continente americano. Era preciso alimentar a indústria nascente com matérias primas, especialmente petróleo e minerais, e incrementar o mercado consumidores dos produtos industrializados.
Multidão saúda o Papa nas ruas de Kinshasa (AFP or licensors)
Com o término da II Guerra Mundial, os países africanos passam a lutar para conquistar a liberdade, sua independência. Contudo, as divisas impostas pelas potências colonizadoras não respeitavam as divisões tradicionais de fronteiras entre os diversos povos. A libertação das potências europeias não significou a restauração da paz. Pelo contrário, internamente o continente africano vive envolto em guerrilhas, ou conflitos intermináveis entre as diversas tribos. Trata-se da herança maldita deixada pelos colonizadores.
O Papa Francisco é conhecedor dessa história macabra e propõe-se a realizar pontes que levem os povos africanos à paz. A República Democrática do Congo é o segundo maior país africano, o quarto em população, um dos mais ricos do mundo em recursos minerais motivo da conquista europeia e um dos mais pobres do mundo. Em termos de biodiversificação é o segundo país do mundo, ficando atrás apenas do Brasil. Sua independência da Bélgica não significou o fim das grandes disparidades entre riqueza e pobreza; parece que foram agravadas.
Em relação ao segundo país objeto dessa visita do Papa Francisco, o Sudão do Sul, que se tornou independente em 2011, pode-se dizer que ainda mais fortes são as consequências do processo colonizador europeu. Estamos diante de um dos países mais pobres do mundo, mesmo possuindo 75% das reservas de petróleo do antigo Sudão. Vive permanentemente em conflitos internos entre as várias tribos.
Ao deixar sua residência na Casa Santa Marta para ir ao aeroporto um cenário forte de migrantes e refugiados provenientes do Congo e do Sudão do Sul, com suas famílias que foram acolhidos pelo Centro Astalli dava uma pequena amostra do que o Papa irá encontrar nesses dois países. No percurso uma pequena parada diante do Monumento aos Caídos de Kindu que lembra os 13 aviadores mortos no Congo em missão de paz em 1961.
Diante dessas realidades massacradas por um “colonialismo econômico” o Papa Francisco em seu primeiro discurso não faz economia de palavras ou expressões e brada duramente: “Chega de sufocar a África”! “Tirem as mãos da África”! Trata-se de um país com grandes recursos naturais como floresta essenciais para energia limpa e muitos minerais como cobalto, cobre, lítio que ainda não foi explorado, coltan, cassiterita, e outros mais.
No Sudão o Papa está junto do arcebispo de Cantuária, Justin Welby da Igreja Anglicana e o moderador da Assembleia Geral da Igreja da Escócia, Reverendo Iain Greenshields da Igreja reformada ligada ao Presbiterianismo. Dessa forma, a viagem também se reveste de um “ecumenismo de testemunho”, que é tão essencial para a construção da paz.
A viagem assume feição de prática de proximidade com as Igrejas e comunidades locais, que são vivas e ativas, ao mesmo tempo que se luta por uma reconciliação interna que tem contribuído muito com o drama de milhões de refugiados, de guerrilha, de tensões étnicas e políticas. Os noticiários dificilmente retratam esse verdadeiro caldeirão bélico de dor e sofrimento.
No avião que levou a comitiva papal estava uma mulher, a única, Irmã Rita Mboshu-kong, missionária e teóloga que atua em projetos de desenvolvimento das mulheres do Congo. Ela descreve assim essa viagem: “Com o Santo Padre estou aprendendo qual é minha missão na Igreja como mulher, como consagrada, como africana”.
Estão acompanhando o Santo Padre 75 jornalistas do mundo todo. E no percurso, ao atravessar o território do deserto do Saara, o Papa solicita a todos que em silêncio “façamos uma oração por todas as pessoas que, procurando um pouco de bem-estar, um pouco de liberdade, tentam atravessar o Saara e não conseguem. Tantos sofredores que chegam ao Mediterrâneo depois de terem atravessado o deserto e são mantidos em campos de concentração e sofrem. Rezemos por todas essas pessoas”.
As feridas nesses dois países são muitas, sangram permanentemente, provocadas pelos interesses das potências mundiais sobre as reservas de petróleo e minerais, pelas guerras com países irmãos (vizinhos) pela posse dessas jazidas minerais, e pelos diversos tipos de ódios étnicos. Tudo isso massacra as pessoas.
O Núncio Apostólico Ettore Balestrero que acompanha o Papa na República Democrática do Congo diz que “há uma grande necessidade de que esse rio de ódio e violência entre num mar maior, como faz o rio Congo. O mar da justiça que deve ser feita, mas também o mar da reconciliação”.
Para a comunidade católica desses dois países, a visita do Papa Francisco representa um estímulo para evitar uma dicotomia entre a fé proclamada e a vida vivida. Essa dissociação entre fé e vida todos nós conhecemos muito bem. Também nós brasileiros nos dividimos pelo ódio e pela intolerância, e quase destruímos um povo, os Yanomami.
A fé vivida exige uma postura diferente diante da injustiça e das práticas de ódio. É preciso no mundo atual fazer curativos para que as feridas sejam cicatrizadas. O mundo precisa da cura concreta, da libertação concreta dos contextos de ódio e intolerância. A ausência de uma luta pela paz no dia a dia das pessoas pode ser o caminho de tantas dores e sofrimentos.
Os dois países africanos estão divididos por guerras fratricidas que afugentam as pessoas. No Congo, milícias militares tentam controlar o país através do Movimento M23. Já o Sudão do Sul atravessa uma grave crise humanitária. De uma população de 12 milhões de pessoas, a metade está em situação grave de fome e carece de assistência alimentar. Ao mesmo tempo, as comunidades são divididas, as pessoas buscam refúgio em lugares distantes e são em torno de quatro milhões; muitos engrossam as fileiras da migração com destino à Europa.
O veneno da ganância decorrente de um colonialismo de dois séculos tornou os diamantes desses dois países ensanguentados. E conclui o Papa Francisco: “Basta com este sufocar a África: não é uma mina para explorar, nem uma terra para saquear. Que a África seja protagonista do seu destino!”. Aqui não posso deixar de lembrar de nossa realidade brasileira vivida pelos Yanomami em que essas mesmas palavras se aplicam de maneira profética. Diz-nos o Papa: “Não podemos nos habituar ao sangue. Não se deixem manipular nem comprar por quem quer manter o país na violência para o explorar e fazer negócios vergonhosos”.
Por fim, seria muito bom se cada católico acompanhasse essas viagens do Papa Francisco. Em cada lugar, novos desafios e muitos deles são semelhantes aos nossos. Daqui torcemos por ele para que suporte as dores e o cansaço da idade e que faça ecoar seus gritos proféticos ao mundo carente de paz.
Por que somente agora parece que o mundo acordou para esta catástrofe que é um verdadeiro genocídio? Esse termo foi cunhado pela primeira vez
Por que somente agora parece que o mundo acordou para esta catástrofe que é um verdadeiro genocídio? Esse termo foi cunhado pela primeira vez em 1944 pelo jurista polonês Raphael Lemki diante do que o nazismo/fascismo estava impondo aos judeus nos campos de concentração. Indicava e indica até hoje um ato de extermínio sistemático de um grupo étnico ou de um aspecto cultural fundamental de um povo. A ONU definiu em 1946 o genocídio como “a recusa do direito à existência de inteiros grupos humanos (…) um delito do direito dos povos, em contraste com o espírito e os objetivos das Nações Unidas, delito que o mundo civil condena”. Em 1948, tipificou esse crime em Convenção aprovada em Assembleia Geral no artigo 2º da mesma, cabendo ao Tribunal de Haia na Holanda julgar tais atos. Portanto o genocídio expõe qualquer nação, qualquer país, que estiver praticando extermínio de maneira sistemática como um crime passível de punição com responsabilidade individual. Ou seja, diante desse fato alguma pessoa deverá ser responsabilizada pelo ato genocida.
Estamos diante de uma história bem longa dos Yanomami que retrocede a 1970 quando os militares empreenderam a construção da Rodovia Perimetral Norte levando um conjunto de doenças e mortes para a região indígena. Sarampo, gripe, malária, caxumba e tuberculose devastaram em algumas regiões de população Yanomami cerca de 80%. Na década de 1980 houve uma grande invasão de garimpeiros nessas terras. Entre 1987 e 1989 foram contabilizadas 2003 balsas de garimpo trafegando pelo Rio Uraricoera. Isso levou à morte 20% da população somente em 1990. Em 1992, com a demarcação das terras indígenas esse movimento foi estancado, porém sempre com tentativas em invasões de garimpeiros e mineradores.
Até fins de 2018, o Exército Brasileiro foi fundamental para a proteção da Terra Indígena que abriga os povos Yanomami e Ye’kwana. Nesse ano, o Exército retirou mais de 1.500 garimpeiros do Rio Uraricoera. Contudo, em 2019 o governo brasileiro retirou as bases de proteção conduzidas pelo Exército, e nesse momento “a boiada passa”, como dizia o Ministro Ricardo Salles do Meio Ambiente. A reserva Yanomami possui 10 milhões de hectares de terra onde moram, conforme cálculos oficiais, 30.400 pessoas. Mas a boiada continuou devastando as terras, poluindo os rios, e matando pessoas.
A situação atual nos mostra um cenário devastador. Somente em Roraima há 17 pistas de pouso clandestino para garimpeiros ilegais, com 347 polígonos de área degradada. Calcula-se entre 6 a 7 mil garimpeiros, contudo a Hutukara Associação Yanomami nos informa que são em torno de 20 mil invasores recolhendo ouro ilegalmente. O governo anterior que foi responsável pela desativação da base do Exército nas Terras Indígenas dos Yanomami dizia que essa reserva não deveria existir, pois tratava-se de uma terra rica em minérios e cobiçada pelo mundo inteiro. “Ninguém vai demarcar terra com subsolo pobre e o tamanho é duas vezes o Estado do Rio de Janeiro”, dizia o ex-presidente em novembro de 2020.
O médico tropicalista André Siqueira do Instituto Nacional de Infectologia da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) atesta que se está diante da “pior situação de saúde e humanitária”. E continua dizendo que o objetivo era fazer um diagnóstico e criar um plano de ação, mas o que se viu foi uma situação muito precária em termos de saúde de pacientes com desnutrição grave, infecções respiratórias, muitos casos de malária e doenças diarreicas. Para piorar o quadro, há uma escassez de equipes de trabalho e de infraestrutura. Há casos de desnutrição extrema em famílias inteiras. E conclui que estamos vendo uma situação “catastrófica” e “desastrosa”.
Os Bispos da CNBB do Regional Norte se dizem “estarrecidos e profundamente indignados, vendo as imagens dos corpos esqueléticos de crianças e adultos do Povo Yanomami no Estado de Roraima, resultado das ações genocidas e ecocidas do Governo Federal anterior, que liberou as terras indígenas já homologadas para o garimpo ilegal e a extração de madeira, que destroem a floresta, contaminam as águas e os rios, geram doenças, fome e morte”. A Irmã aura Vicuña Pereira que atua na Pastoral do CIMI dizia em 2021 que era preciso que a Igreja fizesse ecoar essa voz de morte e dor que nasce das Terras Indígenas do Povo Yanomami.
Para os indígenas esse momento representa o fim do mundo que eles denominam de “A queda do céu”. Em suas crenças xamanistas a terra não é colônia de exploração, mas o lugar em que habitamos. Não é uma propriedade, mas uma partilha, um presente que foi dado a todos e para o usufruto de todo. Essa é a visão xamânica de mundo. Então, da floresta vem um recado e o pensamento pleno de lucidez. São os gritos fortes, pois estamos diante da Queda do céu.
O homem branco é o povo da mercadoria, que explora desenfreadamente a natureza e ao destruir biossistemas acaba destruindo também as hastes que sustentam o céu. A queda do céu é a morte de todos. A paixão do homem branco pela mercadoria, acumulando riqueza, incapaz de compartilhar, se contrapõe à visão Yanomami do mundo. Quando o homem branco arranca o ouro debaixo da terra, arranca minerais, ele vai construindo objetos que não morrem. O apego dos homens brancos aos objetos os conduz ao adoecimento, envelhecendo e morrendo. É preciso libertar-se dos objetos, evitando a avareza, por isso se deve deixar o ouro e os minerais escondidos na terra.
Afastando-se da avareza, os Yanomami vão fortalecendo a partilha coletiva no contexto de uma economia de troca. Qualquer objeto da comunidade é partilhado fortalecendo a amizade que vai além do próprio grupo. Por isso são diferentes dos brancos que maltratam uns aos outros sem parar por causa de suas mercadorias. Um dos princípios pastorais da Igreja católica na região é que “a Boa Nova das culturas indígenas acolhe a Boa Nova de Jesus”. Não há incompatibilidade entre elas.
O grito que ecoa não é apenas de dor, de fome e de morte. É também um grito de esperança, um grito de resistência. São gritos de povos que defendem projetos de vida no sentido do bem viver. Os projetos dos homens brancos são projetos de morte. Como não lembrar do encontro do Papa com os jovens em Assis para discutir a economia?
Em 20 de junho do ano passado, o Papa Francisco conversou com os bispos da Amazônia, quando recebeu um cocar. E disse aos Bispos: “Escutem os povos indígenas, escutem as comunidades de base, o Espírito Santo age através dessas pessoas, dos pobres da Igreja, e vocês estão na fronteira, vocês estão com os mais pobres, vocês estão onde eu gostaria de estar”. E concluiu de maneira bem radical, alertando que a Igreja não pode nunca se calar: “Arrisca, meu irmão, se você não arriscar, já está errando”.
Dom Mário Antônio da Silva que esteve à frente da Diocese de Roraima desde 2016 e hoje é arcebispo de Cuiabá e 2º Vice-Presidente da CNBB, denunciava que “nos últimos três anos, o dragão devorador da mineração tomou força novamente e avança com toda ferocidade e poder das organizações criminosas sobre a Terra Yanomami”, praticando crimes, ataques e mortes, sendo “uma vergonha para nosso país e fazem o nosso coração sentir o sofrimento e a morte que os Yanomami e a natureza estão vivendo”. Sem meias-palavras denunciava “a omissão e a responsabilidade do Governo Federal, que ao invés de cumprir seu papel constitucional na defesa dos povos indígenas e de suas terras, patrimônio da União, incentiva as invasões e coloca na pauta do Congresso Nacional o projeto de lei, que legaliza a mineração em terras indígenas”.
A Igreja da Amazônia, especialmente a de Roraima onde estão os Yanomami, está conclamando a todos, juntos na defesa e na garantia da vida e do território desse povo. E isso não se faz apenas com indignação pelas redes sociais. É preciso urgentemente impedir que o projeto de lei que está no Congresso Nacional seja rechaçado pelos parlamentares. E, de modo emergencial, nos unirmos para salvar o povo e a terra que ainda restam.
Como Igreja, cada pessoa é corresponsável pelo que está acontecendo na Amazônia. Não basta a indignação diante das imagens chocantes que circulam pela internet. É preciso reconhecer que tantos católicos deram apoio a esse projeto genocida através do silêncio e do voto. Ainda é tempo para reconhecer a própria culpa. Como nos diz o administrador apostólico de Roraima, Monsenhor Lúcio Nicoletto, “é preciso de uma palavra profética para anunciar a esperança do Evangelho da Vida, mas também denunciar tudo aquilo que pisoteia os direitos fundamentais das populações indígenas e do cuidado com a casa comum”.
A Exortação Apostólica “Querida Amazônia” nos convoca para realizar um sonho que integre e promova todos os habitantes dessa terra, para poderem consolidar o bem viver. Mas impõe-se cada vez mais a necessidade de um grito profético e um árduo empenho em prol dos mais pobres, e esse desastre ecológico requer sempre uma abordagem social que integre a justiça nos debates sobre o meio ambiente, de modo a ouvir tanto o clamor da terra com o clamor dos mais pobres.
Estamos em tempo de férias que, além de servir para o descanso do trabalho ao longo de um ano, permite a realização de viagens
Estamos em tempo de férias que, além de servir para o descanso do trabalho ao longo de um ano, permite a realização de viagens tão sonhadas. Num país com população marcadamente religiosa, um dos caminhos que tem crescido muito ao longo dos anos é aquele que se destina a lugares religiosos. É preciso também registrar que o “efeito Francisco” fez triplicar o número de pessoas na Praça de São Pedro em Roma. Portanto, não apenas os lugares sagrados são buscados, mas também o encontro em celebrações festivas com determinados líderes religiosos como é o caso do Papa Francisco. No Brasil, três festas marianas (Círio de Nazaré, Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora da Penha) são momentos que atraem milhares de peregrinos.
Estamos diante de um inesperado revival das formas tradicionais de turismo, cada vez mais devotos percorrendo a pé os itinerários e destinos de culto. Na Santa Sé tem crescido muito o número de participantes nas audiências e nas celebrações religiosas, com peregrinos de todas as partes do mundo. Calculam-se que entre 300 e 330 milhões de pessoas por ano realizam essas viagens movimentando em torno de 18 bilhões de dólares. Daí, percebe-se que se trata de um grande movimento de pessoas e dinheiro.
Estamos diante das maiores manifestações culturais da história humana que se situa na esfera do domínio religioso. Todas elas guardam os passos percorridos testemunhados por templos, catedrais, espaços sagrados e imagens. De uma dimensão pequena da expressão religiosa chega-se ao ponto culminante com milhares de visitantes. As grandes religiões foram deixando rastros culturais ao longo da história nos mais distantes lugares. Assim, podemos ficar maravilhados com as catedrais medievais da Europa, mas como não se tocar com os templos budistas, hinduístas, as mesquitas islâmicas, o muro das lamentações dos judeus em Jerusalém? Em razão da amplitude dessa temática, vamos permanecer no contexto cristão, especialmente católico, em nossa abordagem.
A CNBB já estruturou uma pastoral específica para o mundo do turismo e nele pode ser incluído o turismo religioso, tendo por objetivo ajudar as pessoas a descobrir a presença de Deus nas belezas da criação e nas manifestações culturais e religiosas. Apresenta esse movimento que tem crescido muito no mundo católico como um caminho para o intercâmbio de experiências e a consequente inserção da comunidade de origem, em vista de uma sociedade justa e solidária.
O turismo religioso envolve não apenas longas viagens entre continentes, mas todo o conjunto de peregrinações e suas experiências de fé, as romarias, as viagens para cumprimento de promessas feitas no contexto das devoções populares, as visitas a lugares sagrados e templos.
A partir de onde nasce esse movimento das pessoas em termos turísticos? Não podemos cair na visão simplista de reduzir tudo a uma questão de mercado. Sabemos que esse mercado movimento fortunas ao redor do mundo, mas com isso não nos isentamos de analisar melhor a questão. Em todas as religiões há dois componentes essenciais: o lugar sagrado onde se celebra, se reúne a comunidade dos fiéis e o tempo sagrado que compõe os momentos de cultos, orações e festas. O secularismo tem feito um movimento de anular esses dois pilares da experiência religiosa das pessoas na medida em que anula o caráter de sacralidade do lugar e do tempo.
Desta forma, na experiência de fé ou religiosa das pessoas sempre haverá um desejo de ir a algum lugar sagrado ou de participar de um tempo sagrado sob a forma de festa ou celebração. É bom registrar que esse caminho é bem ecumênico. Qualquer pessoa poderia, por exemplo, visitar a imagem de Buda em Ibiraçu sem ser budista, ou ir ao Convento da Penha sem ser católico. O turismo religioso tem essa característica que é muito positiva, pois permite a convivência entre diferentes crenças e culturas. Esse peregrinar não apenas alimenta e fortalece a fé das pessoas, mas também promove um tempo de reflexão e de autoconhecimento.
Sem entrar na questão mercadológica que envolve esses lugares, podemos dizer que todo lugar sagrado que aglutina o movimento de pessoas tem um papel muito importante no fortalecimento da memória religiosa, antes de tudo. Sem memória, a religião enfraquece. Portanto, ao manter e fortalecer a memória de seus fiéis esses lugares servem para reunir e fortalecer a união de seus membros. Isso é válido em todas as religiões. Vejam por exemplo o caso da cidade de Varanasi (lugar mais sagrado do Hinduísmo) na Índia que recebe em torno de 750 milhões de pessoas por ano, ou Meca que é o lugar que todo muçulmano deve ir pelo menos uma vez na vida. Aparentemente parece ser uma obrigação do fiel, um peso a ser cumprido. Contudo, na experiência religiosa mais profunda, as pessoas não consideram como peso ou obrigação, mas como “prazer” de uma coisa que se assemelha a uma espécie de desejo. Há na constituição do ser humano um desejo de estar no lugar sagrado ou vivenciar um tempo sagrado, independentemente da religião que se pratica.
Ainda mais recente entre nós tem crescido o “turismo de experiência” como os “Passos de Anchieta” aqui no Espírito Santo, o “Caminho religioso da Estrada Real” que abrange 38 municípios de Minas Gerais e São Paulo, a “Rota da Fé Campo Mourão” no Paraná, o “Caminho dos Santos Mártires do Brasil” inspirado no “Caminho de Santiago de Compostela” (Espanha) que percorre 140 quilômetros no nordeste brasileiro e o “Caminho das Missões” no sul do Brasil. O turismo de experiência foge do lugar comum da visita passageira aos lugares religiosos e culturais e leva o peregrino a um processo de imersão sob a forma de vivência mais intensa na cultura da população em questão.
Muitas vezes, ao turista religioso falta-lhe essa vivência mais profunda dos lugares percorridos. O peregrino que faz esses percursos turísticos não apenas fortalece sua memória de algo marcante em sua vida, mas também esse caminho lhe ajuda a desenvolver ainda mais o respeito pela diversidade cultural, ética e religiosa. Com mais tempo para imergir na realidade local, essa experiência tem contribuído muito não apenas no fortalecimento da fé e seu engajamento na Igreja, mas alimentando o homem atual em seu desejo de um maior encontro consigo mesmo e com o ambiente em seu conjunto. A viagem acaba se tornando um tempo de recolhimento, de retiro, de encontros espirituais.
Uma questão crítica parece-nos necessária e que deveria ser colocada: é fundamental que as autoridades religiosas que cuidam desses lugares de turismo religioso zelem para que não haja uma exploração absurda da fé dos fiéis em termos econômicos. Quando a religião se torna negócio ela vai perdendo o elo que alimenta a fé. Assim como quando a religião se torna política a fé vai minguando.
Uma questão mais local também merece ser refletida. O Espírito Santo tem se destacado como lugar de turismo religioso e de experiência. Nesses tempos de férias o Estado fica cheio de pessoas, não apenas nas praias. Não se pode reduzir o nosso turismo à praia. Há inúmeros lugares religiosos, culturais, históricos. O que temos percebido ainda muito forte é que as pessoas que aqui chegam não conseguem visitar uma igreja a não ser na hora do culto ou celebração. A esfera pública deveria em nosso entendimento alinhar-se num planejamento turístico para receber e acolher melhor as pessoas, não apenas cuidar da rede hoteleira e infraestrutura. O turismo religioso é fonte de recursos para o Estado.
Uma última questão eu gostaria de registrar como preocupação pastoral. Na Europa, as grandes catedrais e igrejas históricas ficam muito cheias de turistas, mas quase sempre vazias como espaços celebrativos da fé. Aqui entre nós caberia perguntar até quando essa força religiosa na cultura brasileira permanecerá? Os analistas das Ciências da Religião apresentam não apenas um quadro meio cético em relação a isso, mas até advertem para o crescimento principalmente no ocidente de uma sociedade a-religiosa, ateia, secularizada.
Os lugares sagrados das diversas religiões poderão permanecer como objeto da cultura; contudo, pouco ou nada irá contribuir na alimentação da memória de fé das pessoas. Não lhes diz respeito. Apenas será um bem cultural tombado pelo patrimônio histórico. Na Europa, as pessoas transitam pelos seus espaços apenas para uma contemplação estética. Não diz mais respeito a fé dessas pessoas. Daí o alerta do Papa Francisco para que não se faça da experiência de fé apenas um transitar turístico pelos lugares sagrados. Este parece ser o grande desafio do turismo religioso no sentido de ir além do encantamento estético nessas viagens.